Definição

... da totalidade das coisas e dos seres, do total das coisas e dos seres, do que é objeto de todo o discurso, da totalidade das coisas concretas ou abstratas, sem faltar nenhuma, de todos os atributos e qualidades, de todas as pessoas, de todo mundo, do que é importante, do que é essencial, do que realmente conta...
Em associação com Casa Pyndahýba Editora
Ano VI Número 63 - Março 2014

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Conto - José Geraldo de Barros Martins

Ilustração de José Geraldo de Barros Martins
Zapeando O Controle Remoto Em Uma Sexta-Feira De Carnaval

Segundo o dito popular, a mente feminina é composta de uma caixa na qual estão misturados vários assuntos: família, sexo, trabalho, novelas, manutenção da casa, vestuário, etc... enquanto que a mente masculina é um conjunto de compartimentos, um para o futebol, outro para a família, outro para o sexo, e assim por diante, inclusive um que é vazio... é neste que o cérebro masculino está sintonizado quando muda repentinamente (“zapeia”) o controle remoto da televisão...

Naquele sexta-feira de carnaval, Josias Germano estava zapeando em frente a seu aparelho de tevê enquanto sua fiel escudeira Marília Olávia, dormia sob a brisa de um silencioso ventilador numa escaldante noite tropical...

O nosso protagonista deparou-se com vários desfiles das escola de samba e enquanto mudava de canal ficou pensando que tais desfiles foram instituídos durante a ditadura do Estado Novo, inspirados em desfiles militares, como forma de introduzir um caráter militarizante no inconsciente coletivo do pobre povo de Pindorama... é claro que Josias Germano não era tolo a ponto de crer que o samba era fruto do Estado Novo, como alguns pseudo-historiadores querem nos fazer acreditar (*)...

Josias Germano bebia cerveja puro malte e comia frios sortidos... aprendera esta lição lendo Antônio Maria:

“No Carnaval prometi a mim mesmo que não sairia de casa. Fiz uma reserva de frios e cervejas (...) Na terça feira de manhã tive que refazer o estoque de cervejas na geladeira. Também os frios, que não se acabaram, mas empalideceram(**).

Então o nosso protagonista resolveu mudar de canal mais uma vez, não aguentava mais aquela coisa de carnaval, “antigamente fazia algum sentido, mas a coisa começou a ficar muito igual... muito globeleza... antes eu me interessava pelos desfiles do Salgueiro, da Portela, da Mangueira, do Vai-Vai... agora não tenho paciência... com a Copa do Mundo está acontecendo a mesma coisa... antigamente eu ficava esperando sair as tabelinhas da copa, fazia simulações, prognósticos... era uma alegria a Copa do Mundo... depois a coisa foi se pasteurizando, ganhando importância e chatice... agora está uma babaquice que não tem tamanho... até na cor dos uniformes resolverm intervir... imagine num Brasil X Itália, os canarinhos terão que jogar com o calção branco e os italianos com o calção azul, ou seja totalmente descaracterizados (***)...

Por uma incrível coincidência,. Quando ele mudou de canal apareceu um programa sobre a História de Todas as Copas, mais precisamente sobre a Copa de 1990, então ele instantâneamente mudou de canal “se fosse uma outra Copa eu até poderia assistir, mas esta jamais”... o Brasil sendo eliminado pela Argentina, a mediocridade de Lazaroni, a seleção da era Collor de Melo...

Porém na mudança de canal apareceu uma luta de UFC... “se fosse uma boa luta de boxe, eu assistiria com prazer... mas esta coisa não dá pra assistir.. é por isso que o boxe americano está decadente... por causa desta bobagem de UFC... os atuais campeões de pesos pesados (nas várias associações) são dois irmãos ucranianos... nas olimpíadas de Londres o boxe olímpico americano fez o maior palelão... tudo culpa desta onda de UFC”

Então passou por inúmeros programas: alienígenas do passado, caminhoneiros percorrendo geleiras canadenses, surfistas fazendo programa de culinária, etc.. até descobrir que numa tevê alternativa estava passando “Der Leone Have Sept Cabeças” que Glauber Rocha filmou no Congo em 1970...

Josias Germano então lembrou-se das teorias do filósofo Vilém Flussler, a respeito da pré-história, história e pós-história...a primeira era foi dominada pela imagem... a segunda pela escrita... a terceira (que se iniciou no final do século XIX com a invenção da fotografia) está sendo dominada pela imagem codificada por meios técnológicos (fotografia, cinema, internet), ou seja, não pelas puras imagens icônicas do passado, mas pelas imagens transcritas pos meios submetidos a ciência, porém sem o aparato lógico da linguagem escrita...

“Esta linguagem estará fadada a se desligar das amarras da racionalidade...não mais a linguagem lógica, mas a linguagem do inconsciente... a linguagem do futuro... feita somente de imagens puras, sem roteiros, diálogos, etc...”

O filme estava na metade, ele reviu até o final... então ele zapeou novamente... de novo uma imagem de carnaval... “Quem pula é cabrito!!!” pensou enquanto desligava a tevê...



(*) Esta história de samba ser fruto do Estado Novo getulista é uma enorme asneira... só como exemplo, confrontando a saga de Getúlio com a biografia do maior sambista de todos os tempos iremos ver que ”Com que Roupa?” de Noel Rosa foi composta em 1929, uma ano antes da Revolução de 30 e que o Sambista da Vila compôs suas 259 canções antes da instalação da ditadura getulista em 1937...

(**) A crônica da qual tirei esta citação foi escrita em 13/02/1964, precisamente a 50 anos antes deste mini-conto que foi escrito em 13/02/2014

(***) Pela nova regra da obtusa instituição, uma seleção não poderá jogar com peças da mesma cor da camisa do adversário... isto somado a recente determinação na alternância entre o claro e o escura de calções e meiões (já incorporada no futebol brasileiro), vai descaracterizar totalmente os jogos da competição.

Conto - José Miranda Filho

Paul Vogeler ~ Resurrection, 2011
Encontro de Amigos - Parte 27

Dublin, Irlanda, Outubro de 1984

Meu caro Fred.

Escrevo-te esta carta para dizer-te que estou bem de saúde junto com Josefina que tem sido uma companheira pertinente e te manda um beijo.

Neste momento, do quarto do apartamento ao lado do Parque Fênix, que tu tanto conheces e que juntos, diariamente, percorríamos seu vasto jardim, sinto-me triste e depressivo. Não por faltar-me qualquer bem material, mas o espiritual: o amor, o convívio dos amigos, e do Brasil.

Não sei quando estarei de volta. Esperarei melhor oportunidade para regressar. Sei que uns tantos amigos e companheiros já empreenderam a viagem de volta. A Lei da Anistia ainda é obscura para o meu caso. Uma coisa é ser refém de si próprio, outra é subjugar o poder de quem manda. Sinto-me ainda refém do medo, do passado e do futuro que me espera aí, que não sei como será. Apesar de viver razoavelmente bem aqui em Dublin, ter autorização de locomover-me para qualquer lugar do país, sinto-me um tanto prisioneiro de meus ideais, pois como sabes, não era isso que almejávamos e nem pretendíamos um dia acontecer. Tudo foi por acaso, veio de repente, sem critérios e quaisquer escrúpulos e sem qualquer motivo. Simples vaidade de um grupo de generais radicados na ideologia tacanha do formalismo imperial. Confio na justiça, na ordem e na luta corajosa do povo brasileiro para a restauração da lei e da democracia, que em breve libertará esta Pátria do jugo daqueles que a dominaram injusta e covardemente. O jugo lusitano de antanho já se expurgou definitivamente do seio da nossa Pátria. Não existem mais razões, por mais idealistas que sejam, capazes de impedir o avanço democrático do País.

Na solidão das noites que me parecem longas, ao lado de Josefina que me conforta e supera minhas ansiedades, sinto o burburinho dos transeuntes que passeiam pelos caminhos tortuosos do parque, ignorando totalmente o problema de milhares de pessoas que como eu, absorve-os e recolhe-os no intimo da alma. Eles não têm nada a ver com isso, não é verdade? Entretanto, amigo, a vida foi nos dada para ser vivida, não para lastimá-la. Se assim fosse, Deus não a nos teria dado. Fico feliz que estejas bem ao lado de Joelma e das crianças, se ainda posso assim chamá-las. Também me conforta o fato de saber que meus filhos Edward e Alex, continuam com suas atividades em plena ascensão, e estão bem de saúde e de finanças. Esperançoso de muito em breve dar-te o meu abraço pessoalmente, despeço-me, desejando a ti e aos teus os mais sinceros votos de estima e apreço.

Teu amigo de sempre e para sempre.

Jack.


Esta carta, dentre tantas outras correspondências encontradas na biblioteca do Doutor Jackson, foi endereçada ao amigo Frederico Moreira da Silva, ex-Ministro de Relações Exteriores do Brasil nos idos de 1969, enquanto aguardava melhor oportunidade de regressar ao Brasil, beneficiado pela Lei da Anistia. Alguns meses após ele desembarcava em São Paulo, junto com a esposa e seu fiel escudeiro, Robson Silvério, secretário particular e homem de sua estrita confiança.

Conto - Eduardo Miranda

Reading Woman ~ Pieter Janssens Elinga
Lia, a Leitora

Ela lia. Lia lia livros, revistas, gibis, panfletos, bulas… lia de tudo. E em suas leituras, todas muito concienciosas, filtrava bem os assuntos que lhe interessavam e retia… retia como ninguém o que lia, mas não lia nada em computadores. Tinha uma aversão herdade de seu pai por aparelhos televisivos. Por extensão, mantinha-se afastado de computadores também… pura convição!

Por ler tanto, naturalmente era uma estranha. Não que fosse estranha necessariamente, mas para os padrões dos outros seres humanos – sim, era um ser humano. Não se encaixava nos padrões dos outros da mesma espécie… e quando chacoteavam-lhe, descarregava a classificação biológica do ser humano da vida, numa abordagem sistemática-científica, dizendo que sim, era humana, pois pertencia ao domínio eukaryota, ao reino animalia, subreino eumetazoa, divisão chordata, subdivisão vertebrata, classe mammalia, subclasse theria, infraclasse eutheria, ordem primates, subordem haplorrhini, infraordem simiiformes, superfamília hominoidea, família hominidae, subfamília homininae, gênero homo, espécie homo sapiens, subespécie homo sapiens sapiens… enquanto os outros, reles seres, ao invés de tomarem o rumo da chordata, desviavam-se pela divisão anthropoda, conhecida pela mosca de fruta, ou antes ainda, tomavam o rumo do reino plantae e se enveredavam pela divisão da magnoliophyta, a das ervilhas!

Momentos assim eram extremos, é verdade, e raramente aconteciam. Seu dia-a-dia era tranquilo, sem muito contato humano – a não ser no trabalho. Bibliotecária, perguntavam-lhe sobre livros, Lia respondia sobre livros. Outras perguntas, tais como “ Olá, como vai?”, “Você já almoçou?”, ou “Como foi o seu final de semana?”, com o tempo deixaram de ser indagadas pelos colegas e usuários da biblioteca, pois logo perceberam que, entre gaguejos e olhares dissimulados, Lia não conseguia responder sem se constranger até os dentes!

Lia ia para o trabalho à pé. Mesmo caminhando, Lia lia. Tropeçava eventualmente aqui ou ali, mas via de regra conhecia bem as cinco quadras que separavam seu quarto alugado e a biblioteca. Quando almoçava, Lia almoçava lendo. Sempre ia ao banheiro com um livro, e quando não estava atendendo alguém, lia.

Certo dia, pega de surpresa pelo final de um livro enquanto caminhava, desesperou-se em não ter o que ler e parou na banca de jornal. Comprou o jornal do dia, onde entre tantas baboseiras, na seção de tecnologia anunciavam o fim do livro impresso. A reportagem preconizava que estávamos a um passo do livro eletrônico perfeito! Entre vários modelos – uns com telas de LCD, outros com tintas eletrônicas que não emitem luz, outros ainda que simulavam as viradas de páginas como nos livros de verdade – o artigo dizia que seria uma questão de meses para que o livro finalmente morresse!

Lia, que na sua curiosidade e amor pelos livros já os experimentara em todas as suas formas e fases: as pinturas rupestres, o codex, os manuscritos dos monges copistas, os primeiros registros em papel, as primeiras cópias impressa por Gutenberg... mas agora teria que sucumbir à tecnologia digital?!? Não! Nada poderia lhe impressionar mais!

Lia que lia, matou-se.

Autores

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