Definição

... da totalidade das coisas e dos seres, do total das coisas e dos seres, do que é objeto de todo o discurso, da totalidade das coisas concretas ou abstratas, sem faltar nenhuma, de todos os atributos e qualidades, de todas as pessoas, de todo mundo, do que é importante, do que é essencial, do que realmente conta...
Em associação com Casa Pyndahýba Editora
Ano VI Número 63 - Março 2014

Crônica - Roniwalter Jatobá

Grey Day - George Grosz

O observador inglês

– O brasileiro diz que o seu país é cheio de corrupção!

Quem fez essa afirmação, tão atualíssima em relação ao nosso país, foi o escritor Rudyard Kipling, Prêmio Nobel de Literatura de 1907, no começo do século 20, depois de alguns dias em visita ao Brasil.

Vamos à história. Kipling chegou ao Rio de Janeiro, então capital da República, no final da tarde de 13 de fevereiro de 1927. Foi recebido com festa. Numa recepção na Academia Brasileira de Letras, estavam presentes dezessete acadêmicos, de Afonso Celso a Coelho Neto, além dos embaixadores da Inglaterra, França, Estados Unidos, Argentina, diplomatas, e Getúlio Vargas, na época ministro da Fazenda.

Na segunda semana de março, Kipling desembarcou do navio Sierra Cordoba, no porto de Santos, em companhia do advogado Alexander Mackenzie, vice-presidente da Light. O romancista e poeta era uma celebridade literária mundial e “cantava as glórias perenes” da Inglaterra, ainda a maior potência colonial do mundo. Em prosa e verso, exaltava a coragem com que os ingleses enveredavam por terras estranhas no continente asiático e, com “sacrifícios”, levavam a este mundo o estilo de vida britânico.

O canadense Alexander Mackenzie, também súdito de sua majestade (na época o rei Jorge V), acompanhou Kipling do Rio a São Paulo para mostrar, em Cubatão, o trabalho da Light na Serra do Mar – as represas e uma usina elétrica. Tudo por interesse. Afinal, uma impressão favorável no Morning Post, de Londres, onde o escritor publicava seus relatos de viagem, seria um excelente negócio para a empresa canadense, já que seu capital era também inglês e suas ações, negociadas na Bolsa de Londres.

Relatou o escritor, nascido em Bombaim, Índia, sobre a terra de contrastes: “Chegamos a Santos, porto de São Paulo, sob a claridade bronzeada de um céu da África Ocidental, subimos um tortuoso rio holandês. Montões de bananas desciam o rio em barcaças e se juntavam às cargas verdes de vapores cremes com chaminés pretas e vermelhas. A atmosfera é a do Sul da Índia. Saímos da cidade por uma estrada vermelha. O carro entrou por uma via lateral que lembrava o sopé do Himalaia, embora o clima fosse tão quente como o de Madrasta.”

Na verdade, Kipling veio, viu e não gostou do complexo hidrelétrico construído pela Light.

– Ridiculamente fácil – escreveu em seu jornal.

Mas ficou deslumbrado com a Serra do Mar e “as generosas tempestades tropicais”.

Em São Paulo, o escritor ficou hospedado no hotel Esplanada, um dos mais chiques do centro da cidade. Foi a uma recepção no São Paulo Athletic Club e visitou “na extremidade de um dos intermináveis subúrbios de São Paulo, uma fazenda de criação de cobras onde se preparam e distribuem soros contra as dentadas de cobras venenosas, que são abundantes por aqui”. Era o Instituto Butantã.

Antes de seguir para o Uruguai e Argentina, Kipling, que mostrava muito interesse pelo que hoje se chama de ecologia, ficou fascinado com dois exemplares da nossa fauna: a onça e o tatu. Contam que ganhou e levou para a Inglaterra um tatu-bola, que em sua terra exibia para os amigos.

O escritor inglês, nascido em 1865, faleceu em 1936. O saudoso jornalista e cronista Otto Lara Resende escreveu certa vez na Folha de S. Paulo que fez muita pesquisa e não descobriu o que aconteceu, em terras inglesas, com o tatu-bola, agora em risco de extinção.

Sabemos, no entanto, que hoje, infelizmente, o Brasil ainda ocupa uma bela posição na lista suja da corrupção global. Os brasileiros, ouvidos pelo observador inglês há quase oito décadas, tinham razão.

2 comments:

assis angelo said...

o brasil é o país da bola - em duplo sentido -, e também do samba e das mulatas de carnaval. uma vez, nos finais dos anos de 1980, como chefe de reportagem da editoria de política do jornal o estado de s.paulo, sugeri em reunião de pauta que se criasse uma coluna específica sobre corruptos e corrupção. fui voto e ideia vencidos. e kipling, poeta autor de "se", já no começo do século passado notava o óbvio do nosso estado de tristeza. de lascar! e parabéns, roni, por mais esse belo texto. abs,

Anonymous said...

Niva

Isso (a corrupção) explica porque "O Brasileiro só solidário no câncer".

Autores

Ademir Demarchi Adriana Pessolato Adília Lopes Afobório Agustín Ubeda Alan Kenny Alberto Bresciani Alberto da Cunha Melo Aldo Votto Alejandra Pizarnik Alessandro Miranda Alexei Bueno Alexis Pomerantzeff Ali Ahmad Said Asbar Almandrade Alyssa Monks Amadeu Ferreira Ana Cristina Cesar Ana Paula Guimarães Andrew Simpson Anthony Thwaite Antonio Brasileiro Antonio Cisneros Antonio Gamoneda Antonio Romane António Nobre Ari Candido Fernandes Ari Cândido Aristides Klafke Arnaldo Xavier Atsuro Riley Aurélio de Oliveira Banksy Bertolt Brecht Bo Mathorne Bob Dylan Bruno Tolentino Calabrone Camila Alencar Carey Clarke Carla Andrade Carlos Barbosa Carlos Bonfá Carlos Drummond de Andrade Carlos Eugênio Junqueira Ayres Carlos Pena Filho Carol Ann Duffy Carolyn Crawford Cassiano Ricardo Cecília Meireles Celso de Alencar Cesar Cruz Charles Bukowski Chico Buarque de Hollanda Chico Buarque de Hollanda and Paulo Pontes Claudia Roquette-Pinto Constantine Cavafy Conteúdos Cornelius Eady Cruz e Souza Cyro de Mattos Cândido Rolim Dantas Mota David Butler Denise Freitas Desmond O’Grady Dimitris Lyacos Dino Valls Dom e Ravel Donald Teskey Donizete Galvão Donna Acheson-Juillet Dorival Fontana Dylan Thomas Décio Pignatari Edgar Allan Poe Edson Bueno de Camargo Eduardo Miranda Eduardo Sarno Eduvier Fuentes Fernández Elaine Garvey Elizabeth Bishop Enio Squeff Ernest Descals Eugénio de Andrade Evgen Bavcar Fernando Pessoa Fernando Portela Ferreira Gullar Firmino Rocha Francisco Niebro George Callaghan George Garrett Gey Espinheira Gherashim Luca Gil Scott-Heron Gilberto Nable Glauco Vilas Boas Gonçalves Dias Grant Wood Gregório de Matos Guilherme de Almeida Hamilton Faria Henri Matisse Henrique Augusto Chaudon Henry Vaughan Hilda Hilst Hughie O'Donoghue Husam Rabahia Ian Iqbal Rashid Ingeborg Bachmann Issa Touma Italo Ramos Itamar Assumpção Iulian Boldea Ivan Donn Carswell Ivan Justen Santana Ivan Titor Ivana Arruda Leite Izacyl Guimarães Ferreira Jacek Yerka Jack Butler Yeats Jackson Pollock Jacob Pinheiro Goldberg Jacques Roumain James Joyce James Merril James Wright Jan Nepomuk Neruda Jason Yarmosky Jeanette Rozsas Jim McDonald Joan Maragall i Gorina Joaquim Cardozo Joe Fenton John Doherty John Steuart Curry John Updike John Yeats Josep Daústin José Carlos de Souza José Geraldo de Barros Martins José Inácio Vieira de Melo José Miranda Filho José Paulo Paes José Ricardo Nunes José Saramago José de Almada-Negreiros João Cabral de Melo Neto João Guimarães Rosa João Werner Junqueira Ayres Kerry Shawn Keys Konstanty Ildefons Galczynski Kurt Weill Leonardo André Elwing Goldberg Lluís Llach I Grande Lou Reed Luis Serguilha Luiz Otávio Oliani Luiz Roberto Guedes Luther Lebtag Léon Laleau Lêdo Ivo Magnhild Opdol Manoel de Barros Marco Rheis Marcos Rey Mari Khnkoyan Maria do Rosário Pedreira Marina Abramović Marina Alexiou Mario Benedetti Mario Quintana Mariângela de Almeida Marly Agostini Franzin Marta Penter Marçal Aquino Masaoka Shiki Maser Matilde Damele Matthias Johannessen Michael Palmer Miguel Torga Mira Schendel Moacir Amâncio Mr. Mead Murilo Carvalho Murilo Mendes Márcio-André Mário Chamie Mário Faustino Mário de Andrade Mário de Sá-Carneiro Nadir Afonso Nuala Ní Chonchuír Nuala Ní Dhomhnaill Nâzım Hikmet Odd Nerdrum Orides Fontela Orlando Gibbons Orlando Teruz Oscar Niemeyer Osip Mandelstam Oswald de Andrade Pablo Neruda Pablo Picasso Patativa do Assaré Paul Funge Paul Henry Paulo Afonso da Silva Pinto Paulo Cancela de Abreu Paulo Henriques Britto Paulo Leminski Pedro Du Bois Pedro Lemebel Pete Doherty Petya Stoykova Dubarova Pink Floyd Plínio de Aguiar Pádraig Mac Piarais Qi Baishi Rafael Mantovani Ragnar Lagerbald Raquel Naveira Raul Bopp Regina Alonso Renato Borgomoni Renato Rezende Renato de Almeida Martins Ricardo Portugal Ricardo Primo Portugal Ronald Augusto Roniwalter Jatobá Rowena Dring Rui Carvalho Homem Rui Lage Ruy Belo Ruy Espinheira Filho Ruzbihan al-Shirazi Régis Bonvicino Salvado Dalí Sandra Ciccone Ginez Santiago de Novais Saúl Dias Scott Scheidly Seamus Heaney Sebastian Guerrini Sebastià Alzamora Shahram Karimi Shorsha Sullivan Sigitas Parulskis Silvio Fiorani Smokey Robinson Sohrab Sepehri Sophia de Mello Breyner Andresen Souzalopes Susana Thénon Susie Hervatin Suzana Cano Sílvio Ferreira Leite Sílvio Fiorani The Yes Men Thom Gunn Tim Burton Tomasz Bagiński Torquato Neto Túlia Lopes Vagner Barbosa Val Byrne Valdomiro Santana Vera Lúcia de Oliveira Vicente Werner y Sanchez Victor Giudice Vieira da Silva Vinícius de Moraes W. B. Yeats W.H. Auden Walt Disney Walter Frederick Osborne William Kentridge Willian Blake Wladimir Augusto Yves Bonnefoy Zdzisław Beksiński Zé Rodrix Álvaro de Campos Éle Semog