Definição

... da totalidade das coisas e dos seres, do total das coisas e dos seres, do que é objeto de todo o discurso, da totalidade das coisas concretas ou abstratas, sem faltar nenhuma, de todos os atributos e qualidades, de todas as pessoas, de todo mundo, do que é importante, do que é essencial, do que realmente conta...
Em associação com Casa Pyndahýba Editora
Ano VI Número 63 - Março 2014

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Editorial

Festival das Vacas em Katmandu, Nepal.
Foto: Navesh Chitrakar/Reuters

“Se você vier me perguntar por onde andei
no tempo em que você sonhava de olhos abertos,
lhe direi, amigo: eu me desesperava”

~ Belchior, in A Palo Seco.

Janeiro TUDA ~ TUDA Janeiro!

Para o melhor e o pior, e para o melhor de novo, na riqueza e na pobreza e na riqueza de novo, na saúde e na doença e na saúde de novo, assim vai esta TUDA, resistida, sobrevívida, persistente, ressurgente, assumida, mas canssadésima, se contasse, desbravaria 2014 assim, só por hoje, e desejaria um Feliz Mês Novo, que em sendo só por hoje um mês já é uma eternidade de possibilidades, o que dizer de um ano todo.

Nessa tendência louca da antecipação, o cruel e impiedoso Senhor do Tempo nos ilude com aquela sensação de tempo perdido, ou da simples falta do tempo, e nos faz viver no instante seguinte, e assim perder o momento presente... por um momento, apenas.

John Melhuish Strudwick ~ A Golden Thread, 1885
De mãos dadas com Chronos vai Ananke, mãe das Moiras e personificação da inevitabilidade, ditando os rumos das nossas ansiedades, jogando-nos para cá e para lá, que é nessa linha de pensamento que o povo não vê a hora do carnaval chegar - já está logo aí! - e depois tem a Páscoa, e logo a Copa do mundo, as eleições... melhor nem começar a trabalhar!

É na contra-mão dessa pressa desmesurada, muito mais para Aion do que para Chronos, que vem esta TUDA, lenta, no seu tempo, contra o tempo, devagar mas sempre, até agora, e só por hoje, só por todos os hojes que TUDA ainda possa suportar.

É isso aí companheiros & companheiras, na velha e suja LabUTA do dia a dia, mês a mês, ano após ano, que não bastasse ser dura, por vezes é pobre, de dignidade, de espírito, de nobreza, que nobre mesmo é aquilo que te toca, te emociona, que dá oportunidade de revelar a dignidade de caráter, de denotar magnanimidade no gesto, virtude no ato, tudo além da intenção apenas!

Já se foi dito que se os cavalos ou os bois pudessem esculpir, fariam estátuas de deuses à sua semelhança e os adorariam... tal qual fazem os humanos!

QG de TUDA
Ilustração: Viva Las VegaStamps 

Fotomontagem: Eduardo Miranda


Asyno Eduardo Miranda
o (auto-proclamado) editor deste porto semisseguro da jlha do Eire
oje, dezº septº dia do primº mez
d este Anno Domini de MMXIV

Poesia - Arnaldo Xavier

Abstract Bird, by Aneliya Nedyalkova
subsenhor                        Chispássaro solidão revestida de prata      grito
ensurdecedor           Ave      explode inescutável   Vespânico ventre luzia
canto saído pela culatra

[ in Lud-Lud, Casa Pyndahýba Editora, São Paulo, 1998 ]

Poesia - Aristides Klafke

São Paulo Neo Noir ~ Jorge Sato
62

Jogo xadrez com uma máscara de vidro
Deus é um peixe ofegante na pia
Acendo e apago o fogo no fogão

Um pavão depenado passeia na mente
Escalo as paredes qual um demente
Everestes deslumbrantes
Crescem por todos os lados

Inexorável, a máscara me encurrala...

Golpeado, rogo clemência...

Na pia, Deus, que é um peixe ofegante
Ofega um assobio

Boto a bunda na cadeira, trinco os lábios levemente
Boto os pés na mesa, suspiro velhos amores
Os cotovelos os mantenho à altura do umbigo
Encho um cálice de fé no futuro da humanidade
Desenho no ar uma frase hedionda (bem cretina)
Abro a porta para entrar um pouco de vento
Escancaro as janelas, jogo fora assédios, desavenças
A cidade fede fezes, parece que vai chover

Meu corpo pede azeite
Unto meu corpo de azeite –que deleite!
Bate forte o desejo de pôr fim
Ao consumo poético de doces e salgados
Tanta porcaria consumida, tanta consumada
Tanta música estridente, tanta fala furada

Incandescente, acendo e apago
O fogo no fogão
Tenho a boca empanturrada de indecência
Acendo e apago
(num fluxo flamejante)
O fogo no fogão

A máscara deliberante
Sussurra xeque-mate... e pronto!
De longe, de fogos ou de trovão
Me chega o eco de um estrondo

Quando dispara arrebatado
Em ritmo radiante
Meu coração gaiatado

E Deus continua assobiando na pia

[ in Quebrada, inédito ]

Poesia - Plínio de Aguiar

"mundo el revés" el hombre gris 2012 ~ Cayetano Ferrández
De Pessoa à Rua

na rua mexicana
el criollo chupa laranja
     muito de metafísica
     em cada chupada

na rua mexicana
el iáqui vende pepitas
     muito de pessoa
     em cada mão ancestral

na rua mexicana
nadie come chocolate
     muito de silêncio
     em cada hóstia nixtamal

Na rua mexicana
um hombre caminha real
     muito de gringo
     en sus piernas not at all

[in Lira Rústica, Booklink, 2005]

Poesia - Dorival Fontana

The small islands of the great boredom, 2007
Agim Meta
Cotidiano

Um dia abstrato.
O outro concreto.
Um dia contido.
O outro poeta.
Um dia bêbado.
O outro ressaca.
Um dia sóbrio.
No outro cachaça.
Um dia sonho.
O outro renúncia.
Um dia choro.
No outro quase sorriso.
Um dia certeza.
No outro decepção.
Um dia entrega.
No outro abnegação.
Um dia amor.
O outro ódio.
Um dia Eu.
No outro rótulo.
Um dia blasfêmia.
O outro prece.
Um dia juras.
No outro renegas.
Um dia pecado.
O outro absolvição.
Um dia culpa.
No outro autocondenação.
Um dia vício.
O outro virtude.
Um dia prossegue.
No outro regride.
Um dia invade.
O outro passiva.
Um dia infarta.
No outro revive.
Um dia arroz.
O outro feijão.
Um dia dieta.
No outro inanição.
Um dia verso.
O outro prosa.
Um dia se cala.
No outro se morre.
Um dia prótese.
O outro transplante.
Um dia ereto.
No outro nem tanto.
Um dia incerto.
O outro convicto.
Um dia perfeito.
No outro equívoco.
Um dia encontro.
O outro fuga.
Um dia silêncio.
No outro falta de assunto.
Um dia...

Poesia - Eduardo Miranda

Patricia A. Smith - "The Royal Treatment" 22" x 34" Acrylic on Bamboo Mat

Mandou eu me aprumar e tomar o meu rumo,
Mandou eu apagar o cigarro que eu nem fumo,
Mandou eu voltar sem saber se eu estava indo,
E assim que ele chega, os outros estão saindo.
Não viu e nem ouviu, não sabe quem foi,
Não conhece ninguém mas quer nomear o boi,
Olha para o lado e aponta o dedo sorrindo,
Não fede nem cheira, mas vive se exibindo.
Tem o carro mais bacana, a mulher a mais gostosa,
O dinheiro mais limpo, a merda mais cheirosa,
Tem o espelho quebrado e se considera o mais lindo,
Nunca é convidado mas se acha bem-vindo.
Não lhe dirigem a palavra mas quer puxar assunto,
Não sabe quem morreu mas quer velar o defunto,
Diz que já fez, que já leu, conhece tudo e tal,
Nunca lê um livro até o fim, mas sempre fala mal.
Em sua realidade deturpada, vive desconectado,
Preste atenção Fulano, que vou lhe dar um recado:
Antes de você despertar desse seu eterno domingo,
Antes mesmo de chegar, considere-se mal-vindo.

Findo.

Conto - José Geraldo de Barros Martins

Ilustração do autor
O Almoço e Suas Considerações

Josias Germano resolveu almoçar no centro de São Paulo, uma vez que pela tarde tinha uma reunião na R. Barão de Itapetininga... como estava um calor insuportável, ele optou por comer salada e sushi em um restaurante na R. Direita... geralmente o nosso protagonista não gostava de culinária japonesa em restaurante por quilo, mas naquele local a comida era bastante honesta, embora não fosse genial...

Josias Germano se dirigiu à R. Direita, no quarteirão entre o Largo do Patriarca e a R. Quintino Bocaiúva e não encontrou o restaurante... achou então que a casa ficasse na R. da Quitanda, mas também não era lá... então voltou à R. Direita e rememorando mais profundamente a arquitetura do restaurante descobriu que ele tinha se transformado em uma loja de sandálias... conversando com a atendente descobriu que tal comércio havia sido inaugurado há apenas uma semana...

O jeito foi ir ao velho e tradicional Restaurante Itamaraty, na R. José Bonifácio defronte ao Largo de São Francisco... ao entrar o capitão (*) abriu a porta para ele, que se lembrou que seu avô ia lá diariamente, e então ficou fazendo contas para tentar adivinhar se aquele funcionário havia algum dia aberto a porta para seu avô...

Sentou-se na mesma mesa, chamou o garçon pelo nome e escolheu primeiro a tradicional empadinha, depois um rosbife com salada de batatas, para beber água com gás...

No intervalo entre a empada (tão tradicional que só tem de azeitona) e o prato principal, Josias Germano então pensou em outros restaurantes que fecharam no centro, bem mais tradicionais que o referido quilinho-japonês... se lembrou da leiteria Americana onde sua tia-avó Quepitas o levara para comer sundays & banana-splits em meados da década de setenta… leiteria que também servia cerveja, como naquela memorável noite em meados da década de noventa, em que foram comemorar a abertura da exposição de arte que o nosso protagonista realizou com Sávio Cacciaccinni, Sancho Ruiz Maldini, Alfeu Doaragna, Juliana Dilgorzi e Miraldo Xavier, naquela passagem após o viaduto do Chá sob a R. Xavier de Toledo (que hoje se encontra fechada)... naquela noite o famoso artista Maurício Nogueira Lima foi na “avernissagem” (*) e depois rumou com eles para tomar umas cervejas na Leiteria Americana...

Josias Germano acredita que a presença daquele ilustre pintor em sua “avernissagem” é um dos troféus que irão aparecer em sua biografia (se esta for um dia escrita, é claro)...

O nosso protagonista se lembrou então nos painel de Nogueira Lima no Largo de São Bento e nas pinturas do artista amigo nas escadas da Estação São Bento do Metrô... pensou então no painel de Tomie Othake na R. Xavier de Toledo e voltou a suas recordações aos restaurantes que já não existem mais...

Lembrou do Lírico que ficava na R, Líbero Badaró, do Carlino que começou na R. São João, mas que depois foi para a R. Vieira de Carvalho... pensou no Gigetto que começou na R. Nestor Pestana, mas que Josias conhecera na R. Avanhandava, e por sinal já não funcionava mais lá (dizem que vai reabrir)...

Ele então pensou em locais em que nunca estivera, mas que sempre sonhou conhecer... lugares que ele iria se existisse a máquina do tempo... lugares como a Cervejaria Franciscano na R. Líbero Badaró onde Mário de Andrade tomava seus chopps, o Salada Paulista na R. Ipiranga, no Jequiti-bar na R. 24 de Maio, na Salsicharia Dois Porquinhos na Av. São João, no bar do Hotel Esplanada na Praça Ramos da Azevedo, na Choperia Heidelberg (que teve que mudar de nome para Choperia Harmonia) na R. Xavier de Toledo, no Nick Bar (***) na R. Major Diogo (vizinho ao Teatro Brasileiro de Comédia)...

Ficou imaginando que com a invenção da máquina do tempo, a indústria do turismo iria abocanhar este filão de mercado: “Ouça Dick Farney tocando no Bar Simpatia na R. Xavier de Toledo no final da década de 40”, “Conheça os bares da Vila Isabel que Noel Rosa freqüentava” seria o anúncio de uma agência de turismo no tempo... então ele imaginou Noel Rosa horrorizado com o enorme fluxo de pessoas com roupas estranhas que começaram a aparecer nos botecos que ele tanto gostava e então o sambista da Vila iria comentar com seus parceiros de samba:

“- Este pessoal que começou a aparecer é muito estranho... vamos fugir para os bares do Estácio...”

Josias Germano abençoou então a (ainda) inexistência da máquina do tempo “ - Imagine a muvuca que seria a Semana de Arte Moderna com hordas de intelectuais oriundos das décadas futuras aborrecendo os modernistas.”

No caminho entre o Largo de São Francisco e a R. Barão de Itapetininga ele se lembrou de uma matéria que lera sobre o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, no qual este afirmara que a partir de 1500 D.C. acabara o mundo para os índios de Pindorama... mas que apesar disto, muitos séculos depois ainda sobraram algumas aldeias indígenas... e que com a classe burguesa está acontecendo o mesmo... que seu mundo está acabando... que durante muito tempo ainda existirão bons restaurantes e lugares bonitos, mas que seriam lugares totalmente isolados, sem qualquer vínculo com o entorno degradado pela histeria consumista....

O nosso protagonista pensou, pensou e pensou... tudo isto em uma fração de segundos... e concluiu que pessoas como ele já não tinham lugar nesta cidade infestada de crakeiros, nóinhas, emboabas, moderninhos, mauricinhos e patricinhas... que lugares como o Itamaraty irão permanecer por muitos anos, mas serão com as atuais aldeias indígenas... algo totalmente alheio e anacrônico... e então começou a comer o rosbife...

Após o almoço, chegando na esquina da Praça do Patriarca com a R. Líbero Badaró virou à esquerda em direção a um sebo que fica no meio do quarteirão... e lá comprou um livro editado em 1935 pela Companhia Editora Nacional: “O Selvagem: Curso de língua Tupi viva ou Nheengatú” - Bibliotheca Pedagógica Brasileira – Série V “Brasiliana” Vol . LII – escrito pelo Gen. José Vieira Couto de Magalhães.

Então rumou para a R. Barão de Itapetininga, onde outrora funcionaram a Confeitaria Vienense e a Confeitaria Seleta...



(*) Capitão é o nome que damos àquele porteiros com quepe e jaqueta (podem usar luvas brancas também) que abrem as portas para a gente nos restaurantes e hotéis...

(**) O termo “avernissagem” foi criado pelo músico e filósofo Sidney Molina, que é um neologismo com as palavras vernissage e aterrisagem.

(***) O nome Nick Bar vem da tradução da peça “The Time of Our Life” de William Saroyam quem em terras pindorâmicas passou a se chamar “Nick Bar... Álcool, Brinquedos e Ambições” e foi encenada em 1949 no TBC.... posteriormente Garoto e José Vasconcelos iriam compor “Nick Bar”, sucesso na voz e piano de Dick Farney.

Conto - José Miranda Filho

Fitinhas do Senhor do Bonfim
Encontro de Amigos - Parte 26

Esticado na cama, após ter ingerido duas caipirinhas e alguns copos de chope, João Pinto imaginava-se chegando em Salvador, precisamente em Carrapichel, sua terra natal, para a realização do sonho que tanto desejara, casar–se com Marinalda, a mesma que tinha a cicatriz no rosto e que todos os seus amigos o induziam a chamá-la de Onça, o que ele sempre fazia para não desapontá-los, mas, não gostava. Finalmente, na manhã do dia 23 de agosto de 1975 ele embarcou no ônibus da empresa Senhor do Bonfim ao encontro de sua amada. Não queria saber se ela tinha ou não qualquer cicatriz, não queria saber se ela era ou não onça, se era ou não bonita, mas apenas queria saber que ela havia conquistado seu coração, havia transformado a sua vida, havia indicado o caminho que deveria seguir, já que ele nunca acreditou em nada. Era ateu. Nunca acreditou em Deus, até que um dia ela persuadiu-lhe a acompanhar à Igreja de Cristo Redentor, para uma noite de orações.

A principio foi difícil sua participação aos sábados à noite, já que era tido como um boêmio e esses dias eram consagrados aos amigos, à balada e à farra. Nada como um grande amor para mudar a vida e os costumes das pessoas! Nada como estar apaixonado para sentir-se curado dos preconceitos insidiosos que o amor condena. E assim foi João Pinto, depois de meses participando dos cultos da Igreja de Cristo Redentor. Tornou-se evangélico. Parou de beber. Partiu! Despediu-se dos amigos e foi em busca do verdadeiro amor.

Viveu a vida.....

Amou o seu amor e por ela foi amado, enquanto pôde e viveu. O passado jamais lhe interessou, apenas servia de exemplo quando desejava realizar alguma coisa e sentia dificuldade na execução. Aí ficava horas e horas matutando, pensando no que fazer, como fazer... fora disso, jamais invocou o passado, pois sempre soube que o presente é o melhor momento para se viver, enquanto o futuro a Deus pertence. Só ele tem o direito de saber e nos orientar. E, assim foi em busca do seu amor...

Anos mais tarde soubemos que havia sofrido um problema vascular e pelo qual ficara inválido, vindo a falecer meses depois. Deixou viúva Dona Marinalda, e um filho.

Conto - Eduardo Miranda

 Edvard Munch, The Death Bed, 1895
Tantos anos na profissão e eu ainda me apanhava de surpresa, emocionado com certos casos. Esse rapaz, por exemplo, vítima de um AVC. Novo ainda, em coma induzido já há sete dias, todo entubado… não sei o que havia nele que me despertava uma tristeza imensa. Talvez por aparentar mais ou menos a minha idade, ou por se parecer com alguém que eu conhecia, embora não me lembrasse quem.

Todos os dias o hospital recebia gente à beira da morte. Fazia parte da rotina. Médicos, enfermeiros e até mesmo as recepcionistas, acabavam se acostumando a gente ensanguentada, corpos dilacerados, pessoas beirando a tênue fronteira entre a vida e a morte, mas acho que particularmente nós, enfermeiros, éramos os que mais nos expunhamos, e consequentemente, os primeiros a sentir o que costumo chamar de “processo de desumanização”, que é uma incapacidade involuntária de sentir compaixão ou solariedade, e o paciente passa a não ser mais do que um mero produto do trabalho. Por favor, não me entandam mal! Ainda somos todos profissionais de saúde, comprometidos em salvar vidas… mas depois de um tempo deixamos de sentir, só isso.

Mas com este rapaz era diferente… por mais que me esforçasse não conseguia me lembrar da sua entrada, não me lembrava de fazer-lhe curativos ou de ministrar-lhe medicamentos… nada. Sentia apenas uma forte presença, uma força, ele agarrando-se a toda e cada esperança que lhe restava… mas não entendia o por que desse apego.

* * *

Já perdi a noção de quanto tempo estou sentado a seu lado, mas tenho a impressão de sempre ter estado aqui. Vejo pessoas chegando e saindo, muita gente, e todos me são familiares, de alguma maneira.

De repente senti seu corpo cair-se, deixar-se, naquela cama em que deitado já estava. Foi como uma renúncia, uma desistência, uma entrega... E foi neste exato momento que também senti todo seu cansaço, seu desânimo... toda aquela entrega, aquela desistência, aquela renúncia, tudo estava em mim! Só então fui capaz de entender todo aquele apego...

Levantei-me da cadeira e me afastei, devagar, do corpo inerte e rodeado de parentes e amigos. Se pudesse pedir algo antes de partir, seria a oportunidade de dizer alguma coisa, poucas palavras, para conforto de todos. Como não foi possível, espero que o discreto sorriso que deixei em meus lábios dê o recado.

Tradução - Eduardo Miranda

Quirografia de Charles Sanders Peirce
sobre o poema The Raven.
Edgar Allan Poe (1809 - 1849), escritor, poeta, romancista, crítico literário e editor. Segundo filho de um casal de atores, Poe ficou órfão ainda criança e foi adotado por um casal rico de Richmond, Virgínia, o que lhe permitiu ter uma educação de qualidade. Conhece uma certa popularidade ao vencer simultaneamente os concursos de conto e poesia promovidos pela revista "Southern Literary Messager". O fundador da publicação convidou-o para dirigir a revista, que rapidamente se impõe ao público. Durante dois anos, Poe esteve a frente do periódico, onde pôde exibir seu talento, que se manifestava num estilo novo, tanto no conto quanto na poesia, bem como pelos artigos de crítica literária que revelavam seu rigor e sensibilidade estética.

O Corvo" é uma de suas obras mais conhecidas. Foi ela que Poe usou como exemplo no seu instigante ensaio "Filosofia da Composição", onde alega que nenhum ponto da composição pode ser atribuído à intuição ou à sorte; e que aquele poema avançou até seu término, passo a passo, com a mesma exatidão e lógica rigorosa de um problema matemático.

Grandes nomes traduziram O Corvo, das maneiras mais inusitadas possíveis - prosa, soneto, sexteto, e outros. Minha intenção, porém, foi solucionar melhor o eco da voz do corvo (never more) com o nome da mulher (Leonore). Não encontrei tradução que mantivesse o eco, e todos partem para "Leonora/Nuncamais". Embora a tônica da palavra tenha se deslocado, a combinação "Taís/Nuncamais" aproxima-se mais do eco original que "Leonore/Nevermore" dispara no leitor de língua inglesa. No mais, é apenas mais um exercício de tradução.


O Corvo - Edgar Allan Poe

Certa meia-noite sombria, enquanto cansado lia e refletia
Sobre estranhos e curiosos volumes de doutrinas ancestrais
Cochilava, já quase adormecia, quando ouvi que alguém batia
Alguém batia, suavemente alguém batia em meus portais
“Um visitante”, resmunguei, batendo em meus portais —
Há de ser isso e nada mais.”

Ah, como eu me lembro, era um gélido e triste Dezembro,
E cada brasa moribunda que por dentro morria, forjava mil funerais
Excitado eu desejava o alvorar; futilmente busquei emprestar
Do meu livro cerrado de tanto penar — penar pela perda de Taís, —
Pela rara e radiante donzela a quem os anjos chamaram Taís —
Sem nome agora e jamais.

E a sedosa, sombria, serrazina batida de cada cortina
Aterrorizava-me com terrores nunca dantes visto iguais;
E meu coração inquieto ouvia de minha mente doentia:
“Um visitante querendo entrar em meus portais —
Algum visitante tardio querendo entrar em meus portais —;
Há de ser só isso, e nada mais.”

E minha alma de tal poder se formou que não mais hesitou,
“Senhor”, disse “ou Madame, meu perdão ofereço ademais,
Pois fato é que estava já adormecendo, e gentilmente alguém batendo,
Palidamente alguém batendo, batendo em meus portais,
Que o ouvi apenas vagamente” — e totalmente abri meus portais —
A escuridão encontrei, e nada mais.

A escuridão observando, estanque, a imaginação avoando, relutando
Duvidando, sonhando sonhos que mortal algum sonhou jamais;
Mas o silêncio era profundo, a calmaria de outro mundo
E a única palavra lá falada, sussurrada, foi a palavra, “Taís!”
Meu sussurro murmurou de volta o eco da palavra “Taís!”
Simplesmente isso, e nada mais.

E ao quarto voltava, minh’alma em chamas queimava,
Quando ouvi baterem, mais alto agora, novamente em meus portais.
Certamente, disse a mim mesmo, há algo com minha janela;
Certamente é isso, algo com a madeira ou com os vitrais –
Deixe meu coração se tranqüilizar na madeira e nos vitrais –
Há de ser o vento, e nada mais.”

Escancaro completamente meus portais, e de repente
Portenta ave, um corvo, adentra sei lá de que eras ancestrais.
Nenhuma reverência prestou, nem sequer um minuto hesitou;
Como se um nobre fosse, sem mais empoleirou-se em meus umbrais –
Empoleirado num busto de Pallas, justamente em meus umbrais –
Lá empoleirado, e nada mais.

E tal ave negra distrai-me por um instante de minha tristeza,
Pelo grave e áustero decoro que sustenta seus gestos rituais,
De crista bem aparada, disse-lhe ‘não és criatura acovardada,
Medonho e apavorante corvo, de lá das terras infernais –
Diga-me o nome de teu mestre, lá dos meios infernais!’
Grunhiu o corvo, ‘Nuncamais’

Muito me surpreendeu, pássaro raro que falasse tão claro
Embora fossem palavras de pouco sentido em discursos reais
Nenhum fulano ou beltrano, nenhum ser humano
Fora jamais abençoado com tal ave falante em seus umbrais –
Pássaro ou besta que seja, pousado em busto em seus umbrais,
Ainda mais chamado ‘Nuncamais’

Mas o corvo, que se sentava sobre o plácido busto, apenas falava,
Palavra única, como se sua alma fosse aquela palavra e nada mais.
Nada além ele pronunciou – nem mesmo uma só pena ele agitou –
Murmurei ‘Amigos vêm e vão em contínuos vens e vais –
Ao amanhecer ele partirá, como outrora minhas esperanças joviais.’
E o corvo disse, ‘Nuncamais.’

Aterrorizado por tão sábias palavras de sentido figurado
Disse, ‘Sem dúvida, são palavras fixas, decoradas, sempre iguais,
Aprendidas de algum infeliz, algum qualquer a quem o destino quis,
Que estas palavras fossem pronunciadas, todos os dias as mesmas tais
Compondo tenebroso estribilho, feito reza, todos os dias as mesmas tais
O sombrio Nunca-nuncamais

E o corvo ainda distraía-me de toda minha herdada tristeza,
E tranqüilamente sentado frente ao corvo e aos meus umbrais;
Quando então, afundado no veludo, passei, matuto,
A ligar os acontecimentos, e este agourento pássaro de lugares tais –
O que este cruel, tosco, esquálido e agourento pássaro de lugares tais
Quer dizer ao grunhir ‘Nuncamais.’

E eu sentado, prevendo, mas nenhuma palavra dizendo
Para a tal ave, cujos olhos me queimavam com olhares fatais
Isso e mais, eu sentado prevendo, minha cabeça pendendo
Em travesseiros de veludo, sob a luz de candelabros penumbrais
De quem os travesseiros, sob os candelabros penumbrais,
Dela seriam, ah, nuncamais!

O ar ficou então mais denso, tomado por um forte incenso
Onde anjos foram chegando com seus passos angelicais.
‘Desgraçado’, gritei, ‘teu Deus te concedeu – pelos anjos te concedeu
A rendição – rendido e torpente das memórias de Taís
Bêbado, oh bêbado e entorpecido, esquecido de Taís’
Grunhiu o corvo, ‘Nuncamais’

‘Profeta!’ eu disse, ‘coisa do mal! Ainda profeta, pássaro infernal
Se deliberadamente enviado, ou largado nestas praias funerais,
Ainda desolado, destemido, nesta desértica terra perdido –
Em meu lar aterrorizado, me diga a verdade, e nada mais –
Existe – existe paz no Perpétuo? A verdade e nada mais!’
Grunhiu o corvo, ‘Nuncamais’

‘Profeta!’ eu disse, ‘coisa do mal! Ainda profeta, pássaro infernal
Por estes céus angelicais, por todos os deuses elementais
Diga a esta alma atormentada, se além do Éden faz morada
Uma bela donzela, a quem os anjos chamaram Taís –
Única e radiante donzela, a quem os anjos chamaram Taís?’
Grunhiu o corvo, ‘Nuncamais’

‘Seja esta palavra nosso adeus eterno, demônio ou ave do inferno,
Volta para a profundeza de tuas noites eternais!
E não deixe legado das heresias que tem falado!
Deixe-me cá só e abandonado! – saia já de meus umbrais!
Leve tua figura e todos os teus sinais pra longe de meus umbrais!’
Grunhiu o corvo, ‘Nuncamais’

E o corvo, parado, ainda empoleirado, e ainda empoleirado
Sobre o pálido busto de Pallas que está acima de meus umbrais;
Seu olhar demoníaco transparece sua presença refece,
E a luz projetada sobre ele escoa em sombra nos meus umbrais;
E minh’alma presa a esta sombra, ainda hoje em meus umbrais
Ascenderá – nuncamais!

* * *

The Raven - Edgar Allan Poe

Once upon a midnight dreary, while I pondered, weak and weary,
Over many a quaint and curious volume of forgotten lore,
While I nodded, nearly napping, suddenly there came a tapping,
As of some one gently rapping, rapping at my chamber door.
"'Tis some visitor," I muttered, "tapping at my chamber door-
Only this, and nothing more."

Ah, distinctly I remember it was in the bleak December,
And each separate dying ember wrought its ghost upon the floor.
Eagerly I wished the morrow;- vainly I had sought to borrow
From my books surcease of sorrow- sorrow for the lost Lenore-
For the rare and radiant maiden whom the angels name Lenore-
Nameless here for evermore.

And the silken sad uncertain rustling of each purple curtain
Thrilled me- filled me with fantastic terrors never felt before;
So that now, to still the beating of my heart, I stood repeating,
"'Tis some visitor entreating entrance at my chamber door-
Some late visitor entreating entrance at my chamber door;-
This it is, and nothing more."

Presently my soul grew stronger; hesitating then no longer,
"Sir," said I, "or Madam, truly your forgiveness I implore;
But the fact is I was napping, and so gently you came rapping,
And so faintly you came tapping, tapping at my chamber door,
That I scarce was sure I heard you"- here I opened wide the door;-
Darkness there, and nothing more.

Deep into that darkness peering, long I stood there wondering, fearing,
Doubting, dreaming dreams no mortals ever dared to dream before;
But the silence was unbroken, and the stillness gave no token,
And the only word there spoken was the whispered word, "Lenore!"
This I whispered, and an echo murmured back the word, "Lenore!"-
Merely this, and nothing more.

Back into the chamber turning, all my soul within me burning,
Soon again I heard a tapping somewhat louder than before.
"Surely," said I, "surely that is something at my window lattice:
Let me see, then, what thereat is, and this mystery explore-
Let my heart be still a moment and this mystery explore;-
'Tis the wind and nothing more."

Open here I flung the shutter, when, with many a flirt and flutter,
In there stepped a stately raven of the saintly days of yore;
Not the least obeisance made he; not a minute stopped or stayed he;
But, with mien of lord or lady, perched above my chamber door-
Perched upon a bust of Pallas just above my chamber door-
Perched, and sat, and nothing more.

Then this ebony bird beguiling my sad fancy into smiling,
By the grave and stern decorum of the countenance it wore.
"Though thy crest be shorn and shaven, thou," I said, "art sure no craven,
Ghastly grim and ancient raven wandering from the Nightly shore-
Tell me what thy lordly name is on the Night's Plutonian shore!"
Quoth the Raven, "Nevermore."

Much I marvelled this ungainly fowl to hear discourse so plainly,
Though its answer little meaning- little relevancy bore;
For we cannot help agreeing that no living human being
Ever yet was blest with seeing bird above his chamber door-
Bird or beast upon the sculptured bust above his chamber door,
With such name as "Nevermore."

But the raven, sitting lonely on the placid bust, spoke only
That one word, as if his soul in that one word he did outpour.
Nothing further then he uttered- not a feather then he fluttered-
Till I scarcely more than muttered, "other friends have flown before-
On the morrow he will leave me, as my hopes have flown before."
Then the bird said, "Nevermore."

Startled at the stillness broken by reply so aptly spoken,
"Doubtless," said I, "what it utters is its only stock and store,
Caught from some unhappy master whom unmerciful Disaster
Followed fast and followed faster till his songs one burden bore-
Till the dirges of his Hope that melancholy burden bore
Of 'Never- nevermore'."

But the Raven still beguiling all my fancy into smiling,
Straight I wheeled a cushioned seat in front of bird, and bust and door;
Then upon the velvet sinking, I betook myself to linking
Fancy unto fancy, thinking what this ominous bird of yore-
What this grim, ungainly, ghastly, gaunt and ominous bird of yore
Meant in croaking "Nevermore."

This I sat engaged in guessing, but no syllable expressing
To the fowl whose fiery eyes now burned into my bosom's core;
This and more I sat divining, with my head at ease reclining
On the cushion's velvet lining that the lamplight gloated o'er,
But whose velvet violet lining with the lamplight gloating o'er,
She shall press, ah, nevermore!

Then methought the air grew denser, perfumed from an unseen censer
Swung by Seraphim whose footfalls tinkled on the tufted floor.
"Wretch," I cried, "thy God hath lent thee- by these angels he hath sent thee
Respite- respite and nepenthe, from thy memories of Lenore!
Quaff, oh quaff this kind nepenthe and forget this lost Lenore!"
Quoth the Raven, "Nevermore."

"Prophet!" said I, "thing of evil!- prophet still, if bird or devil!-
Whether Tempter sent, or whether tempest tossed thee here ashore,
Desolate yet all undaunted, on this desert land enchanted-
On this home by horror haunted- tell me truly, I implore-
Is there- is there balm in Gilead?- tell me- tell me, I implore!"
Quoth the Raven, "Nevermore."

"Prophet!" said I, "thing of evil- prophet still, if bird or devil!
By that Heaven that bends above us- by that God we both adore-
Tell this soul with sorrow laden if, within the distant Aidenn,
It shall clasp a sainted maiden whom the angels name Lenore-
Clasp a rare and radiant maiden whom the angels name Lenore."
Quoth the Raven, "Nevermore."

"Be that word our sign in parting, bird or fiend," I shrieked, upstarting-
"Get thee back into the tempest and the Night's Plutonian shore!
Leave no black plume as a token of that lie thy soul hath spoken!
Leave my loneliness unbroken!- quit the bust above my door!
Take thy beak from out my heart, and take thy form from off my door!"
Quoth the Raven, "Nevermore."

And the Raven, never flitting, still is sitting, still is sitting
On the pallid bust of Pallas just above my chamber door;
And his eyes have all the seeming of a demon's that is dreaming,
And the lamplight o'er him streaming throws his shadow on the floor;
And my soul from out that shadow that lies floating on the floor
Shall be lifted- nevermore!

Foreign Words - Mário Quintana

Monumento a Carlos Drummond de Andrade e a Mário Quintana,
por Francisco Stockinger, na Praça da Alfândega, Porto Alegre
foto: Ricardo André Frantz

Poetic Art

Those poets who say that all
Nothing can say:
They are just writing reports...

[in Velório Sem Defunto, 1990]

Arte poética

Esses poetas que tudo dizem
Nada conseguem dizer:
Estão fazendo apenas relatórios...

[in Velório Sem Defunto, 1990]

Releitura - Paulo Leminski

Die-chotomy's Rebellion Aftermath One Death Of The Present
Alan Rutherford
já me matei faz muito tempo
me matei quando o tempo era escasso
      e o que havia entre o tempo e o espaço
era o de sempre
      nunca mesmo o sempre passo

      morrer faz bem à vista e ao baço
melhora o ritmo do pulso
      e clareia a alma

      morrer de vez em quando
é a única coisa que me acalma

Ilustração - José Geraldo de Barros Martins


Ilustração - Gino Rubert

Durante os últimos dez anos, o trabalho de Gino Rubert tem sido o de representar experiências e emoções acessadas ​​a partir do quadro animado e blindado dos relacionamentos românticos. A "nova mulher", o "novo homem", suas funções, disfunções, conflitos e retórica. Ele atualmente vive e trabalha em Barcelona. ~ http://www.ginorubert.com







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