Definição

... da totalidade das coisas e dos seres, do total das coisas e dos seres, do que é objeto de todo o discurso, da totalidade das coisas concretas ou abstratas, sem faltar nenhuma, de todos os atributos e qualidades, de todas as pessoas, de todo mundo, do que é importante, do que é essencial, do que realmente conta...
Em associação com Casa Pyndahýba Editora
Ano VI Número 63 - Março 2014

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Editorial

Zdzisław Beksiński

Começo triste neste editorial. A ilustração da edição de Dezembro 2010 foi retirada, sistematicamente, do blog! Segundo a google, alguém reclamou direitos autorais... DIREITO AUTORAL. Não me lembro o que era, mas TUDA credita todos. Sempre creditou. E TUDA não custa nada. TUDA não gera receita. TUDA CUSTA, sim, o tempo - preciosíssimo - deste que lhes entrega. Mas neste mundo, mundo, vasto mundo da dabliudabliudabliu, eventualmente aparecerão interpretações diversas das nossas, principalmente em relação ao vil metal... E elas, incondicionalmente, prevalecerão, pois não há no mundo ninguém que já não saiba que um dinheiro vale mais do que uma gente. Levantemo-nos todos por um mundo menos ordinário. Por um mundo com menos ganância. Por um mundo humano, simplesmente.

E TUDA Movembro - sim, Movembro, em suporte ao Movember, que suporta a Irish Cancer Society! TUDA nada recebe, é retalhada em iniciativas puramente culturais, mas ainda assim um pouco dá!

Uma boa notícia: em Outubro apresentei aos leitores uma tradução do grego Dimitris Lyacos; um fragmento de Nyctivoe, a segunda parte de uma trilogia chamada Poena Damni, The Punishment of Loss. Por conta dessa tradução, recebi um email de Shorsha Sullivan, o tradutor da trilogia de Lyacos para o Inglês, surpreso e feliz de ver o trabalho de Lyacos sendo explorado em outras línguas. Seguiu-se uma amigável conversa sobre as dificuldades da tradução, a complexidade do original grego, e a promessa de um encontro para, quem sabe, uma produção a quatro mãos! Shorsha, que é irlandês nascido em Dublin mas atualmente vive em Londres, gentilmente permitiu que eu traduzisse para o português um artigo que ele escreveu para a e-zine The Writing Disorder sobre a experiência de traduzir Dimitris Lyacos.

E TUDA continua sua luta-labuta, com a mesma dose de bons trabalhos, entre boa companhia, sem medo de ser lida ou não lida - neste mundo cybernético de caras expostas, 35 membros e 11.500 acessos em quase 3 nos de vida? Justo!

Neste mês TUDA trás Arnaldo Xavier, Cesar Cruz, Claudia Roquette-Pinto, Dorival Fontana, Hamilton Faria, José Geraldo de Barros Martins, Paulo Henriques Britto, Pedro Du Bois, Renato Rezende, Ronald Augusto, Roniwalter Jatobá, Santiago de Novais, Shorsha Sullivan, Vagner Barbosa e Zdzisław Beksiński, além deste mesmo que lhes escreve.

É isso companheiros... na LUTA, só por hoje, devagar & sempre, e TUDA de Bom!

Eduardo Miranda
O (auto-proclamado) Editor

Dívida Interna

Zdzisław Beksiński

Editor
Eduardo Miranda

Capa
José Geraldo de Barros Martins

Digitação
Eduardo Miranda & Teresa Thinen

Revisão
Dos autores...

Colaboradores
Arnaldo Xavier, Cesar Cruz, Claudia Roquette-Pinto, Dorival Fontana, Eduardo Miranda, Hamilton Faria, José Geraldo de Barros Martins, Paulo Henriques Britto, Pedro Du Bois, Renato Rezende, Ronald Augusto, Roniwalter Jatobá, Santiago de Novais, Shorsha Sullivan, Vagner Barbosa e Zdzisław Beksiński.

E-mail
tuda.papel.eletronico@gmail.com

Poesia - Arnaldo Xavier

Zdzisław Beksiński
(...)

rouxinol percurso sido desfile de sombras
palco de solidão sendo Chão áspero perfumado
Esfinge líquida sido enigma desmancha laço

Veia pássara rosa sendo vermelha lua cheia
Igreja de saia azul sido assunção de fogo flor
Rebanho de pedras sendo sombras velhas

sócias de luz retalhada sendo branco relâmpago
escuridão planta sido dilúvio de leões cegos
carrossel carnal sangra sendo ausência significa

brilho seco sendo mão fechada procela
oculta face navalha sido sonolenta flecha
cálice flutua sendo silenciosa festa

corte sangue anuncia sendo língua surda flauta
murmura lábio noturno sido baile de facas
latidos de luares sendo rebanho de tigres

lição incandescente sendo lamparina desenha
traço estranho sido escorre carcará larva nômade
animal anônimo sendo sonâmbulo sacrovício

(...)

[ in ÔlhÔs de Xadrez, inédito ]

Poesia - Santiago de Novais


Mexidinho Gostoso

Carlos Zéfiro - imagem capturada da internet, enviada pelo autor.

Abre meu peito
Haikai docinho,
Nem duro
Nem molinho.

Dá um abraço
Todo soneto
Agora eu traço:
Vou e venho.

Quem me pega?
Quem me pega?
Estrofe infantil
Que diabo te carrega?

Abre as perna
De mansinho,
Vai entrar
Ou sair de fininho?

Porta aberta
Alguém dentro,
Menino bom
Não perde o centro.

Poesia - Hamilton Faria

Posterity Of Butterflies, by Mihai Criste


A Morte do Pai

O pai morreu
Três dias de nojo
Eu não sabia que luto era nojo
Para mim nojo era outra coisa
Algo que se cuspia
Franzindo o rosto
Maracujá verde
O pai morreu
Eu amava o pai
E vivia três dias de nojo
Naquele dia
tive pena de mim
E das palavras

Poesia - Dorival Fontana

6" x 6" mixed media painting on board, by Manon Doyle

Receita de vida para não ser seguida

Alimente amarguras indissolúveis
(indigestas emoções mal nutridas)
Sentimentalismos conduzem o homem...
(primitivas formas de prisão)
Não promova otimismo
(diante a frustração iminente)
Não crie expectativas
(aceite a sua não vontade)
Produza fantasias sem coragem para sonhá-las
(crie o real sem culpa)
Conviva com a iniquidade
(em insana harmonia)
Agarre-se aos defeitos de caráter
(suportável distração à uma fútil existência)
Utilize o livre arbítrio autômato
(para eleger as escolhas erradas)
O certo e o errado são opções sem peso moral
(na verdade não se distinguem)
O certo é todo erro que não se comprova
(por indecisão ou ignorância de causa)
Entregue-se aos pequenos prazeres e as euforias passageiras
(consuma a alma antes do corpo consumado)
Morra de prazer ou viva do medo
(sobreviva só por hoje ou para sempre...)

Sejamos felizes convivendo com as nossas limitações

Poesia - Pedro Du Bois

David Dalla Venezia

Desfazer

Numero acontecimentos
desordenadamente. Capitulo
ao extremo desgosto
das arrumações: a cama
                         os objetos
                         a comida
                         o banho
retiro da estante o livro
instantaneamente convertido
em acompanhante: desarrumo os fatos
                         e os distribuo pela casa:
               a história forjada
               de reis e reinos:
               a desabilitação das fábulas
                    moralizam o animal que teima
                    sua liberdade.

Poesia - Vagner Barbosa

René Magritte - La reproduction interdite, Oil on canvas, 1937


O espelho

A imagem espreita do espelho
O espesso óleo do tempo
Que escorre pelos olhos
Como uma ampulheta

O reflexo é um mapa pessoal
É o eco do mundo material
Onde nossos pelos ficam cinza
Nossa pele amassada
Feito lata barata

O espelho é fundo
A lua que brota é prata
O poeta em pleno
Controle do desespero
De joelhos flexionados
Declara do cadafalso:

“A imagem mente
É falsa
Atrás do reflexo há outro que
Embora ausente
Empresta suas rugas futuras
Ao poeta, sobrevivente”

Crônica - Roniwalter Jatobá

Família Platiplanto, by Nico Giuliano


Tarde em Ribeirão

Ribeirão Preto vai sediar, entre os dias 12 e 15 de novembro de 2011, o Congresso Nacional de Escritores, organizado pela UBE. Já estive lá em evento parecido.

Lembro. Caminho por uma rua comercial com o falecido escritor José J. Veiga, os amigos Noel, Ademar e Cachaça. Fazíamos uma pequena pausa nos debates e seminários.

Era um dia quente e abafado. Por isso, não via a hora de me sentar na Pinguim e, de um gole só, saborear um espumoso chope escuro. Ágil como meu avô paterno, Veiga andava ao nosso lado na calçada larga, a passos compridos, e narrava histórias de mascates e matadores de aluguel.

De súbito, ele pega em meu braço e literalmente me arrasta para a calçada em frente.

- Vamos até ali - me diz. - Quero mostrar uma coisa.

- Tenho sede, mestre.

- Vamos, é coisa ligeira.

Seguimos atrás. Imagino uma livraria com raros exemplares expostos na vitrine. Ao me aproximar, porém, reconheço outro ramo do comércio que não via há muito tempo, apenas na infância durante uma viagem a Governador Valadares, em Minas Gerais.

Era uma selaria. No interior, em mostruários bonitos, tudo para quem gosta de montar no mais fino couro - selas, cabrestos, pelegos e bridas.

Esqueço a sede e o chope. Ligado também nas coisas do campo, fico ali admirando os arreios. Duas selas, do mais rico acabamento, estavam dependuradas num canto, como se estivessem preparadas para equipar os mais belos animais. Não indago o que se passa na cabeça do velho escritor, mas logo lembro de meu pai, descendente de ára¬bes e excelente cavaleiro, que um dia me ensinou a arte de cavalgar.

-- 0 senhor é que é o escritor José J. Veiga, autor de Cavalinhos de Platiplanto? aproximou se o dono da loja. -- Vi sua entrevista ontem no noticiário da TV.

Humilde, como era de seu feitio, Veiga concordou com um leve aceno de cabeça.

- Gostaria de presenteá lo com uma suma sela de nossa fabricação.

Veiga sorriu.

- Muito obrigado - disse. - Em outros tempos, aceitaria sem pestanejar.

Saímos. A duas quadras da loja, não resisto à curiosidade.

- Por que não aceitou? - indago.

O escritor para e me encara com olhos cheios de sabedoria.

-- Meu jovem, moro no Rio de Janeiro num pequeno apartamento soterrado de livros. Uma sela vai ocupar muito espaço. Se aceitasse, poderia chegar uma doida vontade de comprar um animal de montaria. Mas, para tê-lo, talvez devesse adquirir um sítio e ter um caseiro para alimentá-lo todos os dias. Agora, o que quero mesmo é mesmo inventar coisas.

Fomos alegres no rumo da Pinguim. No dia seguinte, cada um viajou para seu canto. Depois disso, nunca mais reencontrei o escritor J. J. Veiga. Ele virou estrela, aos 84 anos, em 19 de setembro de 1999.

Conto - José Geraldo de Barros Martins

Ilustração de José Geraldo de Barros Martins

A Máquina do Tempo

Joelmo Gerônimo estava indeciso... nosso protagonista era voluntário-cobaia para um teste de uma máquina de volta ao passado... ao contrário de tantos livros e filmes que descrevem processos mágicos de retorno no tempo, o caso aqui era diferente... tratava-se de um teste comercial realizado por um determinado grupo multinacional, que pretendia criar e administrar com exclusividade (garantida através das mais renomadas patentes internacionais) o turismo no tempo... ao contrário do turismo praticado até então, que era o turismo espacial, no qual o individuo se desloca através do espaço, de uma cidade a outra, por exemplo, o turismo temporal permitiria a viagem no tempo, ou seja o sujeito poderia voltar ao passado (*) e melhor ainda, a viagem no tempo possibilitaria também a viagem no espaço, ou seja a pessoa poderia ir para QUANDO e ONDE quisesse... é por isso que Joelmo Gerônimo estava indeciso... ele sabia que quando fosse lançada comercialmente, a viagem no tempo seria caríssima... ele sabia que jamais teria dinheiro para custear tal lazer... somente naquela única viagem (que duraria exatamente um dia) ele poderia retornar ao passado... ele ficava cismado de servir de cobaia para testes de um conglomerado multinacional, morria de medo de se tornar uma espécie de Clara Crocodilo (**) mas no fundo ele achava , ou melhor, julgava (***) que o risco valia a pena;

“imagina eu poder voltar aos restaurantes que já fecharam, por exemplo, no Parreirinha, na Av. Amaral Gurgel cujo carro-chefe eram as clássicas rãs... ou o lendário 'Cantinho de Goa' na Av. Pavão com a Av. Santo Amaro, que servia uma cozinha indiana aportuguesada com especialidades em peixes (o dono, natural de Goa. falava um português com um sotaque diferente), poderia ir em um restaurante que me impressionou na infância: o 'Baronesa Russa', que ficava na R. Correia Dias (entre a Av. Bernardino de Campos e a R. Cubatão), lugar onde eu comi meu primeiro strogonoff, ouvindo atentamente a proprietária, uma autêntica baronesa russa fugida da revolução comunista, afirmar que não admitia o fato das pessoas colocarem ketchup no strogonoff...poderia também ir a restaurantes de cidades de outros países que já fecharam... por exemplo o 'El Português' em Buenos Aires (ficava na Calle Baez com Calle Ortega y Gasset, no bairro de Cañitas) que apesar do nome, servia mesmo era uma carne esplendorosa..

poderia também voltar aos bares clássicos de minha juventude: o 'Longchamp' (****) na Rua Augusta, cujo balcão imitava uma pista de corrida de cavalos e na saída havia um disco final (*****) pregado na parede... o 'Pandoro' que ficava na Av. Cidade Jardim, onde eu comecei a beber Dry-Martini, o 'Riviera' que ficava no final da Consolação (a parede curva de tijolo de vidro era genial), ou mesmo poderia ir no 'Kukamonga' que funcionou na R. dos Pinheiros, um bar pequeno e pouco conhecido, mas onde havia o melhor fim de noite da paulistana década de noventa...

poderia ir a um evento específico, destes históricos, poderia assistir uma luta de boxe... por exemplo aquela considerada a maior luta de boxe de todos os tempos: Muhammad Ali X George Foreman realizada em 30 de outubro de 1974, em Kinshasa, capital do Zaire (hoje é Congo) , poderia ver Ali inusitadamente sem os jabs preparatórios, desferir aquele direto que estourou em cheio na cara de Foreman no round inicial... depois veria o futuro vendedor de forno elétrico castigar o profeta dos ringues até quase o final da luta, quando surpreendentemente o desafiante (no caso Muhammad Ali) derruba o então campeão Foreman... poderia ver também uma partida de futebol ... poderia assitir aquela defesa que o arqueiro inglês Gordon Banks fez na cabeçada de Pelé, poderia ver Tostão receber a bola de Paulo César Cajú, fazer uma das jogadas mais lindas de todos os tempos e passar para Pelé que rolou para Jairzinho estufar as redes, naquele Brasil x Inglaterra no estádio Jalisco em Guadalajara, em 7 de Junho de 1970.

poderia assistir um show... poderia ir ver aquele famoso show da Gal, FA-TAL realizado em 15 de Outubro de 1971 no Teatro Siqueira Campos, no Rio de Janeiro, em que acompanhada pelo guitarrista Lanny Gordin a cantora baiana desfilava músicas de Ismael Silva. Geraldo Pereira, Roberto Carlos e Erasmo, Luiz Melodia, Jards Macalé e Waly Salomão, entre outros... poderia também ir ao Festival de Monterey em 18 de Junho de 1967, assistir ao show de Jimi Hendrix, ao meu ver a melhor apresentação do guitarrista americano: 'Hey Joe', 'Purple Haze' e até 'Like a Rolling Stone'... poderia ir a uma show no Cassino da Urca em 1942 ... o Trio de Ouro se apresentava, com Dalva de Oliveira, Herivelton Martins e Nilo Chagas... iria ouvi-los cantando 'Ave Maria no Morro'... Poderia ir na Boite Vogue, na Av. Princesa Isabel, Rio de Janeiro, ver Dolores Duran em sua primeira temporada, nos idos de 1946...

Mas na verdade o que eu queria mesmo era voltar à capital paulistana no final da década de cinquenta para poder conhecer a minha avó que faleceu antes que eu tivesse vindo ao mundo... poderia bater um longo papo com ela... depois ir até o Itamaraty, que funciona até hoje em frente a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco e tomar um chopp com o meu avô, e depois ir para uma das festas que meu outro avô costumava oferecer, nas quais compareciam Pixinguinha, Aracy de Almeida, ente outros... soube que em uma delas apareceu o Oswald de Andrade e o Dorival Caymmi, parece que uma parte da música João Valentão foi composta nesta ocasião, não sei se é verdade... mas o que eu sei é que é pra lá que eu vou!!!”


(*) a viagem ao futuro também era tecnicamente possível, porém foi proibida pelos órgãos governamentais em virtude do perigo potencial embutido no processo.

(**) personagem da música “Clara Crocolido” de Arrigo Barnabé, no qual um jovem serve de cobaia à industria farmacêutica e é transformado em monstro.

(***) pois conforme diz Noel Rosa: ”Quem acha, vive se perdendo.”

(****) falo do Logchamp original que funcionou onde funciona atualmente uma casa de fast-foot indiano, e não à segunda versão de Longchamp que funcionou onde funciona atualmente um restaurante marroquino. O nome do bar era homenagem ao hipódromo de Longchamp em Paris.

(*****) disco final: disco metálico usado no final das pistas de turfe que é equivalente a linha de chegada do atletismo ou a bandeirada na fórmula 1. Trata-se de um disco metálico vazado, pintado na cor vermelha.

Conto - Cesar Cruz

Rupture, by Bryan Dubreuiel

Distúrbio

Todos os dias acordávamos cedo como de costume. A Maria fazia o café, esquentava o leite e preparava os pães. Eu acordava nossos filhos para que se preparassem. Depois do café, roupas trocadas e dentes escovados, saíamos. Eu para a lavanderia e os meninos para a escola. Maria permanecia em casa para suas atividades regulares.

A noite todos estávamos reunidos novamente. Então jantávamos. Depois cada qual se dedicava aos seus afazeres noturnos. Os meninos às tarefas escolares, eu a um livro e Maria às louças do jantar. A televisão, assistida ou não, permanecia sempre ligada.

Mais adiante havia os banhos de cada um e, por fim, o sono merecido.

Ao homem cabe o trabalho, trazer para a casa o soldo. À esposa a manutenção da ordem do lar, o preparo dos alimentos e o cuidado dos filhos. Aos filhos, o juízo e a responsabilidade nos estudos e na boa condução de sua juventude, que se sabe, sempre propensa a desequilíbrios e disfunções.

Todas as coisas estavam em seu lugar em nossa vida, e a cada qual cabia sua parte. E eu entendia que todos estavam de acordo com a ordem das coisas. Uma família é um mecanismo, como meu pai me ensinou, lição aprendida com meu avô. Há de funcionar com precisão se for bem fornida de insumos, substratos e regras claras, que permitam a correta tração de suas engrenagens.

Maria vinha se queixando, havia algum tempo, que a casa estava muito escura. De fato uma certa penumbra tinha se instalado na casa, e por vezes mal conseguíamos nos ver. Apliquei nova pintura de tinta branca às paredes, resolvendo a questão.

No entanto, Maria prosseguiu reclamando, e me vi obrigado a intervir.

Fui à cozinha, pousei as mãos sobre seus ombros e olhei nos seus olhos, transmitindo-lhe segurança. Expliquei-lhe que aquela escuridão, que a ela parecia excessiva, era mais aparente do que real, e boa parte se devia ao fato de que o inverno tinha vindo com força naquele ano, e que não deveríamos nos preocupar com aquilo, visto que coisas assim, preocupações infundadas, poderiam quebrar a harmonia da casa e induzir ao rompimento dos estatutos do lar, por parte dos meninos.

Maria então se calou, compreendendo que eu estava com a razão, como sempre estivera.

As coisas corriam bem em nossa família, como esperado.

Todos os dias acordávamos cedo como de costume. A Maria fazia o café, esquentava o leite e passava manteiga nos pães. Eu acordava nossos filhos para que se preparassem. Depois do café, as roupas trocadas e os dentes escovados, saíamos. Eu para a lavanderia e os meninos para a escola. Maria permanecia em casa, para suas atividades regulares.

A noite todos estávamos reunidos novamente. Então jantávamos.

Desgraçadamente, como eu bem a alertei, qualquer pequeno lapso pode ser indutor do desvirtuamento, e de fato foi...

Numa manhã, depois que todos havíamos comido nossos pães, tomado nosso leite e escovado nossos dentes, me dirigi à sala e me abaixei para pegar a maleta no canto do sofá menor, junto à parede, como sempre fazia. Foi então que vi o menino mais velho se precipitar e destrancar inadvertidamente a porta que dava acesso à rua. Ainda tentei gritar, alertando-o para que não fizesse tal coisa, mas não houve tempo.

Vi quando a pesada folha rodou nos gonzos se afastando minimamente do batente, deixando entrever o calçamento da rua. Olhei para trás e vi Maria estacionada sob a abóbada do corredor, a boca aberta pronta a proferir a advertência que não proferiu, as mãos paradas no ar num gesto de impedimento.

O menino, conscientizando-se de seu erro, lançou-se contra a porta conseguindo fechá-la. Passou as trancas de aço e o barrote se recostou na madeira, os olhos cheios de medo, lacrimejantes, o peito subindo e descendo. Olhou para mim e para Maria, depois novamente para mim. Ninguém disse palavra alguma.

Então se ouviu um ruído estúpido, descomunal. A casa de repente foi tomada por uma densa escuridão, e sentimos tudo vibrar num sismo poderoso e contínuo.

O distúrbio, eu disse, me segurando pelas coisas. O distúrbio, pai, o distúrbio!, ele gritou, chorando, a cara uma máscara congestionada. Maria, agarrada a mim, baixou a cabeça e escondeu o rosto com as mãos. Nosso menor veio se proteger junto às nossas pernas e ali ficamos por um tempo que não posso precisar.

O tremor produziu a rachadura inicial, que começou a partir da porta e veio ziguezagueando, trincando o chão em uma fenda fina, uma fissura, que se abria estalando como gelo jogado na água, até passar por entre nossos sapatos e desaparecer nas sombras do corredor.

Nunca mais vou me esquecer daquele momento.

O menino mais velho, envergonhado, correu da porta ao nosso encontro. Éramos agora um grupo coeso e forte, mas Maria lembrou que era demasiadamente tarde para isso, o distúrbio já estava instaurado, e eu os abracei com força dizendo que não, não, haveria de ter uma saída.

A rachadura entre nós foi se abrindo, alargando, e o som agora não era mais de gelo trincado, mas de trovão. Pedaços da madeira do assoalho foram sendo tragados, brinquedos dos meninos que se achavam por ali, um tapete, a mesa do telefone, foram engolidos. Não fosse pela fraca luminosidade do dia nublado que se infiltrava pelo teto e pelas paredes partidas, não conseguiríamos nos ver em meio à névoa cinzenta.

Vimo-nos inclinados uns sobre os outros como bêbados, o abismo entre nós, e tivemos que nos soltar para que não caíssemos, e o ruído gutural não permitia mais que ouvíssemos nossos lamentos.

Olhei para baixo e a fenda já revelava um precipício, um vale de sombras que não se via o fundo; e para um lado acabei eu e para o outro Maria e os meninos abraçados a ela, os três ajoelhados; e então ela me olhou nos olhos, profundamente triste, e pareci vê-la balbuciar “o distúrbio, o distúrbio...” e esticou um braço para que nos tocássemos mais uma última vez que fosse, mas nossos dedos, como o dedo de Deus e de Adão no afresco de Michelangelo, não conseguiram se achegar, apartados por uma ínfima distância que começou a aumentar rapidamente quando o ronco e o tremor se tornaram mais fortes.

Acachapado, me detive vendo-os partirem. Agora já éramos partes de continentes distintos, e eles iam pequeninos ao longe, já sem faces, uma massa única, unidos, como um mero borrão silencioso, que logo desapareceu no horizonte.

Tradução - Eduardo Miranda

oil on hardboard, 1970
Zdzisław Beksiński
A Arte de Traduzir

Poena Damni
Uma Nota sobre Traduzir a Trilogia de Dimitris Lyacos


por Shorsha Sullivan
tradução de Eduardo Miranda

"Bless thee Bottom, bless thee; thou art translated."
(A Midsummer Night's Dream, Act Three, Scene One)


A tradução serve a diversos fins. Era comum na Europa Ocidental imprimir uma tradução em Latim ao lado de textos gregos. Por que em Latim, naturalmente perguntaríamos, e não no idioma do país em questão, mas talvez a língua nativa seria uma espécie de meio caminho em admitir que o nosso grego não era assim tão bom como gostaríamos que fosse. A tradição continua em séries bilíngues como Loeb e Bude, onde claramente admitimos a necessidade de um berço. Mesmo podendo usar a linguagem estrangeira com competência suficiente para comer ou saber para onde vai o ônibus, lidar com um texto literário é algo completamente diferente; temos que desvendar uma teia onde os fios nos levam a examinar um contexto em constante expansão,uma processo que, se fosse possível, acabaria na necessidade de absorver toda uma cultura. Neste ponto podemos ver a tradução em um nível superficial e imediato, de palavras equivalentes, uma explicação da sintaxe de uma parte específica de um texto, mas também servindo como um comentário contínuo, uma exegese do texto estrangeiro. Entretanto, a maioria das traduções que lemos são de línguas que não conhecemos e talvez nunca conheceremos: "Então senti–me como um observador dos céus / Ao ver uma nova estrela mergulhar no mar da minha percepção/" – assim Keats responde ao ler Homero de Chapman, um poeta alheio à sua experiência, "até que ouvi Chapman falar em alto e bom som." É estranho que ele não tivesse lido Homero de Pope, muito mais próximo do seu tempo do que Chapman, mas é claro que se tratava de um Pope romântico do início do século XIX, parte de uma vilipendiada tradição poética. Literatura mundial é, obviamente, um enorme campo; para termos ao menos uma idéia, devemos usar as traduções. Neste ponto, a tradução tem que funcionar como uma peça independente de escrita: Agamenon de MacNiece e Fausto, Prometeu Acorrentado de Rex Warner, as excelentes traduções de Homero e Ésquilo por Fagles e Lattimore, todas podem ser apreciadas sem referência aos originais, embora reconsiderando o assunto, eu me pergunto se não haveria um vínculo entre o texto original e sua facilitação para o leitor na medida em que lança luz sobre dois lugares e tempos diferentes. "I do not love thee, Dr. Fell," é um engenhoso, elegante e simples epigrama Inglês do século XVIII, mas o quanto ele nos revela da Inglaterra do século XVIII e da Roma Marcial, se o considerarmos uma tradução.



Minha própria experiência como tradutor foi, no caso do Lyacos, facilitada por alguns fatos da vida: Ambos o autor e eu estávamos vivíamos em Brixton, uma parte interessante de Londres. Comecei a visitar seu apartamento, um ponto de encontro para um grande número de artistas e intelectuais, tomando café e discutindo com um grupo interessante de pessoas. Dessas visitas surgiu a idéia de fazer uma versão em Inglês de The First Death, que havia sido publicado em Atenas no início do ano, e já tinha sido vertido para o italiano. The First Death era na verdade a terceira parte de uma obra maior, a trilogia Poena Damni, The Punishment of Loss. Trata-se de um corpo desintegrando-se sobre uma ilha e tomando sua forma. Apesar de morto, ele passa pela tortura de sentir sua dissolução e corrupção, reconhecendo o pesadelo horrível de onde se encontra, examinando em sua consciência memórias vívidas da sua vida. A re-escrita mecânica secular do Inferno, e, como o Inferno, usando conceitos derivados da teologia tomista. E no fim não há fim, o corpo, a pessoa, decola da terra – para onde?



Dimitris estava organizando uma leitura na Fundação de Cultura Grega de alguns trechos do texto grego de The First Death, e sua a tradução italiana. Já que a leitura seria em Londres, pareceu-me uma boa idéia ter algumo do texto em Inglês para ajudar a parte não-grega da audiência a pelo menos desfrutar algumas das aventuras conceituais no trabalho, e talvez até mesmo suas acrobacias linguísticas. Para isso, montamos uma tradução improvisada das estrofes selecionadas na leitura. Descobrimos que o público gostou, e decidimos nos dedicar um pouco aos texto e produzir um trabalho sério. Assim começou uma longa série de reuniões semanais, às vezes mais frequentes para acelerar ou para lidar com certas dificuldades do trabalho. Eu detalho essa parte da história para enfatizar um ponto importante na elaboração das versões Inglesas: autor e tradutor trabalhando juntos desde o início. Na verdade muitos outros também o fizeram; conforme as pessoas chegavam ao apartamento eram imediatamente atraídas para a discussão do trecho sendo traduzido, e por que esta tradução exatamente, e a conversa logo se tornava um debate sobre a melhor palavra e como tentar reproduzir os padrões de métrica grega em estrofes mais simples. Naturalmente, a conversa logo se tornava muito menos séria, menos literária, especialmente porque nosso anfitrião era generoso na comida e na bebida, e um senso de diversão que contagiava e acabou por imperar em todas as nossas longas sessões. Isso para não dizer que não sabíamos estar fazendo algo útil e importante, mas "a alegria continuava fluindo."

Dando uma ropagem inglesa à The First Death significava antes de tudo, em um nível bastante elementar e superficial, que eu entendera as palavras das maravilhosamente metafóricas, líricas e ricamente texturizadas peças.& Uma obra difícil de escrever, uma sequência densa e concisa de imagens condensadas, linguisticamente diacrônica, exigindo muita atenção do leitor. Eu tentei me guiar nas expressões inglesas pelo valor fundamental da palavra grega, e então, tanto quanto possível, pegar o leque de significados associados à palavra, embora muitas vezes provou-se impossível. Após verter uma sequência de palavras em Inglês, tem-se que lutar contra a tendência da linguagem escrever-se em si mesma, e jogar a sentença de volta para o grego. Nesta fase eu traduzi erroneamente o grego "tarsos" (ossos do tornozelo) por torso, embora não fizesse sentido no contexto, mas eu acho que fui seduzido pela semelhança do som da palavra em Inglês, e o pior é que esse erro tolo passou por várias de nossas revisões e chega à versão final. E o grego se aproveitou de sua longa tradição de língua literária, desde a antiguidade pré-clássica até a era helenística, o Cristianismo Bizantino, e até o presente. A primeira estrofe trazia uma reminiscência de um naufrágio na Ilíada em um contexto totalmente diferente “fruit of a womb shipwrecked by the winds.” As palavras de abertura igualaram a superfície plana do mar com o aço; uma metáfora facilmente entendida em Inglês, mas Gregory Solomon destacou a desagradável sibilância do "sea of steel", por isso decidimos em "sea of iron". Não importa se em Grego ou Inglês, ferro e aço são coisas diferentes, com nomes diferentes, mas estávamos escrevendo poesia não um tratado na metalurgia. Onde era impossível trabalhar a amplitude de sentido no texto, usamos notas no final do livro, por exemplo, κοιταίων (koitaion), "bed-ridden" no texto tem também o sentido do covil de um animal. The un-nailing of my boyhood years", a palavra grega para "un-nailing" é também a palavra para "Deposition" a retirada do corpo de Cristo da Cruz, abrindo áreas de selvageria e sofrimento, mas também simpatia e compreensão. Então, nós desenvolvemos os nossos métodos; Primeiro, um esboço bem próximo do grego, não importa o quão deselegante em Inglês. Discussão neste nível eram apenas para certificar de que eu tinha entendido completamente o léxico e a construção do texto original. Segundo, a correção deste primeiro esboço, e em terceiro o desenvolvimento de uma versão anotada e corrigida que formaria a base para uma versão do texto em um Inglês que deveria soar natural para um nativo. Baseado nesta terceira versão discutíamos, às vezes ad infinitum. Em quarto lugar, submetíamos o texto a amigos desavisados, e devo mencionar principalmente Gregory Solomon, que muito generosamente dedicou tempo e energia para criticar todos os nossos projetos. Sua ajuda foi ainda mais valiosa, pois ele tinha um ouvido sensível para as cadências do Inglês e uma justa apreciação dos problemas de tradução. A quinta etapa era avaliar os comentários e decidir qual seria utilizado, até que finalmente tínhamos um texto que bom o suficiente para ser publicado.



Agora, o texto grego da segunda parte de Poena Damni, Nyctivoe, tinha sido lançado por uma editora artística privada em Hamburgo, juntamente com uma tradução alemã. Usaram uma fonte especial, que eles chamaram de Greek Gill, e produziram dois livros muito bonitos, um bilíngue, que vinha numa caixa especial. ERa muito diferente do Τhe First Death, um texto deliberadamente minimalista, construído com figuras retóricas, como elipses, retórica aposiopesis e anacolutos, e por isso a tradução em Inglês, neste caso, teria que diferir muito do The First Death. Eu já tinha visto o texto original, conforme crescia o número de rascunhos, e comparei pari passu com o Inglês provisório, de modo que ambos os textos evoluíssem juntos, e paradoxalmente, a tradução às vezes afetava o original. Nyctivoe, também, foi diferente, já que tomou a forma de drama, talvez até um oratório, com personagens falando partes, um narrador, e um coro; a ação tomando lugar em dois frames: um grupo de indigentes encenando um número num ponto abandonado da cidade, repleta de lixo industrial, e em seguida uma tomada interna feita pelo homem possuído no Evangelho de São Marcos, ferindo-se no cemitério "my name is Legion." (A peça mais tarde foi realizada por atores dirigidos por Piers Burton-Page e foi muito útil experimentar este tipo de publicação oral, que novamente deu argumentos mais tarde para suavizar a tradução). Pela primeira vez eu tive que lidar com lacunas no texto, palavras ou expressões deixadas em lugares estratégicos, que tiveram de ser abandonadas por vezes para se adequar à sintaxe estrangeira, além de partes menos impressionantes de algumas sentenças. Eu percebi o quão útil foi a inflexão gramatical de manter esse tipo sintaxe artística unida, e quão irritante os pronomes no caso nominativo podem ser, quando, geralmente, os gregos podem dispensá-los. Há citações de São Marcos e das epístolas, e elas são dadas a partir da versão do Rei James ". No entanto, eles colorem a linguagem do poema todo, trazendo uma sensação majestosa e hierática conforme se integram ao texto:
Narrator
……………………………………….
and truly if they had been mindful of that country
from whence they came out
they might have had opportunity to have returned;
but now they desire a better country,
that is a heavenly.
wherefore God is not ashamed
to be called their God
for he hath prepared for them a city

They have gone into the car,
Legion drags the cover shut

Chorus:
Crowned with bones and then they bloom
glasses of grey drunkenness
                   to melt with her
in the slime of each embrace, here
in the hollow garden she comes up to live
life twice to clasp memories in the
rotting palms
without breathing
on the edge of the pit
the wind troubles her flesh
you almost see the fallen body
it floods and takes heart again
is drawn near and
sinks in the mouth,
    ⁃    the end of his breathing.




A última parte publicada da trilogia, Z213:Exit saiu em Atenas em 2009. Partes da tradução têm saído em revistas, e vendo as palavras estáticas e insolente nas páginas das revistas sugeriu-nos outras imagens, em alguns casos afetando a tradução e, por vezes, o original também. O livro foi escrito em um estilo quase telegráfico, omitindo o desnecessário, como artigos e conjunções, usando uma forma de diário, em grande parte coloquial, simples, com as violações e as distorções da gramática. Tal como acontece com Nyctivoe eu tinha acompanhado o seu crescimento através de vários rascunhos, sempre, é claro, com um olho na tradução. O autor estava trabalhando em Atenas e Berlim, mas líamos trchos do texto por telefone, às vezes diariamente, mantendo a conversa por no máximo uma hora. Isto me era conveniente, pois eu sempre tive que ler em voz alta tudo o que escrevia a fim de obter o ritmo certo, e aqui os sons iam saindo direto dos meus pensamentos. O objetivo era dizer, o mais direto e simples possível, sobre um homem fugindo de um tipo de confinamento, e, em seguida, tentando evitar ser recapturado e levado de volta. Há referências a Nyctivoe e a The First Death. Os eventos que ele experimenta são geralmente os acontecimentos quotidianos de um Everyman contemporâneo, ele deve encontrar comida, abrigo, precisa dormir, fazer sexo, e assim por diante, mas há também conexões com as perseguições e busca dos judeus fugindo do Egito, o assédio e assassinato de Antígona, uma sensação constante e crescente de medo, a consciência de uma autoridade onipotente da qual não há escapatória. A linguagem é deliberadamente simples, embora em alguns lugares haja referências ao Velho Testamento, e estes tendem a decorar os contextos com matizes mais poéticas. Embora simples, a sintaxe é às vezes fraturada, e a tradução deve tentar seguir isto sem exigir muito do leitor. Um dos conceitos do texto é supor que ele está sendo composto pelo narrador / protagonista em qualquer que seja o papel que ele possa representar, em qualquer luz disponível, em qualquer recreio que ele se permita durante seu vôo. Isso resulta em lacunas e frases destacadas que sugerem para o leitor poemas fragmentários da antiguidade, e também, talvez, a respiração dura e interrompida de um fugitivo desesperado. Lendo esta primeira parte da trilogia, pareceu-me as partes estarem bem conectadas num todo satisfatório, eu poderia facilmente ver o fugitivo de Z213:Exit se tornando o homem no cemitério, o corpo se desintegrando na ilha.



Uma nota final sobre a tradição da poesia grega moderna: Poetas como Cavafy e Seferis estão solidamente arraigados na língua inglesa, pois embora sejam gregos, circulam facilmente no modernismo europeu. Poderíamos compará-los com escritores como Papadiamantis, cuja preocupação com a vida da aldeia resulta numa Romiosine que perde o gosto na tradução; e ainda Macryiannis, o herói da independência grega, escrevendo para garantir que as glórias e os horrores da revolução não sejam esquecidos. O caso de Lyacos difere de ambos: ele nos fala como seres humanos do ponto de vista quase não-local, usando a tradição ocidental, mas não comprometendo-se a qualquer lado; aqui, diferentes contextos se fundem uns nos outros, o meu objetivo foi o de tentar trazer um pouco disso para o Inglês; eu tentei chegar a uma versão que fizesse sentido no contexto de nossa própria tradição. A questão permanece: Poderia esta versão ter sido produzido originalmente em Inglês?



Shorsha Sullivan nasceu em Dublin em 1932. Estudou os Clássicos em Leeds, RU, e passou a maior parte de sua vida trabalhando na Inglaterra. Tem um interesse especial no teatro grego moderno e em poesia.

Foreign Word - Claudia Roquette-Pinto

Translate to english by Renato Rezende

Zdzisław Beksiński


Pendant

Georgia O’Keefe

laughs the unashamed tit
there the tongue’s tip
awakens another anatomy
rolls of rare leaves
lift as hair
opened woman seen from the knees
displicently
hangs
as in eden

Pingente

Georgia O’Keefe

o bico impudico ri
a nesga da língua ali
desperta outra anatomia
em rolos as
folhas raras
arvoram em pelo
mulher aberta vista dos joelhos
pendes
displicente
como no éden

Releitura - Paulo Henriques Britto



Paulo Henriques Brito (Rio de Janeiro, 1951) é poeta, professor e tradutor. Estreou como poeta em 1982, com Liturgia da Matéria, a que se seguiu Mínima Lírica (1989), Trovar Claro (1997), com o qual recebeu o Prêmio Alphonsus de Guimarães, da Fundação da Biblioteca Nacional, e Macau (2003), com o qual recebeu o prêmio Portugal Telecom de literatura brasileira. Em 2004 lançou o livro de contos Paraísos artificiais e, mais recentemente, em 2007, lançou Tarde, seu novo livro de poemas.

Wreck of time, by Mihai Criste
Sonetilho de verão

Traído pelas palavras.
O mundo não tem conserto.
Meu coração se agonia.
Minha alma se escalavra.
Meu corpo não liga não.
A idéia resiste ao verso,
o verso recusa a rima,
a rima afronta a razão
e a razão desatina.
Desejo manda lembranças.

O poema não deu certo.
A vida não deu em nada.
Não há deus. Não há esperança.
Amanhã deve dar praia.

De Trovar Claro. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

Ilustração - Zdzisław Beksiński

Zdzisław Beksiński (24 de fevereiro de 1929 - 21 Fevereiro 2005) foi um renomado pintor, fotógrafo e escultor polonês, conhecido como um artista de fantasia. Beksiński trabalhava suas pinturas e desenhos de uma maneira que ele chamava de "barroco" ou "gótico". Em seu período de "realismo fantástico" pintou imagens perturbadoras de pesadelos surrealistas. Suas obras mais recentes são mais abstratas, onde predomina as formas. Beksiński foi assassinado em 2005.

Olej, płyta pilśniowa, 1976
Zdzisław Beksiński


Zdzisław Beksiński

WÓ, 1998 - oil on hardboard, 132 x 98 cm
Zdzisław Beksiński

Ilustração - José Geraldo de Barros Martins

Ensaio - Ronald Augusto


Zdzisław Beksiński - oil on hardboard, 1979
A compaixão mais forte, Sambaqui

O que é e já foi, um dia, o homem – ou o ego scriptor de – Edson Cruz, está muito bem presentificado via linguagem (sistema que se exaure e se renova a cada gesto poeticamente crucial) nesse conjunto de poemas intitulado Sambaqui. Se o poeta, parafraseando um trecho do poema “Caravana solitária”, por meio do desatino da linguagem, consegue “acariciar” o seu próprio destino, isso tem a ver com as limitações inerentes ao objeto verbal de que se serve, pois “as palavras não sabem/ nem saberão...” dar conta dos sentidos (e não do sentimento) do mundo. A poesia de Edson Cruz faz menção lateral à humildade (enquanto estilo poético) de Manuel Bandeira, uma compaixão mais forte, desonerada de qualquer martírio ou inação contemplativa. O poeta está comprometido e em ação, mas sempre com e via linguagem: “tantas intenções projetadas/ e continuamos a tatear/ redundâncias”.

Edson faz crítica através da linguagem, isto é, através dos jubilosos equívocos semânticos que nutrem a tarefa poética. Combinação de ecos, camadas discursivas provenientes de controversos tempos e espaços: acervo harmônico, em sentido marioandradino, isto é, por oposição ao melodioso, ao dócil. A palavra designa essa alma sem calma (topos pessoano) que foge ao “desfile de horrores”, à “ação que se conclui”, ao logro do xeque-mate. Em cada poema do conjunto Sambaqui deparamos o soft de base e o hard alusivo, entrelaçados com capricho. Os poemas reconhecem similaridades entre John Cage e o samba, entre as redundâncias e a vertigem da cegueira, entre a dádiva imerecida e o sal que corrói a pele da alma.

Edson Cruz é um poeta que mobiliza as palavras no poema de modo a deslustrar o entendimento pela intuição e a sugerir o entulho no antolho do sabido. Sua poesia representa a mudez ruidosa do mundo por meio tanto da dualidade do ser, como da ambiguidade da signagem estética. O silêncio, constitutivo da composição do poema, uiva vivo em Sambaqui, para Edson Cruz trata-se de um “cão sem dono/ entregue/ à própria sorte”.

Autores

Ademir Demarchi Adriana Pessolato Adília Lopes Afobório Agustín Ubeda Alan Kenny Alberto Bresciani Alberto da Cunha Melo Aldo Votto Alejandra Pizarnik Alessandro Miranda Alexei Bueno Alexis Pomerantzeff Ali Ahmad Said Asbar Almandrade Alyssa Monks Amadeu Ferreira Ana Cristina Cesar Ana Paula Guimarães Andrew Simpson Anthony Thwaite Antonio Brasileiro Antonio Cisneros Antonio Gamoneda Antonio Romane António Nobre Ari Candido Fernandes Ari Cândido Aristides Klafke Arnaldo Xavier Atsuro Riley Aurélio de Oliveira Banksy Bertolt Brecht Bo Mathorne Bob Dylan Bruno Tolentino Calabrone Camila Alencar Carey Clarke Carla Andrade Carlos Barbosa Carlos Bonfá Carlos Drummond de Andrade Carlos Eugênio Junqueira Ayres Carlos Pena Filho Carol Ann Duffy Carolyn Crawford Cassiano Ricardo Cecília Meireles Celso de Alencar Cesar Cruz Charles Bukowski Chico Buarque de Hollanda Chico Buarque de Hollanda and Paulo Pontes Claudia Roquette-Pinto Constantine Cavafy Conteúdos Cornelius Eady Cruz e Souza Cyro de Mattos Cândido Rolim Dantas Mota David Butler Denise Freitas Desmond O’Grady Dimitris Lyacos Dino Valls Dom e Ravel Donald Teskey Donizete Galvão Donna Acheson-Juillet Dorival Fontana Dylan Thomas Décio Pignatari Edgar Allan Poe Edson Bueno de Camargo Eduardo Miranda Eduardo Sarno Eduvier Fuentes Fernández Elaine Garvey Elizabeth Bishop Enio Squeff Ernest Descals Eugénio de Andrade Evgen Bavcar Fernando Pessoa Fernando Portela Ferreira Gullar Firmino Rocha Francisco Niebro George Callaghan George Garrett Gey Espinheira Gherashim Luca Gil Scott-Heron Gilberto Nable Glauco Vilas Boas Gonçalves Dias Grant Wood Gregório de Matos Guilherme de Almeida Hamilton Faria Henri Matisse Henrique Augusto Chaudon Henry Vaughan Hilda Hilst Hughie O'Donoghue Husam Rabahia Ian Iqbal Rashid Ingeborg Bachmann Issa Touma Italo Ramos Itamar Assumpção Iulian Boldea Ivan Donn Carswell Ivan Justen Santana Ivan Titor Ivana Arruda Leite Izacyl Guimarães Ferreira Jacek Yerka Jack Butler Yeats Jackson Pollock Jacob Pinheiro Goldberg Jacques Roumain James Joyce James Merril James Wright Jan Nepomuk Neruda Jason Yarmosky Jeanette Rozsas Jim McDonald Joan Maragall i Gorina Joaquim Cardozo Joe Fenton John Doherty John Steuart Curry John Updike John Yeats Josep Daústin José Carlos de Souza José Geraldo de Barros Martins José Inácio Vieira de Melo José Miranda Filho José Paulo Paes José Ricardo Nunes José Saramago José de Almada-Negreiros João Cabral de Melo Neto João Guimarães Rosa João Werner Junqueira Ayres Kerry Shawn Keys Konstanty Ildefons Galczynski Kurt Weill Leonardo André Elwing Goldberg Lluís Llach I Grande Lou Reed Luis Serguilha Luiz Otávio Oliani Luiz Roberto Guedes Luther Lebtag Léon Laleau Lêdo Ivo Magnhild Opdol Manoel de Barros Marco Rheis Marcos Rey Mari Khnkoyan Maria do Rosário Pedreira Marina Abramović Marina Alexiou Mario Benedetti Mario Quintana Mariângela de Almeida Marly Agostini Franzin Marta Penter Marçal Aquino Masaoka Shiki Maser Matilde Damele Matthias Johannessen Michael Palmer Miguel Torga Mira Schendel Moacir Amâncio Mr. Mead Murilo Carvalho Murilo Mendes Márcio-André Mário Chamie Mário Faustino Mário de Andrade Mário de Sá-Carneiro Nadir Afonso Nuala Ní Chonchuír Nuala Ní Dhomhnaill Nâzım Hikmet Odd Nerdrum Orides Fontela Orlando Gibbons Orlando Teruz Oscar Niemeyer Osip Mandelstam Oswald de Andrade Pablo Neruda Pablo Picasso Patativa do Assaré Paul Funge Paul Henry Paulo Afonso da Silva Pinto Paulo Cancela de Abreu Paulo Henriques Britto Paulo Leminski Pedro Du Bois Pedro Lemebel Pete Doherty Petya Stoykova Dubarova Pink Floyd Plínio de Aguiar Pádraig Mac Piarais Qi Baishi Rafael Mantovani Ragnar Lagerbald Raquel Naveira Raul Bopp Regina Alonso Renato Borgomoni Renato Rezende Renato de Almeida Martins Ricardo Portugal Ricardo Primo Portugal Ronald Augusto Roniwalter Jatobá Rowena Dring Rui Carvalho Homem Rui Lage Ruy Belo Ruy Espinheira Filho Ruzbihan al-Shirazi Régis Bonvicino Salvado Dalí Sandra Ciccone Ginez Santiago de Novais Saúl Dias Scott Scheidly Seamus Heaney Sebastian Guerrini Sebastià Alzamora Shahram Karimi Shorsha Sullivan Sigitas Parulskis Silvio Fiorani Smokey Robinson Sohrab Sepehri Sophia de Mello Breyner Andresen Souzalopes Susana Thénon Susie Hervatin Suzana Cano Sílvio Ferreira Leite Sílvio Fiorani The Yes Men Thom Gunn Tim Burton Tomasz Bagiński Torquato Neto Túlia Lopes Vagner Barbosa Val Byrne Valdomiro Santana Vera Lúcia de Oliveira Vicente Werner y Sanchez Victor Giudice Vieira da Silva Vinícius de Moraes W. B. Yeats W.H. Auden Walt Disney Walter Frederick Osborne William Kentridge Willian Blake Wladimir Augusto Yves Bonnefoy Zdzisław Beksiński Zé Rodrix Álvaro de Campos Éle Semog