Definição

... da totalidade das coisas e dos seres, do total das coisas e dos seres, do que é objeto de todo o discurso, da totalidade das coisas concretas ou abstratas, sem faltar nenhuma, de todos os atributos e qualidades, de todas as pessoas, de todo mundo, do que é importante, do que é essencial, do que realmente conta...
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Ano VI Número 63 - Março 2014

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TUDA - pap.el el.etrônico

Em associação com Casa Pyndahýba Editora
Ano I Número 1 - Janeiro 2009
Hand with Reflecting Sphere, Lithograph
1935, M. C. Escher
Editorial - Manifesto de Lançamento

Palavras Quebradas
Palavras ContínuasPalavras AlheiasPalavras Mostradas

TUDA - pap.el el.etrônico

Em associação com Casa Pyndahýba Editora

Ano I Número 1 - Janeiro 2009

Conteúdo

Editorial - Manifesto de Lançamento



Palavras Quebradas

Palavras Contínuas
Palavras Alheias

Palavras Mostradas

TUDA - pap.el el.etrônico

Em associação com Casa Pyndahýba Editora
Ano I Número 1 - Janeiro 2009
Manifesto de Lançamento


Salve, salve!

Poesia da Catalúnia, ou escritos em aragonês, do galego ao italiano antigo, novos poetas coreanos, escritores turcos, artigos japoneses, Brasil, Irlanda... O que se produz aqui e ali, o local e o global, o velho e o novo, o consagrado e o inédito... Desde que me rendi ao meu primeiro blog percebi a força e a dimensão que estes mecanismos modernos poderiam dar à palavra, e desde então não parei mais! É um processo aditivo este de escrever. E mais aditivo ainda o de compartilhar.

E freqüentador assíduo da redinha que sou, antenado nos movimentos não só literaturários mas intertemáticos em geral - tanto as nos temários daqui quanto nos temários dali, nos delá, as nos dos etcéteras e nos dos tais - eis que num dado momento iluminado me pergunto: lê-se o que se quer na internet? Leitores aos montes por aí... escritores e poetas nem tanto... Assim, para acabar com essa falta do que fazer, esse paradoxo do ovo e da galinha, resolvi engrossar o caldo do caldeirão do possível e do querível, do desejável e do praticável, e criar também eu uma revista eletrônica: tuda!

Tuda nasce querendo ser uma revista eletrônica de literatura, poesia e outras coisinhas interessantes, que se auto-definirão melhor com o tempo. Com muita calma, paciência e a ajuda de amigos e colaboradores, vou fazer de tuda para que vingue, pelo simples prazer do fazer.

Poetas e contistas, artigueiros e ensaistas, escrivinhadores e contadores de casos... da totalidade das coisas e dos seres, do total das coisas e dos seres, do que é objeto de todo o discurso, da totalidade das coisas concretas ou abstratas, sem faltar nenhuma, de todos os atributos, de todas as qualidades, de todas as pessoas, de todo mundo, do que é importante, do que é essencial, do que de fato conta... bem vindos sejam! Viagemos em tuda.

Eduardo Miranda
editor

tuda - pap.el el.etrônico

Em associação com Casa Pyndahýba Editora
Ano I Número 1 - Janeiro 2009
Poesia - Arnaldo Xavier



Ao redor
A nudez
Do Olho cego
O Peso de fogo

Pela miudez
Do Grão de cinzas
O sagrado
Sangra

A tristez
Estranha dor
Do roedor
da ovelha
da vez

Embora curva
A Bala torta
Nuvem turva via ave
Resolva
Bater em outra porta

tuda - pap.el el.etrônico

Em associação com Casa Pyndahýba Editora
Ano I Número 1 - Janeiro 2009
Poesia - Souzalopes

maRio
(canção do fantasma só de Mário de Sá-Carneiro)


rios que perdi sem os levar ao mar (m. de s-c)

entre mar e rio
morro submerso
cruel naufrágio
de pobre universo

louco partindo espelhos
quase homem ao inverso
entre sonho e tédio
em turvas águas imerso

verme voando oceanos
a ver-me vertendo versos
viajo entre mar e rio
sob um tal de céu adverso

uivo (lançado ao nada)
de cão ferido e subverso
chuva miúda no caos
moeda apenas reverso

pássaro caído no deserto
gato mijando versos
naufrágio de além e azul
e a angústia de se ver só

tuda - pap.el el.etrônico

Em associação com Casa Pyndahýba Editora
Ano I Número 1 - Janeiro 2009
Poesia - Santiago de Novais

Sísifo, por Tiziano

O Grande Livro de Preces Brancas

Cantem os cânticos
Já não dou mais importância
De me sentir
Como um tecido
Que a agulha fura impiedosa
Danço nas mãos das costureiras irritadas
Costureiras ávidas com seus dedos rápidos.
Quem é mais?
O dedo agulhado pela agulha prateada
Ou o tecido que nem pediu pra ser bordado?
Ainda mais o bordado tatuado na pele
Se tornando mais importante
Que a própria trama do tecido?

Não quero estes enfeites, quero ser crú.
Prometo a Ossanha, não vou ao baile.
Prometo a Exú, esta dança não danço.
Não prometo nada, canto e danço como o Rei.
Assim Deus costura.

* * *

(Pior quando me põem um botão desnecessário.)
Não tenho o que coser, não tenho o que fechar, não tenho partes, sou um, devogais.

tuda - pap.el el.etrônico

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Ano I Número 1 - Janeiro 2009
Conto - Roniwalter Jatobá

Remorsos



Jacinto viu, nublado, por duas vezes, as enfermeiras passarem por ele apressadas, olharem para a sua camisa suja de sangue e se perderem no corredor em frente.
A insegurança no trabalho, a coragem, essas, sim, ficaram no terreno da construção, bem próximo à casa da sua mãe. A escada em falso tombou entre baldes, tintas e aflitos: acode o homem! Pendurado entre garrafas pontiagudas, quebradas, que formavam barreiras no alto muro vizinho, Jacinto nessa hora somente sentia o frio da queda, o pavor de morrer. O peito, num rasgo profundo, dilacerado, em sangue.
Os gritos que ecoavam pelas casas vizinhas não interferiram na trajetória do líquido vermelho que suja e escorre pelos vidros, se esparrama, tornando o branco do muro uma cor rubra e real. As frases de Jacinto, da mãe, da meninada que correndo avisa, se interligam: – Que pensação em morrer!; meu filho morreu!; ainda não morreu não! – em eco triste no movimento da tarde.
A sala do hospital, mesmo com o sol lá fora, não tinha um janelão que deixasse a claridade entrar. A luz acesa durante o dia dava um brilho estranho, amarelo, às pessoas que ocupam as quatro cadeiras e o pequeno sofá rasgado no encosto. O registro beneficente na profissional não abriu portas nem fez mudar semblantes; rotina, espera. Na sala exígua podia ouvir as palavras, pouco usadas, dos que compunham o interior. Num canto, o ancião que respira descompassado, dificultoso, descrente da vida, olha para as próprias mãos, indiferente ao movimento, burburinho do hospital.
Várias vezes seguidas, a mãe de Jacinto, gorda, vestido azul trocado às pressas, entrou no banheiro no final do corredor para lavar o pano que limpava o sangue que escorria dele. No banheiro, as pessoas que aguardavam na fila, desinquietas, reclamavam da vida, da própria fila, de tudo.
– Mãe, vou morrer! – disse Jacinto, respirando forte, fraco.
Ele olhou os pés sujos de terra, o teto e os avisos colados na parede. Tentou ler, mas não conseguiu. Nem via no ambiente fechado, silencioso, sentimentos de tristeza, solidão, medo. Pessoas ansiosas por atendimento, pedintes, que ficam paradas, coladas em duras cadeiras, e têm os corpos doloridos pela longa espera, mas não perambulam pelo corredor, com receio de incomodar. Eles esperam que as situações digam mais, muito mais que as palavras que a custo sairiam de suas bocas medrosas de falar. E esperam. Arrenegando da hora em que, doentes, têm precisão.
A sirene da ambulância que se aproxima vai aumentando, aumentando, até dissipar os sussurros que escapavam no silêncio. A ambulância atravessa rente ao corredor, veloz como a dor de Jacinto. Ele sente pontadas e frio no coração. Ele delira inconsciente, imaginando.
Viu desaparecer na manhã o orvalho que teima em continuar nas folhas frágeis e minúsculas. Soltou das mãos que o seguravam e alçou um vôo rasteiro, depois subiu na imensidão do espaço que separa a vida da morte. Pairou de asas abertas. Grudou-as no corpo e soltou-se no espaço das lembranças, ora distantes, ora bem próximas, que davam a impressão de que ele participava.
Sentiu remorsos na destruição de vidas: formigas, nambus de pés roxos, nambus de pés vermelhos, aranhas, pássaros, preás, coelhos, o matar de frangos em dias de festas. Deu vontade de fechar as asas e precipitar este pequeno corpo de encontro às minguadas folhas, em baque surdo na terra.
De repente, grita. Jacinto sonha com o seu próprio vulto que, de cabeça erguida, grita e assobia para os cachorros que passam. Tinha saído logo cedo, sem caminho certo, vendo o mundo. Andou até a ponte do rio, de costas, contando os passos, pisando forte para deixar na areia fofa o rastro. Como se nada pudesse apagar a sua passagem.
Ficou acariciando um ramo de urtiga brava nos braços para sentir a coceira entrar devagarinho no corpo. Era loucura. Brincadeira de criança. A gente cresce. Quando começa a descobrir que o doce de goiaba feito na cozinha esfumaçada vai ficando com sabor diferente, fica adulto.
De pé, encostado à cerca, Jacinto vê formigas que correm indiferentes a ele, gigante que se posta em frente. Observa.
A qualquer momento, o trabalhador que ia à dianteira poderia cair com tamanho peso às costas. Seguia cambaleante, mas não atrapalha o movimento dos outros pela areia quente, indiferente à chuva que se forma e vai criando cores novas no céu. Azul... mil, infinitas. Nada disso interfere na agitação dos trabalhadores que se torna mais veloz e precisa no final da tarde. O trabalhador da frente agora se firma em um monte de terra, escora a carga e, sem perder a dianteira, continua guiando nesta pequena estrada uma infinidade... Comanda. Trabalha também. Alguns gostariam de parar, descansar O corpo dolorido de longas caminhadas, mesmo sabendo que se a chuva que se anuncia desmoronar os caminhos, aí sim o trabalho dobrará. Assim, o que toma a dianteira pouco se preocupa com o que está acontecendo à sua volta. O que preocupa mesmo é a carga pesada que balança ao sopro de qualquer golpe de ar. A formiga líder segue sem medo de sombras reais e gigantescas de Jacinto, que se contorcem na estrada. A bota direita de Jacinto: o obstáculo que se interpõe. Um pé embotinado que, por segundos, dificulta.
Em fila, cronometradas por um perfeito e pontual relógio que não bate as horas: esse sol que clareia a estrada de terra batida, trilhada na labuta, estrada sombreada. Sol que se rasga em fios por entre cerca de galhos, de ervas daninhas que, pensa a líder, não servem como alimentação. Caminha. Com o peso fatigante, à direita ou à esquerda, a visão é sempre a mesma. Parar não, deve pensar, sem ter tempo para brincadeiras, pois só o trabalho é importante. Sem trocar frases, absorta no alimento que carrega, não riria, também não ficaria triste, somente seguiria seus passos sem atrasar os outros. Pensa: um obstáculo que surja na frente e que porventura ocasione mortos, as que retomam devem cumprir rapidamente essa tarefa e, sem chorar os cadáveres, tirá-los para o lado à margem da estrada e amadurecer o corpo para novas lutas.
Imagina: no fim da tarde o trabalho finda. Dezenas de corpos que ficaram lá em cima estão à espera de que a chuva que começa arraste os seus cadáveres por enxurradas pequenas, mais na frente se avoluma, e que os corpos desapareçam nas corredeiras do rio, em direção de peixes negros, amarelos e famintos. Outras formigas apressadas pela noite que se aproxima nem param no local onde jazem os corpos.
Chove. Chuva fina, molhenta. Jacinto tira o pé que se apóia no arame farpado e pisa, traiçoeiro, espalhando as retardatárias trabalhadeiras, esmagando muitas com a sola da botina. Uma, mais afoita, defensiva, pula na sua perna, e aferroa dolorido. Ele pega a formiga entre dedos e arranca as suas patas, a cabeça, e joga o resto do corpo ao chão molhado, e ela pula com desejos incontroláveis de vida.
Jacinto sente, agora, o mesmo instinto de sobreviver. Segura forte o braço da mãe, esquecendo as lembranças, os remorsos, os sonhos impossíveis, com os olhos sem trajetória e sem sentidos.
Quando o primeiro vestígio branco da enfermeira atravessou a porta e se incrustou nas retinas da mãe de Jacinto, o último fio da vida dele desceu pela cadeira, não passeou pelo corredor do hospital, fugiu da fila do banheiro e se espalhou em grande quantidade pelo assoalho da sala. Sem grito de dor, Jacinto deu o derradeiro suspiro com naturalidade e apertou com mais força o braço gordo que o envolve. Afrouxou pouco a pouco, deixando marcas roxas que se limparam em momentos, desaparecendo na flacidez da gordura do braço materno.
A mãe levantou-se e ergue Jacinto nos braços, com esforço, e o carrega com dificuldade em direção à saída. Um corpo frágil, insensível, sem vida, frio.
A moça da recepção se sobressalta e diz:
– Dona, volta!
Ela nada responde e nem se volta. Sai à rua e o impacto do sol entra em seus olhos, ilumina o vestido azul e penetra em seu coração, explodindo-o.

tuda - pap.el el.etrônico

Resenha - Luther Lebtag


The Speckled People
de Hugo Hamilton
Gênero: Memórias
Ano: 2003
298 páginas


Meus amigos, aqui vou me aventurando novamente pelos meios obscuros e tortuosos da escrita. Meu querido amigo Edu me convenceu. Agora nem tão querido, depois dos miolos perdidos tentando dar sentido a este monte de palavras juntas. Além de tudo ele me convenceu a fazer crítica de livro. Quem diria, eu crítico de livro. Sempre achei que crítico era a pior raça do mundo e deveriam ser todos torturados até a morte (ai meu deus, que exagero). Ô pessoal que tem mania de dar opinião sobre tudo. E o pior é que ainda são pago por isso.

O caminho é tortuoso porém a experiência adquirida é valiosa e engrandece. Durante a busca por informação aprendi que o crítico não tem somente a função de julgar algo como se fosse um jurado de auditório, um cara que faz nada mais do que dar uma nota sobre algo. Ele tenta mostrar as influências que levaram o autor chegar à obra, suas bases e suas prováveis expectativas. É isso que tentarei fazer aqui, numa humildade quase cristã, afinal de contas ainda sou virgem neste negócio de escrever.

The Speckled People, de Hugo Hamilton, foi um livro recomendado como presente para uma amiga alemã vivendo na Irlanda já há sete anos. Aproveitei a ocasião para ler antes de presenteá-la e acabei me apaixonando. Quando me disseram que o livro se tratava de um Irlandês contando sobre sua infância nos anos 60 e 70 em Dublin, a primeira coisa que me veio à cabeça foi o estilo de Angela’s Ashes com aquela nostalgia sentimental e tristeza melancólica dos tempos difíceis na Irlanda de antigamente. Não pensem que não gosto de Frank MacCourt, o livro é muito interessante, porém triste demais. The Speckled People foi vitorioso como exceção entre tantos outros autores mostrando de forma simples a realidade complexa e triste que os poemas e as músicas irlandesas há muito já retrataram.

O livro é autobiográfico. Hugo Hamilton cresceu em Dublin durante os anos 60 e 70 com seu irmão e irmãs. Sua mãe veio de uma pequena cidade na Alemanha fugindo de terríveis momentos passados nas mãos dos nazistas. Em busca de um novo começo, deixa a Alemanha numa peregrinação pela Irlanda, onde fica. Lá se casa com Jack Hamilton, irlandês fanático de uma região marcada pelo nacionalismo, pobreza e imigração. Seu avô foi um poeta da língua irlandesa e seu pai, renegado por Jack, serviu e morreu na marinha Britânica.

Como engenheiro em Dublin, Jack Hamilton dedicou sua vida na luta contra influência inglesa e acima de tudo na reabilitação da língua irlandesa. Uma das campanhas que estava envolvido era a de tradução dos nomes das ruas para o irlandês. Também enviou seus filhos para escolas onde ensinassem o irlandês. Dizia que seus filhos eram armas na luta contra a dominação inglesa da língua. Se falassem inglês em casa, eram castigados. A intolerância e violêcia do pai em defesa da cultura pátria era extremamente contraditória nos anos 60, num momento em que a cultura anglo-americana começava a invadir Dublin e contaminar todos os nichos sociais. Mas nada disso passava pela porta de casa. Qualquer coisa que não fosse totalmente irlandesa era imediatamente jogada ao fogo pelo pai tirano. Em casa eles podiam somente falar irlandês e alemão – a mãe não falava irlandês. Na escola eles eram incomodados com piadas e brincadeira por outras crianças e chamados de “Nazi”.

Nesta casa de Dublin, o jovem Hugo crescia no meio de uma guerra de intolerância e violência entre o pai e mãe, e a luta de credos e língua entre o pai e seus filhos. Seus pais criavam o tempo todo para seus filhos um paralelo entre a colonização britânica e como os nazistas lidavam com os judeus. Os dois insistem na ligação entre lingua e nação e é nesta conexão em que a parte mais profunda do livro se desenvolve. Pai e mãe não concordam na maneira de viver e lidar com suas crenças. Enquanto o pai se transforma num tirano que não aceita exceções quanto à educação dos filhos, exemplos para os descrentes irlandêses, a mãe prefere manter uma postura de negação e adaptação sem revolta à realidade como maneira de sobrevivência: "My mother just closes the doors... telling everybody that it's no good to win and it's better to pretend that there's no such thing as pain and nobody can make you smile and you should keep saying the silent negative all the time." *

Vocês que estão lendo até agora devem achar que este livro é mais um exemplo triste de uma realidade irlandesa como tantos já escreveram. Mas é aí que está a grande vitória de Hugo. Gradualmente, enquanto a criança Hugo narra a história, o que ele ouve e vê acontecendo ao seu redor, toda esta batalha de crenças, história, segredos e conflitos, tudo começa a formar uma realidade infantil em sua cabeça inocente. Isso, conjugado com um estilo simples e harmonioso de escrever, tornou este livro um dos livros mais bonitos que já li nos últimos anos. Até dei boas gargalhadas com as conclusões de Hugo, e quando a tia alemã vinha visitá-los, com encontros regados a abraços demorados, choros a “ja, ja, ja” e “nei, nei, nei”.

Estive procurando uma tradução para The Speckled People em português. Parece que este livro ainda não foi traduzido. Speckled significa manchado, pintado, marcado com pintas, o que faz sentido, uma vez que sardas é uma característica física dos irlandeses. Mas não é isso que Hugo está querendo dizer aqui. A melhor tradução que achei foi em alemão, “Gescheckte Menschen”, ou em português “Pessoas Presenteadas”.

É mais ou menos a esta conclusão que o menino Hugo chega no final. Que eles são especiais. “We don’t have only one language and history. We sleep in German and dream in Irish. We laugh in Irish and we cry in German. We are silent in German and we speak in English. We are the speckled people.” ** Eu concordo plenamente.

* Minha mãe apenas fecha as portas... dizendo a todo o mundo que não é bom ganhar e que é melhor fingir não existir essa coisa de dor e ninguém pode lhe fazer sorrir e você deveria continuar com seu negativo silêcio o tempo todo. (tradução livre do editor).

** Nós não temos apenas uma língua e história. Dormimos em alemão e sonhamos em irlandês. Rimos em irlandês e choramos em alemão. Nos calamos em alemão e falamos em inglês. Somos pessoas presenteadas. (tradução livre do editor).

tuda - pap.el el.etrônico

Em associação com Casa Pyndahýba Editora
Ano I Número 1 - Janeiro 2009
Crônica - Dorival Fontana

O Primeiro Mico

Hoje tomei uma decisão importante. Após inúmeros incentivos de amigos e insistentes apelos da família resolvi livrar-me do preconceito adquirido pela desinformação, e devo confessar que a simples hipótese de possuir “um” sempre me causou receio, para não dizer medo... medo de não conseguir dominar os conhecimentos necessários e me frustrar com isso. Foi preciso coragem para sair do ostracismo. Apesar das minhas restrições pessoais, uma pressão interior me incomodava progressivamente há tempos. Talvez eu seja o único ser pensante à margem da era digital! Honestamente, um sentimento vazio afligia-me, um questionamento consumista de não ter algo que todas as pessoas têm. Não só por isso é claro, mas uma sensação de incompletação me aporrinhava a consciência, até que um dia comprei-o e a minha vida transformou-se completamente... tornou-se um inferno!

O primeiro passo foi pesquisar preço, modelo, velocidade, capacidade de armazenamento de dados e tantas outras especificações das mais variadas possíveis, tão inúteis para o meu parco intelecto. Reconheci que eu era muito mais ignorante no assunto do que imaginava, e resolvi fazer um curso de computação intensivo só para descobrir que realmente não entendo absolutamente nada de informática e não tenho a mínima inclinação para a coisa, porém era necessário ter um conhecimento básico, para não ser enrolado pelos inescrupulosos vendedores de sonhos digitais.

Ao me deparar com o valor do bem percebi que ia gastar demais, tentei persuadir-me que a aquisição seria um investimento. Contudo, por mais que eu me esforçasse não conseguia me convencer. Na verdade dá no mesmo, o importante é eximir da consciência a culpa. Ponderando os dois lados resolvi então gastar o suado dinheirinho no tal investimento ou investir o dinheiro no tal gasto. Pesquisei muito e diante da diversidade de ofertas do mercado consegui um autêntico negócio da China, visivelmente assinalado em todos os seus componentes MADE IN...

Naquele dia cheguei em casa com a surpresa em mãos, as crianças até queriam chamar os vizinhos, mas por precaução achei melhor aguardar os acontecimentos antes de espalhar a notícia. Lembrei-me do embaraçoso lançamento do Windows 2000 transmitido ao vivo pela TV para o mundo, onde o sistema não funcionou diante de milhões de telespectadores. Não sou o Bill Gates, mas tenho um nome a zelar! Desembrulhamos com o máximo de cuidado possível todos os componentes, a expectativa era muito grande, todos aguardavam a chegada do ente cibernético tão querido. Ninguém ficou de fora na tarefa de montá-lo a não ser o vovô e a vovó que acompanhavam com o olhar atônito o movimento incessante de cada um. Conferi todos os acessórios: mouse, teclado, monitor, caixas de som, mouse pad(?), e finalmente tudo estava pronto. Após uma pequena pausa, um suspiro aliviado de trabalho cumprido, e estávamos frente a frente, homem e máquina interagindo. A apreensão era grande, eu estava nervoso diante daquele monstro metálico. Hesitei por um instante até pressionar o botão ”start”, a torcida desorganizada ao meu redor insinuava um coro mentalmente perturbador - Liga! Liga! Liga! O meu rosto transpirava, o pânico apossou-se de mim, as minhas mãos tremiam, não conseguiam mirar na direção correta, até que num movimento certeiro acionei o botão com toda força! Frustração geral, o bicho não ligou. O desânimo caiu sobre a família inteira, alguns disfarçadamente debandaram do local, outros tentaram consolar-me com tapinhas nas costas dizendo: Isso acontece! Entretanto, a maioria fuzilou-me com um silêncio desconfortável e um olhar recriminatório. Ainda tentei abrandar a situação: - Calma pessoal! Vamos checar as conexões, reapertar os cabos, tirar o meu dedo daqui, dar um chute nessa porcaria! Eu não podia perder o controle, afinal possuía o conhecimento técnico básico adquirido num curso intensivo à distância.

Após exaustivos minutos na tentativa de detectar o erro, utilizei uma técnica muito apurada chamada “entre tapas e beijos”. Primeiro liga-se o computador acariciando-o e sussurrando: funciona, funciona! Depois entra a parte da fé, onde você cruza os dedos e reza! A última fase consiste em tapas e socos na parafernália eletrônica. Se nada disso resolver é recomendável consultar o manual! Procurei e só encontrei um aviso dizendo: “manual não incluso nessa versão”. Ligo para a loja e uma gravação responde: “esse número de telefone não existe”. Preocupado, fui direto à loja tentar solucionar o problema, e quando lá cheguei simplesmente não havia mais loja, apenas um salão ecoando os meus passos desorientados. Sentei-me por um instante para pôr o processador no lugar, digo, a cabeça no lugar. Levantei-me decidido a resolver a questão, e não foi preciso andar muito para encontrar uma assistência técnica. Fui prontamente atendido por um sujeito de cabelos longos, barba por fazer, repleto de tatuagens pelo corpo e utilizava gírias num dialeto indecifrável ou alguma linguagem de programação que somente uma máquina ou outro louco entenderia. Em certos momentos parecia mais um carpinteiro, pois só falava em PAU: deu pau, deu pau! Perguntei então:

- Que diabo de pau é esse meu filho?

- Sem chance tio! Deu PAU GERAL! Tem que trocar a placa mãe.

- O que a minha mãe tem a ver com isso? Ainda não coloquei a mãe no meio, e muito menos no pau!

- Calma tio, o papo é sério. O pau é feio!

- E eu sou homem de reparar se o pau é feio ou bonito!

Peguei o meu pau, digo, o meu micro, com a minha serenidade rompida ao primeiro byte e procurei outra assistência técnica. Fui atendido por um senhor de aparência asiática, sotaque incompreensível, com um sorriso idiota e inexplicável no rosto. Tentei inutilmente expor o problema para o homem que, sem esboçar uma palavra raptou a máquina das minhas mãos e desapareceu por detrás de uma cortina vermelha para o fundo da loja. Após um longo tempo de espera o mago chinês retornou de seu refúgio sem o micro e falou:

- Mico luim plecisa tloca!

- Mico? Estamos falando de um computador ou de um primata?

- Máquina plobrema, sem conselto!

- Não é possível! A máquina é nova!

- Peça estagada, mãe da praca não boa! Compla ota. Pleço bom!

- Devolve já o meu micro seu Power Ranger de uma figa!

Invadi o local, resgatei o micro e saí em disparada dali. Inconsolado, não tive alternativa a não ser retornar para casa sem nenhuma perspectiva otimista. Cheguei sorrateiro, não queria encarar a família e explicar o inexplicável, exausto desabei sobre o sofá abraçado ao peso morto e desfaleci também.

Quanto ao micro, deu PAU mesmo! Contudo, aprendi que o primeiro micro a gente nunca esquece, e o primeiro mico também.

TUDA - pap.el el.etrônico

Em associação com Casa Pyndahýba Editora
Ano I Número 1 - Janeiro 2009
Tradução - Eduardo Miranda


Pintor, entalhador, ilustrador de livros, o poeta romântico inglês William Blake (1757-1827) é considerado uma das vozes mais significativas da poesia. Seu texto mais conhecido e admirado é "The Tyger" ("O Tygre"), aqui traduzido. Composto apenas de perguntas, o poema ainda épolêmico e atrai a atenção de críticos, místicos e tradutores de sucessivas gerações.

Combinando linguagens literária e visual numa obra marcada por forte misticismo e erotismo, ela pouco tinha a ver diretamente com assuntos do cotidiano. Sua personalidade complexa e seu texto apocalíptico tornaram difícil a compreensão de sua obra por contemporâneos. Tentativas de explicação desse tigre começam pelo título, grafado com "Y", sugerindo um tigre especial, talvez...

Combustível para discussões é o que não falta. E naturalmente, tal obra foi vastamente traduzida por poetas e tradutores de renome. Minha tradução aqui apresentada não tem a intenção de contrapor outras versões, e é apenas mais uma "tentativa de tradução".


o tygre - willian blake


tygre, tygre, intenso brilho & fogo
queima em trevas teu soturno jogo
que mão imortal ou olho ousaria
forjar tua medonha simetria?

em que céu, abismo ou mar
ardeu o fogo do teu olhar?
em que asas o céu desbravou?
e que mãos o fogo dominou?

e que ombros ousaram, que arte,
afrontaram teu coração baluarte?
que ao começar a bater & a bater,
que pés? que mãos irão temer?

qual martelo? qual corrente?
em que fornalha forjaste a mente?
que bigorna? que morsa infinita
desafia tua mortalha maldita?

quando astros lançaram seus arpéus,
e inundaram de lágrimas os céus,
preocupou-se Ele com o que edificou?
quem criou o cordeiro, também te criou?

tygre, tygre, intenso brilho & fogo
queima em trevas teu soturno jogo
que mão imortal ou olho ousaria
forjar tua medonha simetria?

* * *

The tyger - Willian Blake

tyger! tyger! burning bright
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Could frame thy fearful symmetry?

In what distant deeps or skies
Burnt the fire of thine eyes?
On what wings dare he aspire?
What the hand dare seize the fire?

And what shoulder, and what art,
Could twist the sinews of thy heart?
And when thy heart began to beat,
What dread hand? and what dread feet?

What the hammer? what the chain?
In what furnace was thy brain?
What the anvil? what dread grasp
Dare its deadly terrors clasp?

When the stars threw down their spears,
And watered heaven with their tears,
Did he smile his work to see?
Did he who made the Lamb make thee?

tyger! tyger! burning bright
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Dare frame thy fearful symmetry?

TUDA - pap.el el.etrônico

Tradução - Eduardo Miranda


Edgar Allan Poe (1809 - 1849), escritor, poeta, romancista, crítico literário e editor. Segundo filho de um casal de atores, Poe ficou órfão ainda criança e foi adotado por um casal rico de Richmond, Virgínia, o que lhe permitiu ter uma educação de qualidade. Conhece uma certa popularidade ao vencer simultaneamente os concursos de conto e poesia promovidos pela revista "Southern Literary Messager". O fundador da publicação convidou-o para dirigir a revista, que rapidamente se impõe ao público. Durante dois anos, Poe esteve a frente do periódico, onde pôde exibir seu talento, que se manifestava num estilo novo, tanto no conto quanto na poesia, bem como pelos artigos de crítica literária que revelavam seu rigor e sensibilidade estética.

O Corvo" é uma de suas obras mais conhecidas. Foi ela que Poe usou como exemplo no seu instigante ensaio "Filosofia da Composição", onde alega que nenhum ponto da composição pode ser atribuído à intuição ou à sorte; e que aquele poema avançou até seu término, passo a passo, com a mesma exatidão e lógica rigorosa de um problema matemático.

Grandes nomes traduziram O Corvo, das maneiras mais inusitadas possíveis - prosa, soneto, sexteto, e outros. Minha intenção, porém, foi solucionar melhor o eco da voz do corvo (never more) com o nome da mulher (Leonore). Não encontrei tradução que mantivesse o eco, e todos partem para "Leonora/Nuncamais". Embora a tônica da palavra tenha se deslocado, a combinação "Taís/Nuncamais" aproxima-se mais do eco original que "Leonore/Nevermore" dispara no leitor de língua inglesa. No mais, é apenas mais um exercício de tradução.


O Corvo - Edgar Allan Poe

Certa meia-noite sombria, enquanto cansado lia e refletia
Sobre estranhos e curiosos volumes de doutrinas ancestrais
Cochilava, já quase adormecia, quando ouvi que alguém batia
Alguém batia, suavemente alguém batia em meus portais
“Um visitante”, resmunguei, batendo em meus portais —
Há de ser isso e nada mais.”

Ah, como eu me lembro, era um gélido e triste Dezembro,
E cada brasa moribunda que por dentro morria, forjava mil funerais
Excitado eu desejava o alvorar; futilmente busquei emprestar
Do meu livro cerrado de tanto penar — penar pela perda de Taís, —
Pela rara e radiante donzela a quem os anjos chamaram Taís —
Sem nome agora e jamais.

E a sedosa, sombria, serrazina batida de cada cortina
Aterrorizava-me com terrores nunca dantes visto iguais;
E meu coração inquieto ouvia de minha mente doentia:
“Um visitante querendo entrar em meus portais —
Algum visitante tardio querendo entrar em meus portais —;
Há de ser só isso, e nada mais.”

E minha alma de tal poder se formou que não mais hesitou,
“Senhor”, disse “ou Madame, meu perdão ofereço ademais,
Pois fato é que estava já adormecendo, e gentilmente alguém batendo,
Palidamente alguém batendo, batendo em meus portais,
Que o ouvi apenas vagamente” — e totalmente abri meus portais —
A escuridão encontrei, e nada mais.

A escuridão observando, estanque, a imaginação avoando, relutando
Duvidando, sonhando sonhos que mortal algum sonhou jamais;
Mas o silêncio era profundo, a calmaria de outro mundo
E a única palavra lá falada, sussurrada, foi a palavra, “Taís!”
Meu sussurro murmurou de volta o eco da palavra “Taís!”
Simplesmente isso, e nada mais.

E ao quarto voltava, minh’alma em chamas queimava,
Quando ouvi baterem, mais alto agora, novamente em meus portais.
Certamente, disse a mim mesmo, há algo com minha janela;
Certamente é isso, algo com a madeira ou com os vitrais –
Deixe meu coração se tranqüilizar na madeira e nos vitrais –
Há de ser o vento, e nada mais.”

Escancaro completamente meus portais, e de repente
Portenta ave, um corvo, adentra sei lá de que eras ancestrais.
Nenhuma reverência prestou, nem sequer um minuto hesitou;
Como se um nobre fosse, sem mais empoleirou-se em meus umbrais –
Empoleirado num busto de Pallas, justamente em meus umbrais –
Lá empoleirado, e nada mais.

E tal ave negra distrai-me por um instante de minha tristeza,
Pelo grave e áustero decoro que sustenta seus gestos rituais,
De crista bem aparada, disse-lhe ‘não és criatura acovardada,
Medonho e apavorante corvo, de lá das terras infernais –
Diga-me o nome de teu mestre, lá dos meios infernais!’
Grunhiu o corvo, ‘Nuncamais’

Muito me surpreendeu, pássaro raro que falasse tão claro
Embora fossem palavras de pouco sentido em discursos reais
Nenhum fulano ou beltrano, nenhum ser humano
Fora jamais abençoado com tal ave falante em seus umbrais –
Pássaro ou besta que seja, pousado em busto em seus umbrais,
Ainda mais chamado ‘Nuncamais’

Mas o corvo, que se sentava sobre o plácido busto, apenas falava,
Palavra única, como se sua alma fosse aquela palavra e nada mais.
Nada além ele pronunciou – nem mesmo uma só pena ele agitou –
Murmurei ‘Amigos vêm e vão em contínuos vens e vais –
Ao amanhecer ele partirá, como outrora minhas esperanças joviais.’
E o corvo disse, ‘Nuncamais.’

Aterrorizado por tão sábias palavras de sentido figurado
Disse, ‘Sem dúvida, são palavras fixas, decoradas, sempre iguais,
Aprendidas de algum infeliz, algum qualquer a quem o destino quis,
Que estas palavras fossem pronunciadas, todos os dias as mesmas tais
Compondo tenebroso estribilho, feito reza, todos os dias as mesmas tais
O sombrio Nunca-nuncamais

E o corvo ainda distraía-me de toda minha herdada tristeza,
E tranqüilamente sentado frente ao corvo e aos meus umbrais;
Quando então, afundado no veludo, passei, matuto,
A ligar os acontecimentos, e este agourento pássaro de lugares tais –
O que este cruel, tosco, esquálido e agourento pássaro de lugares tais
Quer dizer ao grunhir ‘Nuncamais.’

E eu sentado, prevendo, mas nenhuma palavra dizendo
Para a tal ave, cujos olhos me queimavam com olhares fatais
Isso e mais, eu sentado prevendo, minha cabeça pendendo
Em travesseiros de veludo, sob a luz de candelabros penumbrais
De quem os travesseiros, sob os candelabros penumbrais,
Dela seriam, ah, nuncamais!

O ar ficou então mais denso, tomado por um forte incenso
Onde anjos foram chegando com seus passos angelicais.
‘Desgraçado’, gritei, ‘teu Deus te concedeu – pelos anjos te concedeu
A rendição – rendido e torpente das memórias de Taís
Bêbado, oh bêbado e entorpecido, esquecido de Taís’
Grunhiu o corvo, ‘Nuncamais’

‘Profeta!’ eu disse, ‘coisa do mal! Ainda profeta, pássaro infernal
Se deliberadamente enviado, ou largado nestas praias funerais,
Ainda desolado, destemido, nesta desértica terra perdido –
Em meu lar aterrorizado, me diga a verdade, e nada mais –
Existe – existe paz no Perpétuo? A verdade e nada mais!’
Grunhiu o corvo, ‘Nuncamais’

‘Profeta!’ eu disse, ‘coisa do mal! Ainda profeta, pássaro infernal
Por estes céus angelicais, por todos os deuses elementais
Diga a esta alma atormentada, se além do Éden faz morada
Uma bela donzela, a quem os anjos chamaram Taís –
Única e radiante donzela, a quem os anjos chamaram Taís?’
Grunhiu o corvo, ‘Nuncamais’

‘Seja esta palavra nosso adeus eterno, demônio ou ave do inferno,
Volta para a profundeza de tuas noites eternais!
E não deixe legado das heresias que tem falado!
Deixe-me cá só e abandonado! – saia já de meus umbrais!
Leve tua figura e todos os teus sinais pra longe de meus umbrais!’
Grunhiu o corvo, ‘Nuncamais’

E o corvo, parado, ainda empoleirado, e ainda empoleirado
Sobre o pálido busto de Pallas que está acima de meus umbrais;
Seu olhar demoníaco transparece sua presença refece,
E a luz projetada sobre ele escoa em sombra nos meus umbrais;
E minh’alma presa a esta sombra, ainda hoje em meus umbrais
Ascenderá – nuncamais!

* * *

The Raven - Edgar Allan Poe

Once upon a midnight dreary, while I pondered, weak and weary,
Over many a quaint and curious volume of forgotten lore,
While I nodded, nearly napping, suddenly there came a tapping,
As of some one gently rapping, rapping at my chamber door.
"'Tis some visitor," I muttered, "tapping at my chamber door-
Only this, and nothing more."

Ah, distinctly I remember it was in the bleak December,
And each separate dying ember wrought its ghost upon the floor.
Eagerly I wished the morrow;- vainly I had sought to borrow
From my books surcease of sorrow- sorrow for the lost Lenore-
For the rare and radiant maiden whom the angels name Lenore-
Nameless here for evermore.

And the silken sad uncertain rustling of each purple curtain
Thrilled me- filled me with fantastic terrors never felt before;
So that now, to still the beating of my heart, I stood repeating,
"'Tis some visitor entreating entrance at my chamber door-
Some late visitor entreating entrance at my chamber door;-
This it is, and nothing more."

Presently my soul grew stronger; hesitating then no longer,
"Sir," said I, "or Madam, truly your forgiveness I implore;
But the fact is I was napping, and so gently you came rapping,
And so faintly you came tapping, tapping at my chamber door,
That I scarce was sure I heard you"- here I opened wide the door;-
Darkness there, and nothing more.

Deep into that darkness peering, long I stood there wondering, fearing,
Doubting, dreaming dreams no mortals ever dared to dream before;
But the silence was unbroken, and the stillness gave no token,
And the only word there spoken was the whispered word, "Lenore!"
This I whispered, and an echo murmured back the word, "Lenore!"-
Merely this, and nothing more.

Back into the chamber turning, all my soul within me burning,
Soon again I heard a tapping somewhat louder than before.
"Surely," said I, "surely that is something at my window lattice:
Let me see, then, what thereat is, and this mystery explore-
Let my heart be still a moment and this mystery explore;-
'Tis the wind and nothing more."

Open here I flung the shutter, when, with many a flirt and flutter,
In there stepped a stately raven of the saintly days of yore;
Not the least obeisance made he; not a minute stopped or stayed he;
But, with mien of lord or lady, perched above my chamber door-
Perched upon a bust of Pallas just above my chamber door-
Perched, and sat, and nothing more.

Then this ebony bird beguiling my sad fancy into smiling,
By the grave and stern decorum of the countenance it wore.
"Though thy crest be shorn and shaven, thou," I said, "art sure no craven,
Ghastly grim and ancient raven wandering from the Nightly shore-
Tell me what thy lordly name is on the Night's Plutonian shore!"
Quoth the Raven, "Nevermore."

Much I marvelled this ungainly fowl to hear discourse so plainly,
Though its answer little meaning- little relevancy bore;
For we cannot help agreeing that no living human being
Ever yet was blest with seeing bird above his chamber door-
Bird or beast upon the sculptured bust above his chamber door,
With such name as "Nevermore."

But the raven, sitting lonely on the placid bust, spoke only
That one word, as if his soul in that one word he did outpour.
Nothing further then he uttered- not a feather then he fluttered-
Till I scarcely more than muttered, "other friends have flown before-
On the morrow he will leave me, as my hopes have flown before."
Then the bird said, "Nevermore."

Startled at the stillness broken by reply so aptly spoken,
"Doubtless," said I, "what it utters is its only stock and store,
Caught from some unhappy master whom unmerciful Disaster
Followed fast and followed faster till his songs one burden bore-
Till the dirges of his Hope that melancholy burden bore
Of 'Never- nevermore'."

But the Raven still beguiling all my fancy into smiling,
Straight I wheeled a cushioned seat in front of bird, and bust and door;
Then upon the velvet sinking, I betook myself to linking
Fancy unto fancy, thinking what this ominous bird of yore-
What this grim, ungainly, ghastly, gaunt and ominous bird of yore
Meant in croaking "Nevermore."

This I sat engaged in guessing, but no syllable expressing
To the fowl whose fiery eyes now burned into my bosom's core;
This and more I sat divining, with my head at ease reclining
On the cushion's velvet lining that the lamplight gloated o'er,
But whose velvet violet lining with the lamplight gloating o'er,
She shall press, ah, nevermore!

Then methought the air grew denser, perfumed from an unseen censer
Swung by Seraphim whose footfalls tinkled on the tufted floor.
"Wretch," I cried, "thy God hath lent thee- by these angels he hath sent thee
Respite- respite and nepenthe, from thy memories of Lenore!
Quaff, oh quaff this kind nepenthe and forget this lost Lenore!"
Quoth the Raven, "Nevermore."

"Prophet!" said I, "thing of evil!- prophet still, if bird or devil!-
Whether Tempter sent, or whether tempest tossed thee here ashore,
Desolate yet all undaunted, on this desert land enchanted-
On this home by horror haunted- tell me truly, I implore-
Is there- is there balm in Gilead?- tell me- tell me, I implore!"
Quoth the Raven, "Nevermore."

"Prophet!" said I, "thing of evil- prophet still, if bird or devil!
By that Heaven that bends above us- by that God we both adore-
Tell this soul with sorrow laden if, within the distant Aidenn,
It shall clasp a sainted maiden whom the angels name Lenore-
Clasp a rare and radiant maiden whom the angels name Lenore."
Quoth the Raven, "Nevermore."

"Be that word our sign in parting, bird or fiend," I shrieked, upstarting-
"Get thee back into the tempest and the Night's Plutonian shore!
Leave no black plume as a token of that lie thy soul hath spoken!
Leave my loneliness unbroken!- quit the bust above my door!
Take thy beak from out my heart, and take thy form from off my door!"
Quoth the Raven, "Nevermore."

And the Raven, never flitting, still is sitting, still is sitting
On the pallid bust of Pallas just above my chamber door;
And his eyes have all the seeming of a demon's that is dreaming,
And the lamplight o'er him streaming throws his shadow on the floor;
And my soul from out that shadow that lies floating on the floor
Shall be lifted- nevermore!

TUDA - pap.el el.etrônico

Em associação com Casa Pyndahýba Editora
Ano I Número 1 - Janeiro 2009
Tradução - Eduardo Miranda

Nâzim Hikmet (1902-1963) é considerado o maior poeta turco do século 20. Artistas do país, como o Prêmio Nobel de Literatura Orhan Pamuk, já diziam que o caso de Hkmet é um exemplo da repressão da Turquia promovida contra seus intelectuais. Ele foi um dos primeiros poetas turcos a usar versos livres. Tornou-se conhecido no ocidente devido a traduções de sua obra para vários idiomas. Em seu país, no entanto, Hikmet foi condenado por suas convicções Marxistas. Hikmet passou a maior parte da sua vida ou preso ou no exílio. Permaneceu uma figura controversa, mesmo décadas após sua morte, e somente agora, dia 5 de Janeiro de 2009, e que a Turquia resolveu reestabelecer sua cidadania, destituída em 1959.

Os Cantos dos Homens

Os cantos dos homens são mais belos que os homens
mais esperançosos
mais tristes
e com mais vida.
Mais que os homens, tenho amado seus cantos.
Posso viver sem os homens
mas nunca sem seus cantos.
Nunca me trairão os cantos.

Qualquer que seja sua língua, sempre os compreendi.

Neste mundo, nem a comida, nem a bebida
nem os becos,
nem as coisas que tenho visto, ouvido,
tocado, entendido
nada, nada,
me tem feito tão feliz como os cantos...

İnsanların Türküleri Kendilerinden Güzel

İnsanların türküleri kendilerinden güzel,
kendilerinden umutlu,
kendilerinden kederli,
daha uzun ömürlü kendilerinden.
Sevdim insanlardan çok türkülerini.
İnsansız yaşayabildim
türküsüz hiçbir zaman.
Kadınlarımı aldattım, türkülerini asla
Hiçbir zaman aldatmadı beni türküler de.

Türküleri anladım hangi dilde söylenirse söylensin.


Bu dünyada yiyip içtiklerimin,

gezip tozduklarımın,
görüp işittiklerimin,
dokunduklarımın, anladıklarımın
hiçbiri, hiçbiri
bahtiyar etmedi beni türküler kadar

tuda - pap.el el.etrônico

Em associação com Casa Pyndahýba Editora

Ano I Número 1 - Janeiro 2009

Ilustração - Aristides Klafke


mixed media on paper, 22" x 18", 2008

tuda - pap.el el.etrônico

Em associação com Casa Pyndahýba Editora
Ano I Número 1 - Janeiro 2009


geriatriz - óleo sobre tela, 2001

TUDA - pap.el el.etrônico

Em associação com Casa Pyndahýba Editora
Ano I Número 1 - Janeiro 2009
Ilustração - José Geraldo (JG)

Noite Paulistana, Latex + acrílica + spray sobre madeira, 150x180cm, 1985

Autores

Ademir Demarchi Adriana Pessolato Adília Lopes Afobório Agustín Ubeda Alan Kenny Alberto Bresciani Alberto da Cunha Melo Aldo Votto Alejandra Pizarnik Alessandro Miranda Alexei Bueno Alexis Pomerantzeff Ali Ahmad Said Asbar Almandrade Alyssa Monks Amadeu Ferreira Ana Cristina Cesar Ana Paula Guimarães Andrew Simpson Anthony Thwaite Antonio Brasileiro Antonio Cisneros Antonio Gamoneda Antonio Romane António Nobre Ari Candido Fernandes Ari Cândido Aristides Klafke Arnaldo Xavier Atsuro Riley Aurélio de Oliveira Banksy Bertolt Brecht Bo Mathorne Bob Dylan Bruno Tolentino Calabrone Camila Alencar Carey Clarke Carla Andrade Carlos Barbosa Carlos Bonfá Carlos Drummond de Andrade Carlos Eugênio Junqueira Ayres Carlos Pena Filho Carol Ann Duffy Carolyn Crawford Cassiano Ricardo Cecília Meireles Celso de Alencar Cesar Cruz Charles Bukowski Chico Buarque de Hollanda Chico Buarque de Hollanda and Paulo Pontes Claudia Roquette-Pinto Constantine Cavafy Conteúdos Cornelius Eady Cruz e Souza Cyro de Mattos Cândido Rolim Dantas Mota David Butler Denise Freitas Desmond O’Grady Dimitris Lyacos Dino Valls Dom e Ravel Donald Teskey Donizete Galvão Donna Acheson-Juillet Dorival Fontana Dylan Thomas Décio Pignatari Edgar Allan Poe Edson Bueno de Camargo Eduardo Miranda Eduardo Sarno Eduvier Fuentes Fernández Elaine Garvey Elizabeth Bishop Enio Squeff Ernest Descals Eugénio de Andrade Evgen Bavcar Fernando Pessoa Fernando Portela Ferreira Gullar Firmino Rocha Francisco Niebro George Callaghan George Garrett Gey Espinheira Gherashim Luca Gil Scott-Heron Gilberto Nable Glauco Vilas Boas Gonçalves Dias Grant Wood Gregório de Matos Guilherme de Almeida Hamilton Faria Henri Matisse Henrique Augusto Chaudon Henry Vaughan Hilda Hilst Hughie O'Donoghue Husam Rabahia Ian Iqbal Rashid Ingeborg Bachmann Issa Touma Italo Ramos Itamar Assumpção Iulian Boldea Ivan Donn Carswell Ivan Justen Santana Ivan Titor Ivana Arruda Leite Izacyl Guimarães Ferreira Jacek Yerka Jack Butler Yeats Jackson Pollock Jacob Pinheiro Goldberg Jacques Roumain James Joyce James Merril James Wright Jan Nepomuk Neruda Jason Yarmosky Jeanette Rozsas Jim McDonald Joan Maragall i Gorina Joaquim Cardozo Joe Fenton John Doherty John Steuart Curry John Updike John Yeats Josep Daústin José Carlos de Souza José Geraldo de Barros Martins José Inácio Vieira de Melo José Miranda Filho José Paulo Paes José Ricardo Nunes José Saramago José de Almada-Negreiros João Cabral de Melo Neto João Guimarães Rosa João Werner Junqueira Ayres Kerry Shawn Keys Konstanty Ildefons Galczynski Kurt Weill Leonardo André Elwing Goldberg Lluís Llach I Grande Lou Reed Luis Serguilha Luiz Otávio Oliani Luiz Roberto Guedes Luther Lebtag Léon Laleau Lêdo Ivo Magnhild Opdol Manoel de Barros Marco Rheis Marcos Rey Mari Khnkoyan Maria do Rosário Pedreira Marina Abramović Marina Alexiou Mario Benedetti Mario Quintana Mariângela de Almeida Marly Agostini Franzin Marta Penter Marçal Aquino Masaoka Shiki Maser Matilde Damele Matthias Johannessen Michael Palmer Miguel Torga Mira Schendel Moacir Amâncio Mr. Mead Murilo Carvalho Murilo Mendes Márcio-André Mário Chamie Mário Faustino Mário de Andrade Mário de Sá-Carneiro Nadir Afonso Nuala Ní Chonchuír Nuala Ní Dhomhnaill Nâzım Hikmet Odd Nerdrum Orides Fontela Orlando Gibbons Orlando Teruz Oscar Niemeyer Osip Mandelstam Oswald de Andrade Pablo Neruda Pablo Picasso Patativa do Assaré Paul Funge Paul Henry Paulo Afonso da Silva Pinto Paulo Cancela de Abreu Paulo Henriques Britto Paulo Leminski Pedro Du Bois Pedro Lemebel Pete Doherty Petya Stoykova Dubarova Pink Floyd Plínio de Aguiar Pádraig Mac Piarais Qi Baishi Rafael Mantovani Ragnar Lagerbald Raquel Naveira Raul Bopp Regina Alonso Renato Borgomoni Renato Rezende Renato de Almeida Martins Ricardo Portugal Ricardo Primo Portugal Ronald Augusto Roniwalter Jatobá Rowena Dring Rui Carvalho Homem Rui Lage Ruy Belo Ruy Espinheira Filho Ruzbihan al-Shirazi Régis Bonvicino Salvado Dalí Sandra Ciccone Ginez Santiago de Novais Saúl Dias Scott Scheidly Seamus Heaney Sebastian Guerrini Sebastià Alzamora Shahram Karimi Shorsha Sullivan Sigitas Parulskis Silvio Fiorani Smokey Robinson Sohrab Sepehri Sophia de Mello Breyner Andresen Souzalopes Susana Thénon Susie Hervatin Suzana Cano Sílvio Ferreira Leite Sílvio Fiorani The Yes Men Thom Gunn Tim Burton Tomasz Bagiński Torquato Neto Túlia Lopes Vagner Barbosa Val Byrne Valdomiro Santana Vera Lúcia de Oliveira Vicente Werner y Sanchez Victor Giudice Vieira da Silva Vinícius de Moraes W. B. Yeats W.H. Auden Walt Disney Walter Frederick Osborne William Kentridge Willian Blake Wladimir Augusto Yves Bonnefoy Zdzisław Beksiński Zé Rodrix Álvaro de Campos Éle Semog