Definição

... da totalidade das coisas e dos seres, do total das coisas e dos seres, do que é objeto de todo o discurso, da totalidade das coisas concretas ou abstratas, sem faltar nenhuma, de todos os atributos e qualidades, de todas as pessoas, de todo mundo, do que é importante, do que é essencial, do que realmente conta...
Em associação com Casa Pyndahýba Editora
Ano VI Número 63 - Março 2014

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Editorial



“Omnium enim rerum principia parva sunt”
~ Cícero, in De Finibvs Bonorvm et Malorvm, Liber Qvintvs

Março TUDA ~ TUDA Março!

Nem só de Terças-Gordas e Quartas-Magras (ou de Cinzas!) é feito o Carnaval, festa originalmente criada pelos Gregos em agradecimento aos deuses pela fertilidade e produção do solo. Na antiguidade, o Carne Vale era marcado por grandes festas, onde se comia, bebia e buscava-se prazeres, incessantemente. O Carnaval prolongava-se por sete dias nas ruas, praças e casas da Antiga Roma, entre 17 a 23 de Dezembro. Todas as atividades e negócios eram suspensos neste período, os escravos ganhavam liberdade temporária para fazer o que bem quisessem, e as restrições morais eram relaxadas. Hoje em dia, uma vez institucionalizado, o Carnaval acabou perdendo a graça, assim como o futebol... e embora seja apenas uma opinião, o dinheiro realmente enfastia as coisas... Mais ou menos como a história dos Javalis zarolhos de Quixeramobim caçando folhas de ipê em Georgetown, no Kentucky... Pangrama puro. Chato mesmo!

E quanto mais eu penso mais eu questiono - melhor, não questiono não, eu desafio mesmo! Que desafiar é a melhor maneira de tratar o pré-estabelecido, simplesmente por ter sido estabelecido anteriormente e assim não aceitar outras possibilidades. Os receiosos do novo, independentemente do novo ser novo ou velho, mas apenas por ser outro. Assim, por puro acaso de não sei o quê, sem pensar, sem mesmo lembrar da data, passei um carnaval sem carnavalias, sem alegrias induzidas - embora tenha tomado meu vinhozinho - ou situações pré-fabricadas. E é claro que comi carne na Quarta de Cinzas!

Brazilian? Oh, yeah... Carnaval, football, Pelé, women... é, pode ser, mas tem prostituição infantil também, problemão com drogas realmente destrutivas como crack, óxi e crocodil, tem a burguesia babaca que sustenta a hipocrisia na base do fuminho e do pó, tem a coisificação do corpo, a vulgarização da mulher (e a aceitação dela em ser vulgarizada, o que acaba provocando um machismo oportunista), a corrupção institucionalizada, a miséria tolerada, a gritante diferença social (que por ser assumida e aceita desencadeia a exploração do achatado), a ficção macro-econômica, a ilusão micro-econômica, a cultura - praticamente nula - do povo, não só por culpa do povo, mas também e principalmente por pura conveniência do andar de cima, assim como convenientemente muitas coisas não são tratadas seriamente no país do futebol, do carnaval, das praias maravilhosas e das mulheres gostosas... não convêm, entende?!?

É isso aí companheiros & companheiras, igualmente engajados nessa suja e fedorenta LabUTA do dia a dia, que quanto mais suja e fedorenta se torna, mais vontade dá de meter a mão na sujeira e limpar a merda toda! Para quê, ainda é uma pergunta a ser respondida, mas se formos esperar respostas acabamos como todos os outros, de mãos nos bolsos. Por isso, camaradinha, o negócio é meter a mão na merda mesmo, sem nojo nem pudor... pode até usar luvinha se quiser, e pregadorzinho no nariz, para evitar a náusea, mas o importante mesmo é meter a mão na massa e tirar a merda da frente... E haja merda!

Em pleno fim-de-semana de São Patrício, padroeiro da Irlanda, na verdade Patrício é o padroeiro da bebedeira institucionalizada, uma das poucas hiprocisias irlandesas. Provavelmente o mais amplamente comemorado dia de santo no mundo, poucos sabem ou lembram o que o Paddy Day celebra, e o que acaba acontecendo é um monte de gente vestida em trajes verdes, saindo as ruas em uma longa caminhada festiva... é a chamada St. Patrick's Parade Dia de São Patrício é provavelmente o mais amplamente comemorado dia de santos no mundo.

QG TUDA Março
Pela desclassificação na Copa, pela descarnavalização do carnaval, pelas praias despoluídas, e em suporte à dita "mulher feia" (já que beleza é relativa e também institucionalizada). Se há uma maneira mais fácil de se fazer algo, faça... contanto que não prejudique ninguém, não vá contra os seus princípios, não limite sua criatividade, e não comprometa a qualidade do resultado. E TUDA acaba sempre tomando o caminho mais longo em favor ao resultado esperado...

Asyno Eduardo Miranda,
o (auto-proclamado) editor
deste porto qvasjsseguro da jlha do Eire
oje, dezº qvjmº dia do terçº mez
d este Anno Domini de MMXIV

Tradução - Eduardo Miranda

Léon Augustin Lhermitte ~ La Fenaison à la ferme de Rue Chailly
Célia de Freiné é uma poeta, dramaturga e roteirista irlandesa que escreve em Irlandês e em Inglês. Ela nasceu em Newtownards, County Down e se mudou para Dublin ainda criança, mas manteve fortes ligações com a Irlanda do Norte. Célia passou a maior parte de seus verões com sua família em Donaghadee. Ela agora divide seu tempo entre Dublin e Connemara.
Línguamãe
por Celia de Fréine

Quando a língua da montanha
foi proscrita, os homens
foram agrupados e aferroados.

Além de suas tarefas normais,
as mulheres
agora tinham que salvar a colheita.

Máthairtheanga
ag Celia de Fréine

An lá ar coscadh teanga an tsléibhe
cluicheadh fir na háite
is ceanglaíodh laincisí orthu.

I dteannta a ngnáthchúraimí
fágadh faoi na mná
an fómhar a bhaint.

[ in The New Irish Poets, edited by Selina Guinness, Bloodaxe Books Ltd, UK, 2004 ]

Foreign Words - João Cabral de Melo Neto

Ilustração extraída do desenho animado "Morte e Vida Severina", versão audiovisual da obra prima de João Cabral de Melo Neto, adaptada para os quadrinhos pelo cartuinista Miguel Falcão (assista aqui).
Death & Life Severina
by Eduardo Miranda
extracted from the book Morte e Vida Severina, 1966


This grave where you are,
measured by strife
is the smallest share
you've got in life.

Neither wide nor profound,
good size, but still bridled,
this is the piece of ground
to which you are entitled.

It’s not a big grave,
but measured and spared,
the land which you craved
one day to see shared.

It is a big grave
for your poor soul
and you'll be more safe
then you were in the world.

Vida e Morte Severina
extraído de Morte e Vida Severina

Essa cova em que estás,
com palmos medida,
é a cota menor
que tiraste em vida.

É de bom tamanho,
nem largo nem fundo,
é a parte que te cabe
neste latifúndio.

Não é cova grande.
é cova medida,
é a terra que querias
ver dividida.

É uma cova grande
para teu pouco defunto,
mas estarás mais ancho
que estavas no mundo.

Editorial

Judith Beheading Holofernes ~ Caravaggio

“Je suis desja d'amour tanné
Ma tres doulce Valentinée...”

~ Charles d'Orléans, Rondeau VI, lignes 1–2


TUDA Fevereiro ~ Fevereiro TUDA!

Diz a lenda que o imperador romano Cláudio II, durante seu governo, proibiu a realização de casamentos por acreditar que se os jovens não tivessem família se alistariam no exército com maior facilidade - faz sentido: cabeça vazia morada do demônio; no caso, morada do Imperador. Valentim foi o bispo que continuou a celebrar casamentos às escondidas, pelas costas do imperador. Desmascarado, Valentim foi preso e condenado à morte. Na prisão certa vez recebeu a visita de Astérias, a filha cega do carcereiro. Os dois acabaram se apaixonando e a jovem milagrosamente recuperou a visão!

Happy Valentine’s Day ~ Manuela Valenti
Embora as tradições folclóricas européias de São Valentim tenham sido corrompidas por um certo romantismo americanizado (esses americanos!), ainda o associam com o advento da primavera, e há lugares onde é celebrado como o dia em que começa o trabalho nas vinhas e nos campos, e essa associação com o Dia dos Namorados é relativamente recente; tradicionalmente era 12 de Março (dia de São Gregório) ou 22 de Fevereiro (dia de São Vicente). E Santo Antônio, o patrono do amor, é comemorado em 13 de Junho...

Valentim foi decapitado em 14 de Fevereiro de 270.

É isso aí companheiros & companheiras, na velha e suja LabUTA do dia a dia, cada vez mais suja, ainda mais agora que foi revelado o que este espaço já notara: manifestação é coisa pra inglês ver! E eles estão chegando!! Junto com franceses, italianos, espanhóis, e também americanos, os donos do quintal! A vida imita a arte, como já dizia o poeta. Protestar contra a Copa seria não consumí-la! Mas aí já seria ser sério demais, não é mesmo? Seria pedir demais, afinal, quem vive sem futebol?!? Então só nos resta metermos na cara nossa máscara V de Vendeta e sairmos nas ruas a espevitar nossas ideologias cheias de boas-intenções - algumas bem sinceras - e assim fazer notícia. E no fim do dia, entrar num ônibus ou metrô, pagar a taxa abusiva que protestávamos, chegar em casa e sentar passivamente frente à TV - o futebol começa logo após a novela! - e tomarmos uma para relaxar: Brahma ou Antarctica ou Bohemia ou Skol ou Stella Artois... e se não é álcool o seu babado, Guaraná ou Soda ou Sukita ou H2OH ou Pepsi ou Ice Tea ou Gatorade... dá tudo na mesma! E coca-cola também pode!

QG de TUDA, Fevereiro 2014
Já se foi dito que a única arma eficiente contra o capital é o capital: quanto mais ricos, mais se importam com seus bens, os somíticos,  cauilas e forretas; até que esse apego excessivo ao dinheiro se torne uma obsessão e eclodam em ridicularias, em profusões, bradando suas prodigalidades sem dadivosidade!

O pão duro do pobre sempre será menos duro que o do pão-duro. Só eles é que não percebem...

Asyno Eduardo Miranda
o (auto-proclamado) editor deste porto semisseguro da jlha do Eire
oje, dezº qvjmº dia do segvmº mez
d este Anno Domini de MMXIV

Poesia - Eduardo Miranda


necr(o)-

mulher pálida
sobre pedra gélida
friíssimas – mulher e pedra

homem apático
prostrado frente à pedra
duríssimos – membro, mulher e pedra

e mesmo já morta – ela –
atrás das cortinas fúnebres
seu necrofastígio – (d)ele –
se esmoece em gestos vazios
conforme a melodia.

Conto - Eduardo Miranda

Reading Woman ~ Pieter Janssens Elinga
Lia, a Leitora

Ela lia. Lia lia livros, revistas, gibis, panfletos, bulas… lia de tudo. E em suas leituras, todas muito concienciosas, filtrava bem os assuntos que lhe interessavam e retia… retia como ninguém o que lia, mas não lia nada em computadores. Tinha uma aversão herdade de seu pai por aparelhos televisivos. Por extensão, mantinha-se afastado de computadores também… pura convição!

Por ler tanto, naturalmente era uma estranha. Não que fosse estranha necessariamente, mas para os padrões dos outros seres humanos – sim, era um ser humano. Não se encaixava nos padrões dos outros da mesma espécie… e quando chacoteavam-lhe, descarregava a classificação biológica do ser humano da vida, numa abordagem sistemática-científica, dizendo que sim, era humana, pois pertencia ao domínio eukaryota, ao reino animalia, subreino eumetazoa, divisão chordata, subdivisão vertebrata, classe mammalia, subclasse theria, infraclasse eutheria, ordem primates, subordem haplorrhini, infraordem simiiformes, superfamília hominoidea, família hominidae, subfamília homininae, gênero homo, espécie homo sapiens, subespécie homo sapiens sapiens… enquanto os outros, reles seres, ao invés de tomarem o rumo da chordata, desviavam-se pela divisão anthropoda, conhecida pela mosca de fruta, ou antes ainda, tomavam o rumo do reino plantae e se enveredavam pela divisão da magnoliophyta, a das ervilhas!

Momentos assim eram extremos, é verdade, e raramente aconteciam. Seu dia-a-dia era tranquilo, sem muito contato humano – a não ser no trabalho. Bibliotecária, perguntavam-lhe sobre livros, Lia respondia sobre livros. Outras perguntas, tais como “ Olá, como vai?”, “Você já almoçou?”, ou “Como foi o seu final de semana?”, com o tempo deixaram de ser indagadas pelos colegas e usuários da biblioteca, pois logo perceberam que, entre gaguejos e olhares dissimulados, Lia não conseguia responder sem se constranger até os dentes!

Lia ia para o trabalho à pé. Mesmo caminhando, Lia lia. Tropeçava eventualmente aqui ou ali, mas via de regra conhecia bem as cinco quadras que separavam seu quarto alugado e a biblioteca. Quando almoçava, Lia almoçava lendo. Sempre ia ao banheiro com um livro, e quando não estava atendendo alguém, lia.

Certo dia, pega de surpresa pelo final de um livro enquanto caminhava, desesperou-se em não ter o que ler e parou na banca de jornal. Comprou o jornal do dia, onde entre tantas baboseiras, na seção de tecnologia anunciavam o fim do livro impresso. A reportagem preconizava que estávamos a um passo do livro eletrônico perfeito! Entre vários modelos – uns com telas de LCD, outros com tintas eletrônicas que não emitem luz, outros ainda que simulavam as viradas de páginas como nos livros de verdade – o artigo dizia que seria uma questão de meses para que o livro finalmente morresse!

Lia, que na sua curiosidade e amor pelos livros já os experimentara em todas as suas formas e fases: as pinturas rupestres, o codex, os manuscritos dos monges copistas, os primeiros registros em papel, as primeiras cópias impressa por Gutenberg... mas agora teria que sucumbir à tecnologia digital?!? Não! Nada poderia lhe impressionar mais!

Lia que lia, matou-se.

Tradução - Eduardo Miranda

Bursa cezaevinde - Kontrplak üzerine Y.B, 1946 ~ Nâzim Hikmet
Nâzim Hikmet


A neve bloqueava o caminho
e você não estava lá
sentado com minhas anotações
de olhos fechados
imaginei seu rosto.

Não haviam barcos
tampouco aviões
e você não estava lá
eu me apoiava na parede
e falava, falava, falava
sem sair uma só palavra.

Você não estava lá
eu te toquei com minhas mãos
minhas mãos cobriam meu rosto.

Kar kesti yolu
sen yoktun
oturdum karşına dizüstü
seyrettim yüzünü
gözlerim kapalı

Gemiler geçmiyor
uçaklar uçmuyor
sen yoktun
karşında duvara dayanmıştım
konuştum, konuştum, konuştum
ağzımı açmadım

Sen yoktun
ellerimle dokundum sana
ellerim yüzümdeydi.

Foreign Words - Maria do Rosário Pedreira

Carriage, 60 x 70, oil on canvas, 2010 ~ Eric Zener
(tradução de Eduardo Miranda)

Between us sleep pains that you do not
know. You fell asleep first -
and my past is an antique clock
Teasing the silence. If you had

told me your name when you arrived,
you could be part of these memories already.

[in Nenhum Nome Depois, 2004]

Dormem entre nós dores que não
conheces. Adormeceste primeiro -
e o meu passado é um relógio antigo
que arrelia o silêncio. Se me tivesses

dito o teu nome quando chegaste,
podias fazer já parte destas memórias.

[in Nenhum Nome Depois, 2004]

Editorial

Festival das Vacas em Katmandu, Nepal.
Foto: Navesh Chitrakar/Reuters

“Se você vier me perguntar por onde andei
no tempo em que você sonhava de olhos abertos,
lhe direi, amigo: eu me desesperava”

~ Belchior, in A Palo Seco.

Janeiro TUDA ~ TUDA Janeiro!

Para o melhor e o pior, e para o melhor de novo, na riqueza e na pobreza e na riqueza de novo, na saúde e na doença e na saúde de novo, assim vai esta TUDA, resistida, sobrevívida, persistente, ressurgente, assumida, mas canssadésima, se contasse, desbravaria 2014 assim, só por hoje, e desejaria um Feliz Mês Novo, que em sendo só por hoje um mês já é uma eternidade de possibilidades, o que dizer de um ano todo.

Nessa tendência louca da antecipação, o cruel e impiedoso Senhor do Tempo nos ilude com aquela sensação de tempo perdido, ou da simples falta do tempo, e nos faz viver no instante seguinte, e assim perder o momento presente... por um momento, apenas.

John Melhuish Strudwick ~ A Golden Thread, 1885
De mãos dadas com Chronos vai Ananke, mãe das Moiras e personificação da inevitabilidade, ditando os rumos das nossas ansiedades, jogando-nos para cá e para lá, que é nessa linha de pensamento que o povo não vê a hora do carnaval chegar - já está logo aí! - e depois tem a Páscoa, e logo a Copa do mundo, as eleições... melhor nem começar a trabalhar!

É na contra-mão dessa pressa desmesurada, muito mais para Aion do que para Chronos, que vem esta TUDA, lenta, no seu tempo, contra o tempo, devagar mas sempre, até agora, e só por hoje, só por todos os hojes que TUDA ainda possa suportar.

É isso aí companheiros & companheiras, na velha e suja LabUTA do dia a dia, mês a mês, ano após ano, que não bastasse ser dura, por vezes é pobre, de dignidade, de espírito, de nobreza, que nobre mesmo é aquilo que te toca, te emociona, que dá oportunidade de revelar a dignidade de caráter, de denotar magnanimidade no gesto, virtude no ato, tudo além da intenção apenas!

Já se foi dito que se os cavalos ou os bois pudessem esculpir, fariam estátuas de deuses à sua semelhança e os adorariam... tal qual fazem os humanos!

QG de TUDA
Ilustração: Viva Las VegaStamps 

Fotomontagem: Eduardo Miranda


Asyno Eduardo Miranda
o (auto-proclamado) editor deste porto semisseguro da jlha do Eire
oje, dezº septº dia do primº mez
d este Anno Domini de MMXIV

Poesia - Eduardo Miranda

Patricia A. Smith - "The Royal Treatment" 22" x 34" Acrylic on Bamboo Mat

Mandou eu me aprumar e tomar o meu rumo,
Mandou eu apagar o cigarro que eu nem fumo,
Mandou eu voltar sem saber se eu estava indo,
E assim que ele chega, os outros estão saindo.
Não viu e nem ouviu, não sabe quem foi,
Não conhece ninguém mas quer nomear o boi,
Olha para o lado e aponta o dedo sorrindo,
Não fede nem cheira, mas vive se exibindo.
Tem o carro mais bacana, a mulher a mais gostosa,
O dinheiro mais limpo, a merda mais cheirosa,
Tem o espelho quebrado e se considera o mais lindo,
Nunca é convidado mas se acha bem-vindo.
Não lhe dirigem a palavra mas quer puxar assunto,
Não sabe quem morreu mas quer velar o defunto,
Diz que já fez, que já leu, conhece tudo e tal,
Nunca lê um livro até o fim, mas sempre fala mal.
Em sua realidade deturpada, vive desconectado,
Preste atenção Fulano, que vou lhe dar um recado:
Antes de você despertar desse seu eterno domingo,
Antes mesmo de chegar, considere-se mal-vindo.

Findo.

Conto - Eduardo Miranda

 Edvard Munch, The Death Bed, 1895
Tantos anos na profissão e eu ainda me apanhava de surpresa, emocionado com certos casos. Esse rapaz, por exemplo, vítima de um AVC. Novo ainda, em coma induzido já há sete dias, todo entubado… não sei o que havia nele que me despertava uma tristeza imensa. Talvez por aparentar mais ou menos a minha idade, ou por se parecer com alguém que eu conhecia, embora não me lembrasse quem.

Todos os dias o hospital recebia gente à beira da morte. Fazia parte da rotina. Médicos, enfermeiros e até mesmo as recepcionistas, acabavam se acostumando a gente ensanguentada, corpos dilacerados, pessoas beirando a tênue fronteira entre a vida e a morte, mas acho que particularmente nós, enfermeiros, éramos os que mais nos expunhamos, e consequentemente, os primeiros a sentir o que costumo chamar de “processo de desumanização”, que é uma incapacidade involuntária de sentir compaixão ou solariedade, e o paciente passa a não ser mais do que um mero produto do trabalho. Por favor, não me entandam mal! Ainda somos todos profissionais de saúde, comprometidos em salvar vidas… mas depois de um tempo deixamos de sentir, só isso.

Mas com este rapaz era diferente… por mais que me esforçasse não conseguia me lembrar da sua entrada, não me lembrava de fazer-lhe curativos ou de ministrar-lhe medicamentos… nada. Sentia apenas uma forte presença, uma força, ele agarrando-se a toda e cada esperança que lhe restava… mas não entendia o por que desse apego.

* * *

Já perdi a noção de quanto tempo estou sentado a seu lado, mas tenho a impressão de sempre ter estado aqui. Vejo pessoas chegando e saindo, muita gente, e todos me são familiares, de alguma maneira.

De repente senti seu corpo cair-se, deixar-se, naquela cama em que deitado já estava. Foi como uma renúncia, uma desistência, uma entrega... E foi neste exato momento que também senti todo seu cansaço, seu desânimo... toda aquela entrega, aquela desistência, aquela renúncia, tudo estava em mim! Só então fui capaz de entender todo aquele apego...

Levantei-me da cadeira e me afastei, devagar, do corpo inerte e rodeado de parentes e amigos. Se pudesse pedir algo antes de partir, seria a oportunidade de dizer alguma coisa, poucas palavras, para conforto de todos. Como não foi possível, espero que o discreto sorriso que deixei em meus lábios dê o recado.

Tradução - Eduardo Miranda

Quirografia de Charles Sanders Peirce
sobre o poema The Raven.
Edgar Allan Poe (1809 - 1849), escritor, poeta, romancista, crítico literário e editor. Segundo filho de um casal de atores, Poe ficou órfão ainda criança e foi adotado por um casal rico de Richmond, Virgínia, o que lhe permitiu ter uma educação de qualidade. Conhece uma certa popularidade ao vencer simultaneamente os concursos de conto e poesia promovidos pela revista "Southern Literary Messager". O fundador da publicação convidou-o para dirigir a revista, que rapidamente se impõe ao público. Durante dois anos, Poe esteve a frente do periódico, onde pôde exibir seu talento, que se manifestava num estilo novo, tanto no conto quanto na poesia, bem como pelos artigos de crítica literária que revelavam seu rigor e sensibilidade estética.

O Corvo" é uma de suas obras mais conhecidas. Foi ela que Poe usou como exemplo no seu instigante ensaio "Filosofia da Composição", onde alega que nenhum ponto da composição pode ser atribuído à intuição ou à sorte; e que aquele poema avançou até seu término, passo a passo, com a mesma exatidão e lógica rigorosa de um problema matemático.

Grandes nomes traduziram O Corvo, das maneiras mais inusitadas possíveis - prosa, soneto, sexteto, e outros. Minha intenção, porém, foi solucionar melhor o eco da voz do corvo (never more) com o nome da mulher (Leonore). Não encontrei tradução que mantivesse o eco, e todos partem para "Leonora/Nuncamais". Embora a tônica da palavra tenha se deslocado, a combinação "Taís/Nuncamais" aproxima-se mais do eco original que "Leonore/Nevermore" dispara no leitor de língua inglesa. No mais, é apenas mais um exercício de tradução.


O Corvo - Edgar Allan Poe

Certa meia-noite sombria, enquanto cansado lia e refletia
Sobre estranhos e curiosos volumes de doutrinas ancestrais
Cochilava, já quase adormecia, quando ouvi que alguém batia
Alguém batia, suavemente alguém batia em meus portais
“Um visitante”, resmunguei, batendo em meus portais —
Há de ser isso e nada mais.”

Ah, como eu me lembro, era um gélido e triste Dezembro,
E cada brasa moribunda que por dentro morria, forjava mil funerais
Excitado eu desejava o alvorar; futilmente busquei emprestar
Do meu livro cerrado de tanto penar — penar pela perda de Taís, —
Pela rara e radiante donzela a quem os anjos chamaram Taís —
Sem nome agora e jamais.

E a sedosa, sombria, serrazina batida de cada cortina
Aterrorizava-me com terrores nunca dantes visto iguais;
E meu coração inquieto ouvia de minha mente doentia:
“Um visitante querendo entrar em meus portais —
Algum visitante tardio querendo entrar em meus portais —;
Há de ser só isso, e nada mais.”

E minha alma de tal poder se formou que não mais hesitou,
“Senhor”, disse “ou Madame, meu perdão ofereço ademais,
Pois fato é que estava já adormecendo, e gentilmente alguém batendo,
Palidamente alguém batendo, batendo em meus portais,
Que o ouvi apenas vagamente” — e totalmente abri meus portais —
A escuridão encontrei, e nada mais.

A escuridão observando, estanque, a imaginação avoando, relutando
Duvidando, sonhando sonhos que mortal algum sonhou jamais;
Mas o silêncio era profundo, a calmaria de outro mundo
E a única palavra lá falada, sussurrada, foi a palavra, “Taís!”
Meu sussurro murmurou de volta o eco da palavra “Taís!”
Simplesmente isso, e nada mais.

E ao quarto voltava, minh’alma em chamas queimava,
Quando ouvi baterem, mais alto agora, novamente em meus portais.
Certamente, disse a mim mesmo, há algo com minha janela;
Certamente é isso, algo com a madeira ou com os vitrais –
Deixe meu coração se tranqüilizar na madeira e nos vitrais –
Há de ser o vento, e nada mais.”

Escancaro completamente meus portais, e de repente
Portenta ave, um corvo, adentra sei lá de que eras ancestrais.
Nenhuma reverência prestou, nem sequer um minuto hesitou;
Como se um nobre fosse, sem mais empoleirou-se em meus umbrais –
Empoleirado num busto de Pallas, justamente em meus umbrais –
Lá empoleirado, e nada mais.

E tal ave negra distrai-me por um instante de minha tristeza,
Pelo grave e áustero decoro que sustenta seus gestos rituais,
De crista bem aparada, disse-lhe ‘não és criatura acovardada,
Medonho e apavorante corvo, de lá das terras infernais –
Diga-me o nome de teu mestre, lá dos meios infernais!’
Grunhiu o corvo, ‘Nuncamais’

Muito me surpreendeu, pássaro raro que falasse tão claro
Embora fossem palavras de pouco sentido em discursos reais
Nenhum fulano ou beltrano, nenhum ser humano
Fora jamais abençoado com tal ave falante em seus umbrais –
Pássaro ou besta que seja, pousado em busto em seus umbrais,
Ainda mais chamado ‘Nuncamais’

Mas o corvo, que se sentava sobre o plácido busto, apenas falava,
Palavra única, como se sua alma fosse aquela palavra e nada mais.
Nada além ele pronunciou – nem mesmo uma só pena ele agitou –
Murmurei ‘Amigos vêm e vão em contínuos vens e vais –
Ao amanhecer ele partirá, como outrora minhas esperanças joviais.’
E o corvo disse, ‘Nuncamais.’

Aterrorizado por tão sábias palavras de sentido figurado
Disse, ‘Sem dúvida, são palavras fixas, decoradas, sempre iguais,
Aprendidas de algum infeliz, algum qualquer a quem o destino quis,
Que estas palavras fossem pronunciadas, todos os dias as mesmas tais
Compondo tenebroso estribilho, feito reza, todos os dias as mesmas tais
O sombrio Nunca-nuncamais

E o corvo ainda distraía-me de toda minha herdada tristeza,
E tranqüilamente sentado frente ao corvo e aos meus umbrais;
Quando então, afundado no veludo, passei, matuto,
A ligar os acontecimentos, e este agourento pássaro de lugares tais –
O que este cruel, tosco, esquálido e agourento pássaro de lugares tais
Quer dizer ao grunhir ‘Nuncamais.’

E eu sentado, prevendo, mas nenhuma palavra dizendo
Para a tal ave, cujos olhos me queimavam com olhares fatais
Isso e mais, eu sentado prevendo, minha cabeça pendendo
Em travesseiros de veludo, sob a luz de candelabros penumbrais
De quem os travesseiros, sob os candelabros penumbrais,
Dela seriam, ah, nuncamais!

O ar ficou então mais denso, tomado por um forte incenso
Onde anjos foram chegando com seus passos angelicais.
‘Desgraçado’, gritei, ‘teu Deus te concedeu – pelos anjos te concedeu
A rendição – rendido e torpente das memórias de Taís
Bêbado, oh bêbado e entorpecido, esquecido de Taís’
Grunhiu o corvo, ‘Nuncamais’

‘Profeta!’ eu disse, ‘coisa do mal! Ainda profeta, pássaro infernal
Se deliberadamente enviado, ou largado nestas praias funerais,
Ainda desolado, destemido, nesta desértica terra perdido –
Em meu lar aterrorizado, me diga a verdade, e nada mais –
Existe – existe paz no Perpétuo? A verdade e nada mais!’
Grunhiu o corvo, ‘Nuncamais’

‘Profeta!’ eu disse, ‘coisa do mal! Ainda profeta, pássaro infernal
Por estes céus angelicais, por todos os deuses elementais
Diga a esta alma atormentada, se além do Éden faz morada
Uma bela donzela, a quem os anjos chamaram Taís –
Única e radiante donzela, a quem os anjos chamaram Taís?’
Grunhiu o corvo, ‘Nuncamais’

‘Seja esta palavra nosso adeus eterno, demônio ou ave do inferno,
Volta para a profundeza de tuas noites eternais!
E não deixe legado das heresias que tem falado!
Deixe-me cá só e abandonado! – saia já de meus umbrais!
Leve tua figura e todos os teus sinais pra longe de meus umbrais!’
Grunhiu o corvo, ‘Nuncamais’

E o corvo, parado, ainda empoleirado, e ainda empoleirado
Sobre o pálido busto de Pallas que está acima de meus umbrais;
Seu olhar demoníaco transparece sua presença refece,
E a luz projetada sobre ele escoa em sombra nos meus umbrais;
E minh’alma presa a esta sombra, ainda hoje em meus umbrais
Ascenderá – nuncamais!

* * *

The Raven - Edgar Allan Poe

Once upon a midnight dreary, while I pondered, weak and weary,
Over many a quaint and curious volume of forgotten lore,
While I nodded, nearly napping, suddenly there came a tapping,
As of some one gently rapping, rapping at my chamber door.
"'Tis some visitor," I muttered, "tapping at my chamber door-
Only this, and nothing more."

Ah, distinctly I remember it was in the bleak December,
And each separate dying ember wrought its ghost upon the floor.
Eagerly I wished the morrow;- vainly I had sought to borrow
From my books surcease of sorrow- sorrow for the lost Lenore-
For the rare and radiant maiden whom the angels name Lenore-
Nameless here for evermore.

And the silken sad uncertain rustling of each purple curtain
Thrilled me- filled me with fantastic terrors never felt before;
So that now, to still the beating of my heart, I stood repeating,
"'Tis some visitor entreating entrance at my chamber door-
Some late visitor entreating entrance at my chamber door;-
This it is, and nothing more."

Presently my soul grew stronger; hesitating then no longer,
"Sir," said I, "or Madam, truly your forgiveness I implore;
But the fact is I was napping, and so gently you came rapping,
And so faintly you came tapping, tapping at my chamber door,
That I scarce was sure I heard you"- here I opened wide the door;-
Darkness there, and nothing more.

Deep into that darkness peering, long I stood there wondering, fearing,
Doubting, dreaming dreams no mortals ever dared to dream before;
But the silence was unbroken, and the stillness gave no token,
And the only word there spoken was the whispered word, "Lenore!"
This I whispered, and an echo murmured back the word, "Lenore!"-
Merely this, and nothing more.

Back into the chamber turning, all my soul within me burning,
Soon again I heard a tapping somewhat louder than before.
"Surely," said I, "surely that is something at my window lattice:
Let me see, then, what thereat is, and this mystery explore-
Let my heart be still a moment and this mystery explore;-
'Tis the wind and nothing more."

Open here I flung the shutter, when, with many a flirt and flutter,
In there stepped a stately raven of the saintly days of yore;
Not the least obeisance made he; not a minute stopped or stayed he;
But, with mien of lord or lady, perched above my chamber door-
Perched upon a bust of Pallas just above my chamber door-
Perched, and sat, and nothing more.

Then this ebony bird beguiling my sad fancy into smiling,
By the grave and stern decorum of the countenance it wore.
"Though thy crest be shorn and shaven, thou," I said, "art sure no craven,
Ghastly grim and ancient raven wandering from the Nightly shore-
Tell me what thy lordly name is on the Night's Plutonian shore!"
Quoth the Raven, "Nevermore."

Much I marvelled this ungainly fowl to hear discourse so plainly,
Though its answer little meaning- little relevancy bore;
For we cannot help agreeing that no living human being
Ever yet was blest with seeing bird above his chamber door-
Bird or beast upon the sculptured bust above his chamber door,
With such name as "Nevermore."

But the raven, sitting lonely on the placid bust, spoke only
That one word, as if his soul in that one word he did outpour.
Nothing further then he uttered- not a feather then he fluttered-
Till I scarcely more than muttered, "other friends have flown before-
On the morrow he will leave me, as my hopes have flown before."
Then the bird said, "Nevermore."

Startled at the stillness broken by reply so aptly spoken,
"Doubtless," said I, "what it utters is its only stock and store,
Caught from some unhappy master whom unmerciful Disaster
Followed fast and followed faster till his songs one burden bore-
Till the dirges of his Hope that melancholy burden bore
Of 'Never- nevermore'."

But the Raven still beguiling all my fancy into smiling,
Straight I wheeled a cushioned seat in front of bird, and bust and door;
Then upon the velvet sinking, I betook myself to linking
Fancy unto fancy, thinking what this ominous bird of yore-
What this grim, ungainly, ghastly, gaunt and ominous bird of yore
Meant in croaking "Nevermore."

This I sat engaged in guessing, but no syllable expressing
To the fowl whose fiery eyes now burned into my bosom's core;
This and more I sat divining, with my head at ease reclining
On the cushion's velvet lining that the lamplight gloated o'er,
But whose velvet violet lining with the lamplight gloating o'er,
She shall press, ah, nevermore!

Then methought the air grew denser, perfumed from an unseen censer
Swung by Seraphim whose footfalls tinkled on the tufted floor.
"Wretch," I cried, "thy God hath lent thee- by these angels he hath sent thee
Respite- respite and nepenthe, from thy memories of Lenore!
Quaff, oh quaff this kind nepenthe and forget this lost Lenore!"
Quoth the Raven, "Nevermore."

"Prophet!" said I, "thing of evil!- prophet still, if bird or devil!-
Whether Tempter sent, or whether tempest tossed thee here ashore,
Desolate yet all undaunted, on this desert land enchanted-
On this home by horror haunted- tell me truly, I implore-
Is there- is there balm in Gilead?- tell me- tell me, I implore!"
Quoth the Raven, "Nevermore."

"Prophet!" said I, "thing of evil- prophet still, if bird or devil!
By that Heaven that bends above us- by that God we both adore-
Tell this soul with sorrow laden if, within the distant Aidenn,
It shall clasp a sainted maiden whom the angels name Lenore-
Clasp a rare and radiant maiden whom the angels name Lenore."
Quoth the Raven, "Nevermore."

"Be that word our sign in parting, bird or fiend," I shrieked, upstarting-
"Get thee back into the tempest and the Night's Plutonian shore!
Leave no black plume as a token of that lie thy soul hath spoken!
Leave my loneliness unbroken!- quit the bust above my door!
Take thy beak from out my heart, and take thy form from off my door!"
Quoth the Raven, "Nevermore."

And the Raven, never flitting, still is sitting, still is sitting
On the pallid bust of Pallas just above my chamber door;
And his eyes have all the seeming of a demon's that is dreaming,
And the lamplight o'er him streaming throws his shadow on the floor;
And my soul from out that shadow that lies floating on the floor
Shall be lifted- nevermore!

Foreign Words - Mário Quintana

Monumento a Carlos Drummond de Andrade e a Mário Quintana,
por Francisco Stockinger, na Praça da Alfândega, Porto Alegre
foto: Ricardo André Frantz

Poetic Art

Those poets who say that all
Nothing can say:
They are just writing reports...

[in Velório Sem Defunto, 1990]

Arte poética

Esses poetas que tudo dizem
Nada conseguem dizer:
Estão fazendo apenas relatórios...

[in Velório Sem Defunto, 1990]

Editorial

Business Man, by Sebastian Govino

“É preciso encontrar a palavra mágica
para se elevar o canto do mundo”

~ Joseph Freiherr von Eichenddorf (1778-1857).

“habent sua fata verba”
~ in Pequeno Livro dos Rancores

TUDA Dezembro ~ Dezembro TUDA! Gostaria que fosse de luto este natal, esta TUDA:

Luto pela morte da miséria,
     Luto pela morte da maldade,
          Luto pela morte da ganância,
               Luto pela morte da ignorância.

Se mortos estivessem estes quatro cavaleiros do apocalypse humano, teríamos mais motivos para comemorar; fosse os presentes de Papai Noel, debaixo da árvore ou sobre a lareira, fosse o nascimento de Jesus, fosse o fim da opressão religiosa, ou outro motivo qualquer, nem importaria tanto, que com corpo e mente na calma e na tranquilidade iríamos longe, ah iríamos, e teríamos um natal de justa medida, e assim o novo-ano nos seria mais leve...

Mas se os quatro do apocalypse ainda vagam pela Terra, certamente buscam algo... talvez estejam à caça dos Grandes Tesouros da humanidade, na esperança de eliminá-los. Tempo, Bom-Senso, Sabedoria, Compaixão e, talvez o mais valioso de todos, e consequentemente o mais difícil de se obter, Humildade.

Incrível o poder inverso que a humildade exerce nas pessoas: quanto mais humilde alguém se mostra, se apresenta, mais falta humildade no outro, próximo ou distante. É como se a humildade, não humilde ela mesma, não suportasse a convivência com outra de sua própria espécie, e travasse então uma batalha de nervos, onde apenas uma vence, botando a outra pra correr!

E se você for o azarado da humildade derrotada, só lhe resta rezar, camaradinha, rezar para que um resquício qualquer de bom-senso o desperte da arrogância alucinada na qual você provavelmente estará atolado, a discursar absurdos cheios de propriedades... e com um pouco de sorte, você se retrairá a tempo de salvar um pouco de dignidade.

E se de algo me falto, nesta minha busca da humildade, também disso me alimento, já que a pele é a melhor escola - tudo que se sente na pele sente-se mais; tudo o que se aprende pela pele nos marca mais.

Sem saber direito se é humilde ou a própria encarnação da humildade, vem esta TUDA, com ou sem LUTO, cheia de sí mesma, que só ela se bastava: claro, graças aos leitores e aos colaboradores, dentre eles os já conhecidos pyndahýbicos, uns já partidos, outros ainda não (toc, toc, toc), destemundo & d'outraléns, mais os colaboradores usuais e os esporádicos também. TUDA entudece-se, e agradece a todos!

É isso aí companheiros, na velha e suja LabUTA do dia a dia, que não bastasse ser suja, por vezes é podre, e mesmo onde se espera compaixão encontra-se a oportunidade; onde se espera a solidariedade se encontra o egoísmo; onde se espera a generosidade se encontra a avareza; mostrar-se bom não nos faz bons, é preciso mais... muito mais, e os donos do mundo não vão colocar a mão em seus bolsos empachado de dinheiros, isso não, pois assim como a Língua e a Consciência, ambas todo o bem e todo o mal do homem, o Capital é todo o bem e todo o mal da humanidade, e exige muito bom-senso, sabedoria, e compaixão!

TUDA Dezembro no prelo
"Há 10 tipos de pessoas no mundo:
as que entendem binário e as que não entendem."
(Frank McCown)

Asyno Eduardo Miranda

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o (auto-proclamado) editor
deste porto semisseguro da jlha do Eire
oje, vigzº terº dia do dezº segº mez
d este Anno Domini de MMXIII

Conto - Eduardo Miranda


Jeremia Não Escrevia

Jeremia não escrevia. Jeremia pouco lia e nada escrevia. Isso durante onze meses e 3 semanas do ano. Sabe-se lá o que acontecia com Jeremia que em épocas natalinas, mais precisamente na semana que antecedia o natal, se dava a escrever, compulsivamente! Embora possa parecer bom, para Jeremia era um tormento! Jeremia escrevia para por para fora... por para fora todo aquele sentimento que, de repente, brotava em seu peito, e que ele chamava de sentimento anti-natalino, que era o oposto do espírito de natal.

Quando criança, Jeremia perguntara ao pai porque não se chamava Jeremias, e o pai respondeu “Pruque tu é um só”.

Assim era o natal de Jeremia: onde as pessoas sentiam amor, Jeremia sentia ódio, onde as pessoas sentiam compaixão, Jeremia sentia desdém, onde as pessoas sentiam solidariedade, Jeremia sentia indiferença. Mas quem conhecia Jeremia sabia que ele era uma pessoa boa. Por onze mêses e três semanas do ano, Jeremia era um exemplo de amigo, colega, vizinho. Mas quando chegava aquela semana, Jeremia se transformava... ficava desesperançado, amargo, frio, indiferente, e enquanto as pessoas se confraternizavam, Jeremia se isolava. Se isolava e escrevia Jeremia. Compulsivamente.

De pequeno Jeremia não entendia muito das coisas. Um dia perguntou para mãe se o seu Manuel da padaria havia lhe batido. A mãe estranhou e disse que não, por quê? Jeremia disse que depois que seu Manuel chegou e entrou no quarto com mãe, mãe não parou de gritar. Naquele dia Jeremia aprendeu que voltar da escola mais cedo com dor de barriga significava uma surra.

Escrevia Jeremia, Jeremia escrevia. Toda aquela amargura, tristeza, desesperança... tudo ia na escrita de Jeremia, que não via a hora disso tudo acabar. Jeremia escrevia sobre a ganância das pessoas e sua conduta moral, sobre seu caráter, sua falsidade...
(...)
Mas se são de solidariedade os tempos, de compaixão e amor ao próximo, por que não realmente pregamos esses sentimentos? Por que ainda viramos as costas para um pedinte, para depois sentirmos pena? Se não adianta dar esmolas, esmolar também não vai fazê-lo nem mais nem menos miserável, ele provavelmente sabe disso, na própria pele! Mas aquele trocado pode salvar-lhe o dia – seja para um prato de comida, seja para um trago de pinga. Quem aí vai julgar?!? O que incomoda mesmo é a presença... ah, se pudéssemos simplesmente eliminá-los! Sim, a eliminação é possível, mas não como faz a polícia de certos Estados, e sim de maneira humana! E sua arma, camarada, é a consciência – igualmente toda a força e toda a fraqueza do homem. Por isso, enquanto estiver se empaturrando de perú e cerveja, não precisa pensar que tem gente remexendo o lixo e morrendo de fome, não... seria muita hipocrisia, e de hipocrisia a humanidade já está cheia. Quando estiver enchendo o rabo de perú, desejando saúde, paz, prosperidade e harmonia para os seus amados amigos e familiares, não precisa nem se esforçar muito... apenas sinta, de verdade, e carregue esses sentimentos ano afora – eu sei, é difícil, mas garanto que vai lhe doer menos...
Nos textos, Jeremia, que nunca escrevia, punha para fora essas coisas, coisas de pai, mãe e família, que não lembrava direito, pois depois que o pai havia se matado, Jeremia muito jovem, passara o resto da infância e adolescência de orfanato em orfanato... vários. Dos irmãos Jeremia não sabia – só sabia que cada um teve um destino diferente.

Geralmente Jeremia queria ver o natal passar rápido, rasteiro, mas ultimamente a coisa vinha mudando, ano após ano! Jeremia percebia que quando escrevia, punha para fora sentimentos alheios aos outros, mas também percebia que, fora da época natalina, quando não escrevia, sentia sentimentos igualmente não compartilhados... E quando concientizou-se de que isso era mais penoso do que escrever, Jeremia deixou de querer que o natal não chegasse, para desejar que o natal não acabasse. Se ele pudesse, escreveria sem parar, numa espécie de manifesto sobre essa hipocrisia toda que alimenta as pessoas, e o próprio ciclo da vida.

Estranha figura era Jonatã, o pai de Jeremia. Não chorava, não sorria. De nada reclamava, e por ninguém sentia. Diziam que ficara assim por causa de Eleonora, mulher infiel. Não teve coragem de largá-la por causa dos filhos Jacira, Jeremia, Jildete, Joel, Juvenal e Agripina. Talvez não tanto por causa de Agripina, filha bastarda, que mais bastarda ficou quando a mãe morreu dando a luz a ela. Culpa Agripina não tinha, mas na cabeça de Jonatã, a filha bastarda era sua única desculpa.

Embora Jeremia não tenha conseguido conspirar com o universo e fazer com que o natal não acabasse, conseguiu um trato melhor: manter aquela amargura, aquele desprezo, aquele ceticismo, pelo resto do ano dentro dele, e agora só escrevia Jeremia... enlouquecido, Jeremia não comia, não bebia, não falava, não dormia... Ficou conhecido como o louco que escrevia.

Quisera Jeremia que o que escrevia mudasse o que toda gente sentia, mas Jeremia sabia que não passava de utopia, e assim escrevia Jeremia, escrevia, e apenas escrevia...

Tradução - Eduardo Miranda

Marley's Ghost ~ John Leech, 1843
Copy of Original illustration from
Charles Dickens' "A Christmas Carol"
O Verdadeiro Natal
Henry Vaughan (1678)

Então, roube alguns louros e algumas heras,
Em seguida, restaure os caminhos da miséria.
O verde irá te lembra das primaveras,
Embora seja o dia de sonhos e quimeras.
A Terra se mortifica, e festeja a céu aberto
Toda a selvajaria, do depravado ao perverto.
Veste-se de rosas e espalha-se por todos os lados
Sobre a neve, com seus seios quentes e corados,
E naquele mesmo vestido de sua leveza
Reprime e murcha as flores de menor nobreza.
Devemos o brilho desta data imodesta
Não à música, à fantasia, nem à festa:
Não aos móveis chiques, nem às belas imagens;
Mas à simplicidade da manjedoura na estalagem.
Sua vida aqui, assim como Seu nascimento,
Serviu apenas à pompa e ao entretenimento;
E toda a grandeza do homem moderno
É contrastada pela humildade do Eterno.
Assim, deixe suas posses e seus bens,
Para recebê-Lo com as intenções de quem
Aceita o sagrado e cumpre a vigília:
As luzes e os cantos abençoarão sua família.
Do que possuem, conquistado na ganância
Para os que precisam, alivie sua abundância.
Quem assim se esvazia, recebe dobrado;
Negar isso é tanto renúncia como pecado.
Vista-se finamente, sem luxo,
Que o Natal vai ser-lhe justo.

The True Christmas
Henry Vaughan (1678)

So stick up ivy and the bays,
And then restore the heathen ways.
Green will remind you of the spring,
Though this great day denies the thing.
And mortifies the earth and all
But your wild revels, and loose hall.
Could you wear flowers, and roses strow
Blushing upon your breasts’ warm snow,
That very dress your lightness will
Rebuke, and wither at the ill.
The brightness of this day we owe
Not unto music, masque, nor show:
Nor gallant furniture, nor plate;
But to the manger’s mean estate.
His life while here, as well as birth,
Was but a check to pomp and mirth;
And all man’s greatness you may see
Condemned by His humility.
Then leave your open house and noise,
To welcome Him with holy joys,
And the poor shepherd’s watchfulness:
Whom light and hymns from heaven did bless.
What you abound with, cast abroad
To those that want, and ease your load.
Who empties thus, will bring more in;
But riot is both loss and sin.
Dress finely what comes not in sight,
And then you keep your Christmas right.

Editorial

Sonhos e paixões II ~ Gil Teixeira Lopes

“Debaixo da tempestade
sou feiticeiro de nascença
atrás desta reticência
tenho o meu corpo cruzado
e a morte não é vingança”,

~ Torquato Neto, in Engenho de Dentro, Diário.

Novembro TUDA ~ TUDA Novembro!

Sempre digo que quem parte deixa algo para trás, seja uma emoção, um lugar, um alguém... quem parte divide, quem parte quebra. E partir também significa dividir, separar... é o sentido não-galício da palavra, se nos permitirmos. E ainda assim podemos ver o sentido comum de quem parte - separação, divisão, quebra. Seja algo ou seja alguém, todo mundo parte, hora ou outra. Seja algo que provoque alterações no estado de alguma coisa, ou algo que mexa com as emoções de alguém.

Seja num corte, numa interrupção, num abalo... sempre haverá alguém a partir, a romper, a rachar, a fender... reduzindo em pedaços, fraturarando, fragmentando, infringindo... e sempre terá alguém enfraquecido, debilitado, abatido, perturbado, interrompido... alguém pensando em desfazer, em violar, em transgredir, em dissipar, em pôr termos a algo, e com tudo acabar!

Partir.

Todo mundo parte, ao menos uma vez... nem que seja a última partida, rumo à última parada...

parto como se saudoso fosse
solitárionauta nessa ilha-verde-do-nada
calo-me num grito tão alto
como o silêncio que aterroriza de branco
o canto escuro em que plantei poesia
num dia claro de verão paulista
artista sem o filtro das aglutinantes cores
nem branco tampouco preto
quieto & ausente dessentido e despresença
garimpo-galope louco de desejo
com pexeira & verbo na boca em riste
caiste rápino como pôde &
sobresaio eu deste ninho de conformes
disforme-alguém que fui & ao partir
parto cu'a impressão de ir tarde:
mas sem alarde, cumpadre, sem alarde...

Sem saber se parte ou se fica, chega esta TUDA, desencanada e fulgorosa, manipuladora do tempo lheio & alheio, mais para ficar do que para partir, partindo corações no balanço das horas, trazendo os já conhecidos pyndahýbicos, uns já partidos, outros ainda não (toc, toc, toc), destemundo & d'outraléns, lutando para ficar neste, vem TUDA, chegada & partida, lembremática, diagnóstica, suportiva de causas também nobres (mobro.co/eduardomiranda), TUDA homenageia Lou Reed - senão deus, que alguém o tenha! - e um pouco de Cecília Meireles, Torquato Neto, Bruno Tolentino, Cruz e Sousa, Zé Rodrix e Raduan Nassar, para temperar!

É isso aí companheiros, na velha e suja LabUTA do dia a dia, que não bastasse ser suja, imunda mesmo, pode mostrar-se também fedorenta e asquerosa. Abaixo os Grandes Irmãos dos países que têm seus estados todos unidos - no mapa e na arrogância de se acharem os senhores do mundo - mas que em suas próprias questões internas não conseguem juntar dois com dois para dar quatro. E como podem se achar tão superiores se ainda nem conseguiram se livrar da máscara que distingue branco de preto de amarelo e de vermelho! Espanta Obama estar vivo...

QG de TUDA Novembro
fotomontagem de Eduardo Miranda
Asyno Eduardo Miranda
o (auto-proclamado) editor
deste porto semisseguro da jlha do Eire
oje, dezº qvjmº dia do dezº primº mez
d este Anno Domini de MMXIII

Tradução - Eduardo Miranda

Lou Reed ~ Neal Barbosa

Aprendi com as Primaveras a me deixar cortar
para poder voltar sempre inteira.

~ Cecília Meireles

Um Dia Perfeito
Lou Reed

Apenas um dia perfeito
beber sangria no parque
E depois
mais tarde, vamos para casa

Apenas um dia perfeito
dar comida aos animais no zoológico
E então, mais tarde
um filme filosófico, e depois casa

Oh, mas que dia perfeito
Estou contente por passá-lo com você
Oh, um dia tão perfeito
Você me mantêm ligado
Você me mantêm ligado

Apenas um dia perfeito
todos os problemas são secundários
Domingueiros perambulando solitários
É super-divertido

Apenas um dia perfeito
você me fez esquecer quem eu sou
Tanto que eu me senti
alguém outro, alguém bom

Oh, mas que dia perfeito
Eu estou feliz de ter passado com você
Oh, um dia tão perfeito
Você me mantêm ligado
Você me mantêm ligado

Você vai colher o que você semeou
Você vai colher o que você semeou
Você vai colher o que você semeou
Você vai colher o que você semeou

Perfect Day

Just a perfect day
drink Sangria in the park
And then later
when it gets dark, we go home

Just a perfect day
feed animals in the zoo
Then later
a movie, too, and then home

Oh, it's such a perfect day
I'm glad I spend it with you
Oh, such a perfect day
You just keep me hanging on
You just keep me hanging on

Just a perfect day
problems all left alone
Weekenders on our own
it's such fun

Just a perfect day
you made me forget myself
I thought I was
someone else, someone good

Oh, it's such a perfect day
I'm glad I spent it with you
Oh, such a perfect day
You just keep me hanging on
You just keep me hanging on

You're going to reap just what you sow
You're going to reap just what you sow
You're going to reap just what you sow
You're going to reap just what you sow

Foreign Words - Celso de Alencar


Lou Reed Died

To Arruda and Alzira E

It was a picnic like Sunday at Lake Alice.
The woman with the tattooed arms
came in despair yelling, to her friends
who drank orange juice sitting in a large towel.
Lou Reed is dead. Dead is Lou Reed.
And they hugged and cried and suddenly the waters of the lake
started to bubble and all the people, with no exception,
who were there, felt the dripping hot water over their bodies.
And all the old men
more than one hundred and forty old men
all over sixty-five years
they held hands and under deep tears
they sang Vicious
and they were joined by the three friends
and the children and their parents and the puppies.
Everyone were singing and crying when the waters calmed down
and then a strong scent of wild rosemary hovered the air
but there was no rosemary shrubs on the shores of Lake Alice.
It was all very weird as there was no wind, nor birds
carrying rosemary leaves in their long colorful beaks.


Lou Reed Died

Para Arruda e Alzira E

Era um domingo de piquenique no Lago Alice.
A mulher com os braços tatuados
chegou gritando, desesperada, para suas amigas
que bebiam suco de laranja sobre uma grande toalha.
O Lou Reed morreu. Morreu o Lou Reed.
E elas se abraçaram e choraram e de repente as águas do lago
começaram a borbulhar e todas as pessoas, sem exceção,
que ali se encontravam, sentiram pingos de água quente sobre seus corpos.
E todos os homens velhos
mais de cento e quarenta velhos
todos com mais de sessenta e cinco anos
deram-se as mãos e debaixo de intensas lágrimas
cantaram a musica
Vicious
e a eles se juntaram as três amigas
e as crianças e seus pais e os cachorrinhos.
Todos cantavam e choravam quando as águas se acalmaram
e então um forte perfume de alecrim selvagem surgiu no ar
mas não havia pés de alecrim nas margens do Lago Alice.
Foi tudo muito estranho pois não havia ventania, nem pássaros
transportando folhas de alecrim em seus longos bicos coloridos.

Foreign Words - Cruz e Souza

The Endless Summer ~ Benjamin Girard
The leading figure of the Symbolist movement in Brazil, Cruz e Sousa was the son of freed slaves. His poetry weds the technical principles of French Symbolism to themes drawn from his social concerns and his own personal suffering. This poem describes a skull, emphasizing that we are all the same, and the death takes us all, either white or black.

Skull ~ Cruz e Souza

“Eu vou roer até o osso o corpo da tua palavra”
~ Zé Rodrix in Compota de Cereja

I

Eyes which were eyes, two holes
Neither green nor blue, cold and dull...
Two dark eyeholes in a deep stroll
Skull!

II

Nose of delicate feature, insolent,
Shaped not to be lenient but cruel.
What's been done of the sweet scent?
Skull! Skull!!

III

Mouth of white teeth and lips
Kindly rounded and almost wailful.
Where the smile, the laugh, the quips?
Skull! Skull!! Skull!!!

Caveira

I
Olhos que foram olhos, dois buracos
Agora, fundos, no ondular da poeira...
Nem negros, nem azuis e nem opacos
Caveira!

II
Nariz de linhas, correções audazes,
De expressão aquilina e feiticeira,
Onde os olfatos virginais, falazes?!
Caveira! Caveira!!

III
Boca de dentes límpidos e finos,
De curva leve, original, ligeira,
Que é feito dos teus risos cristalinos!?
Caveira! Caveira!! Caveira!!!

Autores

Ademir Demarchi Adriana Pessolato Adília Lopes Afobório Agustín Ubeda Alan Kenny Alberto Bresciani Alberto da Cunha Melo Aldo Votto Alejandra Pizarnik Alessandro Miranda Alexei Bueno Alexis Pomerantzeff Ali Ahmad Said Asbar Almandrade Alyssa Monks Amadeu Ferreira Ana Cristina Cesar Ana Paula Guimarães Andrew Simpson Anthony Thwaite Antonio Brasileiro Antonio Cisneros Antonio Gamoneda Antonio Romane António Nobre Ari Candido Fernandes Ari Cândido Aristides Klafke Arnaldo Xavier Atsuro Riley Aurélio de Oliveira Banksy Bertolt Brecht Bo Mathorne Bob Dylan Bruno Tolentino Calabrone Camila Alencar Carey Clarke Carla Andrade Carlos Barbosa Carlos Bonfá Carlos Drummond de Andrade Carlos Eugênio Junqueira Ayres Carlos Pena Filho Carol Ann Duffy Carolyn Crawford Cassiano Ricardo Cecília Meireles Celso de Alencar Cesar Cruz Charles Bukowski Chico Buarque de Hollanda Chico Buarque de Hollanda and Paulo Pontes Claudia Roquette-Pinto Constantine Cavafy Conteúdos Cornelius Eady Cruz e Souza Cyro de Mattos Cândido Rolim Dantas Mota David Butler Denise Freitas Desmond O’Grady Dimitris Lyacos Dino Valls Dom e Ravel Donald Teskey Donizete Galvão Donna Acheson-Juillet Dorival Fontana Dylan Thomas Décio Pignatari Edgar Allan Poe Edson Bueno de Camargo Eduardo Miranda Eduardo Sarno Eduvier Fuentes Fernández Elaine Garvey Elizabeth Bishop Enio Squeff Ernest Descals Eugénio de Andrade Evgen Bavcar Fernando Pessoa Fernando Portela Ferreira Gullar Firmino Rocha Francisco Niebro George Callaghan George Garrett Gey Espinheira Gherashim Luca Gil Scott-Heron Gilberto Nable Glauco Vilas Boas Gonçalves Dias Grant Wood Gregório de Matos Guilherme de Almeida Hamilton Faria Henri Matisse Henrique Augusto Chaudon Henry Vaughan Hilda Hilst Hughie O'Donoghue Husam Rabahia Ian Iqbal Rashid Ingeborg Bachmann Issa Touma Italo Ramos Itamar Assumpção Iulian Boldea Ivan Donn Carswell Ivan Justen Santana Ivan Titor Ivana Arruda Leite Izacyl Guimarães Ferreira Jacek Yerka Jack Butler Yeats Jackson Pollock Jacob Pinheiro Goldberg Jacques Roumain James Joyce James Merril James Wright Jan Nepomuk Neruda Jason Yarmosky Jeanette Rozsas Jim McDonald Joan Maragall i Gorina Joaquim Cardozo Joe Fenton John Doherty John Steuart Curry John Updike John Yeats Josep Daústin José Carlos de Souza José Geraldo de Barros Martins José Inácio Vieira de Melo José Miranda Filho José Paulo Paes José Ricardo Nunes José Saramago José de Almada-Negreiros João Cabral de Melo Neto João Guimarães Rosa João Werner Junqueira Ayres Kerry Shawn Keys Konstanty Ildefons Galczynski Kurt Weill Leonardo André Elwing Goldberg Lluís Llach I Grande Lou Reed Luis Serguilha Luiz Otávio Oliani Luiz Roberto Guedes Luther Lebtag Léon Laleau Lêdo Ivo Magnhild Opdol Manoel de Barros Marco Rheis Marcos Rey Mari Khnkoyan Maria do Rosário Pedreira Marina Abramović Marina Alexiou Mario Benedetti Mario Quintana Mariângela de Almeida Marly Agostini Franzin Marta Penter Marçal Aquino Masaoka Shiki Maser Matilde Damele Matthias Johannessen Michael Palmer Miguel Torga Mira Schendel Moacir Amâncio Mr. Mead Murilo Carvalho Murilo Mendes Márcio-André Mário Chamie Mário Faustino Mário de Andrade Mário de Sá-Carneiro Nadir Afonso Nuala Ní Chonchuír Nuala Ní Dhomhnaill Nâzım Hikmet Odd Nerdrum Orides Fontela Orlando Gibbons Orlando Teruz Oscar Niemeyer Osip Mandelstam Oswald de Andrade Pablo Neruda Pablo Picasso Patativa do Assaré Paul Funge Paul Henry Paulo Afonso da Silva Pinto Paulo Cancela de Abreu Paulo Henriques Britto Paulo Leminski Pedro Du Bois Pedro Lemebel Pete Doherty Petya Stoykova Dubarova Pink Floyd Plínio de Aguiar Pádraig Mac Piarais Qi Baishi Rafael Mantovani Ragnar Lagerbald Raquel Naveira Raul Bopp Regina Alonso Renato Borgomoni Renato Rezende Renato de Almeida Martins Ricardo Portugal Ricardo Primo Portugal Ronald Augusto Roniwalter Jatobá Rowena Dring Rui Carvalho Homem Rui Lage Ruy Belo Ruy Espinheira Filho Ruzbihan al-Shirazi Régis Bonvicino Salvado Dalí Sandra Ciccone Ginez Santiago de Novais Saúl Dias Scott Scheidly Seamus Heaney Sebastian Guerrini Sebastià Alzamora Shahram Karimi Shorsha Sullivan Sigitas Parulskis Silvio Fiorani Smokey Robinson Sohrab Sepehri Sophia de Mello Breyner Andresen Souzalopes Susana Thénon Susie Hervatin Suzana Cano Sílvio Ferreira Leite Sílvio Fiorani The Yes Men Thom Gunn Tim Burton Tomasz Bagiński Torquato Neto Túlia Lopes Vagner Barbosa Val Byrne Valdomiro Santana Vera Lúcia de Oliveira Vicente Werner y Sanchez Victor Giudice Vieira da Silva Vinícius de Moraes W. B. Yeats W.H. Auden Walt Disney Walter Frederick Osborne William Kentridge Willian Blake Wladimir Augusto Yves Bonnefoy Zdzisław Beksiński Zé Rodrix Álvaro de Campos Éle Semog