Em associação com Casa Pyndahýba Editora
Ano IV Número 38 - Fevereiro 2012

Poesia - Pedro Du Bois


Judith Foosaner - State of Siege, 2011
collage with acrylic on canvas

Estado de Sítio

Fiel ao princípio da autonomia
entre poderes evite a intromissão
entre as partes. Sabe
e conhece o espectro turvo
     das cores da bandeira.

O ódio intrometido entre as partes
avança e destrói o desconhecido.
Não retorna sobre escombros
e se esconde em salas
refrigeradas: poder exercido
sobre a contingência dos amores.

Alvo de paixões destroça corpos
submetidos em tensão: o suplício
descompensa a similitude do ato.

Onde repousam sonhos acorda
em batidas milimétricas. Tacões
ressoam pisos de concreto. É
o que lhe permitem conhecer.

Explodem fogos artificializados
no espaço descontinuado da espera.
Desperta e acompanha a luta
desarmada das histórias
melancólicas: herói na situação
anacrônica do enredo. Ao vilão
cabe o luxo iluminado
dos palcos de vergonhas.

Arremesso e arremate. Diálogo
continuado entre surdos. Espíritos
em testes de segunda classe.
Bestiário revivido ao dia
entre sinais e estacionamentos.

Não revê nas ruas o soldado
de outrora. Não reconhece o uniforme
e a uniformidade em trajes
desconexos prova o inimigo.

Amizades
     negócios
          traições
               e adultérios.
A potencialidade da imagem transmuda
o ser em escolhas. A destruição das pontes
permanece receptáculo da ousadia.

Atravessar o fosso e se descobrir em fósseis
aumentados. Atravancar a saída e se cobrir
em entradas. O final do túnel
em notícias repetitivas.

A bebida descontrai o ânimo
com que a vida demonstra virtudes.
A virtuosidade da morte engalana
o recém chegado. O estrangeiro
transformado em nativo se acomoda
em estrangeirismos.

Reflete sonhos. Repete sonos. Realiza
a introdução ao processo e se perde
em meandros liberalizantes. A competição
revigora a mente na escolha da testemunha
do açodamento. diretores vicejam almas
de apenados funcionários em desconforto.

O clube recebe seus sócios e os distribui
em salões de acordo com suas situações
               político-sociais.

No portão a segurança se enreda
em assaltos: o assassino sorri perplexidades
na facilidade com que perpetra o crime.

Sirenes ecoam medos. O alarme desarma
a visão silenciosa da conquista. Não distante
a ordem esconde contraditoriedade: para
os efeitos da lei a escolha se faz agora.

Manifestos distribuem raivas enjauladas
em quatro paredes. A palavra de ordem
desordena o status do melodrama.

Na similitude a coragem reencontra
sua visão feminina. A visão masculina
desencontrada em si murmura
juras de amor em eternizadas
amizades
     saudades
     e lembranças juvenis.

Jamais - na afirmação contraditória -
são reformados os presídios: punidos
na justaposição da indigência vislumbram
a luz penetrar janelas encadeadas.

Estar livre e gozar as prerrogativas
da indecisão. Procurar em vão
a responsabilidade no avesso
do acerto minorado em almas
desacompanhadas: o pranto
reflui torrentes e a condição afeta
a tradição perdida em silêncio.

O canto situado como livre estivesse o cantar
          como se o cantar livrasse da desdita
          como se desdizer fosse o conteúdo maternal
               na oração primária dos dissabores.

Trair a atenção. Atrair a atenção em ato
de coragem. Descontrair a tensão
em ato covarde de agressão
               e mentira.

No sorriso da mulher que passa
entre carros revê a mulher da vida
recolhida na casa dos prazeres.

No matraquear dos recreios receia
induzir a voz ao encontro da verdade
e retirar do exposto a contrariedade
das notícias não alvissareiras.

Alvo. Seta perfurante. Bala penetrante.
Símbolo cortante. Pedra contundente.

A busca nos primeiros passos
mambembes e o reluzir do ouro
conquistado. Fosse outra a época
e com certeza estaria preso ao passado.
Ao futuro são oferecidos óbices
em escaladas argutas e infiltrantes.

Se a mulher se apresenta nua, dispa-se
de sua vaidade e vá até ela. Cubra-a
com sua vergonha. A mulher se sentirá
devedora da sua ousadia.

Avesso ao estardalhaço, distribua panfletos
e torne a leitura obrigatória. Troque algumas
palavras. Entorne o caldo. Estremeça o senso
elementar das confusões. Aprofunde o tema
em nada consta. A liberdade perdura
enquanto a guarda se nacionaliza
em combates.

A fraqueza dos pais é responsável
pelo aviltamento, jogue a moeda ao mendigo
em gritos e palavrões. Desperte a vilania
e a destrate com fraquezas e ódios.

Descarregar a arma empunhada na luta
diante da máquina fotográfica o transforma
em notícia e no martírio do jornal escrito
se mantem ávido de reconhecimentos.

Não se debruce sobre a amurada: o atirador
de elite se distrai em beijos e sua arma
          dispara na antevisão da morte.

1 comments:

Pedro Du Bois said...

Como sempre, gracias pelo destaque. Abraços, Pedro.

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