Definição

... da totalidade das coisas e dos seres, do total das coisas e dos seres, do que é objeto de todo o discurso, da totalidade das coisas concretas ou abstratas, sem faltar nenhuma, de todos os atributos e qualidades, de todas as pessoas, de todo mundo, do que é importante, do que é essencial, do que realmente conta...
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Ano VI Número 63 - Março 2014

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TUDA - pap.el el.etrônico

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Ano I Número 8 - Agosto 2009

Dívida Interna
Editorial

Palavras Quebradas
Palavras Contínuas
Palavras Alheias
Foreign Words
Palavras Já Ditas
Palavras Mostradas
Palavras Antigas

TUDA - pap.el el.etrônico

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Ano I Número 8 - Agosto 2009

Dívida Interna


Editor
Eduardo Miranda

Capa
José Geraldo de Barros Martins

Digitação
Teresa Thinen & Eduardo Miranda

Revisão
Túlia Lopes

Colaboradores
Aristides Klafke, Arnaldo Xavier (in memorian), Dorival Fontana, Eduardo Miranda, José Geraldo de Barros Martins, José Miranda Filho, Luiz Roberto Guedes, Márcio-André, Matilde Damele, Mário de Sá-Carneiro, Osip Mandelstam, Paulo Leminsky, Pedro Lemebel, Roniwalter Jatobá, Ruy Espinheira, Santiago de Novais, Souzalopes.

E-mail
tuda.papel.eletronico@googlemail.com

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Ano I Número 8 - Agosto 2009

Editorial

Mad Dog Run Fast
copyright Mark Bulwinkle

Agosto de TUDA! Viva o mês do cachorro-louco!

Seja Sextilis, como era conhecido nos tempos de Rômulo, seja já como o oitavo mês, depois da reforma do Rei Numa, o importante é que Agosto é o oitavo mês da TUDA - a TUDA força, TUDA-louca!

Cachorros-loucos à parte, TUDA deste este mês traz Arnaldo Xavier, Souzalopes, Luiz Roberto Guedes, Santiago de Novais, Dorival Fontana e Márcio-André, em Palavras Quebradas. Nas Palavras Contínuas, traz Ruy Espinheira Filho e José Geraldo de Barros Martins. Em Palavras Alheias, o russo Osip Mandelstam e o chileno Pedro Lemebel. Em Foreign Words, Paulo Leminsky para inglês ver, e nas Palavras Já Ditas, uma homenagem ao lusitano Mário de Sá-Carneiro. Em Palavras Mostradas, as ilustrações de Aristides Klafke & José Geraldo de Barros Martins, além da foto de Matilde Damele em A Mente Pela Lente. Na seção Palavras Antigas, Roniwalter Jatobá comanda a coluna Memória.

E não precisa se vacinar não, que a TUDA não morde... ou melhor, morde sim! Morde mas não faz mal! Por isso, aprecie TUDA SEM NENHUMA MODERAÇÃO. Ela só é contra a INDIFERENÇA!!!

"...
Eu
apenas trabalho para essa equipa:
ocupo os espaços vazios,
os intervalos,
as pequenas falhas
entre corpos e músculos,
moldáveis, eu, a minha voz,
até que tudo acaba
e me atiram para a água,
para dentro desta página."
José Ricardo Nunes


Na luta, companheiros... e TUDA de bom!

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Ano I Número 8 - Agosto 2009

Poesia - Arnaldo Xavier

Henri Cainglet, "Untitled I", Oil on Canvas, 70 x 40 cms., 1988


Ermo
Em Si
Mesmo

* * *

Diantespelho cagava homens

* * *

Tulipânico
Tulipântano
Tulipanorama
Tulipanteista
Tulipanto

* * *

Transrisco por ocaso
Entre o risco de vida
E o risco de morte

* * *

CATA LOGO
CATÁLOGO
PENSOLOGO
DIALOGO

DIÁLOGO
CATALOGO
SEMLOGO
DIA LOUCO


ATÉ LOGO

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Ano I Número 8 - Agosto 2009

Poesia - Souzalopes



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era quase carnaval e a garupa
da puta era palustre e tatuada ela
cantou cheirada estandarte estarei
no puteiro por inteiro quem me dá
um tiro uma pedra eu dou tudo
até o cu eu dou estou cabaço
aí então entrou o gigolô e ele
também travado ele quebrou
uma garrafa no balcão
e com um caco de coca cola
a goela dela ele degola

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Ano I Número 8 - Agosto 2009

Poesia - Luiz Roberto Guedes

Vincent van Gogh - Pollard Willows With Setting Sun

t®ansgênesis

imp®ime teu nome
em cada g®ão
de milho & t®igo

mammon
$anto

sobre tua
natu®a

o sol
ainda
brilha

grátis

(in Oitavas, antologia poética, selo Demônio Negro, São Paulo, 2006)

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Ano I Número 8 - Agosto 2009

Poesia - Santiago De Novais

versos variados: POEMA-TEEN OU
NÓIS E OS LEK DO MORRO DO CÉU

Gritei com o Morro! Não sou tupi. O que importa é ser doce.
Vi tudo na tela. Minha vida. 10 ponto guri! Sou mais que 10 ponto!
Todo mundo fala tanta coisa tanta pergunta nem sei se sou Tiago, sei que sou
Bruno, os outros, os dois, sarda, a linha do trem, quinze para sessenta...
Ei amigo! Sabe quem sou pra falar assim?
Eu nada, chiar de água, sair da linha, dar topada
Nós mesmos, claro que eram garotos inocentes alvos
O trem me fez voltar tuc tuc tuc gotas gotas gotas gotas hora de voltar grande e verde
Se for bruno é bom de ser porque ser bruno é ter dúvida é ser ele ter sardas
Outros pontos me faltam, guspir sonhar leite guspir longe lama
Dia de colher uvas, se uvas fossem mulheres... Só sozinho não.
Sou do Vêneto gosto de falar loiro solto palavrão “ aras______ tado
Pra que foram sair da Itália aqui mais tranqüilo mas lá é a Itália e se pudesse?
Não sou ingrato, é que estes morros do Sul me irritam prefiro um barraco no Friuli
Você que ela tá ouvindo, então não ouça! Tudo passa de segredo! Aqui é 3 guri.
As menina não dão bola mesmo. Ouvem músicas que não sabemo e cantamo.
Quer um conselho?
Sou genti, sou storti , sou silva, sou spolidoro, sou uma foto da cachoeira mole
Sou batida de sinos barulho de mergulho. Digo.
Anedotas de si, nervosos! Bebam!
Amem seus íntimos sem barba, isto aqui não é filminho americano.
Só te resta amar os amigos como se eles fossem mulheres. Elas são foda.
Mas tivesse amor ou melhor ter que não ter
Adolescência é só tolice de amor, que amor que nada amor amor amor
Depois a gente engana achando que não elas vão
Mas elas proíbem isso tal e falam um monte
Tá dormindo de cueca cheirando vodka cigarro cinza braseiro carro velho churrasco
Despenteado mau hálito amigos não ligam amam abraça joga elas só riem
Tudo que ela falou foi tipo um the end. Um daikiri que cai no chão sem ser bebido.
Antes andamos vadios pelas linhas de trem em nuvens de garotos que o Lácio faz mornos
Automóveis improvisados de vampiros pisando sêmen dos amigos
Disfarçar a solidão no morro é nossa bonita vingança contra o ócio
Eu jurava que estes dias em que eu ficava deitado na cama ouvindo rock
Nunca acabasse porque o sul está sempre adolescente e teso
O que vai sobrar das nossas vidas? É mesmo uma pergunta ao avesso?
Todas nossas loucuras com os amigos ou quem sou ontem?
Se chover tome chuva. Se fizer sol finja. Nem as garotas sobram, sabem.
Sempre use freio, tu ficas nervoso tal anaconda ou capeta em pessoa. Prepúcio cuide dele.
Eu se tivesse dinheiro primeira coisa que faria era vontade de chorar. Manda-me mensagem.
É mesmo, véio. Do céu.

Nota do autor:
Este poema é uma obra de ficção, embora haja referências autorizadas ao documentário "Morro do Céu".
Agradecimentos especiais a Gustavo Spolidoro e Bruno Storti.

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Ano I Número 8 - Agosto 2009

Poesia - Dorival Fontana

Pieter Bruegel, Big Fish Eat Little Fish, 1557


Zôo Ilógico

Formiga, cavalo,
burro de carga
trabalha, trabalha...

Pobre diabo,
carrega parasitas pelo rabo.

Vacas magras,
magras vacas...
curral de eternas crises.

Novos porcos
na pocilga,
só para encher linguiça.

Retrógrados Caranguejos,
sofrem de neofobia.

Bocejam sobre
a escrivaninha,
eternos bichos preguiça.

Sanguessugas sugam sangue
à sombra de uma alameda.

Raposas soturnas,
famigerados abutres,
vendem com ágio
o seu peixe.

Sempre haverá
um pato para pagar,
sem que se queixe.
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Ano I Número 8 - Agosto 2009

Poesia - Márcio-André


MONSANTO

toda cidade é esboço dela mesma
ou labirinto móvel para cães

e de tanto haver coisas sempre nos adequamos a ser outro:
a cidade contém dentro três outras cidades
que nunca se tocam

e somatizam nos habitantes: até deformá-los

mas o pôr do sol é sempre esse
desde o principio do sol e do estado das coisas

o pôr do sol que se ama como latão velho
e tudo o mais é variação de pedra

nesta cidade onde até o deus é de granito
e tem sonhos de pedra

com fêmeas mortais num jardim de areia e pedra

convém fugir da cidade antes que a velhice chegue
pois também as coisas perecem mais rápido do que podemos perceber

aqui cada dia é um dia

é preciso partir antes que chegue outro
[um pé de tangerinas à esquerda na estrada]

e é triste notar que nada permanece de nosso
antes mesmo que não estejamos mais aqui

http://www.marcioandre.com/marcioandre.htm

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Ano I Número 8 - Agosto 2009

Conto - Ruy Espinheira Filho

Ana Maria Pacheco - Memória Roubada II, 2008
Polychromed wood, gold leaf, slate base - 200 x 240 x 300 cm

Visita

Oi, mãe, já terminando de almoçar?

Oh, meu filho, me dê um abraço. Ah, que bom... Quando foi que você chegou?

Estou chegando agora, mãe.

Como foi de viagem?

Eu não estava viajando, mãe.

Você precisa tomar cuidado com essas viagens, as estradas estão muito perigosas.

Mas eu já disse, mãe, não estava viajando. Eu não viajo quase nunca. Faz anos que não viajo para lugar nenhum. Agora, deixe a moça tirar o prato, os talheres, logo vem um pratinho para a senhora comer a sobremesa.

Acho que a sobremesa acabou.

Está vendo este pacote, mãe? São sobremesas que eu trouxe. E mais o perfume que a senhora encomendou. E outras coisas eu já deixei com D. Delza, que cuida da senhora. Veja, seus doces preferidos.

E o queijo?


Aqui também, não ia me esquecer de que a senhora gosta de comer doce com queijo.

Sempre gostei, desde menina. Quer saber uma coisa engraçada, meu filho?

Quero, mãe.

Hoje eu só me lembro bem de coisas daquele tempo velho. De outras eu esqueço.

É normal, mãe, está acontecendo também comigo.

Você puxou muito a mim.

Sim, inclusive fisicamente.

Todo mundo acha.

Sem a beleza, claro...

Que beleza?

A sua.

Ah... Cadê o doce?

Aqui, mãe. Veja o pratinho, a colherinha, vou servir a senhora. Goiaba ou banana?

Os dois.

Eu já sabia. Estes pedaços estão bons?

Bote mais um pouquinho.

A senhora continua em forma. Sempre me lembro da senhora dizendo que um doce alegra a refeição.

E alegra mesmo. Corte mais queijo.

Tudo bem.

Depois dos doces, um cafezinho, não é?

Claro. Aliás, trouxe também café, já o entreguei a D. Delza.

Café é bom, meu pai dizia. Café e outra coisa... O que era mesmo?

Eu sei que outra coisa era, quer que eu diga?

Não.

Então não digo.

Já sei: azeite doce.

Isso mesmo. Sim, são coisas boas.

Você também gosta?

Aprendi a gostar com a senhora.

Quando meu pai morreu, eu era muito pequena.

Eu sei. Tinha seis anos.

Você tinha seis anos?

Não: a senhora.

Você se lembra?

Lembro a senhora dizendo isso.

Minha mãe foi quem me falou. Ela ficou viúva, sempre vestindo preto. Olhe, meu filho, chegue mais perto, quero lhe contar uma coisa.

Pode dizer, mãe.

Minha mãe também morreu.

Eu sei.

Quem lhe contou?

Mãe, minha avó morreu há mais de vinte anos.

Sua avó?

Minha avó, sim, sua mãe.

É verdade. Sua avó. Mas você está enganado, meu filho, ela morreu agora.

Agora?

Nestes dias.

Mãe...

Semana passada, foi.

Mãe...

Ela morreu, eu fiquei só, cadê os outros?

Que outros?

Eu não tenho outros filhos?

Tem, sim, tem mais quatro.

E cadê?

Eles vêm visitar a senhora, mãe, em dias diferentes. Só não Luiz, que mora em São Paulo. Ângela vem sempre.

Que Ângela?

Sua filha.

Ah, mas faz muito tempo que ela veio.

Ela esteve aqui ontem, mãe.

Não.

Foi, sim, ela me telefonou e disse.

Não, ontem foi o enterro de minha mãe. Vieram os parentes todos.

Ah... A senhora quer mais doce?

Um pouquinho mais, com queijo.

Sempre com queijo.

Você não esquece.

Não esqueço. Seu apetite continua ótimo.

Não, eu como pouco.

Sim, mas não os doces...

Doce alegra a refeição.

Pois vá comendo, mãe.

É só este pedacinho... Bom, já acabei.

É, acho que um terceiro prato seria demais. Veja, já vem o cafezinho. Deixe que eu sirvo. Duas colheres de açúcar?

Três.

Está bem, três. E agora o café. Mexa bem. Está no ponto?

Está, mas minha mãe fazia melhor.

É verdade, eu me lembro do café dela.
Ela morreu.

Eu sei.

Acho que foi ontem.

Mãe...

Não, não foi ontem. Chegue mais perto para eu lhe dizer: ontem morreu ele.

Ele quem?

Meu marido.

Meu pai? Mas ele morreu há quinze anos.

Sim, seu pai. Ele morreu, minha mãe morreu, eu fiquei sozinha. Tudo de uma vez, por estes dias.

Meu pai morreu há quinze anos, mãe.

Você não sabe, eu sei. Foi por estes dias que ele morreu, junto com minha mãe. E com meu pai. E meu padrinho, e minha madrinha. Morreu todo mundo, eu fiquei sozinha, sem ninguém.

Mãe, você não está sozinha.

Não tem mais ninguém, ninguém. Morreu todo mundo. Morreu todo mundo. Todo mundo.

Mãe...

Você não sabe, passa o tempo viajando. Seu pai também viajava muito. Para trabalhar. Trabalhava demais.

Eu me lembro. Sentia falta dele quando viajava.

Eu também. Mas ele não morreu em viagem.

Não.

Ele morreu... Nem sei, foi de repente... Ele estava bem, forte e bonito, e então me disseram que estava morto...

Sim, ele morreu ainda jovem.

Meu coração está batendo muito, meu filho, bote a mão aqui. Está sentindo? Ficou assim quando todo mundo morreu e eu acabei sem ninguém. Só quando durmo ele se aquieta, batendo de mansinho... Acho que esquece que todo mundo morreu.

Mãe, vamos falar de outra coisa. A senhora está gostando daqui?

Eu gosto, mas não é minha casa.

Agora é, mãe. A senhora não está sendo bem tratada?

Acho que sim, mas de noite eu vejo umas coisas, umas coisas brancas, parecem visagens. Ou gente fazendo visagem.

Fazendo visagem... Esta expressão é bem da senhora, mãe. Toda vez que era surpreendida pelo súbito surgimento de alguém, principalmente à noite, lá vinha a pergunta, no susto: ô, fulano (ou fulana), está fazendo visagem?

Pois é, tem gente que fica fazendo visagem, assustando a gente.

Acho, mãe, que quem está fazendo visagem aqui são as funcionárias, que passam à noite para ver se tudo está bem, se alguém está precisando de alguma coisa.

Pode ser, mas sinto falta de minha casa. Por que você não me leva para lá?

Não tem mais casa, mãe.

Por quê? Ela caiu?

Não, foi vendida, a senhora não podia mais ficar lá, precisava de cuidados profissionais.

Eu sempre soube me cuidar. Pergunte a seu pai.

Sim, a senhora sempre soube se cuidar, como cuidou de toda a família a vida inteira, mãe.

A família... Agora fica todo mundo viajando, não sei por quê. Ah, acho que vou pro meu quarto, estou cansada...

Mãe, deixe que eu ajudo a senhora a se levantar. Devagar, assim... E D. Delza já está aqui. Mas a senhora é forte, nem precisaria de ajuda.

Não, eu fiquei fraca. Estou com sono.

Depois de descansar um pouco, a senhora ficará bem disposta.

Chegue perto, meu filho, para eu lhe dizer um segredo.

Pode dizer, mãe.

Todo mundo morreu, de repente, e eu fiquei sozinha, sem ninguém. Todo mundo morreu, meu filho.

Mãe...

Vá com Deus, meu filho. Mas tome muito cuidado com as estradas, elas estão cada vez mais perigosas.

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Ano I Número 8 - Agosto 2oo9

Conto - José Geraldo de Barros Martins

Um Time Chamado Saci


Muito se escreveu sobre o verdadeiro local de nascimento de Lette Annsain't: Suíça, Haiti, Argélia, Guiana Francesa, Costa do Marfim, Canadá ou Indochina. Porém até hoje, ninguém conseguiu saber com precisão, qual era o país de origem do homem que revolucionou completamente todos os conceitos e teorias acerca do gerenciamento de divisões de base do futebol .

Radicado no Brasil, nosso protagonista largou a profissão de confeiteiro para realizar o que denominava a missão de sua vida: provar ao mundo que não é preciso ter talento para jogar futebol. Para isto comprou um terreno alagadiço e acidentado nos arrabaldes da capital paulistana e criou o Saci Futebol Clube, entidade cujo nome fora colocado propositalmente para designar a falta de habilidade de seus jogadores.

Admirador de técnicos com estilos radicais (Rinus Mitchel, João Saldanha, Iustrich, etc) o nosso amigo inovou de maneira drástica a metodologia de sua escolinha de futebol: para começar os testes de admissão eram feitos de maneira inversa a usual, ou seja, quem tivesse mesmo que um pouco de habilidade era excluído, só ficavam os jogadores muito grossos, os completamente perna-de-pau. A partir daquele momento eram realizados os mais estranhos treinamentos em condições totalmente adversas: o campo possuía declividade acentuada, diversos auxiliares ficavam com espelhos do lado de fora das quatro linhas para refletir a luz solar no rosto do aprendizes, galochas eram usadas ao invés de chuteiras, o piso da pequena área era de pedra portuguesa para que os goleiros se acostumassem a saltar sem medo, o treinamento de cobranças de falta eramrealizados com bolas de rugby e os jovens usavam jacas para aprenderem a bater lateral. Nas preleções o técnico-entusiasta passava horas a discorrer sobre as grandes batalhas da história (Little Big Horn, Curupaiti, Kursk, etc) e sobre filosofia em geral com ênfase na obra de Nietzsche. Aliás um de seus ex-alunos uma vez, foi convidado a participar daquele que é considerado o pior programa tele-esportivo da paulicéia, e ao ouvir aquele famoso comentarista esportivo que tem a mania de verbalizar os sinais de pontuação, perguntar "O jogador estava impedido, interrogação" repondeu: - Por acaso alguém de vocês leu "O Mundo como Vontade e Representação" de Schopenhauer? Não? Então eu me retiro deste recinto.

Os jovens cresceram, se tornaram craques e o Saci Futebol Clube alcançou a primeira divisão, porém Lette Annsain't morreu devido a uma síncope cardíaca, horas após seu querido time perder a vaga para a Libertadores em um jogo escandalosamente roubado contra um time grande e popular.

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Ano I Número 8 - Agosto 2009

Tradução - Eduardo Miranda

Osip Mandelstam - Осип Мандельштам

Osip Mandelstam (janeiro de 1891 - dezembro de 1938) foi um poeta e ensaísta russo, um dos principais membros dos chamados poetas acmeistas, escola de poesia surgida em 1910 na Russia, cujo termo foi cunhado à partir do grego "acme", que significa auge, apogeu. Os Acmeistas contrastavam o ideal da beleza ao "frenesi Dionísico" propagado pelos simbolistas russos. No Manifesto "A Manhã do Acmeismo" de 1913, Osip Mandelstam definiu o movimento como "uma ânsia de cultura mundial".

O não-conformismo e as tendências anti-governistas de Mandelstam o levaram para a prisão em 1934, de onde foi logo liberado. Detido novamente em 1938, foi acusado de atividades contra-revolucionárias e condenado a cinco anos nos campos de correção, onde viria a morrer ainda em Dezembro daquele mesmo ano. A causa oficial da morte foi dada como "doença não especificada".

A profecia de Mandelstam foi cumprida. Ele dizia que "Só na Rússia a poesia é respeitada - ela mata pessoas. Existe algum outro lugar onde a poesia seja tão freqüentemente motivo para assassinatos?" Nadezhda Mandelstam apresentou sua versão dos fatos da vida de seu marido no livro "Contra Toda Esperança" e mais tarde continuou com "A Esperança Abandonada".

Após o fim da era Stalin, Osip Mandelstam foi reabilitado em 1956, quando foi absolvido das acusações formuladas contra ele em 1938. Em 28 de outubro de 1987 foi exonerado das acusações de 1934 e assim totalmente absolvido.


Armado como os braçais da Sociedade das Vespas
Cevando e arando a terra, arando a terra,
Pode até parecer importante e necessário
Mas em meu coração, me parece ser em vão.

Eu não sei pintar, eu não sei cantar,
Tampouco manejar o arco fúnebre do violino
Minha vida se resume em arar e procriar
E invejar a elite, capciosos insetos sociais.

Ah, quem dera pudesse um dia
Compelir – estupor e morte
Esporear no ar a exaltação do verão,
E entender o sentido deste arar, arar a terra...


Вооруженный зреньем узких ос,
Сосущих ось земную, ось земную,
Я чую все, с чем свидеться пришлось,
И вспоминаю наизусть и всуе.

И не рисую я, и не пою,
И не вожу смычком черноголосым:
Я только в жизнь впиваюсь и люблю
Завидовать могучим, хитрым осам.

О, если б и меня когда-нибудь могло
Заставить - сон и смерть минуя -
Стрекало воздуха и летнее тепло
Услышать ось земную, ось земную...

TUDA - pap.el el.etrônico

Em associação com Casa Pyndahýba Editora

Ano I Número 8 - Agosto 2009

Tradução - Santiago de Novais

Alexander Abon, "Tabo", Oil on Canvas, 122 x 91, 2003

Pedro Lemebel

Escaravelhos No Parabrisas


É só por o pé no primeiro degrau do microônibus e já começar a sacolejar com o vôo destrambelhado dele. Ou melhor, é entregar-se ao barulhento tilintar da lata velha decorada com o barroco picante dos fetiches familiares. É algo assim como por rodas em uma edícula e trafegar sua estética exagerada sobre os viadutos urbanos.

Eles são praticamente um museu itinerante do kitsch doméstico, o que pode se ver muito bem no bambolear do sapatinho de bebê grudado no espelho. Também no retrovisor sem brilho, que perdeu sua função de proteger e está entupido de tranqueiras e badulaques de nylon que desfiguram suas bordas. Parece haver um poço de chantilly sobre as letras do decalque que rezam beatas: “Deus é meu co-piloto”. Sem falar daquele paninho com beiradas de crochê, que cobrem o assento do chofer, enxugando o suor ácido de suas virilhas operárias.

Tudo uma forma de criar um ambiente para a travessia popular pela cidade com o mesmo floreado plástico que cobre “as humildes mesas”. Só que nas vans, as rosas plásticas cintilam sem propósito por todos os lados. São grinaldas natalinas ou destas chispas brilhosas feitas em Hong Kong, que cintilam meio que ofuscadas pelos neons do céu metropolitano.

Assim os microônibus, ou las micros como se chamam em Santiago, se extinguem em sua caricatura legendária. Novas máquinas vão recompondo o ruído defeituoso destes motores. Ainda assim é possível encontrar alguma destas ruidosas Pila-Cementerio ou Matadero-Palma, que ameaçam desmontarem-se todas em suas viagens bamboleantes. Basta pagar a passagem e torcer para que na viagem não lhe matem do coração. Nunca se sabe o que se está pagando nestes casos, se é uma entrada em uma discoteca ambulante ou um safári aventuroso pelos pântanos de um bairro, como o Zanjon de la Aguada. Basta acomodar-se nos assentos destripados por alguma gilete perversa e escutar a música imposta pelo chofer que se traveste de DJ, piloto de fórmula um, ou cobrador implacável dos que sobem por trás. Ele então pára o microônibus e pede que façam passar de mão em mão as moedas destes que tentam entrar pela porta de trás sem pagar, mas a moeda acaba por se perder em alguma mão, algum bolso oportunista em meio ao caminho. Então este mesmo chofer se transforma em ogro, em um monstro horrível e berrante que deita espuma pela boca, gritando que “os chilenos são uns filhadaputa descarados!”. E emenda: “e a Senhora aí, vai logo para o fundo!”, diz ele à gorda que bloqueando o corredor não deixava ninguém passar. Ainda que digam a ela que mais ao fundo havia assento livre, ela não se mexe. Então uma bichinha que se fazia de tonta, destas que ficam olhando a numeração das ruas para fingir se distrair, e que se mexem, rebolam quando um macho passa atrás delas. Mais um pouco e um vem e a encoxa rapidamente e ela fica bem quietinha, aproveitando-se da ereção que ele tem, bem safada. E o corredor vai se enchendo e os que descem reclamam do aperto e aquele macho muda de posição e vai depositar o pacote no ombro de outra mulher sentada.

Assim passam os microônibus pelas ruas em uma filmografia que recorta a cidade quadro a quadro, reproduzindo em seu reverso de cristal reflexos que transformam os rostos laborais e repetidos, só parecidos em seus bocejos de esgotamento. Este é o retorno para casa destes corpos que parecem sem alma de tanto cansaço e que agarrados aos ferros dormitam acariciados pelo vaivém gelatinoso desta rotina veicular dos microônibus lotados.

Os microônibus são, portanto uma lata de sopa que revolve nossos intestinos. Um pastiche de eructações, flatulências e peidos que colorem o duro trânsito até a periferia. Assim seguem a viagem, com o desce e sobe de passageiros que desesperados para conseguir um assento não sentem uma mão ligeira e sedosa que lhes limpa a carteira. Em sua histeria para acomodarem-se não sentem nem que um par de luvas quente lhes agarra, quase lhes esmagando-lhes o tecido muscular. Mesmo assim, habituados que estão, sentam e evitam fazer escândalo. Mas e daí também um agarrãozinho de nada não tira pedaços. Um par de luvas lascivo é sempre necessário na cidade, porque revolve a frigidez e deixa quente a água para o mate que se tomará mais tarde em casa...

Por isto da bichinha não vai acabar sobrando nem a bunda com tanto esfrega-esfrega das “mangueiras”. Já não lhe sobra nem coração em seu repartido corpo plural, que tão logo se entrega ao roçar e em seguida tem que se despedir de cada passageiro que toca a campainha para descer. Como se a fricção destes apertos eretos e golpes suaves se prolongassem em um coito imaginário, em uma fila de véus que saúdam seu ânus com um beijo de estréia e despedida. Como se passasse em revista um abrir e fechar de glúteos, e ela levasse este toque picante em sua memória flagelada.

Como se isto não bastasse, no corredor avança um colegial e que só de vê-lo a alma lhe escapa para fora do corpo. Então ela se segura no encosto e cada vez que ele se ajeita, ela nem respira. E quase desmaia quando se dá conta de que o moleque não se move, ou melhor, que se esfrega nos seus dedos estendidos. E assim, mão e nervo, ferro e carne, bicha e moleque, vão agarrados na mesma febre, sujeitos do mesmo desejo clandestino que ninguém vê. Nem mesmo o policial que se faz de civil se dá conta do que o estudante está fazendo bem na frente do seu nariz. Nem o cavalheiro com um chapéu meio hippie e que põe o seu Ray-ban e abre a janela por causa de algum mau cheiro. Um fedor de suores misturados que cheira a queijo azedo lhe abasta o nariz. E debruçando a cabeça pra fora da janela aberta, ele absorve uma bocada de ar fresco. Assim uma lufada de vento como um soco na cara lhe arranca os óculos, deixando-lhe um arranhão no rosto.

Mas estes incidentes não tiram o brilho da festa micreira que acontece diariamente nos microônibus, e por isto, o cavalheiro tem que fechar a janela e suportar a fetidez que lhe oferece a gorda em uma espécie de bandeja cabeluda, sentando-se ao lado dele. O fino rapaz tem ainda que suportar esta música de bordel que se ouve nas vans, esse “Todo, todo”, de Daniela Romo, que agita as cabeças com o ritmo das maracas. Como se a van fosse uma jukebox rodante que liberasse sua batida ressentida na febre de seu canto, e que todos, menos o cavalheiro, a acompanhasse batendo os pés no chão debaixo dos assentos. Até mesmo a senhora com seus três filhos, que entre dar o peito pra um, pentear o outro e cobrir o terceiro, lhe sobra como cantarolar “Todo, todo”, enquanto se reparte em mil mãos para cuidar de sua prole.

O “Todo, todo” musical diminui o cansaço dos operários que apóiam a cabeça no vidro da janela para sonhar com a Daniela Romo e seu molejo de dançarina de rumba. Este mesmo “Todo, todo” anima até o chofer, que mete o pé no acelerador e de vez em quando freia bruscamente e isto faz as dobras da gorda caírem sobre o cavalheiro, que desagradado arruma o chapéu. Neste meio tempo sobe no microônibus um grupo de músicos com violões e que entram ruidosos com seu show peregrino e com seu barulho abafam a música de Daniela com o metal desafinado de uma garganta que trina “lágrima pagã”.

Assim canto e rádio, chacoalhar das latas e velocidade, são um presságio quando o chofer para ultrapassar outro chofer “inimigo” de linha, se confunde em sua ira com farol que passa de amarelo para vermelho, e em um instante tudo fica vermelho. Tudo vira um charco na violência do impacto. Tudo são chispas e ardência de ossos despedaçados. Tudo é uma gritadeira por auxílio e para que peguem as crianças pela saída de emergência que se incendeia. Tudo são alaridos e combustão enquanto a gasolina se derrama e a porta trancada não cede, e entre os ferros retorcidos se vê uma mão se despedindo. Como se por um momento “Todo, todo” se tornasse real e de uma maneira trágica fizesse a gorda explodir como se ela fosse um zepelim sangrento. E um golpe metálico que faz o chapéu do cavalheiro voar pelos ares junto com sua massa encefálica. Um todo de dor que acaba comprimindo pra sempre a bichinha e o colegial em um abraço de tripas para o ar, justo quando o menino quase chegando ao jorro de pérolas.

Ao fim, tudo foi traumatismo, pedaços de bebês, restos de violões e gente chamando ambulâncias e sirenes o que parecia aumentar o fogo. E o “Todo, todo” do cassete seguia tocando, girando como um pneu que perde a pista e sai rolando por aí, até mesmo quando a carroceria se desfaz em brasas flamejantes na última explosão daquela espécie de nave viking.

Assim os microônibus se exilam em sua desconcertante velhice. Ônibus aerodinâmicos apagam seu carnaval cinzento, traçam novas rotas sem risco e numerações codificadas substituem a poética das antigas rotas.

A cidade explode em uma megalópole pressurizada para o sono destes paquidermes que se distanciam do centro tossindo seus vapores mortíferos, refletindo em seus vidros escuros os traços dourados da modernidade.

* * *

Coleópteros en el parabrisas

De poner un pie en la pisadera y encaramarse al vuelo cumbiado de la micro. Más bien de entregarse a los tiritones de sus latas decoradas con el barroco picante de los fetiches familiares. Algo así como ponerle ruedas a la mediagua y traficar su estética chillona por los viaductos urbanos.

Casi un museo itinerante del kitsch doméstico que bambolea en el zapatito de guagua colgado en el espejo. Un cristal que perdió su función de vigilar, atiborrado de chiches y encajes nylon que enaguan el azogue de sus bordes. Quizás un marco chantilly para la letra porra de sus calcomanías que rezan beatas "Dios es mi copiloto". Como el pañito tejido a croché que cubre el asiento del chofer, enjugando el sudor ácido de sus verijas obreras.

Una forma de ambientar la travesía popular con el mismo floreado plástico que cubre "la humilde mesa". Sólo que en la micro las rosas plásticas parpadean con luz trashumante. Son guirnaldas pascueras o chispas made in Hong-Kong, que titilan opacadas por el fulgor de los neones en el cielo metropolitano.

Así las micros se extinguen en su caricatura de leyenda. Nuevas máquinas van reemplazando el gangoso ronquido de sus tarros. Pero aún es posible encontrar alguna destartalada Pila-Cementerio o Matadero-Palma, que amenaza desarmarse en cada zangoloteo de embrague. Sólo basta canjear la moneda por un boleto que asegura unidad coronaria al instante. Nunca se sabe lo que se paga; si la entrada a una discoteca ambulante o un safari en los pantanos del Zanjón de la Aguada. Solamente acomodarse en los asientos destripados por alguna gillette perversa y escuchar la música impuesta por el chofer, que se traviste en disjockey, piloto fórmula uno, o cobrador implacable de los que se suben por atrás sin pagar. Entonces chanta la máquina pidiendo que echen a correr la moneda, pero la moneda que venía pasando de mano en mano se perdió en algún bolsillo oportunista. Entonces el mismo chofer se transforma en ogro que echa espuma gritando que los chilenos son unos huevones sinvergüenzas. Y usted, señora, córrase para atrás, le dice a la gorda que atascada en el pasillo no deja pasar a nadie. Aunque le digan que atrasito hay asiento, atrás hay un hueco. Más bien una loca que haciéndose la lesa, la que mira la numeración de las calles, se agacha cuando un macho pasa a su espalda. Un macho que la puntea fugaz y ella se queda muy quieta gozando la dureza. Pero el pasillo se llena y los que bajan reclaman y el macho se corre al hombro de una mujer sentada y le deposita el paquete.

Así pasan y pasan las calles en una filmografía que recorta la ciudad cuadro a cuadro, reproduciendo en su reverso de cristal empañado el rostro laboral repetido en un bostezo de agotamiento. El regreso a casa de los cuerpos, que colgando de los fierros, dormitan acunados por el vaivén gelatinoso de la rutina vehicular.

La micro es una lata de sopa que revuelve los intestinos. Un pastiche de eructos, flatos y peos que colorean el duro tránsito que se desbarranca a la periferia. Mientras bajan y suben pasajeros que en la desesperación por agarrar un asiento, no sienten la seda de una mano que despabila la billetera. En su histeria por acomodarse, no sienten el guante tibio que les horada los muslos. Más bien lo sienten y no hacen escándalo. Total un agarrón al paso no deja consecuencias. Un guante lascivo siempre es necesario en la ciudad, porque remece la frigidez y deja caliente el agua para el mate que se tomará en casa.

Por eso a la loca ya no le queda traste con tanta friega de mangos. Ya no le queda corazón en su repartija de cuerpo plural, que se entrega al roce y se despide en cada boleto que timbra la campanilla de bajada. Como si la fricción de esa huella erecta en el cachete se prolongara en un coito imaginario, en una fila de tulas que saludan su ano con un beso de debut y despedida. Como si pasara revista en un abrir y cerrar glúteos, llevándose el tacto punzante en su memoria flagelada.

Pero eso no basta, porque en el pasillo avanza un escolar que de verlo se le fuga el alma. Entonces se toma del pasamanos a la altura del marrueco y cada vez que el chico afirma el bulto la loca no respira. Más bien desfallece cuando se da cuenta de que el péndex no se quita, es decir, se refriega en sus dedos agarrotados. Y así mano y nervio, fierro y carne, loca y péndex, van agarrados de la misma fiebre, sujetos del mismo deseo clandestino que nadie ve. Ni siquiera el paco sentado que se hace el civil y no se da cuenta de la paja que le corren al estudiante en sus propias narices. O el caballero de sombrero jipi-japa que se pone lentes Rayban y abre la ventana por algún mal olor. Un rezumo a queso de pata o roquefort con hongos que lo hace ariscar la nariz. Y asomando la cabeza afuera absorbe una bocanada de aire frío. Más bien una ráfaga de viento en el manotazo del punga que le arranca los lentes, dejándole un arañón en la cara.

Pero estos incidentes no opacan el brillo de la fiesta micrera, por eso el caballero tiene que cerrar la ventana y soportar la fetidez que le ofrece la gorda en bandeja peluda sentándose a su lado. El fino caballero tiene que bancarse esa música de burdel, ese "Todo, todo" de Daniela Romo que agita las cabezas con su ritmo maraco. Como si la micro fuera un wurlitzer rodante que liberara su pulso resentido en la fiebre del canto, que todos (menos el caballero) acompañan moviendo los pies bajo los asientos. Hasta la señora de los tres niños que, entre meterle la teta a uno, peinar al otro y aforrarle al tercero, le alcanza para entonar el "Todo, todo" mientras se reparte en mil manos que cuidan a la prole.

El "Todo, todo" musicante rebasa las penas de los obreros, que se permiten apoyar la cabeza en el vidrio para soñar a la Daniela Romo y enjugarle su zampa rumbera. Ese mismo "Todo, todo" anima al chofer que mete chala al acelerador y pega unos frenazos que pliegan en acordeón las charchas de la gorda sobre el caballero pituco, que disgustado se arregla el sombrero. Mientras sube un show peregrino de guitarras que opacan a la Daniela, con el metal destemplado de una garganta que trina lágrima pagana.

Así, canto y radio, balatas y velocidad, son un celaje cuando el chofer corriendo la largada con otro chofer enemigo de línea, se le confunde la ira con el sangramiento del semáforo y en un instante todo es semáforo. Todo es charco en la violencia del impacto. Todo es chispazo y ardor de huesos astillados. Todo es gritadera de auxilio; que saquen a los niños por la puerta de escape que se incendia. Todo es alarido y combustión cuando estalla la bencina y la puerta trancada no cede y entre los fierros retorcidos se asoma una mano despidiéndose. Como si en un momento el "Todo, todo" se hubiera hecho real en un todo de tragedia que reventó a la gorda como un zepelín sangriento. Una cachetada metálica que al caballero le voló el sombrero con la masa encefálica. Un todo de dolor que comprimió para siempre a la loca y al péndex en un abrazo de tripas al aire, justo cuando al chico le venía el chorro de perlas.

Todo fue traumatismo, pedazos de guagua, restos de guitarra y llamaradas de ambulancias y sirenas que aumentan el fuego, el "Todo, todo" del caset que sigue sonando, girando como un neumático que perdió la pista. Aun cuando la carrocería se despelleja en brasas que flamean en un último destello de nave vikinga.

Así, las micros se exilian en su desguañangada senectud. Buses aerodinámicos borran su carnaval ceniciento, trazan nuevas rutas sin riesgo y numeraciones codificadas que reemplazan la poética de los antiguos recorridos.

La ciudad estalla en una megalópolis apresurada para el sopor de estos paquidermos, que se alejan de la urbe tosiendo sus vapores mortíferos, reflejando en los vidrios parchados las cintas doradas de la modernidad.

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Ano I Número 8 - Agosto 2oo9

Foreign Words - Paulo Leminsky
por Eduardo Miranda

Paulo Leminski Filho (Curitiba, August 24, 1944 - Curitiba, 7 June 1989) was a writer, poet, translator and teacher. Son of Polish father with black mother, Leminski always drew attention for its intellectuals, culture and genius, being owner of an extensive and relevant work. From early he found a particular way - if not of himself - to write poetry, preferring short poems, often based on puns, or playing with popular sayings.

He met Haroldo de Campos while participating in the I Brazilian Congress of Vanguarda Poetry of Belo Horizonte. He debuted in 1964 with five poems in the magazine Invenção, directed by Decio Pignatari; he was ranked first in the II Contest of Modern Poetry in 1966. In the 1970's he had poems and texts published in various journals, such as Corpo Estranho, Muda Código (edited by Régis Bonvicino) and Raposa. He launched Catatau in 1975, which he called "experimental prose", by private editing. Lyrics Writer and musician, Leminski had partnerships with Caetano Veloso and the group A Cor do Som between 1970 and 1989. He was a scholar of Japanese language and culture, publishing in 1983 a biography of Basho.

* * *

this life is just a trip
It's a pity
I'm not here for it

esta vida é uma viagem
pena eu estar
só de passagem

* * *

everything on me
walks in a hurry
everything as flurry
everything by a thread
done as
everything was in a rut
stepping fluffy
everything but

everything around me
goes too dizzy
as if things
were all
after all

tudo em mim
anda a mil
tudo assim
tudo por um fio
tudo feito
tudo estivesse no cio
tudo pisando macio
tudo psiu

tudo em minha volta
anda às tontas
como se as coisas
fossem todas
afinal de contas

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Ano I Número 8 - Agosto 2oo9

Releitura - Mário de Sá-Carneiro
Mário de Sá-Carneiro (Lisboa, 19 de Maio de 1890 - Paris, 26 de Abril de 1916) foi um poeta, contista e ficcionista português, um dos grandes expoentes do Modernismo em Portugal e um dos mais reputados membros da Geração d’Orpheu, grupo responsável pela introdução do Modernismo nas artes e letras portuguesas, seguindo as vanguardas europeias do início do século XX, nomeadamente o Futurismo.

Poetas como Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Almada Negreiros, e pintores como Amadeo de Souza-Cardoso e Santa Rita Pintor reuniram-se em volta duma revista de arte e literatura cuja principal função era abanar as águas, agitar, subverter, escandalizar o burguês e pôr todas as convenções sociais em causa: o próprio nome "Orpheu" não fôra escolhido por obra do acaso - Orpheu era o mítico músico grego que, para salvar a sua mulher Eurydice do Hades, teria de a trazer de volta ao mundo dos vivos sem nunca olhar para trás. E era essa metáfora que importava aos homens da Orpheu, esse não olhar para trás, esse esquecer, esse olvidar do passado para concentrar as atenções e as forças no caminho para diante, no futuro.

Na fase inicial da sua obra, Mário de Sá-Carneiro revela influências de várias correntes literárias, como o decadentismo, o simbolismo, ou o saudosismo, então em franco declínio; posteriormente, por influência de Pessoa, viria a aderir a correntes de vanguarda, como o interseccionismo, o paulismo ou o futurismo.

Notória a confusão dos sentidos e o delírio, quase a raiar a alucinação, em seus poemas; também um certo narcisismo e egolatria, o sentimento da solidão, do abandono e da frustração. A crise de personalidade levá-lo-ia, mais tarde, a abraçar uma poesia onde se nota uma tendência para a aniquilação do eu. As cartas que trocou com Pessoa, entre 1912 e o 1916, são como que um autêntico diário onde se nota paralelamente o crescimento das suas frustrações interiores, o que acabaria por contribuir para o seu suicídio.


Dispersão

Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim.

Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida...

Para mim é sempre ontem,
Não tenho amanhã nem hoje:
O tempo que aos outros foge
Cai sôbre mim feito ontem.

(O Domingo de Paris
Lembra-me o desaparecido
Que sentia comovido
Os Domingos de Paris:

Porque um domingo é família,
É bem-estar, é singeleza,
E os que olham a beleza
Não têm bem-estar nem família).

O pobre moço das ânsias...
Tu sim, tu eras alguém!
E foi por isso também
Oue te abismaste nas ânsias.

A grande ave dourada
Bateu asas para os céus,
Mas fechou-as saciada
Ao ver que ganhava os céus.

Como se chora um amante,
Assim me choro a mim mesmo:
Eu fui amante inconstante
Que se traiu a si mesmo.

Não sinto o espaço que encerro
Nem as linhas que projecto:
Se me olho a um espêlho, erro —
Não me acho no que projecto.

Regresso dentro de mim
Mas nada me fala, nada!
Tenho a alma amortalhada,
Sequinha, dentro de mim.

Não perdi a minha alma,
Fiquei com ela, perdida.
Assim eu choro., da vida,
A morte da minha alma.

Saüdosamente recordo
Uma gentil companheira
Que na minha vida inteira
F-u nunca vi... mas recordo

A sua bôca doirada
E o seu corpo esmaecido,
Em um hálito perdido
Que vem na tarde doirada.

(As minhas grandes saüdades
São do que nunca enlacei.
Ai, como eu tenho saüdades
Dos sonhos que não sonhei!...)

E sinto que a minha morte —
Minha dispersão total —
Existe lá longe, ao norte,
Numa grande capital.

Vejo o meu último dia
Pintado em rolos de fumo,
E todo azul-de-agonia
Em sombra e além me sumo.

Ternura feita saüdade,
Eu beijo as minhas mãos brancas...
Sou amor e piedade
Em face dessas mãos brancas...

Tristes mãos longas e lindas
Que eram feitas pra se dar.. .
Ninguém mas quis apertar...
Tristes mãos longas e lindas.. .

E tenho pena de mim,
Pobre menino ideal...
Que me faltou afinal ?
Um elo? Um rastro?... Ai de mim!..

Desceu-me nalma o crepúsculo;
Eu fui alguém que passou.
Serei, mas já não me sou;
Não vivo, durmo o crepúsculo.

Álcool dum sono outonal
Me penetrou vagamente
A difundir-me dormente
Em uma bruma oulonal.

Perdi a morte e a vida,
E, louco, não enlouqueço...
A hora foge, vivida;
Eu sigo-a, mas permaneço...

................................................
................................................

Castelos desmantelados,
Leãos alados sem juba...

................................................
................................................

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Ano I Número 8 - Agosto 2oo9

Ilustração - Aristides Klafke

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Em associação com Casa Pyndahýba Editora

Ano I Número 8 - Agosto 2oo9

Ilustração - José Geraldo de Barros Martins

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Ano I Número 8 - Agosto 2oo9

A Mente Pela Lente - Matilde Damele

Greenpoint, 2009

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Ano I Número 8 - Agosto 2oo9
Memória - José Bento Faria

Convivendo com Mário de Andrade

por Roniwalter Jatobá
Secretário particular do poeta e escritor Mário de Andrade por mais de uma década, José Bento Faria Ferraz falou em 1992 sobre sua convivência com o autor de Macunaíma
Durante quase doze anos, José Bento Faria Ferraz foi secretário particular de Mário de Andrade (1893-1945). Toda manhã, de segunda a sexta, no pe¬ríodo de 1934 a 1945, cuidou dos livros à correspondência do morador da rua Lopes Chaves, Barra Funda. Na tarde de 30 de junho de 1992, por mais de 4 horas, eu, Edsel Britto e Milton Andrade conversamos com José Bento, 79 anos, e sua mulher Sônia, 76 anos, na sua casa na ma Ásia, no bairro de Pinheiros, em São Paulo. José Bento lamentou não ter feito como o secretário de Goethe, que analisou com argúcia, em livro, o convívio com o mestre, e a sua timidez, que de certa forma podou uma maior afinidade entre o auxiliar e o autor de Macunaíma. Mas valeu a pena. Mostra, entre outras coisas, a intimidade do seu dia-a-dia e, mais uma vez, aponta para qualidades já conhecidas de Mário de Andrade, lealdade e humanidade. José Bento faleceu em março de 2005, aos 92 anos de idade.

TUDA – Quando você começou a trabalhar com Mário de Andrade?
José Bento – Vou voltar um pouco antes. Sou filho de mineiros, minha mãe conhecia música, tocava violão muito bem. Meu avô era um boêmio. Eu tinha, portanto, um mundo musical na minha personalidade. E minha mãe desejava muito que eu continuasse meu piano, que aprendia lá em Jacareí, para onde mudamos em 1920. Fui, então, para São Paulo e minha mãe fez questão que eu estudasse no Conservatório Dramático e Musical. Ali, via passar um homem alto, bem vestido, bem posto, rosto levantado. Era Mário de Andrade.

TUDA – Esse conhecimento aconteceu a partir de 1928 até 1933. Havia alguma gota de intimidade?
José Bento – Não. Só via aquele homem, professor, de vez em quando. Ele passava e era só. Quando comecei a freqüentar as aulas de História da Música e Estética com o Mário, aí passei a conhecê-lo mais. E era uma judiação o que Mário fazia. Homem de cultura, cheio de humanismo, ele descia de uma posição tão alta para lecionar para meninos. Meninos que não tinham, talvez, interesse pelas artes musicais. As aulas dele eram maravilhosas. Ele dava aula de piano no Conservatório e em sua casa. E aulas de História da Música, duas vezes por semana. Era uma judiação porque a gente ainda era moço naquele tempo. Pensava mais em brincar com os meninos que estudar História da Arte. Então, comecei a conversar com ele nos intervalos das aulas. Todo mundo saía e eu ficava conversando com o Mário. Conversa rápida, conversa simples, prestava atenção. E comecei a conhecê-lo melhor. Eu era um rapazinho tímido, mocinho ainda. Um dia, comecei, de repente, a fazer ao Mário confidências de ordem econômica. Na época, a minha preocupação maior era não deixar o que estava gostando tanto de fazer, ou seja, a música. Mas também era obrigado a ter um norte na minha vida, a ter uma ocupação. Eu vivia angustiado, vendo meus pais se matando, e eu não achava o norte. Então, conversei com o Mário. Ele ficou quieto, não disse nada. Certo dia, depois da aula, ele falou: "Zé Bento, você não saia que eu quero falar com você". Nós descemos e, na subida do Conservatório, três prédios depois, havia um restaurante, o Palhaço. O Mário me perguntou: "Você já jantou?" Eu disse já. Sentamos na mesa. "Olha, Zé Bento, vou lhe dizer uma coisa: você comentou aquele negócio dois meses atrás... acontece que a minha irmã Lurdes vai casar e agora não tem quem cuide das minhas coisas, dos meus livros, dos meus escritos. Então, estou imaginando: será que você toparia trabalhar comigo?" Lembro bem, as minhas pernas começaram a tremer. "Não tem problema", ele disse depois, "eu te ensino". Mas eu não sou bibliotecário, não entendo nada de livros, eu disse. "É, mas eu te ensino", ele falou. "Você vai procurar o bibliotecário da Municipal e lá ele te arranja uns livrinhos e você vai aprender. Não se preocupe com isso. Você escreve à máquina?" Uns seis meses depois, ele me chamou.

TUDA – Era um bom salário?
José Bento – Ele assim tinha me dito: "Olha, eu não posso pagar muito, porque eu não sou rico. Você vai trabalhar de manhã comigo, três horas por dia". Pagava 200 mil réis. Então, eu trabalhava de manhã. Saía da Vila Mariana bem cedinho e às 7h30 chegava na rua Lopes Chaves. Vinha de bonde, descia a avenida Angélica.

TUDA – Isso foi quando?
José Bento – 1934. Nessa época, comecei a trabalhar também na biblioteca do Sindicato dos Bancários, sucedendo a Edgard Cavalheiro, no prédio Martinelli, à tarde.

TUDA – Como era o seu trabalho na casa da rua Lopes Chaves?
José Bento – Chegava lá às 7h30. O Mário já estava de banho tomado. Ele gostava muito de usar "robe de chambre", tinha um desenhado por ele mesmo. O Mário era muito sensual. Também gostava de coisas finas. Já barbeado... era assim que ele trabalhava, ali sentado na escrivaninha que foi do pai dele. Minha função era cuidar dos livros. Como o clima de São Paulo, não sei se só na Barra Funda, sempre teve muita umidade, certos livros bichavam muito. Tinha o porão da casa dele; desinfetava o porão. Os meus pertences, as minhas latinhas, meu "pó de Pérsia", aquelas receitas de antigamente estavam lá.

TUDA – Foi boa a convivência?
José Bento – Foi sim. Comecei a perceber a riqueza interior daquele homem. Mas, sempre naquela minha posição, coisa muito curiosa, que eu não consegui me libertar, sempre naquela posição meio subalterna. Eu não cheguei a criar com ele uma amizade assim profunda, coisa que a Oneyda Alvarenga e o Luiz Saia conseguiram. O que eu tinha mesmo era respeito pelo Mário. Naquela época se usava outros modos, mesmo os amigos se tratavam com respeito, era senhor, aquela coisa toda. Um dia, o Mário disse: "Pára com esse negócio de senhor, me trata de você".

TUDA – Ele era meticuloso?
José Bento – Muito metódico no seu trabalho, nas suas pesquisas. Isso que você está vendo aí (aponta pastas com índices), herdei dele. Quando cheguei na sua casa achei os fichários feitos. E sempre tinha recados: "Zé Bento, faça isso, Zé Bento, faça aquilo". Muitas vezes ia comprar livros na Livraria Civilização Brasileira. O Mário vivia dependurado em dívidas.

TUDA – Tinha conta na livraria?
José Bento – Sim, comprava e pagava. Ele adorava o livro também como objeto. Ele transparecia sensualidade em ver aquelas coisas todas. Sempre muito calmo. Raramente era visto irado. Às vezes em que o vi irado, a voz dele sumia. Ele implodia...

TUDA – Engolia tudo?
José Bento – Engolia tudo. Por outro lado, várias vezes o surpreendi no banheiro declamando "Ahasverus e o gênio", de Castro Alves, ou então "Juca Pirama", de Gonçalves Dias. Tinha uma TUDA prodigiosa. Mas no resto da manhã, a gente trabalhava em silêncio. Ele cuidava das coisas dele e eu das minhas. Às 9 horas da manhã, eu batendo à máquina...

TUDA – Na Manuela?
José Bento – Sim, na Manuela, homenagem ao Bandeira. Aí batiam à porta, ele abria. Era dona Mariquinha com uma bandeja de café. Era de prata, com três xícaras de café. Então a gente bebia o café que ele mesmo servia.

TUDA – Ele escrevia à mão e você datilografava, não é?
José Bento – O Mário gostava muito de escrever à mão, com aquela letra tranqüila. Cartas datilografadas, só as mais formais. Ele gostava muito de fazer as cartas para a Henriqueta Lisboa, Fernando Silva, Manuel Bandeira.

TUDA – E as cartas de amor?
José Bento – Os amores de Mário... eu tenho a impressão que cessaram quando... eu tenho a impressão que Remate de Males foi o túmulo dos amores do Mário. Aos 40 anos, ele teve uma crise existencial muito forte. Foi um marco na vida dele. Ele tinha uma premonição da morte muito grande. Era de saúde precária. E o Mário se desmandou muito no Rio, de modo que quando ele veio de lá, já iniciava um processo lento de morte. Aliás, num certo sentido, eu compartilho do ponto de vista do Paulo Duarte: o Mário foi conscientemente se matando aos poucos.

TUDA – Solidão? E os amigos que freqüentavam a casa dele?
José Bento – Os amigos são sazonais, não é? Os amigos dos anos 20 não foram os mesmos, nem poderiam ser os mesmos. Raras são as pessoas que têm amigos que as acompanham até a morte, porque a vida vai mudando. Então raras são as pessoas que conservam seus amigos de infância, porque a vida é tão atrapalhada. Então, eu quero crer que os amigos do Mário que permaneceram até o fim foram: Paulo Duarte, o Rubens (Borba de Moraes), o Sérgio, os dois Sérgios (Milliet e Buarque de Hollanda), os amigos do Rio, que duraram muito tempo, o Rodrigo (Mello Franco), o Carlos Drummond de Andrade, o Prudente (de Moraes Neto), o Manuel Bandeira e a Henriqueta Lisboa; as cartas da Henriqueta para o Mário a gente não conhece, mas as do Mário para a Henriqueta é de um amor... A gente percebe que é um amor de amante. É nas cartas para a Henriqueta que ele se abre mais.

TUDA – E a mulher do Ascenso Ferreira?
José Bento – Não estou lembrando. Um amor, pelo menos platônico, de um para outro. Eu não sei... Ele teve vários amores... Eu não sei. Vai caber ao biógrafo de Mário a tarefa pesadíssima de penetrar em todo o inconsciente dele. É difícil, e tem aquela coisa muito triste do Mário, que foi uma das causas, talvez, do rompimento em 1928 com o Oswald. E o Oswald tem uma frase candente, que o "Mário parecia um Oscar Wilde, por detrás". É um assunto chato! Lembro que, uma vez, ele já tinha tido o pré-infarto, mas a rigor foi um infarto mesmo... Foi em 1944, mais ou menos. Estava doente, imóvel, quarenta dias na cama e eu soube de um seminário. E os alunos, pela leitura dos fatos e de suas obras, chegaram à conclusão que o Mário era homossexual. Eu, que nunca tinha ouvido falar nisso, fiquei indignado. Então, escrevi uma carta para a Oneyda (Alvarenga), carta dolorosa, chateado com o que tinha acontecido. Referir a obra de Mário à homossexualidade! Quem sabe pode até se referir, eu não sei, mas eu não podia conhecer aquilo. Então, a Oneyda ousou perguntar ao Mário sobre este aspecto da inimizade, o porquê da inimizade dele com o Oswald. E veio a resposta do Mário: "Olha, Oneyda, por favor, é uma coisa tão suja que eu não quero tocar neste assunto". Tenho a impressão que a coisa do Oswald deve ter machucado muito e que eles nunca mais puderam se entender.
Sônia – Eu até me lembro da época do Guilherme de Almeida no Departamento, que aliás foi uma desilusão. Eu gostava das poesias dele. Colecionava-as. Eu não o conhecia, mas apreciava o que ele escrevia. Zé Bento, lembra daquela senhora que trabalhou com o Guilherme de Almeida? E... na sala dele. Ela foi lá em casa e lançou, quer dizer, puxou conversa, só para dizer que o Mário era homossexual. Tem gente com instinto ruim. Primeiro, não sei se ele era; e se era, era discreto, discretíssimo. Antes do nosso tempo, ele teve uma grande paixão por uma mulher.
José Bento – Maria da Glória?
Sônia – Não, não, imagina! Maria da Glória... nunca... aquela mulher!

TUDA – Quando vocês se casaram?
José Bento – Casamos em 1945.

TUDA – Depois de sua morte, não é? Ele acompanhou a preparação do casamento?
José Bento – O Mário me apoiava muito neste sentido.

TUDA – Vocês tiveram dois filhos, um inclusive chamado Mário, em homenagem a ele. Mário, o de Andrade, gostava de criança?
José Bento – Adorava criança. E a grande preocupação dele era com o menor do meio operário. Eu me lembro bem de que o primeiro parque infantil, ligado ao Sérgio Milliet e à Maria de Lourdes Milliet, já levantava a preocupação de como criar parques para as crianças de operários.

TUDA – Católico?
José Bento – Era, e esse era um problema muito sério para o Mário. Ele tinha uma formação católica, estudou no Colégio Marista. Ele chegou a solicitar -naquele tempo o bom católico tinha de solicitar à autoridade diocesana - uma licença especial para poder ler livros que estivessem no Index, como Voltaire, Diderot, esse pessoal todo do Iluminismo. Pois o Mário fez essa solicitação. Ele participava de procissões de "Corpus Christi"; ele e o Antônio Alcântara Machado. Mas na última fase de Mário de Andrade ele se declarou comunista. Talvez fosse um comunista, mas de ordem intelectual, vamos dizer assim.

TUDA – Nunca entrou em partido?
José Bento – Não. Mesmo a atitude dele em 1932, quando São Paulo inteiro se incorporou, foi meio razoável. Inclusive o irmão dele foi para a frente de batalha. Não sei se era uma premonição.

TUDA – Como é que ele recebia, por exemplo, a crítica, os comentários, sobre seus livros?
José Bento – Eu não gostaria de dizer: era vaidoso. Os sapatos eram feitos sob medida, na sapataria Guarani, em frente à Livraria Civilização Brasileira, ali na rua XV de Novembro. O Mário era muito vaidoso. Usava chapéu. Na hora em que ele saía para almoçar, ele já se trocava. De gravata, tudo direitinho.

TUDA – Comia bem?
José Bento – Ah, era um bom garfo. Gostava de comidas finas.

TUDA – Fumava?
José Bento – Fumava muito. E tinha muita insônia. Quem passasse às 22 horas pela rua Margarida com Lopes Chaves, via aquela janela aberta até 2 ou 3 horas da madrugada. Era o Mário tocando no órgão os corais de Bach. Era para ele poder se libertar das angústias, porque o Mário era um homem angustiado. Eu tenho a impressão que as injustiças do mundo caíam naquela sensibilidade acentuada que ele tinha.

TUDA – A senhora não gosta muito de se lembrar do Mário, não?
Sônia – Não. (Pausa) Eu também tive problemas financeiros, coisas de família. Um dia eu fui procurar o Mário. Nessa ocasião, ele já era diretor do Departamento de Cultura, lá na Cantareira... Era uma pessoa muito à vontade, ou então queria deixar a gente à vontade. Ele disse que estava com fome e mandou buscar bananas. Era uma característica, talvez, da personalidade dele: deixar as pessoas muito à vontade. Eu conversei com ele sobre os meus problemas, disse-lhe que eu precisava de emprego. Ele me convidou para ir ao Departamento de Cultura. Ele também tinha convidado o Zé, que eu não conhecia, mas que já era seu secretário particular. Conheci o Zé Bento lá.
José Bento – E foi uma coisa muito curiosa: eu preparava a documentação para entregar na Divisão do Pessoal da Prefeitura. E, ao buscar isso, vai levar aquilo, eu cruzei várias vezes com uma moça. Então, eu parei e pensei: mas que moça bacana!
Sônia – Eu não estava nem aí...
José Bento – Um dia eu entreguei uns documentos para o Paulo Magalhães, que era o chefe de gabinete do prefeito Fábio Prado, muito amigo do Mário. Em seguida, ele me mandou para a discoteca, que ficava atrás do Teatro Municipal. Quando eu chego na discoteca, correndo, para falar com a Oneyda, a primeira coisa que vejo é aquela moça, lá sentada, escrevendo. E ali está ela... O diabo me passou a perna.

TUDA – Lembra do dia da morte dele?
José Bento – Eu trabalhei no sábado, sábado eu trabalhava à tarde, e fui para a Lopes Chaves. Ele estava de "robe de chambre". Estava pálido. Eu não estava gostando. Eu me lembro que voltei para casa preocupado. No domingo, o Sílvio Alvarenga, marido da Oneyda, encostou o carro na minha casa. Eu falei: "Você por aqui?" Devia ser umas sete e meia da manhã, umas oito horas. Ele falou: "Você não gostaria de ir comigo na casa do Mário?" Eu falei: "Ele não está passando bem, não? Aí eu me aprontei rapidamente e saí. Cheguei lá ele já estava morto.

TUDA – A casa estava cheia?
José Bento – O Luiz Saia passou a noite lá. E me contou: "O Mário pediu uma xícara de chá e começou a tomar. De repente, disse: "Saia, me segure que eu não estou me sentindo bem". Deu a xícara e... aí foi trágico. Porque o quarto do Mário era no andar de cima. A mãe dele ficava no quarto do fundo. Tinha o banheiro e um outro quarto da dona Nhanhá e das outras moças que ainda moravam lá. Mas engraçado, nós, os velhos, vamos adquirindo uma certa calosidade... A mãe soube e não houve este drama que os moços têm... pronto, morreu. Ela se recolheu a um canto e, naturalmente, morreu aos poucos também. Não durou muito, não.

TUDA – E depois da morte dele, você voltou lá na casa?
José Bento – Eu voltei várias vezes para cuidar dos ditames da carta. Porque a carta não era seu testamento, apenas uma intenção. E essa carta estava comigo guardada, eu sabia onde é que estava. Tanto que um dia ele me disse: "Zé, esta carta está aqui. Se acontecer qualquer coisa comigo, você a dê ao Carlos Moraes de Andrade, ao Cade". E eram recomendações para que eu separasse, de acordo com o dr. Carlos Moraes de Andrade, os livros principais para a educação dos sobrinhos: era a Terezinha, o Carlos Augusto e a Maria Luiza. Os restos das coisas, as obras de arte, iriam para a pinacoteca. A parte musical para a discoteca. No post-scriptum da carta, ele até agradece a minha assistência. E deixou para mim uma importância, não sei bem quanto era naquela época, mas este dinheiro nunca se achou. Naturalmente ele precisou dele e usou. Eu ainda fiquei lá mais dois ou três meses, arrumando as coisas e depois eu fui embora. Em 1945 eu comecei a trabalhar lá no Patrimônio. Em 1951, fui para Ribeirão Preto trabalhar na Faculdade de Ribeirão Preto.

TUDA – Da obra do Mário, poesia, conto, romance, você tem alguma preferência? Tem algum livro que marque mais.
José Bento – São as poesias. A última parte da "Meditação sobre o Tietê" é uma coisa extraordinária.

TUDA – Um poema ecológico?
José Bento – É um poema muito bonito, muito mais do que ecológico! Um poema humaníssimo. É o Mário angustiado com a Segunda Guerra Mundial...

TUDA – Essa convivência com o Mário, durante doze anos... O que ela significou, vamos dizer assim, para o resto da sua vida?
José Bento – Significou muito. Me esclareceu, me abriu horizontes, me deu certo sentido de liberdade, um sentido de respeito pela pessoa humana, um sentido de respeito à individualidade de cada um. O Mário me deu esta noção de liberdade... e de amor. E isso eu acho muito importante. Eu só sei dizer a você que foi um período feliz da minha vida, aquele em que eu acreditei nas coisas.

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