Definição

... da totalidade das coisas e dos seres, do total das coisas e dos seres, do que é objeto de todo o discurso, da totalidade das coisas concretas ou abstratas, sem faltar nenhuma, de todos os atributos e qualidades, de todas as pessoas, de todo mundo, do que é importante, do que é essencial, do que realmente conta...
Em associação com Casa Pyndahýba Editora
Ano VI Número 63 - Março 2014

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Poesia - Arnaldo Xavier

Abstract Bird, by Aneliya Nedyalkova
subsenhor                        Chispássaro solidão revestida de prata      grito
ensurdecedor           Ave      explode inescutável   Vespânico ventre luzia
canto saído pela culatra

[ in Lud-Lud, Casa Pyndahýba Editora, São Paulo, 1998 ]

Poesia - Aristides Klafke

São Paulo Neo Noir ~ Jorge Sato
62

Jogo xadrez com uma máscara de vidro
Deus é um peixe ofegante na pia
Acendo e apago o fogo no fogão

Um pavão depenado passeia na mente
Escalo as paredes qual um demente
Everestes deslumbrantes
Crescem por todos os lados

Inexorável, a máscara me encurrala...

Golpeado, rogo clemência...

Na pia, Deus, que é um peixe ofegante
Ofega um assobio

Boto a bunda na cadeira, trinco os lábios levemente
Boto os pés na mesa, suspiro velhos amores
Os cotovelos os mantenho à altura do umbigo
Encho um cálice de fé no futuro da humanidade
Desenho no ar uma frase hedionda (bem cretina)
Abro a porta para entrar um pouco de vento
Escancaro as janelas, jogo fora assédios, desavenças
A cidade fede fezes, parece que vai chover

Meu corpo pede azeite
Unto meu corpo de azeite –que deleite!
Bate forte o desejo de pôr fim
Ao consumo poético de doces e salgados
Tanta porcaria consumida, tanta consumada
Tanta música estridente, tanta fala furada

Incandescente, acendo e apago
O fogo no fogão
Tenho a boca empanturrada de indecência
Acendo e apago
(num fluxo flamejante)
O fogo no fogão

A máscara deliberante
Sussurra xeque-mate... e pronto!
De longe, de fogos ou de trovão
Me chega o eco de um estrondo

Quando dispara arrebatado
Em ritmo radiante
Meu coração gaiatado

E Deus continua assobiando na pia

[ in Quebrada, inédito ]

Poesia - Plínio de Aguiar

"mundo el revés" el hombre gris 2012 ~ Cayetano Ferrández
De Pessoa à Rua

na rua mexicana
el criollo chupa laranja
     muito de metafísica
     em cada chupada

na rua mexicana
el iáqui vende pepitas
     muito de pessoa
     em cada mão ancestral

na rua mexicana
nadie come chocolate
     muito de silêncio
     em cada hóstia nixtamal

Na rua mexicana
um hombre caminha real
     muito de gringo
     en sus piernas not at all

[in Lira Rústica, Booklink, 2005]

Poesia - Dorival Fontana

The small islands of the great boredom, 2007
Agim Meta
Cotidiano

Um dia abstrato.
O outro concreto.
Um dia contido.
O outro poeta.
Um dia bêbado.
O outro ressaca.
Um dia sóbrio.
No outro cachaça.
Um dia sonho.
O outro renúncia.
Um dia choro.
No outro quase sorriso.
Um dia certeza.
No outro decepção.
Um dia entrega.
No outro abnegação.
Um dia amor.
O outro ódio.
Um dia Eu.
No outro rótulo.
Um dia blasfêmia.
O outro prece.
Um dia juras.
No outro renegas.
Um dia pecado.
O outro absolvição.
Um dia culpa.
No outro autocondenação.
Um dia vício.
O outro virtude.
Um dia prossegue.
No outro regride.
Um dia invade.
O outro passiva.
Um dia infarta.
No outro revive.
Um dia arroz.
O outro feijão.
Um dia dieta.
No outro inanição.
Um dia verso.
O outro prosa.
Um dia se cala.
No outro se morre.
Um dia prótese.
O outro transplante.
Um dia ereto.
No outro nem tanto.
Um dia incerto.
O outro convicto.
Um dia perfeito.
No outro equívoco.
Um dia encontro.
O outro fuga.
Um dia silêncio.
No outro falta de assunto.
Um dia...

Poesia - Eduardo Miranda

Patricia A. Smith - "The Royal Treatment" 22" x 34" Acrylic on Bamboo Mat

Mandou eu me aprumar e tomar o meu rumo,
Mandou eu apagar o cigarro que eu nem fumo,
Mandou eu voltar sem saber se eu estava indo,
E assim que ele chega, os outros estão saindo.
Não viu e nem ouviu, não sabe quem foi,
Não conhece ninguém mas quer nomear o boi,
Olha para o lado e aponta o dedo sorrindo,
Não fede nem cheira, mas vive se exibindo.
Tem o carro mais bacana, a mulher a mais gostosa,
O dinheiro mais limpo, a merda mais cheirosa,
Tem o espelho quebrado e se considera o mais lindo,
Nunca é convidado mas se acha bem-vindo.
Não lhe dirigem a palavra mas quer puxar assunto,
Não sabe quem morreu mas quer velar o defunto,
Diz que já fez, que já leu, conhece tudo e tal,
Nunca lê um livro até o fim, mas sempre fala mal.
Em sua realidade deturpada, vive desconectado,
Preste atenção Fulano, que vou lhe dar um recado:
Antes de você despertar desse seu eterno domingo,
Antes mesmo de chegar, considere-se mal-vindo.

Findo.

Autores

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