Definição

... da totalidade das coisas e dos seres, do total das coisas e dos seres, do que é objeto de todo o discurso, da totalidade das coisas concretas ou abstratas, sem faltar nenhuma, de todos os atributos e qualidades, de todas as pessoas, de todo mundo, do que é importante, do que é essencial, do que realmente conta...
Em associação com Casa Pyndahýba Editora
Ano VI Número 63 - Março 2014

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Editorial

Advertising Agency: Leo Burnett, New Delhi, India. Copywriter: Rondeep Gogoi. Art Director/Illustrator: Sumonto Ghosh
"Do not fear death so much, but rather the inadequate life."
Bertolt Brecht, The Mother, 1932
É TUDA, TUDA, TUDA, é hora, hora, hora, rá-tim-bum, rá-tim-bum, rá-tim-bum, nasceu, nasceu, nasceu!!! TUDA é vov(ó/ô)! Já não era tempo - 3 anos e algo para uma revista de poesia literatura & arte é uma realização e tanto! A continuidade está garantida! Bemvindo João Henrique, e que a Terra lhe seja leve - afinal, que mundo é este?!?

TUDAOUTUBROTUDA comemora o nascimento mas também a morte - farinhas do mesmo saco - nos motivos gregos que foi buscar pessoalmente - em papel e elétrons - nas terras & nas águas gregas enquanto ainda gregas (que as belas ilhas gregas permaneçam germanicamente afastadas para sempre do sempre, se é assim que há de ser e será)!

Já que Hades raptou Perséfone, filha de Deméter, e criou a simbologia da riqueza do subsolo (subsenhor), que fornece os minerais e faz brotar de seu âmago as sementes (vida e morte), falemos também aqui de vida e morte!

E como nada em TUDA é combinado e sim improvisado, reúnem-se aqui os já sempre & sempre esperados pyndahýbicos Arnaldo Xavier, Roniwalter Jatobá, José Geraldo de Barros Martins e este mesmo que vos escreve, vulgo Eduardo Miranda. Também os não-menos esperados habitués Cesar Cruz, Dorival Fontana, Hamilton de Faria, José Miranda Filho, Pedro Du Bois, Ronald Augusto e Santiago de Novais, além da poesia de Plínio de Aguiar.

E por eu mesmo dar luz a TUDA num Machintosh, um tributo a Steve Jobs, que iPassed esta semana, deixando menos Jobs num mundo já carente deles! Humor branco, anyway...

Errata:

TUDA Setembro trouxe a tradução do poema de Hamilton Faria, mas por problemas técnicos o "link" estava "quebrado". Confiram a tradução aqui: http://tuda-papeleletronico.blogspot.com/2011/09/foreign-words-hamilton-faria.html.

É isso companheiros... na LUTA, só por hoje, devagar & sempre, e TUDA de Bom!

Eduardo Miranda
O (auto-proclamado) Editor


P.S.: por um problema "legal" com a Google/GoDaddy, mudei meu "portal" de eduardomiranda.info para edotm.info. Pode ser com http://, com www, com http://www, ou mesmo sem nada... você chega lá!!!

Dívida Interna


Editor
Eduardo Miranda

Capa
José Geraldo de Barros Martins

Digitação
Eduardo Miranda & Teresa Thinen

Revisão
Dos autores...

Colaboradores
Arnaldo Xavier, Cesar Cruz, Dimitris Lyacos, Dorival Fontana, Eduardo Miranda, Hamilton de Faria, José Geraldo de Barros Martins, José Miranda Filho, José Paulo Paes, Magnhild Opdol, Pedro Du Bois, Plínio de Aguiar, Ronald Augusto, Roniwalter Jatobá, Santiago de Novais.

E-mail
tuda.papel.eletronico@gmail.com

Poesia - Arnaldo Xavier

Painting from Salvador Dali

(...)

geométrica tristeza sendo afeto portátil utensílio
cristalino paiol sido Bacia de olhos felinos
Vida da morte sendo a mesma velha armadilha

apaga acende chama sendo irreversível curva
Martelo adorado sido jóias de grávida cadela
cristãs gotas cadentes sendo filhos de incêndio

alucinautas febris sendo Essência alada condição
negra verticalidade sido doce fera evangélica
ressurreição brilha sendo sêmen laço eventual

idade solterrada sendo Torre língua vertical
cavalo de pau sido arco cravado sonho voa
a corrigir curso sendo todo dia se refaz nua

ilha arbitrária frase de vento sendo caís caligrafia
pedaço de espírito dança sido nirvana relativa raiz
réplica crua de fé sendo chuva datilografa inverno

nascente ventre reluz sendo espada dourada
flutua prédio descrente sido espaço mortal
serpente inexato mirante sendo inexplicável

(...)

[ in ÔlhÔs de Xadrez, inédito ]

Poesia - Plínio de Aguiar

Bad Mad Sad, by Paul Pulszartti

Louco da Aldeia
Tamanho horror inspira o homem
a seu próprio semelhante!
Lautréamont
Passas negro
paletó negro
camisa e calça e sandálias
negras
todo negro
tudo negro.

Passas duro e com unhas sujas
fumando baga garimpada na calçada
elegância dos indiferentes.

Samuca
(olhos também negros)
carvão riscas a avenida
e avisas o eterno em pane.

Plínio de Aguiar
SSA, setembro 2011
SSA, julho 2010

Poesia - Hamilton Faria

Dreamer, Watercolor by Kathryn Marks

Palavras Úteis

Viver é esperançador !
Pra que tanta azuleza, senhor dia?
Tenho certeza, é um tempo enceguecedor.
A simpleza é uma virtude alta.
Nasci ensonhado,
Morrerei sonhante,
Após viverei o mistério do ensonhamento.
Brutez é a derrota da linguagem
ensina-me o poeta Pedro Garcia.
A minha aprendência me tornou um ser inútil.
Com todo o alumbramento
O poeta é um ser inútil.
Mas com sua inutileza
Dá a ver o que não era.

Poesia - Santiago de Novais

Foto retirada da Internet, enviada pelo autor

Mauritsstad ou a Vã Glória de Viver (Carta de Alforria)
A cidade do Recife permaneceu portuguesa, exceto entre
1630-1654, período de sua ocupação holandesa. Ainda no século XVI foi atacada e saqueada pelo pirata James Lancaster. Foi a capital do Brasil holandês, que ia do Ceará até  Alagoas.

OouOoOu! Xiu! Prá lá a educação: ustedes são brutos!
Sou o James Lancaster da PQP – vim saquear.
Rendam-se porra!
Mudo seu nome de novo de Mauritsstatd Para Qualquercoisasstad ou Nossohaitisstad
Ódio de me fazerem me sentir burguês.
Este sol e esta claridade faz-me  sentir inútil,
Só  encontro gente suada, largada, estas são suas riquezas?
Nem mover, nem nada, pra que?
Eu gostaria de ficar com o que há de tu, mais bem
Para além da pessoa:
Fiteiro: não quero deixar de viver, mas posso te matar.
Gagau: você é quem sabe.
Pergunta: escondidinho, bem ligeiro, galinha de puta.
Moléstia: tu és frango.
Modéstia: (fica em branco).
Mundiça: mijar na rua.
Meu mundo vencido, coisas caindo abaixo, Olindaavista desprezada, forte feio, sem canhão.
Antes uma respiração barroca, agora um último suspiro.
Tás morta?, arrecifes por dentro encharcando a falta de disfarces sobre a miséria,
           excesso de pornô-claridade western-northern pondo mais mofo na minha memória.
Se fosse escuro este lugar e tivesse menos sol, que nome lhe daria?
Que burros portugueses, tivessem ficado dutch nem tubarão na praia, nem o brega - Concertgebouw.
Consciência abrupta de alguém que estende a mão, branca, a uma mão preta,
E encontram anzóis ancestrais de engenhos, mãozinhas pretas, quentes, sorriso. Sorriso é sua riqueza.
Foda-se este tal de Pieter Post e seus 300 macacos, Vrijburgh, a cidade ainda se envergonha de não se possuir! Crianças do sexo no verão por 10US$,  às moscas -
Levo Recife ou deixo amadurecer no sol mais um pouco?
Fora este escrito - Contribuí com o que? Comprei galinhas de angola de terracota por 2 conto?  Ainda te amo cidade verde e dentro de mim uma raiva louca, de não controlar suas ondas verdes que comem avenidas,  expulsar  tubarões, prender maus políticos, proibir charters do sexo, ajudar os pobres lindos como os Coqueiros do Paiva.
 Tapiocasstad. Não se rendam porra!
(Ao fim um Protesto:  4 reais no convento, vergonha chamar a ver 30 azulejos portugueses caindo aos pedaços e quebrados na rua com cheiro de mijo.)               Ei – psiu -te amo - Veneza suja.
O que vale a pena ver em ti é o que não preciso pagar. Vã glória de viver. Sorriso.
Onde esta prefeito-momo desta porra? Aqui só existe no Carnaval? Como te ver no resto do ano?
(To fingindo que sou de lá). Ah, quer saber deixa. Guararapes. Meus navios ficam. Eu volto. Não deves.

Poesia - Dorival Fontana

Symbiosis XI - Sucata
Kim Molinero

Amanhã

Ondas de um mar... sem mar.
Sepulcros na areia...
vestígios que se foram...
com o vento... que não sopra...
brisas, tormentas.
Dança das folhas secas...
sobre as árvores mortas.
Campos sem flores, sem cores.
Horizonte sem terra, sem céu.
Deselegante voo sem pássaros.
Curso d'água... sem água... sem curso.
Sintéticas florestas desflorescem.
Árido olhar fulminante,
sobre a planície incandescente...
vozes, cânticos, lamentos.
O homem redescobre
recicláveis tesouros de sucataria.

Poesia - Pedro Du Bois

Vase painting of ancient greek olympic games

Resultado

Certos jogos gritam resultados
trancados em gargantas
afogadas em líquidos

reaparecem em esbirros
                              espirros
                           no acordo
              desacordado em regras:

              ao vencedor
              cabe o barulho
              infernal do nada
  quantificado no instante.

Depois a vida segue o trajeto
previamente decorado: ao vencedor
resta a tênue lembrança
do que esquece.

Crônica - Roniwalter Jatobá

Grey Day - George Grosz

O observador inglês

– O brasileiro diz que o seu país é cheio de corrupção!

Quem fez essa afirmação, tão atualíssima em relação ao nosso país, foi o escritor Rudyard Kipling, Prêmio Nobel de Literatura de 1907, no começo do século 20, depois de alguns dias em visita ao Brasil.

Vamos à história. Kipling chegou ao Rio de Janeiro, então capital da República, no final da tarde de 13 de fevereiro de 1927. Foi recebido com festa. Numa recepção na Academia Brasileira de Letras, estavam presentes dezessete acadêmicos, de Afonso Celso a Coelho Neto, além dos embaixadores da Inglaterra, França, Estados Unidos, Argentina, diplomatas, e Getúlio Vargas, na época ministro da Fazenda.

Na segunda semana de março, Kipling desembarcou do navio Sierra Cordoba, no porto de Santos, em companhia do advogado Alexander Mackenzie, vice-presidente da Light. O romancista e poeta era uma celebridade literária mundial e “cantava as glórias perenes” da Inglaterra, ainda a maior potência colonial do mundo. Em prosa e verso, exaltava a coragem com que os ingleses enveredavam por terras estranhas no continente asiático e, com “sacrifícios”, levavam a este mundo o estilo de vida britânico.

O canadense Alexander Mackenzie, também súdito de sua majestade (na época o rei Jorge V), acompanhou Kipling do Rio a São Paulo para mostrar, em Cubatão, o trabalho da Light na Serra do Mar – as represas e uma usina elétrica. Tudo por interesse. Afinal, uma impressão favorável no Morning Post, de Londres, onde o escritor publicava seus relatos de viagem, seria um excelente negócio para a empresa canadense, já que seu capital era também inglês e suas ações, negociadas na Bolsa de Londres.

Relatou o escritor, nascido em Bombaim, Índia, sobre a terra de contrastes: “Chegamos a Santos, porto de São Paulo, sob a claridade bronzeada de um céu da África Ocidental, subimos um tortuoso rio holandês. Montões de bananas desciam o rio em barcaças e se juntavam às cargas verdes de vapores cremes com chaminés pretas e vermelhas. A atmosfera é a do Sul da Índia. Saímos da cidade por uma estrada vermelha. O carro entrou por uma via lateral que lembrava o sopé do Himalaia, embora o clima fosse tão quente como o de Madrasta.”

Na verdade, Kipling veio, viu e não gostou do complexo hidrelétrico construído pela Light.

– Ridiculamente fácil – escreveu em seu jornal.

Mas ficou deslumbrado com a Serra do Mar e “as generosas tempestades tropicais”.

Em São Paulo, o escritor ficou hospedado no hotel Esplanada, um dos mais chiques do centro da cidade. Foi a uma recepção no São Paulo Athletic Club e visitou “na extremidade de um dos intermináveis subúrbios de São Paulo, uma fazenda de criação de cobras onde se preparam e distribuem soros contra as dentadas de cobras venenosas, que são abundantes por aqui”. Era o Instituto Butantã.

Antes de seguir para o Uruguai e Argentina, Kipling, que mostrava muito interesse pelo que hoje se chama de ecologia, ficou fascinado com dois exemplares da nossa fauna: a onça e o tatu. Contam que ganhou e levou para a Inglaterra um tatu-bola, que em sua terra exibia para os amigos.

O escritor inglês, nascido em 1865, faleceu em 1936. O saudoso jornalista e cronista Otto Lara Resende escreveu certa vez na Folha de S. Paulo que fez muita pesquisa e não descobriu o que aconteceu, em terras inglesas, com o tatu-bola, agora em risco de extinção.

Sabemos, no entanto, que hoje, infelizmente, o Brasil ainda ocupa uma bela posição na lista suja da corrupção global. Os brasileiros, ouvidos pelo observador inglês há quase oito décadas, tinham razão.

Conto - José Geraldo de Barros Martins

Ilustração de José Geraldo de Barros Martins

Redes Sociais

Após horas e horas de meditação Genésio Amarildo definiu a estratégia que iria usar para conseguir uma namorada: iria criar uma identidade falsa em uma destas redes sociais... até aí nada de novo, só que a idéia de nosso protagonista era bastante original: invés de colocar um foto de outra pessoa ou de se passar por milionário, Genésio Amarildo colocou um foto dele (por fora ele se mostrava como era), porém por dentro ele alterou completamente seu perfil...

"- hoje em dia é tudo aparência, e nada de conteúdo... de aparência eu não estou mal e não tenho motivo algum para não botar uma fé na minha estampa, porém meus gostos não batem com da maioria, se mostrar o que penso não serei aceito... vou criar uma identidade vazia, de uma boçalidade superficial, um tipo bem chucro, bem imbecil mesmo... aí serei um sucesso com a mulherada.”

A partir daí aparece mais um usuário destas redes sociais:

mais um que adora camarão na moranga (quando o verdadeiro Genésio Amarildo preferia o clássico camarão a grega),

mais um que ouve Kenny G (quando o verdadeiro Genésio Amarildo ouvia Cannonball Adderley),

mais um que estava lendo “Marley e Eu¨ de John Grogan (quando o verdadeiro Genésio Amarildo lia “Pornopopéia” de Reinaldo Mores)...

... e assim por diante...

Então ele começou a se relacionar virtualmente com diversas pessoas, mas ele não achava nenhuma delas suficientemente interessante para tentar marcar um encontro... até que ele viu uma foto de Albeta Arrelia: uma morena linda, uma verdadeira estátua em forma humana, e com uma expressão de alguém inteligente, apesar de gostar de ouvir Kenny G e de ter opiniões sobre a vida imbecis e superficiais, aliás tanto quanto as do Genésio Amarildo fictíco.

Ela também parece que gostou do nosso protagonista, tanto que uma semana após se conhecerem virtualmente, resolveram se conhecer pessoalmente. Marcaram encontro em um destes botecos clássicos falsificados. Genésio Amarildo chegou dez minutos antes do combinado, sentou-se pediu uma bebida que jamais pensou um dia beber: caipirinha de saquê com kiwi, e ficou observando as pessoas...

"- Será que ela vem??? Será que não é mais algum engôdo??? Será que ela colocou uma foto falsa??? Vamos ver se vejo alguma feinha solitária neste bar...”

Mas ele não viu nenhuma feinha solitária... o que ele viu foi uma verdadeira estátua em forma humana vir em direção a sua mesa e perguntar :

"- Genésio Amarildo???"

Ele ficou hipnotizado pelo olhar dela e após alguns instantes imóvel ele falou:

"- Sim sou eu... Nossa você é a Albeta Arrelia ??? Sente-se..."

Ela se sentou e pediu uma caipirinha de saquê (só que de morango), ele sugeriu batata frita e uma picanha no recheau (que ele pessoalmente achava fumegante & engordurante) ... ela aceitou...

"- Vocé é parente do palhaço Arrelia?" Ele perguntou.

"- Sempre me perguntam isso, mas não sou não. O meu sobrenome Arrelia é na verdade uma abraseilirazão do sobrenome de maus antepassados irlandeses, os O' Reilly."

Ele iria falar: “- Nossa a terra de James Joyce” , mas se conteve... ela jamais saberia nada sobre James Joyce...

E conversa vai, conversa vem, ele diz:

"- Salve o lindo pendão de seus olhos e a saúde que o olhar irradia."

... ele reparou que ela fez uma expressão desconfiada no início mas logo depois sorriu... ele também reparou na forma que ela segurava os talheres, era diferente... o garfo fica apontado para baixo, tal qual eles comem na Europa...

"- Muito esquisito alguém sem cultura segurar os talheres de uma forma como esta... vai ver é uma herança dos seus antepassados irlandeses..." - pensou

... e o encontro foi seguindo da forma corriqueira até que na hora da sobremesa ela pediu Morango com Chantilly... só que na hora de pedir, ela pronunciou a palavra “chantilly” corretamente, ou seja sem pronunciar o duplo LL...

"- É interessante reveillon todo mundo pronuncia “reveiôn”, mas chantilly ninguém pronuncia “chantiy”... ele pensou...

Mas aí era demais, alguma coisa estava errada... ela não era quem aparentava ser... então Genésio Amarildo disse:

"- Chega de fingir, Albeta Arrelia... quem você realmente é??? Você é muito mais requintada intelectualmente do que parece!!!"

"- Mas você também está fingindo que é um boçal!!! Pensa que eu não saquei aquela citação de Torquato Neto: salve o lindo pendão de seus olhos e a saúde que o olhar irradia”...

E então os dois descobriram que eram duas almas gêmeas, ambos tinham gostos semelhantes, só que fingiam ser quem não eram... mas agora que tudo estava esclarecido resolveram que não tinham mais necessidade de aguentar aquele fumacê gordurizante que agora vinha das outras mesas e decidiram pedir a conta...

"- Vamos para meu apartamento - ela falou – vou lhe mostrar uma gravação inédita que os Mutantes fizeram com Serge Gainsbourg: 'La Javannaise' e 'Le Premier Bonheur Du Jour', provavelmente gravadas em um intervalo dos shows que a banda paulistana fez no Olympia em 1969..."

"- Legal... vamos sim... só vou dar uma paradinha para comprar um champagne no meio do caminho, que além de celebrar o nosso primeiro encontro, servirá também para tirar da boca este gosto destas comidas medonhas e destas bebidas horríveis que estávamos tomando..."

"- Boa idéia, porque caipinhinha de saquê é de lascar... pensa que eu também não reparei que você fazia cara feia a cada gole que tomava???"

E assim o casal recém formado saiu daquela nuvem de gordura repleta de miasmas sebosos e seguiu para um futuro em que ambos simplesmente eram o que eram... somente o Genésio Amarildo e a Albeta Arrelia virtuais tiveram que mudar seus gostos e nunca mais puderam ouvir de novo o saxofone de Kenny G.

Conto - José Miranda Filho

Cangaceiro, 1955 - Cândido Portinari

Vim da terra vermelha e do cafezal.
As almas penadas, os brejos e as matas virgens
Acompanham-me como o espantalho,
Que é o meu auto-retrato.
Todas as coisas frágeis e pobres
Se parecem comigo.
Cândido Portinari

O Retrato do Sertão - 20 (Parte Final)

Padre Fausto foi informado da prisão de Catingueiro e Farinheira na manhã seguinte pelo soldado Esperidião que costumava assistir diariamente as missas das sete horas, antes de dirigir-se a Delegacia. O padre não conteve a reação e o temor de sabê-los detidos.

Esperidião, perplexo com o comportamento do padre, perguntou-lhe:

- Por que o receio pela prisão de dois vagabundos, padre?

Com o olhar fulminante de raiva, virou-se para Esperidião, mas nada respondeu!

Padre Fausto tinha razões suficientes para se preocupar. Temia que eles contassem ao Delegado que se encontraram no local do crime. Conhecia-os muito bem e sabia que não eram pessoas confiáveis. Sua reputação social e religiosa estava em perigo! Precisava vê-los imediatamente, antes que dessem qualquer depoimento. Atrelou a carroça, chamou Chiquinho para acompanhá-lo, e se mandou para a delegacia.

Não houve tempo! O Delegado já os tinha inquiridos. Pelo depoimento minucioso e contundente de Catingueiro, o Delegado, não obstante sua indicação ao cargo ter tido o aval de padre Fausto, mandou intimá-lo para comparecer à delegacia e se inteirar do teor das declarações. No momento em que o escrivão redigia a intimação, o padre chegou. Conversou com o Delegado, e solicitou-lhe permissão para se encontrar com os depoentes. O delegado lhe disse que já havia antecipado o depoimento deles, e que se o padre quisesse ter ciência dos que eles disseram, com muito prazer o atenderia, só não podia alterar nada. Já estava tudo registrado, mas que ouviria de bom grado o que ele tinha a lhe dizer.

- Se necessário padre, mesmo sabendo doloroso e constrangedor para o senhor, farei a acareação das testemunhas. Para preservação da amizade e respeito que lhe devoto, e com referência à inclusão imparcial de minha conduta como policial, solicitei a presença de seu advogado, bem como do Promotor Público, porque as evidências da autoria do crime levam à sua pessoa. Farei isso pelo respeito e consideração que lhe devo, e pela probidade e honestidade de homem digno que o senhor sempre foi, e certamente será!

Líder espiritual da comunidade religiosa da cidade, político influente e muito respeitado, tinha como único objetivo lutar pelo sertanejo menos agraciado da sorte, tal como difundir a palavra de Deus através do Evangelho. Não merecia estar envolvido neste trágico acontecimento.

O delegado não acreditava na participação do padre no crime. Incrédulo, temia pelo desfecho final das investigações, que com certeza o apontariam como co-autor.

- Só não se dá jeito pra morte. Essa é iminente e imensurável! Pensava com seus botões! No entanto, tinha medo de represálias populares e da imprensa e arrochada de políticos, que poderiam lhe transferir se acusasse formalmente padre Fausto. O melhor seria fazer a acareação entre os três envolvidos na presença do Promotor e do advogado. Lavaria as mãos sobre qualquer decisão que tomassem. O doutor Promotor e o advogado confirmariam sua isenção como policial e amigo do padre. Gestos, olhares, atitudes e movimentos faciais, a psicastenia dos acareados, frente a frente, tudo foi minimamente detalhado, e seriam peças fundamentais e importantíssimas a sustentar sua imparcialidade no caso. Ninguém jamais poria sua reputação em dúvida. No final, juntamente com outros líderes políticos locais, certamente haveriam de encontrar uma solução menos grave e dolorosa.

Padre Fausto nervoso pelo depoimento de Catingueiro, num ato desleal e covarde, partiu pra cima dele com o intuito de agredi-lo, cuja ação não se consumou, devido a intervenção de seu advogado, que a todo instante lhe pedia calma.

- É mentira desse vagabundo, desgraçado, cachacista e desordeiro. Ele nunca apareceu na paróquia para assistir uma missa, se confessar, comungar ou pegar uma cesta de alimentos, porque vivia sempre bêbado e falando besteiras pelas ruas. Tentei salvá-lo, Delegado, mas o infeliz desviou-se da dignidade, exortou a bebida, fugiu da virtude e da verdade, e até da própria vida. Preferiu enveredar-se pelo caminho do mal. Só desejei fazer-lhe o bem, mas o desgraçado investiu-se contra mim, não sei o porquê, e começou a espalhar boatos maldosos pela cidade a meu respeito. Ofereci-lhe emprego sim, e moradia, contudo o infeliz não aceitou. Preferiu conspurcar meu nome pelas redondezas, como se isso o inocentasse do crime nefasto que cometeu. Foi ele quem matou Sá Lorena. Eu tenho como provar!

- Calma, padre, pedia o delegado toda vez que Catingueiro o acusava.

- É uma infâmia desse maluco desastrado!

O delegado impaciente com o padre, que a todo instante se levantava da cadeira e investia contra Catingueiro, gritou:

- Padre, sente-se e controle-se! Se o senhor continuar com esse ímpeto violento, sou obrigado a prendê-lo por agressão e desacato. Atitude que temo fazer, e não desejo fazê-la. Concordei com a presença de seu advogado para isentar-me de eventuais omissões no depoimento ou facilitações parciais que poderiam ser suscitadas pelo doutor Promotor Público aqui presente. Calma! Por enquanto são apenas insinuações maldosas que o depoente faz contra o senhor. É meu dever ouvir e registrar tudo o que ele diz. O promotor é que irá decidir pela aceitação do inquérito policial e encaminhá-lo ao Juiz, a quem caberá o direito de acatar ou não a denúncia e pedir a abertura do processo penal.

Catingueiro estava tranquilo e consciente no que afirmava. No depoimento que prestou afirmou e confirmou com todos os detalhes a noite em que se encontrou com o padre no local do crime. Confessou que ele e Farinheira estavam vindo do bailão do Zacarias, quando viram padre Fausto no local do crime dirigindo a carroça, e com um fuzil no ombro. O padre perguntou-nos o que estávamos fazendo àquela hora, naquele lugar escuro. Respondi-lhe que estávamos apenas descansando e curando-nos da ressaca da bebedeira que tomamos.

- Não estávamos bêbados, seu Delegado. Apenas tínhamos tomado umas cachaças. Tanto é que lhe pedimos a benção e ele nos abençoou pedindo-nos para que saíssemos daquele lugar. Paramos ali debaixo do juazeiro pra fazer xixi e esperar o dia amanhecer, como sempre fazíamos quando íamos ao baile na casa do Zacarias. Aí ele disse que não era pra gente dormir ali, que aquele lugar era muito perigoso, e que naquela encruzilhada já havia acontecido vários crimes... Ofereceu-nos a carroça, se quiséssemos voltar para Laranjeiras, que não iria precisar dela, apenas iria conceder a extrema-unção de um paroquiano, e dormiria por lá. Desconfiamos de sua preocupação! Se o lugar era perigoso para nós, para ele não era? Sempre passamos a noite ali! Nunca nos aconteceu nada naquele lugar! Depois das bebedeiras era ali que esperávamos o dia amanhecer! Por que ele estava ali, e àquela hora? Ademais, ele nunca saia sozinho! Pra qualquer lugar que fosse ia sempre acompanhado de Chiquinho! Por que naquele momento estava só? Afirmava Catingueiro, consciente de seu depoimento.

- De tanta insistência doutor, aceitamos o conselho dele e fingimos que fomos embora. Logo adiante porém, sem que ele nos visse agachamos atrás de uma moita de aroeira e ficamos observando seus movimentos.

- Estávamos curiosos e amedrontados!

- Será que ele vai fazer algum despacho... trabalho sujo, uma macumba naquela encruzilhada? Perguntou-me Farinheira.

- Não sei! Estou achando estranho tudo isso!

- E depois... o que aconteceu? Perguntou o delegado, abismado!

- Ele desceu da carroça, acocorou-se atrás do juazeiro, engatilhou o fuzil e se posicionou como se estivesse esperando alguém. Cada minuto que passava a gente ficava mais aflito.

- Que diabos o padre está querendo fazer? Perguntei a Farinheira, que tremia, rezava e fazia o sinal da cruz..

- Só Deus sabe, respondeu-me gaguejando.

- Ai seu doutor, ouvimos o tropel de cavalo. Apareceu na encruzilhada uma carroça com duas pessoas. Por causa da escuridão não dava pra identificar os passageiros, mas pela vestimenta branca que uma delas usava só podia ser uma mulher. Desceu da carroça e se abaixou pra mijar ao pé do juazeiro, enquanto a outra pessoa ficou esperando sentada na carroça, segurando as rédeas do cavalo e com um objeto que parecia uma arma, nas mãos. Foi nesse momento que ouvimos três tiros. Vimos quando a mulher caiu... e vimos quando o padre subiu na carroça e fugiu em disparada. Corremos para socorrer... reconhecemos a mulher como Sá Lorena. Juvenal ficou em cima da carroça como se nada tivesse acontecido. Farinheira não acreditava que o padre tivesse atirado nela. De tanto medo, blasfemava:

- O Diabo que me carregue, se o que vi não for verdade!

- Farinheira, não vamos contar nada pra ninguém o que acabamos de ver nessa noite!

- Quando nos aproximamos de Sá Lorena para ajudá-la a levantar-se da poça de sangue, Juvenal nervoso, jogou a arma entre os sacos de milho que trazia na carroça. Pediu-nos para que fôssemos embora e não contássemos nada pra ninguém. Perguntou-nos se tínhamos visto quem atirou. Farinheira respondeu que só tinha visto o padre no local, mais ninguém. Juvenal xingou-nos e nos ameaçou de morte, afirmando que a arma disparou acidentalmente quando ele ajudou Sá Lorena descer da carroça. Mas, nós não vimos ele ajudá-la descer da carroça. A arma estava na carroça ao lado de dois sacos de milho. Como poderia ter disparado?

- Juvenal estava muito agitado e nervoso e gritava pra gente ir embora... que estávamos bêbados e dificultando sua vida. Pegou a mulher ainda com vida, botou-a na carroça e foi embora nos amaldiçoando e mandando-nos para os infernos, e que iria falar para padre Fausto nos excomungar!

- Farinheira sentia medo! Ficamos ali parados sem saber o que fazer. Quando o dia amanheceu verificamos o local em que Sá Lorena caiu. Tinha uma enorme poça de sangue já seca, misturada com mijo. Saímos do local rapidamente jurando não dizer nada a ninguém sobre o que vimos. Na manhã seguinte, antes do meio-dia, depois que a vizinhança soube da morte de Sá Lorena, recebemos a visita de padre Fausto. Farinheira ainda dormia. Acordei-o. Desconfiamos de sua presença. Nunca nos deu qualquer valor. Tremendo e nervoso, nos perguntou se havíamos visto quem atirou em Sá Lorena. Farinheira lhe respondeu que no local do crime só haviam cinco pessoas. Impaciente, ele nos perguntou se éramos capazes de identificar o assassino.

- No local do crime, só estávamos nós e o senhor, padre! Não havia mais ninguém. Juvenal disse que foi um acidente quando pegou a arma e esta disparou. Se não foi ele, só pode ter sido o senhor!

- Aí seu Delegado, o padre se transformou no demônio. Aquela figura angelical que todos conheciam, instantaneamente se transformou no Satanás. Nos ameaçou de excomunhão... de mandar algum capanga nos matar, e outras blasfêmias, caso dissessemos que o tínhamos visto no local do crime. Afirmou que não tinha nada com a morte de Sá Lorena... que apenas passava por ali porque ia dar a extrema-unção a um moribundo nas proximidades. Mas Farinheira num momento corajoso, disse:

- Padre, o senhor estava com um fuzil na mão... Quem atirou em Sá Lorena então? Fomos nós? É isso que o senhor quer dizer?

- Vagabundos, cachacistas, como ousam duvidar da palavra de um mensageiro de Deus?

- O padre ficou nervoso, mandou-nos aos infernos, e à puta que nos pariu. Nunca ouvimos tamanha blasfêmia da boca de um sacerdote, principalmente dele que é tido como um religioso respeitado e admirado pelo povo de Laranjeiras. Depois de algum tempo em silêncio, se acalmou. Nos chamou para o terreiro e nos ofereceu dois contos de reis para que ficássemos calados e não comentássemos a ninguém que o tínhamos visto no local do crime. Pediu-nos para afirmar, caso fossemos intimados pela polícia, que tínhamos ouvido Tonho dizer “Isso é para você aprender a se calar e não blasfemar contra a vida alheia, sua desgraçada”. Ofereceu-nos emprego em Arapiraca e uma casa para morar, se fossemos embora de Poços dos Anjos.

O padre se aperreava e perdia cada vez mais as estribeiras, toda vez que Catingueiro o acusava.

Diante de contundente depoimento e preciosas afirmações o delegado ainda duvidava quanto ao procedimento a adotar para a conclusão do inquérito policial. As provas contudo, eram evidentes, mas a coragem de incriminar o padre era o problema.

- Como indiciar um homem digno, um político respeitado e admirado na cidade? Tenho de encontrar uma solução para a conclusão desse maldito inquérito que atormenta minha vida pessoal e põe em dúvida minha carreira policial! Preocupava-se o delegado, temeroso com o desfecho que daria às investigações.

A multidão enfurecida se aglomerava em torno da delegacia pedindo justiça e providências para a prisão do assassino. As carolas, contumazes frequentadoras da igreja, já não tinham dúvida da participação do padre no assassinato de Sá Lorena. Relembravam boatos antigos quando ouviam falar dos encontros deles às escondidas na casa paroquial. O povo pedia justiça. Fosse quem fosse o assassino.

- Será que há justiça para incriminar ricos e poderosos? Gritavam algumas pessoas inconformadas!

Padre Fausto, na sala do Delegado acompanhado pelo Promotor Público e por seu advogado, ouvia a multidão e sentia medo. Já não esboçava qualquer reação às afirmações de Catingueiro. Seu advogado já havia combinado com o Delegado um jeito humano e menos doloroso para o desfecho. O Promotor contudo, não aceitava esse acordo.

- A lei não pode subestimar os pobres e favorecer os ricos, pelo menos enquanto eu for promotor desta Comarca. Dizia o jovem defensor público.

- Não vejo a hora de requerer minha aposentadoria e sair deste lugar amaldiçoado, Getulio. Dizia o delegado ao escrivão, perturbado com os acontecimentos.

Sentado na velha cadeira de couro com as pernas esticadas sobre um banquinho de madeira, ele imaginava o que transcrever no inquérito para descaracterizar a figura de crime passional e amenizar a vida do padre, conforme combinado com o advogado. Aduziria que Sá Lorena fôra assassinada por ter falado que o padre gostava de tomar umas cachaças nas noites livres, e isso tenha lhe trazido dissabores? Registraria que pela vida pregressa de ambos, quando no passado tiveram um relacionamento amoroso, enquanto seminarista? Ou movido pelo ciúme doentio que ela sentia de dona Elvira? Poderia até incriminar Tonho como o causador dessa tragédia para se ver livre das fofocas que Sá Lorena lhe atribuía, conforme o depoimento de Catingueiro? Ou mesmo, o próprio marido que acidentalmente ou não disparou a arma, como disse - já que não suportava mais ouvir comentários desairosos sobre à idoneidade de sua mulher?

Essas ações ainda pululavam na idéia dúbia do delegado para não culpar o padre por um ato nefasto desses, não obstante as provas testemunhais obtidas indicarem-no como o verdadeiro assassino. Nem por isso desejava incriminá-lo. Essas imputações causavam-lhe medo! A falta de coragem e a repercussão do caso que escandalizaria a sociedade local também! Os depoimentos irrefutáveis prestados por Catingueiro e Farinheira tampouco poderiam ser rejeitados. Eram provas incontestáveis. A acareação que fizera entre os envolvidos não lhe deixava outra alternativa. As provas eram claras e conduziam ao autor do crime. Ao mesmo tempo, as preocupações, aflições e falta de firmeza para incriminar alguém tão importante na sociedade local lhe deprimia! Inquietava-se. Ascendia em sua consciência o desejo de requerer a aposentadoria e sair daquela cidade o mais depressa possível e viver distante dali num lugar isolado, longe de tudo e de todos. A certeza do assassino era absoluta. Denunciar um sacerdote, líder da igreja católica, homem forte e importante na política local, consagrado como símbolo sacerdotal atuante, homenageado pelos poderes Executivos e Legislativos do Estado como cidadão Honorário, condecorado pelo padre Cícero com a Medalha de Defensor Emérito dos Direitos e Liberdade do povo Sertanejo, esse era o problema!

- Oh, meu Deus! Comprimia-se o Delegado deprimido, revirando dezenas de folhas de papéis manuscritas sobre mesa.

Levantou-se da cadeira desgastada pelo uso constante, pegou o cachimbo, caprichosamente confeccionado com ornatos de prata do mesmo artesão que fabricava os adornos de Lampião – presente do próprio padre Fausto, quando assumiu a delegacia local - pôs o pouco do tabaco que restava na gaveta da mesa, acendeu-o, colocou-o na boca, e saiu para tomar o ar fresco da manhã trazido pelo vento que soprava do leste prenunciando chuvas. O inverno se aproximava. Baforou o cachimbo durante vezes seguidas, expeliu sôfrega e ansiosamente a fumaça da boca, e disse:

- Seja lá o que Deus quiser!

- Getúlio, venha cá meu filho! Finalize esta merda e mande imediatamente ao doutor Promotor Público de Laranjeiras para sua apreciação e conclusões. Ele haverá de decidir se aceita ou não o que está no inquérito. Se aceitar, encaminhará ao Excelentíssimo Senhor Juiz de Direito da Comarca, a quem caberá abrir ou não o processo penal. Enquadre padre Fausto como incurso no artigo 158 do Código Penal, por oferecimento de benesses a testemunhas para se calarem e distorcerem os fatos, e incrimine Catingueiro e Farinheira como incursos no artigo 138, parágrafo 1o. do Código Penal por crime de calúnia. Recolha os dois imediatamente ao xadrez. Quanto a Juvenal, mantenha-o preso. Ainda tenho algumas dúvidas a esclarecer sobre sua participação no caso.

Getúlio pasmo, não acreditou! Mas, Doutor...

- Não lhe pedi opinião. Faça o que lhe mando. Obedeça!

Nunca o delegado fora tão acintoso com ele, com quem trabalhava havia duas décadas. Mas Getúlio era funcionário dedicado e estava prestes a se aposentar. Jamais iria se insubordinar, fato que poderia lhe trazer uma advertência ou mesmo transferência, coisa que não desejava no momento. Poderia ainda ser processado por desobediência. Cumpriu a determinação.

Finalmente, estava concluído o inquérito do assassinato de Sá Lorena, que já se arrastava por nove meses. Duas semanas depois da prisão de Catingueiro e Farinheira como cúmplices do assassinato de Sá Lorena, o Delegado foi aposentado compulsoriamente. Padre Fausto foi afastado de suas funções sacerdotais e removido para a Paróquia de Bom Jesus da Lapa, na Bahia, enquanto Juvenal foi encontrado morto, pendurado na grade da cela enforcado com retalhos de pano envoltos pelo pescoço. Ao lado do corpo encontraram uma carta escrita do próprio punho. “ Peço perdão aos amigos, a Tonho, seu Quincas, dona Elvira, e a todos àqueles que tiveram discórdias com Sá Lorena. Fui eu mesmo o assassino de Sá Lorena, por ela estar grávida de padre Fausto, razão que jamais aceitei. Tal procedimento espúrio só me traria desgraça por ter uma vida simples, porém honesta. O padre também temia o escândalo dessa gravidez, que certamente acabaria com sua vida religiosa e política. Combinamos assassiná-la. Ele ma daria algum dinheiro para que eu fugisse. Os tiros seriam disparados por ele, mas no momento da consumação devido a presença de dois bêbados, eu mesmo resolvi fazê-lo. Queria que o padre apenas me protegesse e me livrasse do crime.

Catingueiro e Farinheira, julgados à revelia, sem defensor público nomeado, foram levados à júri popular e condenados a dez anos de reclusão cada um.

ASSIM VIVEU O SERTÃO NORDESTINO ENVOLTO EM MISTÉRIOS E INJUSTIÇAS!

Nota do autor: Os fatos aqui narrados não têm o objetivo de retratar a saga de Lampião e seu bando. Não foi esse o sentido do autor. Alguns acontecimentos e personagens entretanto, são meras ficções criadas para justificar e enaltecer a figura do sertanejo que luta pela sua sobrevivência econômica, enquanto ainda perece da figura protetora de coronéis corruptos e políticos interesseiros.

Conto - Cesar Cruz

A Reunião Anual de Desempenho


– Senhores, em comparação aos resultados do ano passado, poderemos ver pelos gráficos que, desgraçadamente, nosso desempenho melhorou muito pouco em comparação ao ano anterior, de forma que não atingimos a nossa meta global.

Doutor Eustáquio, presidente da companhia, fez um sinal de cabeça para a Carolina que, orgulhosa, postada junto ao notebook, operava para o chefe a troca de telas da apresentação. Mais um gráfico surgiu projetado atrás dele, colorindo os rostos sonados da equipe sentada ao redor da longa mesa, todos quietos, apreensivos, escondidos uns atrás do outros na escuridão silenciosa e fresca da sala de reuniões.

Além da voz de Eustáquio, os únicos movimentos que se faziam escutar eram os nhéc-nhécs dos giros curtos sobre os eixos das cadeiras, e os tilintares das colheres nas xícaras de café.

– Vejam, senhores, que a região centro-oeste do país, coordenada aqui pelo Olavo...,

Olavo, que cabeceava de tanto sono, se endireitou na cadeira, assustado por ser citado, assim, de surpresa.

– ... teve, e isso é só um exemplo, Olavo, por favor, teve um incremento percentual de apenas dois pontos, o menor de todos os crescimentos, enquanto a média nacional, a soma de todas as nossas regiões, foi de 7% e...

Interrompendo-se repentinamente, o presidente levou às mãos à barriga e espremeu a boca, produzindo estranhos ruídos pela garganta.

– Hum, urght! Oh...!

Os ruídos transformaram-se em gritinhos agudos.

– Ai, ai, ai, ai, aiieê! Aieê!

Todos os presentes se ajeitaram nos assentos e se entreolharam na penumbra, repentinamente despertos pela estranha novidade. Não podiam crer no que estavam presenciando. Pela cabeça de um ou outro, passou que aquilo poderia ser parte de alguma espécie de treinamento, e que logo viria uma lição, uma piada sarcástica sobre a falta de percepção ou coisa que o valha; entretanto, sabiam que isso era improvável vindo do presidente, homem rígido, seriíssimo, pouco dado a inovações modernas desse tipo.

– Ahnnn! Aieê!

Eustáquio continuava a se contorcer e proferir sons diante de todos, e foi franzindo a fronte enquanto se curvava quase a noventa graus, as mãos unidas no baixo ventre.

Então seus estranhos gritinhos viraram uivos alongados, agudos, infantis. Não, definitivamente aquilo não era parte de nenhum treinamento. Algo estranhíssimo e inusitado estava se passando com o presidente da companhia em plena Reunião Anual de Desempenho.

Depois da paralisia provocada pelo susto inicial, agora todos pareciam se mobilizar para fazer alguma coisa. A Conceição, do faturamento, correu acender a luz da sala. Olavo, puxa-saco, se pôs em pé dum salto e enrodilhou os ombros do chefão com os braços, sacudindo-o ligeiramente, a título de calmante, como uma compensação pela falta de números melhores no ano que se findou. Outros tantos bajuladores se prontificaram a acudir, pondo as mãos no homem, apesar de intimamente tomados por um poderoso desejo de escarnecer, comemorar a tragédia do carrasco e o distanciamento dos números. Fosse o que fosse, teriam assunto, divertimento para mais de ano.

Mas o espanto maior estava por vir; e veio quando doutor Eustáquio começou a gritar e chorar, com uma inimaginável voz afinada, aguda, como um menino de 1 ano.

Diante da assembleia embasbacada de colaboradores, o presidente da companhia pedia, aos berros, para fazer cocô.

Os presentes quase saltaram para trás tamanho espanto.

Impossível crer que um homem com a austeridade de Eustáquio, cinquenta e nove anos, metro e oitenta e cinco e cento e vinte quilos de mais pura sisudez, sobriedade e rigor, pudesse estar falando em... Cocô! Seria mesmo isso que ele disse, ouviu-se bem?, era isso o que cada um pensava, e já achando por uma fração de segundo que aquilo poderia ser um sonho, ou estariam diante de uma possessão Poltergeist, ou sei lá o quê.

Dona Lurdinha, da contabilidade, sacara da bolsa um terço e fazia uma reza incompreensível “o nome de Jesus tem poder!”, ela gritava vez ou outra em meio ao muxoxo da prece.

Doutor Eustáquio era agora um imenso menino arroxeado, copioso, pedinte, sozinho em pé na cabeceira da mesa de reuniões, todos distantes dele, quase colados às janelas, sem saber como reagir diante do desconhecido.

– Mamanheeeeeeê!

Sim, aquilo era mesmo realidade, pois agora se ouvia claramente ele chamar pela mãe, e passou pela cabeça da Damaris que tudo aquilo podia ser manha, como fazia seu filho quando era pequeno, mas no instante seguinte Eustáquio silenciou repentinamente, e seu rosto, serenado, lavado de lágrimas, começou a avermelhar, a escurecer, e uma veia grossa surgiu no meio de sua testa e seus olhos se injetaram de sangue, e se pode ouvir um ruído abafado e grave vindo de seus fundilhos presidenciais, e um volume fofo se fez ali, que só a Dirce reparou, e um cheiro forte de fezes invadiu as narinas de todos os presentes, que pareceram senti-lo ao mesmo tempo, e as mãos correram tapar os narizes, repentinamente sufocados, e dois se adiantaram a abrir as janelas para entrar ar da rua, e Eustáquio chorava enlouquecido agora, paralisado, a face congestionada, a cabeça para trás, como um menino abandonado a quem ninguém quer socorrer.

E foi quando estavam todos com as cabeças respirando para fora, dependuradas do nono andar, com um insólito nenê-presidente chorando atrás deles, sem saber mais o que fazer, que a porta da sala de reuniões se escancarou e uma miúda senhora, de metro e meio, carregando no ombro uma desgastada sacola azul de tecido, com um sorridente menininho bordado, avançou na direção do presidente e pôs as mãos em seus ombros.

– Calma, querido; mamãe chegou.

Com os cabelos brancos presos num coque, e a típica agilidade da mãe veterana, dona Isolina (se soube o seu nome depois) afastou com uma braçada o datashow de cima da mesa, e com ele foram os blocos de anotação, o notebook, os copos e as xícaras de café. Puxou decidida Eustáquio pelo braço “Vem queridinho, vem aqui meu amor”, e o deitou ali mesmo, na beirada da longa mesa de reuniões, a mesma mesa que nos últimos anos diretrizes importantes foram firmadas, onde se debruçaram personalidades públicas, prefeitos, vereadores e outros presidentes de multinacionais como seu filho.

Aparentemente mais calmo, mas ainda soluçando, o menino da dona Isolina agora fazia um bico, nenê de bigode, magoado, um dedão de mão peluda metido na boca, que ele ia sugando enquanto seus olhos ingênuos reviravam na direção de todos, criança que espia sem se ater a nada nem ninguém, alheio à razão das coisas; e, postado assim, o presidente foi tendo suas calças abertas por aquelas mãos tão maternas, tão conhecidas que inspiram conforto e confiança, o carinho da mãe; e suas cuecas foram abaixadas, revelando uma inimaginável fralda, que ao ser desatada deu à luz um volume gordo e fétido de fezes moles como maionese. E todos se afastaram com um “oh!”, os lenços nos rostos novamente, mas dona Isolina, impávida e concentrada, sacou o pacote de paninhos umedecidos da sacola azul e pôs-se a limpar tudo, primeiro o excesso; e Carolina, eficiente não só no datashow, trouxe um saco plástico do banheiro para comportar o que ia saindo dali: uma fralda pesada, cheia, lenços sujos, papel higiênico...



Minutos depois, a mãe já havia tirado o grosso e passara a cuidar dos detalhes, as reentrâncias do ânus, e a parte logo abaixo do saco peludo e escuro, um pouco inchado pela idade; dona Isolina limpou bem ali, os olhos atentos, azuis, mãe zelosa, e limpou também o pênis encolhido, todo melecado, esticando-o pela ponta; e Kika, logo ao lado segurava o rolo de papel e reparava nos pêlos pélvicos grisalhos do presidente, que subiam da virilha pelo corpo do pênis. E as pessoas, agora mais habituadas com o absurdo, porque se acostuma com tudo nessa vida, se punham mais solícitas, próximas, na verdade curiosas, algumas sorrindo docemente, como quem assiste a um bebê bonitinho ser trocado pela mãe, ao mesmo tempo não acreditando que estivessem vendo aquilo acontecer; mas agora dona Isolina já punha no seu nenê imensas fraldas, geriátricas, Olavo suspeitou, dado o tamanho, mas antes de fechá-la, seus dedos hábeis já espalhavam uma boa quantidade de pomada anti-assaduras, besuntando tudo, sem economia. E dona Regina, mãe também, mantinha o quadril do presidente levemente elevado, com a ajuda do Clóvis, gerente regional sul, pois era mesmo muito pesado aquele bebê, e o silêncio se fez mais retumbante agora que a mãe dava o capricho final, fechando a fralda, subindo as cuecas, sacudindo os panos de lado para que toda aquela roupa se ajustasse no corpo do filho, e muitas mãos a auxiliaram nessa pesada etapa de encaixar calça no quadril, fechar zíper, botão, cinto de couro legítimo, italiano, Olavo reparou, isso pouco antes do chefe saltar da mesa e se pôr em pé, num repente, assustando a todos, ajeitar o paletó, tracionar o nó da gravata, dar duas tossidas e uma olhada no relógio suíço, o olhar sombrio de presidente agora de volta, e então todos correram para suas cadeiras, quietinhos, como se nada tivesse acontecido, e dona Isolina já havia desaparecido do recinto, deixando tudo pronto para que o filho prosseguisse com a Reunião Anual de Desempenho.

Maio 2011

Tradução - Eduardo Miranda

John Melhuish Strudwick: A Golden Thread (1885, oil on canvas)

Poena Damni Nyktivoi (trecho)
Dimitris Lyacos

(...)
Coro

Se você parar e ouvir
os sons que a noite traz
das trevas, os sons do silêncio,
além das vozes daqueles que,
pelas suas costas, falam demais,
há outras vozes que lhe acordam,
que não lhe esquecem, e você se volta
para ouvir e elas lhe abraçam
os que estavam perdidos se encontram
ao seu redor, olham para você e partem
novamente você ouve aquele som, sempre
à noite, e eles voltam
eles vão lhe tomar e vão lhe cobrir
com a sua pele e vão falar contigo
debaixo do chão.

Poena Damni Νυκτιβόη (απόσπασμα)
Δημήτρης Λυάκος

(...)
Χορός

Αν σταματήσεις και ακούσεις
Τη νύχτα, ακούγεται στο
Σκοτάδι αν σωπάσεις ακούγεται
Πίσω από εκείνους που κοντά
Σου μιλούν έρχονται άλλες
Φωνές χαμένες που σε ξυπνούν
Δε σε ξέχασαν, γυρίζεις να
ακούσεις σε αγκαλιάζουν
αυτοί που χάθηκαν μαζεύονται
γύρω σου, σε κοιτάζουν φεύγουν
ξανά ακούς αυτή τη βοή πάντα
το βράδυ κι έρχονται πάλι
σε παίρνουν θα σκεπαστούν
με το δέρμα σου θα σου μιλήσουν
κάτω απ’το χώμα.

Foreign Words - José Paulo Paes

translated by Eduardo Miranda

José Paulo Paes has appeared in Tuda May 2005, and now he's back by other facets - the brevity of his poetry and its childhood theme. Translator of poetry and a poet himself, José Paulo Paes was born in 1926 and died in 1998. In addition to poet and translator, he also was a critic and an essayist, and his work has been of immense contribution to Brazilian literature.

Mark Kostabi
Bem-te-vi (Great kiskadee) is a bird named after his onomatopoeic call, an exuberant BEE-tee-WEE, which means "I see you well!" This poem in Portuguese plays with this meaning, saying that the "mope-eyed" great kiskadee used to sing "bem-te-via", which in Portuguese means "I saw you well"!

It's hard to play such joke in English using the same motif as the original, but similar tricks could apply... I've tried two different solutions: one plays with the Pied Lapwing bird and the wing verb; second plays with the diver bird Cormorant and the word dove, which can be the bird and/or the simple past of the verb dive.

Suggestions are very welcome!
*
How it used to say
that flightless Pied Lapwing:
I winged... I winged...

* *
How it used to say
that diver Cormorant:
I dove... I dove...


Como dizia
aquele bem-te-vi que ficou míope:
“bem te via... bem te via...”


[in É Isso Ali, 1984]

Releitura - Fernando Pessoa

5/9/1933
[O Que Me Dói Não É]

O que me dói não é
O que há no coração
Mas essas coisas lindas
Que nunca existirão...

São as formas sem forma
Que passam sem que a dor
As possa conhecer
Ou as sonhar o amor.

São como se a tristeza
Fosse árvore e, uma a uma,
Caíssem suas folhas
Entre o vestígio e a bruma.

Ilustração - José Geraldo de Barros Martins

Ilustração de José Geraldo de Barros Martins

Ilustração - Magnhild Opdol

Dead Dog Farm, by Magnhild Opdol

"Um cão morto atrai a atenção de ambos tipos de pessoas, as piores e as melhores", observa Magnhild Opdol sobre o título de sua exposição. Opdol vem de um passado agrícola da Noruega, e seu trabalho sempre demonstrou uma aguda consciência da forma como a morte está entrelaçada com a vida na fazenda.

Opdol expõe seu trabalho na Galway Arts Centre, 47 Dominick Street, de Segunda a Sábado, das 10 às 17:.30, e Domingo das 12 às 17:30, até 29 de Outubro. Info: http://www.galwayartscentre.ie.

Ensaio - Ronald Augusto


Fim das coisas velhas, eu bebo, sim

A primeira impressão não é bem a que fica, mas a que nos engana. O que importa é o que surte depois; a boa poesia nos desengana, o mesmo acontece com o amor. Começo esse comentário sobre o livro Fim das coisas velhas de Marco de Menezes de um modo meio impressionista, sim. É que meu sentimento com relação a esse livro foi ambíguo. Não consegui distinguir, ao primeiro gole (como ensina Hans Magnus Enzensberger), se o conteúdo do barril era de vinho ou de vinagre. Agora já sei. E parafraseando a anedota do bêbado e o gênio da lâmpada, bem que eu gostaria de ter mais barris de vinho como Fim das coisas velhas que jamais se esvaziassem, apesar de toda a minha sede.

Muito bem, mas vamos ao que interessa. O livro, até onde vai minha interpretação, não se refere ao parti pris das coisas, mas à própria exaustão delas, tanto quanto à do discurso que as homenageia ou presentifica em tom pós-moderno. No entanto, advirto que essa indicação ao pós-moderno não é feita com o intento de censura ou de coisa parecida. Há um problema no foco, que pode ser outro. O modernismo se tornou tão oficial que a sua reação, isto é, o pós-modernismo, resta sempre em nosso imaginário como uma anedota conservadora. O arrivismo de certa crítica fez coincidir os termos: “retrógrado” e “pós-modernsimo”. O pós-moderno acena com a possibilidade de restaurar de modo não sectário o diálogo com o passado, algo que parecia ter sido descartado com o advento das vanguardas do início do século 20 e que, de resto, estava pressuposto no projeto modernista de construir “a partir do zero”. Não obstante as controvérsias, o pós-moderno é legatário do maior valor do projeto moderno, a saber, a liberdade.

A poesia de Marco de Menezes, ao menos no livro em tela, parece estar imersa corajosamente e de forma livre nesse abismo pelaginoso de referências que tende a abafar as singulares vozes. Nisso vejo uma virtude. Explico porquê com uma recordação recuperada à estante do cinema.

Michelangelo Antonioni, no filme A noite (1961), faz o personagem Giovanni Pontano (interpretado por Marcello Mastroianni), um escritor em crise afetivo-intelectual, afirmar algo como “não fossem os prazeres, a vida seria suportável”, ao que replica sua esposa Lidia (Jeanne Moreau), mais ou menos assim, “que bela ideia, é sua?”, e Giovanni responde, “não, não é minha; não tenho mais ideias, só tenho memória”. Esse é também o desengano virtuoso que a poesia de Marco Menezes nos prega, sua poesia (já farta desse lirismo tacanho “que não é libertação”) se alegra com as influências, se sabe memória amorosa e irrupção sobre o acervo. E nem são tanto as referências, nem as escolas ou as escalas, mas, antes, a música cambiante subjacente à biblioteca performativa da poesia enquanto língua materna que interessa ao poeta Marco de Menezes.

Fim das coisas velhas é, a uma só vez, a poesia tanto da tradição, quanto aquela só possível de ser levada a efeito pelo sujeito lingual Marco de Menezes, e irredutível a quem quer que seja. O poeta se renova despretensiosamente sendo fiel à tradição graças aos desvios que opera tendo em vista as perspectivas do presente. Ele impõe o seu senso de ritmo seja à redondilha maior, seja ao alexandrino, metonímias das ferramentas do exercício. Esse aprendizado vivo (um como fazer) a partir do artesanato versificatório serve tão só de base sobre a qual a poesia de Fim das coisas velhas pode ou pôde plasmar-se; um meio e não um fim. Lateralmente, sublinho algo a ser aprofundado futuramente, talvez em outro texto, a saber, que o verso livre de Marco de Menezes me parece próximo das estruturas melódicas de um William Carlos Williams (1883-1963). A comparação entre duas lâminas:
A rosa é obsoleta
mas cada pétala sua finda em
gume, a dúplice faceta
cimentando as estriadas
colunas de ar – o gume
corta sem cortar
encontra – nada – se renova
a si mesmo em metal ou porcelana –

aonde?
(tradução de José Paulo Paes)

(...)
mas já aí um cata-vento da pergunta
numa furna, uma cripta que murmura
o que guarda a casa, o que abriga um outro
não o que me olha, líquido,
mas o que sofro
no espelho que reboa?
Escolhi os excertos de forma aleatória, simplesmente abri os livros de um e de outro e os transcrevi. Entretanto, para a minha surpresa ambos fecham suas estrofes com um ponto de interrogação. Espero não estar forçando as coisas, mas percebo um “clima” (em sentido musical) comum a ambos: certas pausas, os cortes, a manipulação das palavras segundo uma sensibilidade háptica e, por fim, a impressão de que um poema (bom) fala de tudo e de nada ao mesmo tempo. Penso nesse encontro entre Marco de Menezes e William Carlos Williams não na perspectiva da denúncia da influência (que se eu tiver um pouco de sorte talvez não haja de fato), mas da confluência e da invenção do precursor, do antagonista em sentido forte, ou seja, épico.

Mas, ouçamos agora, por exemplo, a música dodecassilábica da poesia de Marco de Menezes, duas estrofes do poema “Calavera”:
eu sou gurrião-de-esquina do açougue 7
e fico ali varado cubando os moleques
uns velhos que gargalham diante do boteco
de vista presa na treliça de quatro anisetes

(...)

eu tenho as unhas sujas de tijolo e chuva
da cova aos rouxinóis eu chego num minuto
o Vô desfaz tarrafas com o Seu Morocho
dois dedos de cachaça feito cocurutos
Agora, duas quadras em redondilha maior (verso de sete sílabas) do poema “Um sonho em alicante”, e que dizem assim:
(...)

em teus cabelos de flandres
os dardos brandos de um anjo
perfume de cardos brancos
num disco de joão donato

em teus cabelos de plâncton
num boulevard de alicante
arrimos de dor dormindo
que o sono do mar entrance
Notar em ambos os trechos dos poemas a combinação, ou melhor, a dialética entre os estilemas da tradição e do agora-agora poéticos, agenciados numa atenção compartida entre a convenção e a surpresa: o uso da anáfora, “eu sou... eu tenho”, “em teus cabelos de flandres... em teus cabelos de plâncton”; a imagem-clichê do anjo, consagrada pela descrição diacrônica, mas tornada mais complexa, acima de tudo, pelo apetite simbolista; o embaralhamento paronomástico sugerindo migração e/ou intercâmbio de fonemas entre as palavras, “dardos brandos... cardos brancos”; o aproveitamento franco da rima toante cabralina (anjo/donato, alicante/entrance) que reitera uma coincidência assonântica sem resultar em eco monótono, previsível; a alternância de palavras mais preciosas e de expressões corriqueiras bem como regionais; arranjos sintáticos a partir da justaposição imagética conferindo maior vivacidade à canseira do discurso frasal direto; enfim, Marco de Menezes, como se diz no jargão do comentarismo futebolístico, é um artista que “tem os fundamentos”.

Mas, além disso, o autor de Fim das coisas velhas sabe jubilosamente que não há um problema da função poética ou de forma-e-conteúdo a ser resolvido. Cada poema inventa a sua própria indagação estética; uma chance de linguagem que se inaugura e se exaure. O poema é um problema-objeto verbal sem solução. Portanto, mais um brinde, salut!

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Ademir Demarchi Adriana Pessolato Adília Lopes Afobório Agustín Ubeda Alan Kenny Alberto Bresciani Alberto da Cunha Melo Aldo Votto Alejandra Pizarnik Alessandro Miranda Alexei Bueno Alexis Pomerantzeff Ali Ahmad Said Asbar Almandrade Alyssa Monks Amadeu Ferreira Ana Cristina Cesar Ana Paula Guimarães Andrew Simpson Anthony Thwaite Antonio Brasileiro Antonio Cisneros Antonio Gamoneda Antonio Romane António Nobre Ari Candido Fernandes Ari Cândido Aristides Klafke Arnaldo Xavier Atsuro Riley Aurélio de Oliveira Banksy Bertolt Brecht Bo Mathorne Bob Dylan Bruno Tolentino Calabrone Camila Alencar Carey Clarke Carla Andrade Carlos Barbosa Carlos Bonfá Carlos Drummond de Andrade Carlos Eugênio Junqueira Ayres Carlos Pena Filho Carol Ann Duffy Carolyn Crawford Cassiano Ricardo Cecília Meireles Celso de Alencar Cesar Cruz Charles Bukowski Chico Buarque de Hollanda Chico Buarque de Hollanda and Paulo Pontes Claudia Roquette-Pinto Constantine Cavafy Conteúdos Cornelius Eady Cruz e Souza Cyro de Mattos Cândido Rolim Dantas Mota David Butler Denise Freitas Desmond O’Grady Dimitris Lyacos Dino Valls Dom e Ravel Donald Teskey Donizete Galvão Donna Acheson-Juillet Dorival Fontana Dylan Thomas Décio Pignatari Edgar Allan Poe Edson Bueno de Camargo Eduardo Miranda Eduardo Sarno Eduvier Fuentes Fernández Elaine Garvey Elizabeth Bishop Enio Squeff Ernest Descals Eugénio de Andrade Evgen Bavcar Fernando Pessoa Fernando Portela Ferreira Gullar Firmino Rocha Francisco Niebro George Callaghan George Garrett Gey Espinheira Gherashim Luca Gil Scott-Heron Gilberto Nable Glauco Vilas Boas Gonçalves Dias Grant Wood Gregório de Matos Guilherme de Almeida Hamilton Faria Henri Matisse Henrique Augusto Chaudon Henry Vaughan Hilda Hilst Hughie O'Donoghue Husam Rabahia Ian Iqbal Rashid Ingeborg Bachmann Issa Touma Italo Ramos Itamar Assumpção Iulian Boldea Ivan Donn Carswell Ivan Justen Santana Ivan Titor Ivana Arruda Leite Izacyl Guimarães Ferreira Jacek Yerka Jack Butler Yeats Jackson Pollock Jacob Pinheiro Goldberg Jacques Roumain James Joyce James Merril James Wright Jan Nepomuk Neruda Jason Yarmosky Jeanette Rozsas Jim McDonald Joan Maragall i Gorina Joaquim Cardozo Joe Fenton John Doherty John Steuart Curry John Updike John Yeats Josep Daústin José Carlos de Souza José Geraldo de Barros Martins José Inácio Vieira de Melo José Miranda Filho José Paulo Paes José Ricardo Nunes José Saramago José de Almada-Negreiros João Cabral de Melo Neto João Guimarães Rosa João Werner Junqueira Ayres Kerry Shawn Keys Konstanty Ildefons Galczynski Kurt Weill Leonardo André Elwing Goldberg Lluís Llach I Grande Lou Reed Luis Serguilha Luiz Otávio Oliani Luiz Roberto Guedes Luther Lebtag Léon Laleau Lêdo Ivo Magnhild Opdol Manoel de Barros Marco Rheis Marcos Rey Mari Khnkoyan Maria do Rosário Pedreira Marina Abramović Marina Alexiou Mario Benedetti Mario Quintana Mariângela de Almeida Marly Agostini Franzin Marta Penter Marçal Aquino Masaoka Shiki Maser Matilde Damele Matthias Johannessen Michael Palmer Miguel Torga Mira Schendel Moacir Amâncio Mr. Mead Murilo Carvalho Murilo Mendes Márcio-André Mário Chamie Mário Faustino Mário de Andrade Mário de Sá-Carneiro Nadir Afonso Nuala Ní Chonchuír Nuala Ní Dhomhnaill Nâzım Hikmet Odd Nerdrum Orides Fontela Orlando Gibbons Orlando Teruz Oscar Niemeyer Osip Mandelstam Oswald de Andrade Pablo Neruda Pablo Picasso Patativa do Assaré Paul Funge Paul Henry Paulo Afonso da Silva Pinto Paulo Cancela de Abreu Paulo Henriques Britto Paulo Leminski Pedro Du Bois Pedro Lemebel Pete Doherty Petya Stoykova Dubarova Pink Floyd Plínio de Aguiar Pádraig Mac Piarais Qi Baishi Rafael Mantovani Ragnar Lagerbald Raquel Naveira Raul Bopp Regina Alonso Renato Borgomoni Renato Rezende Renato de Almeida Martins Ricardo Portugal Ricardo Primo Portugal Ronald Augusto Roniwalter Jatobá Rowena Dring Rui Carvalho Homem Rui Lage Ruy Belo Ruy Espinheira Filho Ruzbihan al-Shirazi Régis Bonvicino Salvado Dalí Sandra Ciccone Ginez Santiago de Novais Saúl Dias Scott Scheidly Seamus Heaney Sebastian Guerrini Sebastià Alzamora Shahram Karimi Shorsha Sullivan Sigitas Parulskis Silvio Fiorani Smokey Robinson Sohrab Sepehri Sophia de Mello Breyner Andresen Souzalopes Susana Thénon Susie Hervatin Suzana Cano Sílvio Ferreira Leite Sílvio Fiorani The Yes Men Thom Gunn Tim Burton Tomasz Bagiński Torquato Neto Túlia Lopes Vagner Barbosa Val Byrne Valdomiro Santana Vera Lúcia de Oliveira Vicente Werner y Sanchez Victor Giudice Vieira da Silva Vinícius de Moraes W. B. Yeats W.H. Auden Walt Disney Walter Frederick Osborne William Kentridge Willian Blake Wladimir Augusto Yves Bonnefoy Zdzisław Beksiński Zé Rodrix Álvaro de Campos Éle Semog