Definição

... da totalidade das coisas e dos seres, do total das coisas e dos seres, do que é objeto de todo o discurso, da totalidade das coisas concretas ou abstratas, sem faltar nenhuma, de todos os atributos e qualidades, de todas as pessoas, de todo mundo, do que é importante, do que é essencial, do que realmente conta...
Em associação com Casa Pyndahýba Editora
Ano VI Número 63 - Março 2014

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Foreign Words - João Cabral de Melo Neto

Ilustração extraída do desenho animado "Morte e Vida Severina", versão audiovisual da obra prima de João Cabral de Melo Neto, adaptada para os quadrinhos pelo cartuinista Miguel Falcão (assista aqui).
Death & Life Severina
by Eduardo Miranda
extracted from the book Morte e Vida Severina, 1966


This grave where you are,
measured by strife
is the smallest share
you've got in life.

Neither wide nor profound,
good size, but still bridled,
this is the piece of ground
to which you are entitled.

It’s not a big grave,
but measured and spared,
the land which you craved
one day to see shared.

It is a big grave
for your poor soul
and you'll be more safe
then you were in the world.

Vida e Morte Severina
extraído de Morte e Vida Severina

Essa cova em que estás,
com palmos medida,
é a cota menor
que tiraste em vida.

É de bom tamanho,
nem largo nem fundo,
é a parte que te cabe
neste latifúndio.

Não é cova grande.
é cova medida,
é a terra que querias
ver dividida.

É uma cova grande
para teu pouco defunto,
mas estarás mais ancho
que estavas no mundo.

Foreign Words - Maria do Rosário Pedreira

Carriage, 60 x 70, oil on canvas, 2010 ~ Eric Zener
(tradução de Eduardo Miranda)

Between us sleep pains that you do not
know. You fell asleep first -
and my past is an antique clock
Teasing the silence. If you had

told me your name when you arrived,
you could be part of these memories already.

[in Nenhum Nome Depois, 2004]

Dormem entre nós dores que não
conheces. Adormeceste primeiro -
e o meu passado é um relógio antigo
que arrelia o silêncio. Se me tivesses

dito o teu nome quando chegaste,
podias fazer já parte destas memórias.

[in Nenhum Nome Depois, 2004]

Foreign Words - Mário Quintana

Monumento a Carlos Drummond de Andrade e a Mário Quintana,
por Francisco Stockinger, na Praça da Alfândega, Porto Alegre
foto: Ricardo André Frantz

Poetic Art

Those poets who say that all
Nothing can say:
They are just writing reports...

[in Velório Sem Defunto, 1990]

Arte poética

Esses poetas que tudo dizem
Nada conseguem dizer:
Estão fazendo apenas relatórios...

[in Velório Sem Defunto, 1990]

Foreign Words - Celso de Alencar


Lou Reed Died

To Arruda and Alzira E

It was a picnic like Sunday at Lake Alice.
The woman with the tattooed arms
came in despair yelling, to her friends
who drank orange juice sitting in a large towel.
Lou Reed is dead. Dead is Lou Reed.
And they hugged and cried and suddenly the waters of the lake
started to bubble and all the people, with no exception,
who were there, felt the dripping hot water over their bodies.
And all the old men
more than one hundred and forty old men
all over sixty-five years
they held hands and under deep tears
they sang Vicious
and they were joined by the three friends
and the children and their parents and the puppies.
Everyone were singing and crying when the waters calmed down
and then a strong scent of wild rosemary hovered the air
but there was no rosemary shrubs on the shores of Lake Alice.
It was all very weird as there was no wind, nor birds
carrying rosemary leaves in their long colorful beaks.


Lou Reed Died

Para Arruda e Alzira E

Era um domingo de piquenique no Lago Alice.
A mulher com os braços tatuados
chegou gritando, desesperada, para suas amigas
que bebiam suco de laranja sobre uma grande toalha.
O Lou Reed morreu. Morreu o Lou Reed.
E elas se abraçaram e choraram e de repente as águas do lago
começaram a borbulhar e todas as pessoas, sem exceção,
que ali se encontravam, sentiram pingos de água quente sobre seus corpos.
E todos os homens velhos
mais de cento e quarenta velhos
todos com mais de sessenta e cinco anos
deram-se as mãos e debaixo de intensas lágrimas
cantaram a musica
Vicious
e a eles se juntaram as três amigas
e as crianças e seus pais e os cachorrinhos.
Todos cantavam e choravam quando as águas se acalmaram
e então um forte perfume de alecrim selvagem surgiu no ar
mas não havia pés de alecrim nas margens do Lago Alice.
Foi tudo muito estranho pois não havia ventania, nem pássaros
transportando folhas de alecrim em seus longos bicos coloridos.

Foreign Words - Cruz e Souza

The Endless Summer ~ Benjamin Girard
The leading figure of the Symbolist movement in Brazil, Cruz e Sousa was the son of freed slaves. His poetry weds the technical principles of French Symbolism to themes drawn from his social concerns and his own personal suffering. This poem describes a skull, emphasizing that we are all the same, and the death takes us all, either white or black.

Skull ~ Cruz e Souza

“Eu vou roer até o osso o corpo da tua palavra”
~ Zé Rodrix in Compota de Cereja

I

Eyes which were eyes, two holes
Neither green nor blue, cold and dull...
Two dark eyeholes in a deep stroll
Skull!

II

Nose of delicate feature, insolent,
Shaped not to be lenient but cruel.
What's been done of the sweet scent?
Skull! Skull!!

III

Mouth of white teeth and lips
Kindly rounded and almost wailful.
Where the smile, the laugh, the quips?
Skull! Skull!! Skull!!!

Caveira

I
Olhos que foram olhos, dois buracos
Agora, fundos, no ondular da poeira...
Nem negros, nem azuis e nem opacos
Caveira!

II
Nariz de linhas, correções audazes,
De expressão aquilina e feiticeira,
Onde os olfatos virginais, falazes?!
Caveira! Caveira!!

III
Boca de dentes límpidos e finos,
De curva leve, original, ligeira,
Que é feito dos teus risos cristalinos!?
Caveira! Caveira!! Caveira!!!

Foreign Words - Vinícius de Moraes

The Loneliness of Jonas McGinley
Pen & ink on board - by Mr. Mead
A Birthday Sonnet

Days, hours, months, years; move on
Illusions of life, get matured
Keep it going always divided
In balanced with hope and letdown.

Make the flesh more despicable
Diminish the goods, grow the damages
Overcome the easy talk of adages
And speak out, don't remain unhearble.

Prefer the fortune than the adventure
As the temple whitens and the time goes
And what once were hard no long endure

And I'll tell you my friend, let it go
How great this love is, for the creature
Which sees growing but doesn't grow.

Soneto de Aniversário
Passem-se dias, horas, meses, anos
Amadureçam as ilusões da vida
Prossiga ela sempre dividida
Entre compensações e desenganos.

Faça-se a carne mais envilecida
Diminuam os bens, cresçam os danos
Vença o ideal de andar caminhos planos
Melhor que levar tudo de vencida.

Queira-se antes ventura que aventura
À medida que a têmpora embranquece
E fica tenra a fibra que era dura.

E eu te direi: amiga minha, esquece....
Que grande é este amor meu de criatura
Que vê envelhecer e não envelhece.

Foreign Words - Paulo Leminski

Mitchell Houseman - Resolution

I woke up flat

I woke up flat
everything was sharp
the sun was up
just did not make sense

Acordei bemol

acordei bemol
tudo estava sustenido
sol fazia
só não fazia sentido

Foreign Words - João Cabral de Melo Neto


The Clock
translate by Eduardo Miranda

Around a man's life
there are certain glass boxes,
within which, like in a cage,
one hears an animal beating.

If they are cages is not sure;
they are more like coops
at least in their size
and their quadratic form.

Sometimes, those coops
go hanging on the walls;
other times, more privately
in a pocket, in one's wrists.

But anywhere: the coop
for male bird or female bird:
it is winged the palpitation,
the saltation it holds;

and it's songbird,
not plumage like:
because a lament comes from them
of such continuity

O Relógio

Ao redor da vida do homem
há certas caixas de vidro,
dentro das quais, como em jaula,
se ouve palpitar um bicho.

Se são jaulas não é certo;
mais perto estão das gaiolas
ao menos, pelo tamanho
e quadradiço de forma.

Umas vezes, tais gaiolas
vão penduradas nos muros;
outras vezes, mais privadas,
vão num bolso, num dos pulsos.

Mas onde esteja: a gaiola
será de pássaro ou pássara:
é alada a palpitação,
a saltação que ela guarda;

e de pássaro cantor,
não pássaro de plumagem:
pois delas se emite um canto
de uma tal continuidade

Foreign Words - Carlos Drummond de Andrade

Banksy

by Eduardo Miranda
Elegy 1938

You work without joy for a decrepit world,
where the forms and actions offer no examples.
You practice laboriously universal gestures,
feel heat and cold, lack of money, hunger and sexual desire.

Heroes fill the city parks where you creep
and advocate virtue, renunciation, the cold-blooded, the conception.
At night, if fog, open bronze-made umbrellas
or retire to the volumes of sinister libraries.

You love the night by the power of annihilation it holds
and you know, sleeping, the problems waive you to die.
But the terrible awakening proves the existence of the Great Engine
and restores you, the little one, facing indecipherable palms.

You walk among dead and talk to them about
things from the future and soul & spirit affairs.
The literature ruined your best love moments.
On the phone you wasted long and precious time of seeding.

Haughty heart, you rush to confess your defeat
and defer to another century the collective happiness.
You accept the rain, the war, the unemployment and the unfair distribution
because you cannot, by yourself, blow up the island of Manhattan.

Elegia 1938

Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.

Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.

Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.

Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.

Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.

Foreign Word - Maria do Rosário Pedreira

por Eduardo Miranda

Primeira Dor, óleo sobre tela, 1987 -  Alberto D’Assumpção
I stopped listening you. And I know I am
sadder with your silence.

I would rather think you just fell asleep, but
lean your wrist to my ear
I'll listen nothing but to my pain.

God needed you, I know. And
I do not see how to blame him

or to forgive you.

Deixei de ouvir-te. E sei que sou
mais triste com o teu silêncio.

Preferia pensar que só adormeceste; mas
se encostar ao teu pulso o meu ouvido
não escutarei senão a minha dor.

Deus precisou de ti, bem sei. E
não vejo como censurá-lo

ou perdoar-lhe.

Foreign Word - Aristides Klafke

Arrogant Fish ~ Tania Vasylenko
Advice

you should return the smile
to the establishment

uneventful you must pass by the people
like the world did not exist,
you must pass only, oblivious.

become a widower of feeling
run away in the middle of the battle
and stock the sex

you should be ludicrous, my friend
noiseless
you should open up
          into chaos.

and be well!

Conselho

você deve devolver o sorriso
ao poder

sem novidade deve passar pelas pessoas
como se o mundo não existisse,
deve passar apenas, alheio.

ficar viúvo do sentimento
desertar em plena luta
armazenar o sexo

você deve ser absurdo, amigo
silencioso
você deve inaugurar-se
          no caos.

e passar bem!


[ in Contramão - poemas, Coleção PF, Edições Pindaíba / Poesias Populares, 2a edição, Setembro, 1978 ].

Foreign Word - Torquato Neto

Ilustração de Vitaly S Alexius
Marginalia

II

translated by Eduardo Miranda
I, Brazilian, confess
My fault, my sin
My desperate dream
My top-secret file
My afflictedness

I, Brazilian, confess
My fault, my exile
The everyday demagogy
Tropical melancholy
Dark loneliness

Here is the end of the world
Here is the end of the world
Here is the end of the world

Here, the Third World
Asks the blessing, pray the psalm
Among waterfalls, palm
Mango and banana trees
By the linnet's singing

Here, my panic and glory
Here, my salvation and doom
I well know my history
It starts at the full moon
And it ends before the ending

Here is the end of the world
Here is the end of the world
Here is the end of the world

My land has palm trees
Where the wind spells the breath
of hunger, fear and more
Especially death
Olele, Lala

The bomb explodes outside
And now, what I'll fear?
Oh, oui, we have bananas
Even to give and sell
Olele, Lala

Here is the end of the world
Here is the end of the world
Here is the end of the world

Marginália II

Eu, brasileiro, confesso
Minha culpa, meu pecado
Meu sonho desesperado
Meu bem guardado segredo
Minha aflição

Eu, brasileiro, confesso
Minha culpa, meu degredo
Pão seco de cada dia
Tropical melancolia
Negra solidão

Aqui é o fim do mundo
Aqui é o fim do mundo
Aqui é o fim do mundo

Aqui, o Terceiro Mundo
Pede a bênção e vai dormir
Entre cascatas, palmeiras
Araçás e bananeiras
Ao canto da juriti

Aqui, meu pânico e glória
Aqui, meu laço e cadeia
Conheço bem minha história
Começa na lua cheia
E termina antes do fim

Aqui é o fim do mundo
Aqui é o fim do mundo
Aqui é o fim do mundo

Minha terra tem palmeiras
Onde sopra o vento forte
Da fome, do medo e muito
Principalmente da morte
Olelê, lalá

A bomba explode lá fora
E agora, o que vou temer?
Oh, yes, nós temos banana
até mesmo pra dar e vender
Olelê, lalá

Aqui é o fim do mundo
Aqui é o fim do mundo
Aqui é o fim do mundo

Foreign Word - Sophia de Mello Breyner Andresen

Ilustração de rabisco vieira
Sofia de Melo Breyner Andresen nasceu em Porto, aos 6 de Novembro de 1919. Ela foi uma das mais importantes poetisas portuguesas do século XX. Foi a primeira mulher portuguesa a receber o mais importante galardão literário da língua portuguesa, o Prémio Camões, em 1999. Tem origem dinamarquesa pelo lado paterno. O seu bisavô, Jan Heinrich Andresen, desembarcou um dia no Porto e nunca mais abandonou a região. Veio a tornar-se uma das figuras mais representativas de uma atitude política liberal, apoiando o movimento monárquico e denunciando o regime salazarista e os seus seguidores. Casou-se, em 1946, com o jornalista, político e advogado Francisco Sousa Tavares e deu a luz a cinco filhos. Em 1964 recebeu o Grande Prémio de Poesia pela Sociedade Portuguesa de Escritores pelo seu livro Livro sexto. Depois do Revolução dos Cravos foi eleita para a Assembleia Constituinte. Distinguiu-se também como contista e autora de livros infantis. Foi também tradutora de Dante Alighieri e de Shakespeare e membro da Academia das Ciências de Lisboa. Além do Prêmio Camões, foi também distinguida com o Prémio Rainha Sofia, em 2003. Sofia de Melo faleceu aos 84 anos, no dia 2 de Julho de 2004.


Regret - Cyn McCurry

Absence
Translated into English by Eduardo Miranda

In a desert with no water
On a night with no moon
In a country with no name
Or in a land with no shores

However great the despair can be
No absence is deeper than yours.

Ausência

Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua

Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.

Foreign Word - Ana Cristina Cesar

translated by Eduardo Miranda

Paul Christopher Flynn, Shore Boat

Primer of Healing

Women and children are the first
to give up of sinking ships.

Cartilha da Cura

As mulheres e a crianças são as primeiras que
desistem de afundar navios.

Nothing, this foam

By confronting the desire
I insist on the wickedness of writing
but I don't know if the goddess rises to the surface
or just punishes me with her howls.
From the bulwark of this boat
I wish the mermaid's breasts.
Nada, Esta Espuma

Por afrontamento do desejo
insisto na maldade de escrever
mas não sei se a deusa sobe à superfície
ou apenas me castiga com seus uivos.
Da amurada deste barco
quero tanto os seios da sereia.

Foreign Word - Henrique Augusto Chaudon

Autorretrato xilogravura - Henrique Augusto Chaudon

Henrique Augusto Chaudon nasceu em Niterói, em 1955. Publicou Confissões a Baco e Outros Poemas (1977); Vento (1982); A Terceira Gaveta e Poemas Anteriores (1994) e Poemas (2005), com poemas inéditos e uma seleção de textos dos livros anteriores. Chaudon também participou de várias antologias e no momento está preparando o volume Algumas Sílabas. Profissionalmente dedica-se à marcenaria, em especial à restauração de mobiliário antigo.

Some Papers

In the third drawer
from the top
to the left of the desk
I keep some papers with hope.
There is also a box with pictures
almost old:
sunny, plenty of wind, plenty of sea.
In the papers
I wrote poems I hope to publish one day
if I am capable of some amendments.
As for the photos
sometimes I feel they call me into the night
and I can do nothing else.

Alguns Papéis

Na terceira gaveta
a contar de cima
à esquerda da escrivaninha
guardo esperançoso alguns papéis.
Há também uma caixa com fotografias
quase antigas:
ensolaradas, cheias de vento, cheias de mar.
Nos papéis
escrevi poemas que penso um dia publicar
se eu for capaz de alguns reparos.
Quanto às fotografias
às vezes sinto que me chamam na noite
e já nada mais posso fazer.

Tradução - Eduardo Miranda


Gherashim Luca (23 de julho, 1913 - 9 de fevereiro de 1994) foi um teórico surrealista e poeta romeno. Ele é freqüentemente citado nas obras de Gilles Deleuze e Félix Guattari. Nascido em Bucareste, filho de um alfaiate judeu, falava iídiche, romeno, alemão e francês. Durante o ano de 1938 viajou com freqüência para Paris, onde foi introduzido nos círculos surrealistas. Durante o curto período da Romênia pré-comunista, ele fundou um grupo de artistas surrealista, juntamente com Gellu Naum, Paun Paulo, Teodorescu Virgílio e Trost Dolfi. A Segunda Guerra Mundial e o anti-semitismo romeno forçaram-no ao exílio. Luca inicialmente escreveu suas obras em romeno, mas depois passou a escrever em francês. Trabalhou entre outros com Jean Arp, Paul Celan, Di Dio François e Max Ernst, produzindo colagens, desenhos, objetos e texto-instalações. A partir de 1967, suas sessões de leitura o levaram a lugares como Estocolmo, Oslo, Genebra, Nova York e São Francisco. Em 1988 ficou famoso devido a um programa de TV apresentado por por Raoul Sanglas, "Comment s'en sortir sans sortir", alcançando um maior número de leitores. Em 1994, ele foi oficialmente despejado de seu apartamento por "motivos de higiene." Luca vivia ilegalmente na França há quarenta anos, e não conseguiu lidar com a situação. Em 9 de fevereiro, aos 80 anos, ele cometeu suicídio pulando no Sena.

Dedos? - Gherashim Luca

Deixe-me lhes contar sobre
a mulher sem dedos:
Uma noite ela veio,
entre as cortinas da janela,
para o banho noturno.
Eu estava nu com meus dedos
e ela era a mulher cega e sem dedos
nas mãos.
Me senti abandonado e assustado,
ela me disse para sentir seu seio sob minha mão;
ao tocar seu mamilo, branco e comprido como um dedo,
roubei seu coração
e ela sumiu, assim como veio.
Meus amigos do quarto ao lado,
Meus amigos e vizinhos do quarto ao lado,
todos tinham apenas um dedo.

O Edifício dos Sem Dedos, é como nosso prédio é conhecido.

Essa é a história da mulher sem dedos.

Degete?

Lasă-mă să-ţi spun acum
despre femeia fără degete:
A venit într-o seară,
pe când lipeam cearşaful de ferestre,
ca să fac baia de seară.
Eram gol până-n deget
şi ea era femeia oarbă şi fără niciun deget
în deget.
Când ma pipăit gol, sa speriat
şi mi-a spus să-i pun mâna pe sân să-mi confirme;
când mi-am agăţat degetul de sfârcul ei alb
mi la furat în ventricul
şi a dispărut cum a venit.
Şi la prietenul meu din camera vecină,
şi la vecinul prietenului meu din camera vecină,
tot câte un deget.
Clădirea fără deget este porecla clădirii noastre.

Aceasta-i povestea femeii care n-avea niciun deget.

Foreign Word - Eduardo Miranda

駿河薩タ之海上(するがさったのかいじょう)
Vista do Monte Fuji a partir de Satta Point na Baía de Suruga
Utagawa Hiroshige, Período Edo
はいく
haiku


cemitério:
jardim
às avessas.

graveyard:
garden
backwards.

envelhecer:
gastar-se
de dentro para fora.

aging:
wear out
from inside out.

* * *

Este haiku eu escrevi na época em que estudava japonês na Aliança Cultural Brasil-Japão e frequentava as oficinas de haicai na Casa de Cultura Mário de Andrade. Ele segue o rigor dos clássicos japonêses, com 17 sílabas japonesas, divididas em três versos de 5-7-5 sílabas:

孤も秋わ秋深き秋秋の風

Sua leitura é:
komo aki wa
aki fukaki aki
aki no kaze
Infelizmente não tenho vivo na memória o momento que escrevi este haiku, e apelo para uma transcriação de mim mesmo...
outono solitário.
profunda e pesarosa
brisa de outono.

Foreign Word - Éle Semog


translated by Eduardo Miranda

The heat of colours
it's a little feat
of being black even in the teeth

[ Éle Semog in Demanda da Cor ]

O cio das cores
é a vontade diferente
de ser negro até nos dentes

[ Éle Semog in Demanda da Cor ]

Foreign Words - Paulo Leminski

Translated to English by Eduardo Miranda

Chris(tian) V. Grumbkow - New Beginning
oil/canvas, 120 x 140 cm

Winter
That's all I feel
To live
Is concise

Inverno
É tudo o que sinto
Viver
É sucinto

Foreign Words - José Paulo Paes

translated by Eduardo Miranda

José Paulo Paes has appeared in Tuda May 2005, and now he's back by other facets - the brevity of his poetry and its childhood theme. Translator of poetry and a poet himself, José Paulo Paes was born in 1926 and died in 1998. In addition to poet and translator, he also was a critic and an essayist, and his work has been of immense contribution to Brazilian literature.

Mark Kostabi
Bem-te-vi (Great kiskadee) is a bird named after his onomatopoeic call, an exuberant BEE-tee-WEE, which means "I see you well!" This poem in Portuguese plays with this meaning, saying that the "mope-eyed" great kiskadee used to sing "bem-te-via", which in Portuguese means "I saw you well"!

It's hard to play such joke in English using the same motif as the original, but similar tricks could apply... I've tried two different solutions: one plays with the Pied Lapwing bird and the wing verb; second plays with the diver bird Cormorant and the word dove, which can be the bird and/or the simple past of the verb dive.

Suggestions are very welcome!
*
How it used to say
that flightless Pied Lapwing:
I winged... I winged...

* *
How it used to say
that diver Cormorant:
I dove... I dove...


Como dizia
aquele bem-te-vi que ficou míope:
“bem te via... bem te via...”


[in É Isso Ali, 1984]

Autores

Ademir Demarchi Adriana Pessolato Adília Lopes Afobório Agustín Ubeda Alan Kenny Alberto Bresciani Alberto da Cunha Melo Aldo Votto Alejandra Pizarnik Alessandro Miranda Alexei Bueno Alexis Pomerantzeff Ali Ahmad Said Asbar Almandrade Alyssa Monks Amadeu Ferreira Ana Cristina Cesar Ana Paula Guimarães Andrew Simpson Anthony Thwaite Antonio Brasileiro Antonio Cisneros Antonio Gamoneda Antonio Romane António Nobre Ari Candido Fernandes Ari Cândido Aristides Klafke Arnaldo Xavier Atsuro Riley Aurélio de Oliveira Banksy Bertolt Brecht Bo Mathorne Bob Dylan Bruno Tolentino Calabrone Camila Alencar Carey Clarke Carla Andrade Carlos Barbosa Carlos Bonfá Carlos Drummond de Andrade Carlos Eugênio Junqueira Ayres Carlos Pena Filho Carol Ann Duffy Carolyn Crawford Cassiano Ricardo Cecília Meireles Celso de Alencar Cesar Cruz Charles Bukowski Chico Buarque de Hollanda Chico Buarque de Hollanda and Paulo Pontes Claudia Roquette-Pinto Constantine Cavafy Conteúdos Cornelius Eady Cruz e Souza Cyro de Mattos Cândido Rolim Dantas Mota David Butler Denise Freitas Desmond O’Grady Dimitris Lyacos Dino Valls Dom e Ravel Donald Teskey Donizete Galvão Donna Acheson-Juillet Dorival Fontana Dylan Thomas Décio Pignatari Edgar Allan Poe Edson Bueno de Camargo Eduardo Miranda Eduardo Sarno Eduvier Fuentes Fernández Elaine Garvey Elizabeth Bishop Enio Squeff Ernest Descals Eugénio de Andrade Evgen Bavcar Fernando Pessoa Fernando Portela Ferreira Gullar Firmino Rocha Francisco Niebro George Callaghan George Garrett Gey Espinheira Gherashim Luca Gil Scott-Heron Gilberto Nable Glauco Vilas Boas Gonçalves Dias Grant Wood Gregório de Matos Guilherme de Almeida Hamilton Faria Henri Matisse Henrique Augusto Chaudon Henry Vaughan Hilda Hilst Hughie O'Donoghue Husam Rabahia Ian Iqbal Rashid Ingeborg Bachmann Issa Touma Italo Ramos Itamar Assumpção Iulian Boldea Ivan Donn Carswell Ivan Justen Santana Ivan Titor Ivana Arruda Leite Izacyl Guimarães Ferreira Jacek Yerka Jack Butler Yeats Jackson Pollock Jacob Pinheiro Goldberg Jacques Roumain James Joyce James Merril James Wright Jan Nepomuk Neruda Jason Yarmosky Jeanette Rozsas Jim McDonald Joan Maragall i Gorina Joaquim Cardozo Joe Fenton John Doherty John Steuart Curry John Updike John Yeats Josep Daústin José Carlos de Souza José Geraldo de Barros Martins José Inácio Vieira de Melo José Miranda Filho José Paulo Paes José Ricardo Nunes José Saramago José de Almada-Negreiros João Cabral de Melo Neto João Guimarães Rosa João Werner Junqueira Ayres Kerry Shawn Keys Konstanty Ildefons Galczynski Kurt Weill Leonardo André Elwing Goldberg Lluís Llach I Grande Lou Reed Luis Serguilha Luiz Otávio Oliani Luiz Roberto Guedes Luther Lebtag Léon Laleau Lêdo Ivo Magnhild Opdol Manoel de Barros Marco Rheis Marcos Rey Mari Khnkoyan Maria do Rosário Pedreira Marina Abramović Marina Alexiou Mario Benedetti Mario Quintana Mariângela de Almeida Marly Agostini Franzin Marta Penter Marçal Aquino Masaoka Shiki Maser Matilde Damele Matthias Johannessen Michael Palmer Miguel Torga Mira Schendel Moacir Amâncio Mr. Mead Murilo Carvalho Murilo Mendes Márcio-André Mário Chamie Mário Faustino Mário de Andrade Mário de Sá-Carneiro Nadir Afonso Nuala Ní Chonchuír Nuala Ní Dhomhnaill Nâzım Hikmet Odd Nerdrum Orides Fontela Orlando Gibbons Orlando Teruz Oscar Niemeyer Osip Mandelstam Oswald de Andrade Pablo Neruda Pablo Picasso Patativa do Assaré Paul Funge Paul Henry Paulo Afonso da Silva Pinto Paulo Cancela de Abreu Paulo Henriques Britto Paulo Leminski Pedro Du Bois Pedro Lemebel Pete Doherty Petya Stoykova Dubarova Pink Floyd Plínio de Aguiar Pádraig Mac Piarais Qi Baishi Rafael Mantovani Ragnar Lagerbald Raquel Naveira Raul Bopp Regina Alonso Renato Borgomoni Renato Rezende Renato de Almeida Martins Ricardo Portugal Ricardo Primo Portugal Ronald Augusto Roniwalter Jatobá Rowena Dring Rui Carvalho Homem Rui Lage Ruy Belo Ruy Espinheira Filho Ruzbihan al-Shirazi Régis Bonvicino Salvado Dalí Sandra Ciccone Ginez Santiago de Novais Saúl Dias Scott Scheidly Seamus Heaney Sebastian Guerrini Sebastià Alzamora Shahram Karimi Shorsha Sullivan Sigitas Parulskis Silvio Fiorani Smokey Robinson Sohrab Sepehri Sophia de Mello Breyner Andresen Souzalopes Susana Thénon Susie Hervatin Suzana Cano Sílvio Ferreira Leite Sílvio Fiorani The Yes Men Thom Gunn Tim Burton Tomasz Bagiński Torquato Neto Túlia Lopes Vagner Barbosa Val Byrne Valdomiro Santana Vera Lúcia de Oliveira Vicente Werner y Sanchez Victor Giudice Vieira da Silva Vinícius de Moraes W. B. Yeats W.H. Auden Walt Disney Walter Frederick Osborne William Kentridge Willian Blake Wladimir Augusto Yves Bonnefoy Zdzisław Beksiński Zé Rodrix Álvaro de Campos Éle Semog