Definição

... da totalidade das coisas e dos seres, do total das coisas e dos seres, do que é objeto de todo o discurso, da totalidade das coisas concretas ou abstratas, sem faltar nenhuma, de todos os atributos e qualidades, de todas as pessoas, de todo mundo, do que é importante, do que é essencial, do que realmente conta...
Em associação com Casa Pyndahýba Editora
Ano VI Número 63 - Março 2014

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Conto - José Geraldo de Barros Martins

O Trigésimo Segundo Metrô

Ilustração do autor

No mesmo dia que chegara em Paris, Persius Bonairent resolveu tomar um café na Galerie Vivienne... na verdade um dos motivos da escolha da capital francesa como local de férias era o fato de conhecer aquele lendário local, que fora cenário do conto “El Otro Cielo” de Júlio Cortázar. Neste conto, o protagonista viaja de Buenos Aires à Paris (e vice-versa) através da Pasaje Güemes e da Galerie Vivienne, ou seja estas galerias (a primeira situada na capital platina e a segunda na capital francesa) eram portais por onde ele saia de uma cidade e chegava na outra. Persius gostara tanto deste conto que fora mais uma vez à capital platina somente para conhecer a Pasaje Güemes... agora só faltava conhecer a contraparte gaulesa.

Ao chegar na galeria ele sentou-se à mesa do Bistrot Vivienne e depois de olhar a clássica loja de vinhos, Maison Legrand et Fils, que ficava no lado oposto do bistrô, resolveu pedir um “pichet du vin” no lugar do café. Mal começou a bebericar resolveu desenhar o local. Quando acabou o desenho notou que uma velhinho o observara atentamente. Convidou-a para sentar e acompanhá-lo no vinho... começaram a conversar e logo descobriram que ambos eram aficionados em tangos antigos... Então Persius perguntou se o velhinho já lera algo de Júlio Cortázar... o ancião disse que não, que não lera, porém que este nome não lhe era estranho... depois de um tempo perguntou a Persius se este tal de Cortázar era um sujeito alto e barbudo que morara em Paris...

Este mesmo, por quê, você por acaso conheceu-o? Perguntou o nosso protagonista em seu francês quase sem sotaque.

Sim... foi uma das poucas pessoas sobre que falei a respeito da trigésima segunda composição do metrô, uma vez que este assunto eu só posso comentar com pessoas que já foram para a capital argentina... Você, embora brasileiro, pelo que conhece de tango, já deve ter estado lá...

Claro que estive, todo ano sempre dou um jeito de dar uma passada lá, seja para comprar um livro na Calle Corrientes, seja para comer um bife de chorizo...

Então preste atenção... se você gosta de Buenos Aires, vou lhe dizer algo muito importante... algo que só falo para pessoas especiais... quando você estiver no metrô, não peguue a primeira composição... espere passar trinta e uma vezes e então entre na trigésima segunda composição... mas preste atenção... conte direitinho... a coisa só acontece se você entrar na trigésima segunda vez... você irá ver que acontecerá algo muito inusitado... esta composição do metrô irá levá-lo diretamente a capital platina...Deixe que eu pago o vinho... amanhã me encontre aqui no mesmo horário e me diga o que achou... se puder me traga um CD do Roberto Goyeneche acompanhado de Juanjo Dominguez ao violão...

O nosso protagonista observou o velhinho pagar a conta, se levantar e desaparecer em meio aos corredores da galeria Vivienne.

Nossa... cada maluco que eu atraio... onde iria achar este disco em Paris... que velho doido - pensou Pérsius Bonairent.

Porém só de farra ele resolveu entrar no metrô mais próximo, no caso a estação Pyramides (na linha 7) ... Eram 14:05 hs quando ele chegou na plataforma na direçãoVillejuif-Louis Aragón... esperou o metrô passar trinta e uma vezes... na trigésima segunda estanhou que os vagões estavam todos vazios... “Deve ser coincidência”- pensou enquanto entrava no vagão... porém ao chegar na estação seguinte deu-se a revelação: ao invés da estação Palais Royal Musée du Louvre, como seria natural, estava na estação Pueyrredón... era isto... tal qual as galerias do conto de Cortázar a trigésima segunda composição do metrô também era um portal que fazia a comunicação entre as cidades... O nosso protagonista permaneceu no metrô e verificou que a próxima estação era a Palais Royal Musée du Louvre, ou seja estava de volta a Paris... quando ia descer se lembrou do pedido do velhinho: o CD do Roberto Goyeneche acompanhado de Juanjo Dominguez... Permaneceu no metrô e desceu na próxima estação... no caso la estación Aguero...

Lá fora procurou uma casa de câmbio para trocar os euros por pesos... esperava que em Buenos Aires fosse mais cedo, porém descobriu que eram 14:17hs na capital platina: ou seja o fuso horário não existia na transposição destas portas dimensionais... Após conseguir os pesos, foi até uma loja de discos para comprar o regalo para seu novo amigo... saindo da loja, lembrou-se que estava perto do Museu Xul Solar (que fica na Calle Laprida 1212) e resolveu visitá-lo mais uma vez... antes de voltar para Paris comeu um sanduiche de bife a milanesa e bebeu uma gaseosa de pomelo...

II

Devido a recente descoberta, o nosso protagonista passou a ir assiduamente as capitais francesa e platina, pois agora ele só voava e se hospedava em Buenos Aires (o que é muito mais barato), além do fato que não precisava enfrentar horas e horas de avião para cruzar o atlântico... eram só duas horas e meia até o Aeroparque, depois se instalava em algum hotel confortável, ia até a estação de metrô mais próxima, esparava trinta e uma composições passarem e entrava na trigésima segunda e pronto: já estava em Paris!!! Dava até para ir nos feriados...

Mas Persius Bonairent não era um sujeito mal-agradecido não... ele sempre passava na Bistrô Vivienne e ficava esperando o velhinho, quando este chegava o nosso protagonista lhe entregava um pacote com alguns CDs de tangos, depois se sentavam e tomavam um vinho e ficavam a falar sobre a vida... no início deste ano porém o ancião não estava mais lá... justamente quando Persius levara um CD da Jacqueline Sigaut, uma cantora argentina com nome francês que está surgindo agora... O nosso protagonista perguntou pelo velhinho e descobriu que faz tempo que ele não aparecia... - “Será que ele morreu?” - pensou...

Aquilo o abalou profundamente, tanto que ele resolveu pegar o primeiro, (quer dizer o trigésimo segundo) metrô para Buenos Aires e tomar um copetin em um bar que fica em frente a passaje Güemes... Eis que ao chegar lá, adivinhem que ele encontrou??? Ninguém mais, ninguém menos que o velhinho em carne e osso... Este abriu os braços para Persius e após um abraço disse, agora em um espanhol com bastante sotaque:

Tudo bom? Sabe... vou te confessar uma coisa... quando te contei aquela estória do trigésimo segundo metrô eu estava brincando... mas quando você voltou com o CD do Goyeneche suspeitei que a coisa funcionasse de verdade... depois de um tempo tomei coragem e vim aqui para a Argentina... minha vida melhorou muito... aqui não faz tanto frio... e com aquela aposentadoria miserável que o monsieur Sarkô quer diminuir a todo custo, a vida lá está muito cara... agora não... eu saco o dinheiro em Paris e venho para cá gastar, com o câmbio bem mais favorável... de vez em quando eu volto, para comprar algum livro, uma garrafa de Calvados ou uns queijos, mas no mais a vida aqui é bastante boa, os vinhos são potáveis e a carne aqui é magnífica... e digos mais: já arrumei até uma companheira...

Nisto, o nosso protagonista vê uma senhora (talvez um pouco mais moça do que ele) se aproximar.

- Florinda! Quero te apresentar o meu amigo brasileiro, de quem tanto te falei!!!

José Geraldo De Barros Martins é de São Paulo. Músico, pintor e escritor, desde 2001 publica seus desenhos e escritos no blog http://zegeraldo.free.fr.

Conto - José Miranda Filho

O Retrato do Sertão – 15
Fairy Tale - postcard

Na bifurcação da estrada Quincas Ferreira com coronel Praxedes que vai a Poços dos Anjos, do lado esquerdo de quem sai de Laranjeiras, está fincada uma pequena cruz feita de aroeira identificando o local em que Sá Lorena morreu. Segundo alguns moradores o lugar é assombrado e misterioso. Receiam passar por lá tarde da noite, principalmente quando não tem luar. Dizem que Sá Lorena aparece à beira da estrada, sob o pé de juazeiro florido implorando perdão àqueles que ela vilipendiou em vida. Pouca gente acredita. Os mais cépticos desdenham, enquanto outros envolvidos em assuntos espirituais, dentre os quais se enquadra Zequinha da venda, o filho de Maninha - moleque travestido de homem - frequentador da “Casa Espiritual Santa Helena”, e Zé vaqueiro, empregado de seu Quincas, confirmam ser verdadeiro o mistério da aparição. Juram já ter visto a alma penada de Sá Lorena perambulando pelo local.

Zequinha contou prá sua mãe sem medo de ser repreendido que muitas vezes levando mercadorias do armazém para os sitiantes das redondezas se deparou com o fantasma.
Entre um gole e outro de cachaça na venda de Maninha nos finais de semana com os amigos, Zé vaqueiro não se constrange ao afirmar que nas noites de trovões e relâmpagos, Sá Lorena costuma aparecer vestida de branco, tal qual estava na noite em que foi assassinada.

- Já vi várias vezes, mas nunca pensei que fosse o espirito de Sá Lorena. Achava que era uma simples ilusão, coisas de quem passa pelo local e fica imaginando o que teria acontecido!. Dizia Zé, sob o olhar desconfiado dos amigos e frequentadores do armazém..

- Acontece que numa noite dessas, contava Zé... Seu Quincas mandou que eu fosse procurar uma bezerra desgarrada que havia fugido do curral. Estava bastante escuro, uma ou duas estrelas brilhavam no céu brincando de esconde-esconde, correndo de um canto ao outro do horizonte como se quisessem me indicar o lugar em que estava a bezerra fugitiva. Eu montava a égua preferida de seu Quincas. Animal experiente e bastante acostumado a esse tipo de ação. De repente, diante do pé de juazeiro a égua emburrou. Não andava de jeito nenhum. Por mais que eu a esporeasse - coisa que seu Quincas nunca aceitou e sempre me repreendia por isso - ela não saía do lugar. Amuou!. Apeei e puxei-a pela rédea. Nada! Não conseguia fazê-la dar um passo adiante. Ai, imaginei que ela estivesse vendo alguma coisa estranha, porque quando o animal emburra desse jeito é porquê vê coisas que a gente não consegue. A égua nunca agiu desse jeito, por mais difícil que fosse a ocasião! Nunca teve medo de escuridão, tempestades, trovões, relâmpagos... Nada! Mas naquela noite... Achei estranho o comportamento da égua. Como os animais conseguem ver coisas estranhas à nossa percepção me acautelei e gritei com toda a força de meu pulmão:

- Quem está ai? Apareça, senão eu atiro! Engatilhei a espingarda e esperei que alguém respondesse. Ai, amigos escutei um gemido... Olha companheiros, nunca tive medo de nada na vida, mas naquele momento senti um frio medonho na espinha. Meus cabelos se arrepiaram como se estivessem sendo levados pelo vento... E o pior é que não ventava no momento. Se eu estivesse usando o chapéu de couro que seu Quincas me deu de presente ele teria sido arrebatado da cabeça... Foi aí que vi na minha frente, entre um relâmpago e outro, a figura de Sá Lorena vestida de branco. Me chamou pelo nome:

- Calma Zé, vem cá! Vamos prosear um pouco... Me dá notícias de Geraldina, Tonho, seu Quincas, padre Fausto...Me conta quem matou o desgraçado Lampião... E dona Elvira... continua fazendo suas safadices com o padre?
Perplexo e amedrontando não vi quando ela desapareceu na escuridão.

- Minhas pernas tremiam, companheiros! Fiquei com medo, confesso!
Apavorado, deixei a égua trombuda no local e corri o mais depressa que pude pela estrada, até alcançar a casa de compadre Salu. Ele não acreditou em nada do que lhe disse. Caçoou de mim... Me chamou de maricas... Deu risadas na minha cara dizendo que eu não era mais aquele cabra macho que ele conhecia! Isso me irritou muito, e um tanto envergonhado pedí-lhe que fosse comigo ao local. Depois de tanta insistência ele concordou.
Permanecemos no local alguns minutos, porém não vimos nada, só o os clarões dos relâmpagos, que mesmo assim nos assustaram. Isso me deixou ainda mais encabulado.
Peguei a égua que ainda estava no mesmo lugar em que deixei e voltei pra fazenda, sem a bezerra. Salu me acompanhou. No caminho nada dizia. Só me olhava desconfiado, balançando a cabeça de um lado ao outro como se quizesse dizer que eu estava mentindo. Sentia isso pela sua atitude. Talvez pelo respeito que sempre tivemos um pelo outro, ele se resguardasse da insinuação. Mas eu notava sua expressão. Conhecia-a de muitos anos!

Seu Quincas também não acreditou, quando lhe contei.
Zombou de mim, dizendo:
- Essas besteiras são coisas de piegas, boiolas, covardes... E acho que você não é nada disso, Zé. Mas, que podem acontecer, podem!
Eu nunca ví, porém não duvido que aconteçam!!

Isso me esquentou os miolos, e só não mandei seu Quincas para os infernos pelo respeito e consideração que tenho por ele. Para mim ele é o pai que nunca tive. E pra mostrar que não estava mentindo, voltei ao local várias vezes durante as noites seguintes, porém, Sá Lorena nunca mais me apareceu. Por causa disso fiquei tachado na região como contador de lorotas. Mas, é verdade, amigos! Juro por tudo quanto é sagrado que vi a mulher!

Maninha, que servia outros fregueses do outro lado do balcão ouvia tudo calada. Dava de ombros quando alguém lhe pedia opinião.

- Não sei de nada...Nunca vi nada, mas não desacredito o Zé. Ele sempre teve meu respeito e minha consideração. Ele é uma pessoa séria e não precisa inventar nada! Acho que cada um tem sua própria espiritualidade e fé.

Maninha queria justificar a religiosidade do filho que participava ativamente dos trabalhos esotéricos da casa de Santa Helena. Zequinha tinha mediunidade que desenvolvia com consentimento da mãe. Por isso, ela era objetiva em seus comentários.

Poucas pessoas acreditavam nos comentários de Zé. Duvidavam do que dizia, enquanto os mais crédulos aceitavam passivamente, confiantes na aparição de Cristo aos seus apóstolos. A notícia da aparição de Sá Lorena já corria pelos quatro cantos da vila, até que uma noite, seu Quincas, homem extremamente religioso, sério e bastante respeitado na região confirmou de vez que o fenômeno da aparição de Sá Lorena era sim, verdadeiro.

Zé não mentia.

O pé de juazeiro nunca deixou de florir, nem mesmo na imensidão da seca como se algo misterioso o regasse todos os dias. Durante o dia suas frondosas e uniformes folhas refrescantes serviam de abrigo aos viajantes do causticante sol do sertão. Porem à noite...Vixe! Era motivo de medo. Poucos se atreviam passar pelo local.

José Miranda Filho, ex-Presidente e fundador do PMDB em São Caetano do Sul, Venerável Mestre da Loja Maçônica G. Mazzini (grau 33), é advogado e contador, colabora com o jornal ABC Reporter e atua como Diretor Financeiro do Conselho Gestor do Hospital Benificente São Caetano. Posta no Blog do Miranda.

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