Definição

... da totalidade das coisas e dos seres, do total das coisas e dos seres, do que é objeto de todo o discurso, da totalidade das coisas concretas ou abstratas, sem faltar nenhuma, de todos os atributos e qualidades, de todas as pessoas, de todo mundo, do que é importante, do que é essencial, do que realmente conta...
Em associação com Casa Pyndahýba Editora
Ano VI Número 63 - Março 2014

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Tradução - Eduardo Miranda

Os atores Lloyd Cooney, Eric O'Brien, Bairdre Ní Aodha e Laura Murray, num prédio residencial em Henrietta Street, no centro da cidade de Dublin, em show interativo para marcar o Lockout de 1913. Fotografia: Leon Farrell / Photocall Irlanda

Setembro, 1913
W. B. Yeats

Do que precisam vocês, neste momento,
Senão guardar seu dinheiro rançoso
Com meio centavo extra em cada cento
E orar seus salmos de canto penoso,
Até secar os ossos da alma já drenada?
Aos homens que nasceram para o canto da salvação:
A Irlanda romântica está morta e enterrada,
Juntou-se a O'Leary em seu caixão.

No entanto, alguns foram diferentes,
Respeitados por muitas gerações,
Nomes que passaram pelo mundo num repente,
E com pouco tempo para demonstrarem suas ações,
Sucumbiram estes homens, e a forca lhes foi armada,
Santo Deus, quais seriam suas propostas de salvação?
A Irlanda romântica está morta e enterrada,
Juntou-se a O'Leary em seu caixão.

Foi para isso que os Gansos Selvagens
Espalharam sua mensagem pelos céus;
E todo aquele sangue derramado nas paragens
Para isso que Edward Fitzgerald morreu
Também Robert Emmet, Wolfe Tone... por nada
E toda aquela delirante valentia no coração?
A Irlanda romântica está morta e enterrada,
Juntou-se a O'Leary em seu caixão.

Poderíamos, ainda assim, recuar no tempo,
E convocar de volta aqueles exilados
Esquecidos em sua solidão e lamento,
Você choraria "Certas mulheres de cabelos cacheados
tem deixados mães e filhos preocupados":
E tudo o que fizeram pareceu em vão
Deixem-os, estão mortos e enterrados,
Se juntaram a O'Leary em seu caixão.

September 1913

What need you, being come to sense,
But fumble in a greasy till
And add the half pence to the pence
And prayer to shivering prayer, until
You have dried the marrow from the bone?
For men were born to pray and save:
Romantic Ireland's dead and gone,
It's with O'Leary in the grave.

Yet they were of a different kind,
The names that stilled your childish play,
They have gone about the world like wind,
But little time had they to pray
For whom the hangman's rope was spun,
And what, God help us, could they save?
Romantic Ireland's dead and gone,
It's with O'Leary in the grave.

Was it for this the wild geese spread
The grey wing upon every tide;
For this that all that blood was shed,
For this Edward Fitzgerald died,
And Robert Emmet and Wolfe Tone,
All that delirium of the brave?
Romantic Ireland's dead and gone,
It's with O'Leary in the grave.

Yet could we turn the years again,
And call those exiles as they were
In all their loneliness and pain,
You'd cry, 'Some woman's yellow hair
Has maddened every mother's son':
They weighed so lightly what they gave.
But let them be, they're dead and gone,
They're with O'Leary in the grave.

Editorial

Para Ingrid Assis
“Wer ein Warum zu leben hat, erträgt fast jedes Wie.” *
~ Friedrich Nietzsche

* "Quem tem um Por Quê para viver, suporta quase qualquer Como".

TUDA Agosto ~ Agosto TUDA!

Ao gosto ou ao desgosto, TUDA chega entre trancos e barrancos, no mês do cachorro-louco, navegando mares internéticos e não-internéticos, turbulentos, ambos turbulentos, mesmo que outrora já navegados!

Todo mundo tem sua própria dignidade, e cada vida tem um significado; cabe a cada um encontrá-lo e realizá-lo com convicção, em sua profundidade particular. Todo mundo pergunta pelo significado das coisas, e acredita no bom senso das coisas, e se esforça para entender o mundo ao seu redor. Todo mundo tem vontade de entender o personagem de sua própria vida, mesmo quando tem que encenar um papel que não gosta... mesmo quando este papel é imposto a você, contra a sua vontade.

E não é dito popular não, nem provérbio - ou ditado - nem filosofia barata, tampouco cara: se quem avisa amigo é de que a cavalo dado não se olha os dentes, melhor é fazer o bem sem olhar a quem, e antes tarde do que nunca! E se por ventura perder-se no caminho de ida - já que ninguém se perde no caminho de volta - lembre-se de que quem tem boca vai a Roma, e uma vez na chuva, camaradinha, é para se molhar!

Frases feitas são assim, funcionam como livros de auto-ajuda... te pegam quando você está fragilizado - ou pensa que está. Seja emocionalmente, racionalmente, fisicamente ou psicologicamente (e tudo é mente), vem e faz o bem (ou o mal) que você permitir. Como cantou Beleléu:
Quando você menos espera ela chega
Fazendo do teu coração
O que bem ela fizer
Nem venha querendo você se espantar
Não, não, não, não, não
Nem venha querendo você se espantar
Não, não, não, não, não

Quando você menos espera ela toca
O fundo do teu coração
Assim como uma mulher
Nem venha querendo você se espantar
Não, não, não, não, não
Com os já conhecidos pyndahýbicos, destimundo e d'outros além, lutando para continuar neste, vem TUDA, firmeforte na esperança sem razão e sem sentido, sentida e arrasada, pregando o bom espírito do pensamento positivo, contra as má-formações celulares e as injustiça genética! Desnecessário dizer, como sempre, que TUDA traz muita coisa boa, e novidades também! Confiram na Dívida Interna.

QG de TUDA Agosto
fotomontagem de Eduardo Miranda
É isso aí companheiros, na velha e suja LabUTA do dia a dia, que é travada tanto na alegria quanto na tristeza, tanto na saúde quanto na doença, tanto na vida quanto na morte...

E que a terra nos seja leve!

Asyno Eduardo Miranda
o (auto-proclamado) editor
deste porto amtesseguro da jlha do Eire
oje, dezºqvjm
º dia do octº mez
d este Anno Domini de MMXIII

Dívida Interna

Breaking out my cage ~ by Crayolajustgotbetter
Editor
Eduardo Miranda

Capa
José Geraldo de Barros Martins

Blogagem
Eduardo Miranda

Revisão
dos autores

Participam desta edição:
Andrew Simpson, Aristides Klafke, Arnaldo Xavier, Bruce Docker, Carlos Drummond de Andrade, Celso Alencar, Cesar Cruz, Cindy Bury, Dirk Joseph, Dorival Fontana, Dylan Thomas, Eduardo Miranda, Friedrich Nietzsche, Itamar Assumpção, Jean-Michel Basquiat, José Geraldo de Barros Martins, José Miranda Filho, Maria Olívia Serrão Moralez, Marina Alexiou, Mike Nuth, Paul van Reeven, Pedro Du Bois, Piero Fornasetti, Plínio de Aguiar, Raffaello Sanzio, Raphael Grizotte, Ronald Augusto, Roniwalter Jatobá, Santiago de Novais e Vieira da Silva
E-mail
tuda.papel.eletronico@gmail.com

Poesia - Arnaldo Xavier

Transplant ~ Dirk Joseph
subsenhor                               Chispânica angústia farmacêutica
norte-americana            Piedade ferr'olho        quebrado mudo criado
testemunha               Lágrimas estúpidas de eletrodomésticos     peça
diluída olhar dilacerado   solidão jardim preenche flormulário espinhoso
escrito silêncio           Refeição luz                 nenhumano pedaço
noturnidade derrama           endereço errado    estranho fruto    Manhã
desprovida de pássaros
[ in Lud-Lud, Casa Pyndahýba Editora, São Paulo, 1998 ]

Poesia - Aristides Klafke

Paul van Reeven
5

Lacônico me sucinto me
Objetivo me amotino me
Excitado me exacerbo me
Penitente me derivo me
Derivado me desafino me
Paradigmático me indefino me

Resta não divagar
Melhor calhar
Calar o medo de errar
Ser ou não ser prolixo
Deixou de ser questão
Ficar por aqui
Das infinitas possibilidades
Mágica decisão

Aos convictos de poesia
Digo que fico e que ficarei
(Que sina!)
Dentro deste poema
(meu melhor DNA)
Até não mais poder ficar

[ in Quebrada, inédito ]

Poesia - Plínio de Aguiar

Boy on Mount Fuji ~ Katsushika Hokusai (葛飾北斎)


Ao sensei
Antonio Soiuto Aderne


Karatê Dô

a mente
   mente
o corpo
   não
   não mente

Poesia - Celso de Alencar

Crowd ~ Mike Nuth
11

Um homem
teve dez filhos.

Cada vez que
um nascia
dizia ele:
é a vontade
de Deus.

Deus os protege
e os alimenta.

Dos dez
nos dois primeiros
anos de vida
seis morreram de fome.

[ in Livro Obsceno ]

Poesia - Vieira da Silva

Esta série de placas nas fotografias é uma intervenção denominada “19 Cores” da Experimentadesign com o apoio da JCDecaux em resposta ao convite da Fundação Arpad Szenes/Vieira da Silva
Testamento *

Lego aos meus amigos
um azul cerúleo para voar alto
um azul cobalto para a felicidade
um azul ultramarino para estimular o espírito
um vermelhão para fazer circular o sangue alegremente
um verde musgo para acalmar os nervos
um amarelo ouro: riqueza
um violeta cobalto para sonhar
um garança que faz ouvir o violoncelo
um amarelo barite: ficção científica, brilho, resplendor
um ocre amarelo para aceitar a terra
um verde veronese para a memória da primavera
um anil para poder afinar o espírito pela tempestade
um laranja para exercer a visão de um limoeiro ao longe
um amarelo limão para a graça
um branco puro: pureza
terra de siena natural: a transmutação do ouro
um preto sumptuoso para ver Ticiano
uma terra de sombra natural para aceitar melhor a melancolia negra
uma terra de siena queimada para noção de duração

* Poema e fotos enviados por José Geralde de Barros Martins

Poesia - Dorival Fontana

Raphael Grizotte ~ Antiga estação de trem de Maricá
óleo sobre tela
Caminho

Madeira ao tempo,
dormente...
A chuva lava
o cheiro de ferrugem.
A brita junto a terra.
Os trilhos e a
roda de ferro.
Rajada de vento
rasga a paisagem,
deita o capim.
Passageiros sem destino
procuram assento.
Ressoa nas montanhas
o apito inaudível
do trem que já partiu.
Janelas distantes...
vales, planícies e pontes.
Refúgio, presente, passado.
Não há bilhetes há venda,
apenas um velho banco
noutra estação vazia.
- Composição fantasma, me leve urgente à última parada.

Poesia - Pedro Du Bois

Piero Fornasetti
Arcabouço

No arcabouço
destino
dias estruturados: sou trapezista
                              e me lanço
                              ao concreto
                              espaço

o arcabouço origina
a materialidade dos fatos

desatino a passagem
do corpo sobre o arame: vento
na minha ultrapassagem

no arcabouço remetido
aprofundo a voz
no dizer verdades.

Poesia - Marina Alexiou

For such a time (as this…)Ilustração enviada pela autora
O olhar atento ao horizonte
nessa espera de feminino espectro
tão igual e tão distinto em sonhos.
A expectativa é visível no brilho dos rostos
que contém certo medo e desesperança
após a exigida elasticidade dos anseios,
pelo tempo...
O maior dos elos aporta, enfim.
aproxima-se detidamente na obscuridade
do prenúncio.
Introspectivo, mas feliz.
...Elas talvez não mais contassem
com a sua presença,
Apesar do horizonte muito aprazível
desse contemplar o azul de um conhecido mar...
Agora, as lágrimas dos remorsos
se misturarão às de regozijo.
E, dessa fleugma, erguer-se-á
um novo caminho
feito de antigas e sólidas fundações.
Trazendo em seus interstícios
o som daquilo que outrora predizia
o destino,
daquelas 3 faces de uma única mulher.

Conto - Roniwalter Jatobá

Low lodging house, St Giles's
Alojamento
"A cidade está só. Fria e deserta.
O silêncio povoa a mocidade.
O frio que sai das fábricas
dói no peito
como facada.
"
~ Aristides Klafke

Pois digo: aqui dá saudade. Tudo no vigiar deste alojamento medonho de grande que parece um hospital vazio. Nessas horas da manhã todo mundo já descambou no rumo do Paraíso, Ipiranga, Mooca, Praça da Sé, aí por São Paulo afora, num serviço, lembro do trabalho de antes, que já me levou, me cansou metade das forças. E dá saudade, quando vejo os quartos de seis, doze homens, camas de cada lado ou mais vejo esse casarão de madeira, camas pra tudo que é canto, vazias. E olho a porta, alguém que limpa a sujeira da noite anterior, um ente perdido empurrando com a vassoura o sujo do tablado. Tudo lá fora: montes de terra, areia, depósitos de tábuas, tijolos que ficam muito tempo parados esperando a vez de irem para as construções, ferramentas, de lado no terreno baldio.

Vigio tudo. Trabalho de noite. Num sendo de chuva, noite de aguaceiro, não é ruim. A gente acostuma. Só é danado quando uma gripe pega e se tosse a noite inteira. Aí, a tosse vai varando o escuro do alojamento e a rua brilhando de luzes vazia cá fora. Quebrando o silêncio, ali, na madrugada algum carro de polícia passa devagar quase parando na frente do cemitério da Vila Mariana, bem na frente, perto, tem noites que me animam as vistas já dobradas de sono: carros parados, gente entrando no velório ao lado do cemitério, entrando saindo com os olhos chorosos.

Vigio essas ruas, essas casas em frente de gente de posse, que até frentes ajardinadas têm, pois estes olhos que tomam conta deste alojamento no virar da noite pro dia, ganham pra isso, só não dá pra vigiar a vida que passa correndo dia após dia.

O caminhão, todo dia, leva-e-traz. De manhã, no despontar dela, escuro ainda, os homens vão levantando de um a um, rostos sonados, nessas horas eles não fazem a zoada que na tarde, volta deles, eles procuram como se espantasse o medo daqui, como se afugentasse as histórias que cada um trouxe de Minas, Bahia, Pernambuco, Ceará, Paraíba, de Minas mais, como Silvestre que em tudo trabalha, já matou três na terra dele, isso da boca dele sai, mas a gente vê que é muita lambança, assim, acredita descrendo.

E de manhãzinha o frege é pouco, se mal comparando com a tarde, na base de umas quatro horas. Nas quatro da tarde em ponto, algum caminhão desponta na rua, os homens calados em cima, chega aqui, abro o portão, o caminhão entra macio, os homens vão descendo, guardando as ferramentas, outros pulando correndo na direção dos seus quartos, isso aqui vira feira, ali se escuta conversa de um, radiola ligada de outro, música de rádio pra tudo que é canto, aí, alegra mais. Negreja de gente. Assim, gosto.

No outro dia, no cair das horas vai ficando o silêncio de novo. Quando dá assim pelas oito da manhã neste alojamento nem mosca zune nas paredes dos quartos. E lá longe nos bairros, sei, os homens cavando buracos, vazando água de bueiros, cortando travessias. Homens trabalhando de perderem o chocalho, modo de dizer, homens lavando a camisa de suor, o suor descendo pelas costas chegando nas calças, molhando a roupa no calor das ruas de carros apressados e de buzinas reclamando das ruas apertadas e poeirentas.

No último caminhão que sai, já dia tamanho, o alojamento desaquece do calor dos homens, cem se for contar, então procuro meu canto e tiro o sono do corpo com o sol alumiando lá fora na rua. Nessas horas nem a zoada de alguma escavadeira me regra o sono, o sono pesado suado do calor das tardes, sono parecendo tresvario, parecendo coisa de morto. Época de frio, julho de inverno desregrado, é bom. Sono caipora de tardes frias, o vento entrando nas frestas do barracão, pois a divisão, aqui, é feita de madeira fina que separa os quartos, e já vi homem se encostar em corpo de outro, em meados de junho, unir as camas, sem mau sentido, querendo pegar a quentura da gente, no frio muito.

De noite, eu vigiando, o frio entrando no corpo, doendo por dentro da farda e no alojamento o roncar de cem bocas só esperando o chamado das quatro horas. Os caminhões encostados roncando, se aquecendo, o motorista lá dentro, de vidros fechados só esperando os homens subirem na carroceria pra começar a viagem, uns pra mais perto, outros pra mais longe, pra todos o mesmo serviço. A cidade se despertando e já encontrando os homens seguros em cavadores, enxadas, pás, quebrando o asfalto, arrancando a terra das ruas, limpando bueiros.

No começo do alojamento, dois anos se foram, quando se podia ainda contar os homens que viviam aqui, quando não havia esse barulho que espanta a tristeza de agora, de manhã, toda manhã, tinha Doralina. Nem ela passa, agora, em frente ao alojamento. Dá voltas em outras ruas como fugindo daqui. Aqui era bom no começo, pois Doralina empregada num prédio da rua passava safada carregando pão e leite em frente me tentando, eu engomado vestido de farda de brim azul da firma, nem ligo, mas ligando naquela precisão de mulher.

Hostel

Well I'll come out with it: I'm worksick here. All from keeping an eye on this ghastly hostel that's so big it seems like an empty hospital. At these morning hours when everyone's already sloped off in the direction of Paraíso, Ipiranga, Mooca, Praça da Sé or else right out of São Paulo to their work places, I can recall my previous job which has ground me down and worn out half my energy. And worksick I am when I see the dormitories for six or twelve men, beds down each side, or all the more so when I see that rambling wooden pile with it's beds empty at every corner. And so I gaze at the door, at somebody clearing up last night's mess, a lost body pushing the floorboard's fifth along with a broom. Everything outside: mounds of earth, sand, stacks of planks, bricks which have lain idle so long as they wait their tum to go into buildings, and tools alongside on the waste plot.

Everywhere keeping an eye, I work at night. In a downpour, a showery night, it's not too bad. You get used to it. It's only a bit of a pain when there's the flu about and they're coughing the night long. And then the coughing keeps trashing the gloom of the hostel and the gleaming lamplit street outside. As it breaks the silence, out there amid the small hours a police vehicle drives slowly past almost stopping in front of Vila Mariana cemetery, right in front of it, you have nights when there are sleep-winced faces to excite me: parked cars, folk joining vigil beside the cemetery, going in and out with tear-filled eyes.

I keep an eye on those streets and too those houses of better-off folk, they've even got gardens in front, for these eyes I have that mind the hostel with the turn from night into day reach that far just that it doesn't do to keep an eye on life that runs past day after day.

Every day, the lorry bring them back and forth. In the morning, just as it breaks, still dark though, the men get up one by one, sleepy faces, they don't have the hum of the evening on their return they seek seemingly to scare fear away from here and to banish the tales that each has brought from Minas, Bahia, Pernambuco, Ceará, Paraíba, again Minas, like Silvestre who's done every job and has to date killed three back home, that's his story, but you can see it's a load of bluster so it's accepted in disbelief.

And in the early hours there's little to do, compared out least with the evening, around four o'clock. On the stroke of four, some lorry appears in the street, with silent men in the back, it draws up, I open the gate, the lorry creeps gently in, the men get down holding their tools, others leap off running for their rooms, this place becomes a fairground, you can hear someone's chat, someone else's cassette player on, radio music from every angle, it livens up in there. It darkens with folk. That's how I like it.

The next day as the hours slip on, silence is back again. When it gets like that at eight in the morning not a fly buzzes against the walls of the hostel rooms. And way out in the outskirts, I know the men are digging holes, pumping water from gulleys, cutting out side streets. Men working till they lose their yap, as they say, men bathing their shirts in sweat, sweat streaming down their backs to meet their trousers, soaking their clothes in the heat of the streets of hurrying cars and horns whining at the crammed and dusty streets.

With the last lorry to leave, in the now broad daylight, the hostel cools from the warmth of the men, a hundred of them were you to count them, and then I find my corner and snatch sleep from my body as the sun lights up outside in the street. During such hours not a clatter of a single digger harnpers sleep, that heavy sweaty sleep of the afternoon heat, a sleep seeming delirious, seeming something akin to death. The cold season, Julys of wayward winters, is good. Hapless sleep of cold afternoons, the wind seeping trough the chinks of the shack for the screen just here is made out of the thin wood that partitions off the dormitories and I've even seen men huddling against the bodies of others, in mid-June, putting their beds together quite without evil intent, wanting to catch each other's warmth in that bitter cold.

In the night, as I'm keeping an eye, with the cold running into my body aching within its uniform as in the hostel the snores of a hundred mouths just awaiting the four o'clock call. The lorries leaning to the wall, snoring warming up, the driver inside with windows shut just waiting for the men to mount the bodywork to start the ride, some traveling locally, others farther afield, for them all the same job. The city awakening to find men already in the grip of earth-movers, hoes spades, breaking asphalt, dragging earth out of the streets and clearing gulleys.

When the hostel started, two years back now, when you could still count up the men who lived here, when there wasn't the noise that scares today's sadness, in the morning, there was Dora1ina. Now she never passes the front of the hostel. She does the rounds of other streets as if avoiding here. It was good here at the start because Doralina, a cleaner at a block in the street would come past brazenly bringing bread and milk opposite enticing me, me in the rubberized uniform and the company's blue sailcloth. I'm not bothered, but I am mad about the need for a woman.

Conto - José Geraldo de Barros Martins

Ilustração de José Geraldo de Barros Martins baseado em
fotografia de Maria Olívia Serrão Moralez
Passeando Em Lisboa

Josias Germano e Marília Olávia acordaram no terceiro dia de sua estada em Lisboa, preferiram não tomar o café da manhã no hotel e caminharam para um restaurante-boteco na esquina da R. Alexandre Herculano com a R. Mouzinho da Silveira. Lá cada um tomou o seu café acompanhado por deliciosos pastéis de nata... o nosso protagonista salientou para a sua companheira que em Pindorama estes confeitos são chamados de “pastéis de Belém” enquanto que em terras lusitanas pastéis de Belém só podem ser consumidos no bairro de Belém, de modo que todo o resto dos “pastéis de Belém” em Portugal é denominado pastel de nata... Josias Germano continuou a conversa afirmando que o Presidente de Portugal leva uma tremenda vantagem sobre o Presidente do Brasil, pois a sua morada (o Palácio de Belém) está a duas (ou três) quadras da famosa doceria onde os referidos pastéis são produzidos, enquanto que em redor do Palácio da Alvorada só há asfalto, grama, espelhos d'água & emas....

Após o café da manhã a dupla protagonista rumou para o Castelo de São Jorge, reconstrução fake feita por Salazar em uma antiga fortificação... no caminho ruas que lembravam as clássicas ruas mal frequentadas das capitais carioca e baiana...

Josias seguia incomodado com a sua condição de turista, mesmo lembrando da frase “A melhor maneira de não dar uma de turista é não viajar” ou seja que não tinha mais jeito, que deveria bancar o turista e apreciar as terras alheias... depois lembrou-se que com a sobremodernidade o deslocamento espacial mais eficiente (mais pessoas viajando de avião, trens bala, etc.) somado ao crescimento da população mundial, o fluxo de turistas aumentou em todo o planeta: aeroportos caóticos, filas imensas para entrar nos edifícios históricos e a descaracterização do sítio histórico, que de um lugar (com uma função histórica) passara a ser um não-lugar (sem vínculos culturais), uma vez que a afluência contínua de pessoas oriundas de outros locais em visitas superficiais transformava o uso do solo no referido espaço, que antes funcionava como palácio ou fortaleza e agora passava a figurar com centro de visitação, um local de entretenimento... ele então explicou para a sua fiel escudeira que o castelo de São Jorge era uma exceção a regra, pois não havia se tornado um não-lugar em virtude do turismo (como em vários lugares famosos), mas que pelo caminho contrário, tornou-se primeiro um um não-lugar para depois atrair o turismo, uma vez que primeiro veio a reconstrução em estilo medieval (feita por Salazar na década de quarenta) para depois vir a turistada... o prédio originalmente era um alcácer (vila fortificada) na época em que Lisboa era muçulmana (a cidade então chamava-se Al-Ushbuna) e que depois da reconquista cristã em meados do século XII transformou em um castelo em homenagem a São Jorge, castelo este que foi seriamente avariado pelos terremotos ocorridos nos séculos XVI e XVII, caindo em decadência até a referida reconstrução.

Foram almoçar no Nova Ipanema na Av. Libertador, ambos pediram espeto de camarões e lulas, para beber ele pediu uma bagaçeira e uma cerveja e ela um copo de vinho branco alentejano... no almoço a conversa girou em torno de uma assunto recorrente: as pessoas que gostam de acordar cedo nas férias para aproveitar melhor o dia, como se as horas de férias valessem uma boa quantia (tempo é dinheiro) e portanto devessem ser aproveitadas na maior parte do tempo possível...

Josias Germano expôs para Marília Olávia o raciocínio tôsco deste tipo de pessoas: “já que tiramos um mês de férias para cada onze meses de trabalho, cada hora das férias vale onze horas de trabalho, logo um cochilo após o almoço, nas férias, pode significar vinte e duas horas de trabalho, ou seja a metade das horas pagas em um trabalho semanal regular”.

Depois foram para o hotel cochilar, é claro...após acordar e constatar que o cochilo que tiraram valeu bem mais a pena do que meia semana de trabalho... foram caminhar... tomaram o rumo ao bairro do Rato, mais precisamente na praça das Amoreiras, para apreciar a luz ao final do dia... lá se depararam com uma placa azul cobalto com a seguinte mensagem: UM AZUL COBALTO PARA A FELICIDADE... depois com uma placa amarelo limão escrito: UMA AMARELO LIMÃO PARA A GRAÇA... outra placa: UM LARANJA PARA EXERCER A VISÃO DE UM LIMOEIRO AO LONGE...

Eram frases de um poema chamado “Testamento” de Vieira da Silva, a ilustre pintora portuguesa, cujo museu (Fundação Arpad Szenes/Vieira da Silva) situa-se defronte a praça em questão...

Visitaram o museu, afinal Josias Germano afirmara com veemência que Portugal tem dois pintores geniais: Vieira da Silva e Almada Negreiros.. o segundo além de pintor genial também é um escritor genial, uma vez que seu conto “Saltimbancos” antecipa em cinco anos o famoso estilo de escrita que descreve o fluxo de consciência presente no final de “Ulisses” de James Joyce...

Voltaram pois precisavam jantar, porém ao chegar no Largo do Rato foram abordados por um senhor idoso embora ainda forte (lembrava um velho boxer), que trajava terno e gravata azul marinhos, camisa azul-clara. O senhor pediu pára que ambos apreciassem por instantes a Capela do Rato e então disse:

- “Para que serve a religião? Para as pessoas viverem em sociedade... porém existem outros seres, seres fantásticos... que vivem em sociedade em não possuem religião: as abelhas, os cupins e as formigas....”

Conto - José Miranda Filho

Silence Painting

Encontro de Amigos - Parte 21

Toninho depois de ter servido o exército através do Tiro de Guerra 277, em Senhor do Bonfim, foi trabalhar nas minas de Campo Formoso, antes de viajar para São Paulo. Trabalhou nas minas pouco tempo, apenas para adquirir um pouco de conhecimento de contabilidade. Fernandes prometera esperá-lo em São Paulo.

Quando Toninho desembarcou em São Paulo, em março de 1957, Fernandes não o esperava no aeroporto como prometera. Isso o deixou magoado e preocupado. Não sabia a quem procurar. Valeu-se de uma carta que trazia na mala. Toninho foi trabalhar numa loja na Rua Xavier de Toledo, permanecendo lá por dois anos, indo depois para uma indústria automobilística. Daí seguiu uma trajetória de sucesso, até os dias atuais de sua aposentadoria.

Morando um em São Paulo e o outro em São Caetano só se encontravam nos finais de semana para conversar, trocar ideias, tomar um aperitivo, ir ao cinema e matar as saudades da terra natal.

Dez anos depois Toninho casou-se. Fui ao seu casamento. O Juiz de Paz que realizou o enlace morreu atropelado por um motorista bêbado e imprudente. Era um velhinho bondoso e bem querido na comunidade. A festa de casamento estava bastante animada. Lá estavam todos os amigos do noivo, a baianada toda e grande número de colegas da firma. Até João Pinto, um amigo arredio, mas que todos nós o admirava, fez-se presente.

João Pinto era um amigo extraordinário. Gostava de contar piadas, fazer versos e de vez em quando, escrever alguns conceitos da vida que vivia. Eram contos tristes ou alegres, dependendo da quantidade etílica que ele havia ingerido. A vida, como costumava dizer nas coisas que escrevia me deu esse dom. Dizia que tudo o que ele colocava no papel vinha de dentro da alma. Era seu coração que chorava a dor do sentimento, da amargura ou a dor de corno. Dor de corno no sertão baiano é paixão recolhida de um amor perdido, trocado por outro alguém.

Morava na pensão de Dona Marta, na Rua Ceará. Na festa tomou todas, contou piada, declamou poesias e fez o discurso de saudação aos noivos. Era realmente um poeta popular. Autodidata por excelência. Jamais cursou uma faculdade, apenas havia concluído o curso secundário. Era de sua autoria o seguinte conto, publicado no jornal da comunidade local.

“O silêncio nos traz a sensação do encontro com a dor, com a alma, com Deus, com a tristeza, com a alegria e com o sentimento. O silêncio nos leva ao tudo ou ao nada. É a sensação de nos encontrar em algum lugar. A música, dependendo do momento e do local aonde é ouvida, nos leva a lugares imagináveis, distantes que só a nossa consciência e o nosso pensamento poderão distingui-los e estabelecê-los. Imagino-me numa ilha distante, cercada de coqueiros, águas limpas e cristalinas. Ao redor só a natureza deserta e solitária. Dá-nos uma sensação de sentimento jogado fora, sem mágoa e sem rancor, que apenas foi, esvaiu-se. Numa estrada longa e florida, caminhávamos, você e eu, de mãos dadas, num silêncio profundo de uma manhã fria e úmida. O orvalho da manhã ainda banhava as árvores e as gramíneas da estrada. Só nós dois. O frio penetrava em nosso corpo. No entanto, por estarmos juntos, não o sentíamos. A sensação de estar ao teu lado, me faz sentir que estou ao lado de Deus, pois só ele nos dá essa alegria e nos faz lembrar o passado, a infância, a juventude, as noites estreladas e o céu iluminado pelo luar incandescente. Sou um apaixonado e amante da natureza. Deixem-me curtir isso. Não me queiram tolher a liberdade dos meus sentimentos, pois eles são somente meus. O Amor se conquista com o sentimento, enquanto o prazer se adquire com o pagamento. Por isso o amor é eterno e o prazer apenas passageiro. Se compreendêssemos a beleza e a força do sentimento, saberíamos por que o nosso coração sofre mais que a razão. Nós o chamávamos pela alcunha de João da Onça. Ele não gostava. Esse apelido foi-lhe outorgado, quando certa vez ele esteve em Salvador e namorou uma moça que anos mais tarde veio a se tornar sua esposa. Ela tinha uma cicatriz no rosto, e isso era o bastante para que ele a achasse feia e sem graça, como dizia para os amigos. Depois, sem que nenhum de nós dissesse algo ou tivesse culpa alguma, ele a repudiava e falava mal dela. As brincadeiras que lhe fazíamos, eram inconsequentes, às vezes humilhantes, mas, ele mesmo as provocava. E ele, para livrar-se das ridículas insinuações, dizia que ela era uma onça, que não queria nada com ela. Tempos depois, quando deixou São Paulo de vez, soubemos que se casaram, tiveram filhos e viveram felizes, longe da gozação dos amigos.

Assim foi João Pinto, o poeta popular, o cancioneiro da alegria, o amigo de todos os momentos. A felicidade estava ao seu lado, ao alcance de suas mãos, porém, as insinuações das pessoas que se diziam amigas retardaram essa alegria, mas ele, insistente e apaixonado, deixou de lado as ironias dos amigos e foi em busca do amor, à procura do sonho, da sua paixão. Afastou-se de tudo e de todos e foi viver ao lado de quem sempre amou e por quem sempre foi amado. Isso era tudo o que lhe interessava. Nada mais o preocupava e nem ele queria saber. Dane-se! Dizia a todos aqueles que o instigavam.

Tradução - Eduardo Miranda

Riding with Death, 1988 ~ Jean-Michel Basquiat
E Assim A Morte Não Terá Nenhum Domínio ~ Dylan Thomas
Tradução de Eduardo Miranda

E a morte não terá domínio.
Os homens mortos e nus, se juntarão
Aos homens no vento sob a lua em declínio;
Quando seus ossos forem descarnados, descarnados ossos serão,
Terão então estrelas no cotovelo e no pé;
Embora enlouqueçam, manter-se-ão sãos,
Embora naufraguem, do mar novamente emergirão;
Embora amantes apartados, o amor persistirá contramaré;
Assim a morte não terá domínio.

E a morte não terá domínio.
Sob os redemoinhos do mar,
Eles, deitados apenas, não morrerão em vão;
Contorcendo-se em martírios por seus tendões rompidos,
Acorrentados e torturados, ainda assim não sucumbirão;
Em suas mãos a fé valerá o dobro,
E o mal do unicórnio se perderá entre os sobros;
Dividirão as extremidades até não mais partirem;
Assim a morte não terá domínio.

E a morte não terá domínio.
Gaivotas não gritarão mais em seus ouvidos
Nem ondas quebrarão forte nas praias;
Onde secou uma flor, nunca mais uma flor
Se ergerá para os golpes da chuva;
Embora estejam tortas e mortas, como pregos
Suas cabeças serão cravadas entre as margaridas;
Desafiando o sol até que o sol se rompa,
Assim a morte não terá domínio.

And Death Shall Have No Dominion

Dylan Thomas

And death shall have no dominion.
Dead man naked they shall be one
With the man in the wind and the west moon;
When their bones are picked clean and the clean bones gone,
They shall have stars at elbow and foot;
Though they go mad they shall be sane,
Though they sink through the sea they shall rise again;
Though lovers be lost love shall not;
And death shall have no dominion.

And death shall have no dominion.
Under the windings of the sea
They lying long shall not die windily;
Twisting on racks when sinews give way,
Strapped to a wheel, yet they shall not break;
Faith in their hands shall snap in two,
And the unicorn evils run them through;
Split all ends up they shan't crack;
And death shall have no dominion.

And death shall have no dominion.
No more may gulls cry at their ears
Or waves break loud on the seashores;
Where blew a flower may a flower no more
Lift its head to the blows of the rain;
Though they be mad and dead as nails,
Heads of the characters hammer through daisies;
Break in the sun till the sun breaks down,
And death shall have no dominion.

Releitura - Carlos Drummond de Andrade

Também Já Fui Brasileiro

Eu também já fui brasileiro
moreno como vocês.
Ponteei viola, guiei forde
e aprendi na mesa dos bares
que o nacionalismo é uma virtude.
Mas há uma hora em que os bares se fecham
e todas as virtudes se negam.


Eu também já fui poeta.
Bastava olhar para mulher,
pensava logo nas estrelas
e outros substantivos celestes.
Mas eram tantas, o céu tamanho,
minha poesia perturbou-se.


Eu também já tive meu ritmo.
Fazia isso, dizia aquilo.
E meus amigos me queriam,
meus inimigos me odiavam.
Eu irônico deslizava
satisfeito de ter meu ritmo.
Mas acabei confundindo tudo.
Hoje não deslizo mais não,
não sou irônico mais não,
não tenho ritmo mais não.

Foto - Andrew Simpson

Cindy Bury: Fighting Breast Cancer Defiantly
Image by Andrew Simpson

Ensaio - Ronald Augusto

Escola de Atenas ~ Raffaello Sanzio
A obscura poesia de Heráclito e alguns poetas

Meu propósito, nesse breve comentário , é, a partir de algumas referências avançadas por Edward Hussey no ensaio “Heráclito” (em Primórdios da Filosofia Grega), a propósito da forma do pensamento heraclitiano, chamar a atenção para a presença de aspectos da linguagem de Heráclito no trabalho poético-crítico de três autores fundamentais da tradição moderna e contemporânea da poesia, a saber, T. S. Eliot, Octavio Paz e Haroldo de Campos. Desde logo aviso ao leitor que o texto é incompleto e, em alguns momentos, não esconde seu caráter de esboço ou de rascunho.

De saída é curioso notar, marginalmente, que embora Parmênides – também um pré-socrático como Heráclito – tenha materializado suas teses filosóficas em versos, isto é, tenha penetrado, pelo menos aparentemente, mais no terreno da poesia do que o próprio Heráclito (pois, ao que parece, Heráclito escreveu exclusivamente em prosa), no entanto, foi justamente a linguagem heraclitiana, ao contrário do que se poderia supor, que repercutiu de forma mais consequente na imagética dos poetas. Uma lição que se extrai disso é a de que o domínio da métrica (um dos recursos do fazer poético), por si só, não faz de ninguém um poeta. Os hexâmetros homéricos com que Parmênides, na Via da Verdade, expõe sua tese de que só se pode pensar no que é ou no que existe, não têm, a rigor, função significante, servem apenas de molde ou de fôrma ao seu pensamento; em certa medida pode-se afirmar que o metro em Parmênides resulta menos em ganho do que em perda. Na Poética há uma passagem em que Aristóteles, a propósito de questão similar (embora sejam outros os envolvidos), diz o seguinte: “nada há de comum, exceto a métrica, entre Homero e Empédocles; e por isso com justiça se chama de poeta o primeiro e de filósofo o segundo”.

Em outras palavras: pela via de uma função específica de linguagem, seja em prosa, seja em verso, isto é, a função imagética, o texto filosófico de Heráclito contém mais poesia do que o simulacro de poesia que Parmênides nos legou. Este seria mais filósofo do que aquele, segundo a recepção da tradição poética.

No texto de Hussey podemos verificar uma série de sucintos apontamentos sobre a forma ou sobre os traços compositivos e textuais por meio dos quais Heráclito constrói seu pensamento filosófico. Esses traços têm muitos pontos em comum com o discurso da poesia. Por exemplo, a menção de Hussey às “sentenças aforísticas sem [aparente] ligação formal”, nas quais o comentarista identifica um “estilo único”, e Hussey vai além, cito: “A variegada prosa de Heráclito, artística e cuidadosamente estilizada, vai de sentenças factuais em linguagem comum a enunciados oraculares com efeitos poéticos especiais em vocabulário, ritmo e arranjo de palavras. Muitas sentenças jogam com paradoxos ou se aventuram de modo provocador no limiar da autocontradição”. A percepção de que o discurso de Heráclito evolui através de “sentenças aforísticas sem ligação” tem relação análoga ao princípio da parataxe que rege a poesia. A parataxe estrutura o discurso de tal maneira que os enunciados formam sequências justapostas de frases, sem que seja preciso o uso de conjunções coordenativas, temos uma precipitação para a analogia, a arte, a forma, a síntese, enfim, a relação entre as partes se dá de modo mais impreciso. De outra parte, a hipotaxe organiza o discurso com um pendor para os aspectos lógicos, a ciência, o “conteúdo”, a análise.

Essa característica paratática da linguagem heraclitiana talvez esteja por trás da seguinte afirmação de Hussey que, através dela, refuta a pecha de “obscuro” com que os gregos posteriores se referiam a Heráclito, diz o comentarista: “Certamente Heráclito nem sempre buscava a ordem expositiva e a clareza como se as costuma almejar”. Podemos considerar a aparente obscuridade de Heráclito como uma intencionalidade, uma determinação, pois, de acordo com Hussey, o filósofo “explora todos os recursos da língua grega em seu esforço de representar as coisas como são”. Parece-me que a disposição de Heráclito para explorar ao máximo os recursos do seu idioma materno tem razoável relação com a noção carrolliana segundo a qual, no que toca à poesia, “a questão é fazer com que as palavras signifiquem tantas coisas diferentes”.

É também com esse apetite que Heráclito se serve da noção de logos numa faixa de significado bastante flexível. Tanto que em alguns momentos logos pode ser interpretado como o discurso mesmo que Heráclito usa para relatar aos seus contemporâneos o entendimento de que há um princípio comum ou uma ordem comum subjacente à diversidade das coisas. A noção de logos significa também a razão ou a estrutura íntima das coisas e esse estado de coisas deve concordar com o relato (o texto poético-filosófico que ele enuncia) que procura apresentar cada constituinte segundo sua natureza e revelando-o tal como é. Pois bem, para o poeta estadunidense Ezra Pound, literatura é a linguagem carregada de significado. Pound diz que há três formas de carregar a linguagem: por meio da melopeia, da fanopeia e, finalmente, da logopeia. A melopeia responde pelos aspectos musicais e rítmicos do poema; a fanopeia cuida de representação imagética e/ou metafórica do texto; e a logopeia, segundo o próprio Pound, é “a dança do intelecto entre as palavras”. A logopeia é o discurso que para, ao mesmo tempo, sobre si mesmo e sobre a coisa. A coisa, tal como é nomeada, revela a própria dança da logopeia (pensamento): o movimento da razão estruturante.

O primeiro poeta a aparecer aqui, dos três já mencionados no início desse texto e que denunciam em suas obras a contribuição heraclitiana, é T. S. Eliot (1888-1965). Eliot publica em 1943 o longo poema “Quatro Quartetos” que tem como epígrafes dois fragmentos de Heráclito, a saber, o Fr. 2 “Embora a razão seja comum a todos, cada um procede como se tivesse um pensamento”; e o Fr. 60 “O caminho que sobe e o caminho que desce são um único e mesmo”. As epígrafes em conjunto formam o logos, a logopeia do poema de Eliot. Índices do pensamento de Heráclito (a unidade dos contrários) e de seu estilo oracular afloram recriados (relativos desvios da norma) em várias passagens dos Quartetos, por exemplo:
No imóvel ponto do mundo que gira. Nem só carne nem sem carne
(...)
Mas nem pausa nem movimento. E não se chame a isto fixidez,
Pois passado e futuro aí se entrelaçam. Nem ida nem vinda,
Nem ascensão nem queda
(...)
Não haveria dança, e tudo é apenas dança
(...)

O repouso, como um vaso chinês que ainda se move
Perpetuamente em seu repouso.
Não apenas o repouso do violino, enquanto a nota perdura,
Não apenas isto, mas a coexistência,
Ou seja, que o fim precede o princípio
(...)

Em meu princípio está meu fim
(...)

O tempo da cópula entre homem e mulher
E o das bestas. Pés para cima, pés para baixo.
Comendo e bebendo. Bosta e morte.
(...)

O rio flui dentro de nós, o mar nos cerca por todos os lados
(...)
T. S. Eliot lida com grande liberdade com as questões heraclitianas, já que ele responde como poeta ao pensamento essencialmente poético de Heráclito. Quando uso o qualificativo “poético” tenho em mente essa ideia de Aristóteles: “A poesia é mais fina e mais filosófica do que a história; porque a poesia expressa o universal, e a história somente o detalhe”. Há diversos elementos no poema “Quatro Quartetos” onde essas complexas interações com a filosofia de Heráclito se revelam à flor da linguagem de Eliot, mas que isto fique reservado, à parte, como insumo para uma pesquisa mais detida a ser realizada no futuro.

Já no caso de Octavio Paz, a herança do discurso heraclitiano, se não se manifesta expressamente por meio de citações, tem a qualidade de se entrelaçar intimamente ao pensamento crítico e poético do mexicano, é como se verificássemos mais uma confluência do que uma influência de Heráclito. Assim, apesar de um dos seus livros mais conhecidos intitular-se O arco e a lira – menção direta à tese da unidade dos opostos que sustenta que há, subjacente à aparente discordância das coisas, uma estrutura latente que não só as unifica, mas que também as torna uma e mesma coisa –, Octavio Paz, ao longo das mais de 360 páginas do livro, vai se referir à Heráclito apenas duas ou três vezes. Mas, na verdade, Heráclito está inscrito na própria dicção de Paz, a mera referência nominal ao filósofo é secundária. Na abertura de O arco e a lira, o poeta se dispõe a nos apresentar as diferenças entre poesia e poema, o resultado é um parágrafo inteiro que coleciona uma série de enunciados estruturados a partir de oposições, isto é, a poesia é sempre, ao mesmo tempo, algo e seu oposto, vejamos:

A poesia é conhecimento, salvação, poder, abandono. Operação capaz de transformar o mundo, a atividade poética é revolucionária por natureza; exercício espiritual (...) A poesia re¬vela este mundo; cria outro. Pão dos eleitos; alimento maldito. Isola; une. Convite à viagem; regresso à terra natal. Ex¬pressão histórica de raças, nações, classes. Nega a his¬tória (...) Filha do acaso; fru¬to do cálculo. Arte de falar em forma superior; linguagem primitiva. Obediência às regras; criação de outras (...). Jogo, trabalho (...) diálogo, monólogo. Voz do povo, língua dos escolhidos, pa¬lavra do solitário. Pura e impura, sagrada e maldita, po¬pular e minoritária, coletiva e pessoal, nua e vestida (...) ostenta todas as faces, embora exista quem afirme que não tem nenhuma: o poema é uma máscara que oculta o vazio, bela prova da supérflua grandeza de toda obra humana!
Vejamos as passagens onde Heráclito é mencionado. No trecho a seguir, Octavio Paz constata que a história do Ocidente superestima o aspecto da racionalidade sobre a intuição e a percepção sensível, por isso, segundo o poeta “Mística e poesia viveram assim uma vida subsidiária, clandestina e diminuída”. Paz descreve assim os efeitos desse fato no homem: ele é um desterrado do fluir cósmico e de si mesmo; e finaliza dizendo o seguinte: “(...) ninguém ignora que a metafísica ocidental termina num solipsismo. Para rompê-lo, Hegel regressa até Heráclito”. Nas últimas páginas da obra, Octavio Paz se detém uma pouco mais no mestre obscuro de Éfeso, cito: “Na sentença de Anaximandro – as coisas expiam seus próprios excessos – já está ali em germe toda a visão polêmica do ser de Heráclito: o universo está em tensão, como a corda do arco ou as cordas da lira. O mundo, ‘transformando-se, repousa’. Heráclito, porém, não apenas concebe o ser como devir, mas faz do homem lugar de encontro da guerra cósmica. O homem é polêmico porque todas as forças terrestres e divinas se encontram e lutam em seu interior”. A visão heraclitiana se transfigura em Octavio Paz assumindo tonalidades barroquizantes. O poeta mexicano tem outro livro cujo título é revelador do impacto da tese da unidade dos contrários em sua aventura estética e intelectual, trata-se da obra Conjunções e disjunções. Os conectivos lógicos, conjunção (˄) e disjunção (˅), são instâncias dos clássicos pares de opostos de Heráclito.

Ainda que de maneira bastante pontual, Haroldo de Campos, o poeta concreto, também dialogou com a tradição heraclitiana na poesia. Mas seu interesse se limitou à tarefa de transcriar para a nossa língua alguns fragmentos do livro Sobre a Natureza de Heráclito. O fato de o filósofo ter recebido injustamente o epíteto de “o obscuro”, devido às qualidades poéticas de seus escritos, moveu Haroldo de Campos ao desafio da transcriação desses excertos, já que, para o poeta concreto, a tradução de poesia envolve um esforço de criação na língua de chegada tão intenso e poético quanto o que foi requerido para a realização do texto em sua língua de partida. Mais do que uma sombra esmaecida do texto original, a versão almejada por Haroldo de Campos vai se postar em paralelo em relação àquela numa espécie de espelhismo virtuoso. No limite, o original grego de Heráclito pode ser considerado como uma tradução às avessas da obra transcriada pelo poeta brasileiro, isto é, a transcriação alcança uma autonomia perante o texto original. Pelo menos é o que pretende Haroldo de Campos que, como epígrafe para a sua experiência translatícia, cita a seguinte máxima de Novalis: “O verdadeiro tradutor... Ele deve ser o poeta do poeta”. O conjunto das transcriações, que integra o livro A educação dos cinco sentidos , foi batizado como “Heráclito revisitado”, vejamo-lo:
aión

vidatempo:
um jogo de
criança

(reinando
o Infante
Infância)

ho ánax

o oráculo
em Delfos
não fala
nem cala

                    assigna

hélios

o Sol não desmesura

(ó Eríneas, servas de Dike,
justiçadoras)


hai psychaì / psychês esti logos

almas farejando no Hades

alma-logos
semprexpandir-se



eoûs kaì hespéras

lindes
de aurora
e ocaso                    a Ursa
                    e face à Ursa                    o marco de Zeus coruscante


físis filocríptica

desvelos
do sem-véu
pelo velar-se


ho kállistos kósmos

varredura do acaso      belo
cosmos


caleidocosmos

lixo (luxo) do acaso
                    cosmos


pánta rheî

tudo riocorrente
Espero que com esse apanhado, ainda que lacunar, de realizações parciais de poetas que buscaram uma interlocução não apenas com a significação da filosofia de Heráclito, mas, especialmente, com a materialidade mesma de sua linguagem intrinsecamente poética – já que, inapelavelmente, é através dela, que tal filosofia se plasma e se deixa interpretar –, possamos reconhecer que Heráclito, além de ser “figura de permanente interesse para filósofos” por se tratar de “um pioneiro dos pensamentos filosófico e científico” (Edward Hussey), é também de fundamental importância para a tradição da poesia universal e seus novos rumos ainda a serem traçados.

Autores

Ademir Demarchi Adriana Pessolato Adília Lopes Afobório Agustín Ubeda Alan Kenny Alberto Bresciani Alberto da Cunha Melo Aldo Votto Alejandra Pizarnik Alessandro Miranda Alexei Bueno Alexis Pomerantzeff Ali Ahmad Said Asbar Almandrade Alyssa Monks Amadeu Ferreira Ana Cristina Cesar Ana Paula Guimarães Andrew Simpson Anthony Thwaite Antonio Brasileiro Antonio Cisneros Antonio Gamoneda Antonio Romane António Nobre Ari Candido Fernandes Ari Cândido Aristides Klafke Arnaldo Xavier Atsuro Riley Aurélio de Oliveira Banksy Bertolt Brecht Bo Mathorne Bob Dylan Bruno Tolentino Calabrone Camila Alencar Carey Clarke Carla Andrade Carlos Barbosa Carlos Bonfá Carlos Drummond de Andrade Carlos Eugênio Junqueira Ayres Carlos Pena Filho Carol Ann Duffy Carolyn Crawford Cassiano Ricardo Cecília Meireles Celso de Alencar Cesar Cruz Charles Bukowski Chico Buarque de Hollanda Chico Buarque de Hollanda and Paulo Pontes Claudia Roquette-Pinto Constantine Cavafy Conteúdos Cornelius Eady Cruz e Souza Cyro de Mattos Cândido Rolim Dantas Mota David Butler Denise Freitas Desmond O’Grady Dimitris Lyacos Dino Valls Dom e Ravel Donald Teskey Donizete Galvão Donna Acheson-Juillet Dorival Fontana Dylan Thomas Décio Pignatari Edgar Allan Poe Edson Bueno de Camargo Eduardo Miranda Eduardo Sarno Eduvier Fuentes Fernández Elaine Garvey Elizabeth Bishop Enio Squeff Ernest Descals Eugénio de Andrade Evgen Bavcar Fernando Pessoa Fernando Portela Ferreira Gullar Firmino Rocha Francisco Niebro George Callaghan George Garrett Gey Espinheira Gherashim Luca Gil Scott-Heron Gilberto Nable Glauco Vilas Boas Gonçalves Dias Grant Wood Gregório de Matos Guilherme de Almeida Hamilton Faria Henri Matisse Henrique Augusto Chaudon Henry Vaughan Hilda Hilst Hughie O'Donoghue Husam Rabahia Ian Iqbal Rashid Ingeborg Bachmann Issa Touma Italo Ramos Itamar Assumpção Iulian Boldea Ivan Donn Carswell Ivan Justen Santana Ivan Titor Ivana Arruda Leite Izacyl Guimarães Ferreira Jacek Yerka Jack Butler Yeats Jackson Pollock Jacob Pinheiro Goldberg Jacques Roumain James Joyce James Merril James Wright Jan Nepomuk Neruda Jason Yarmosky Jeanette Rozsas Jim McDonald Joan Maragall i Gorina Joaquim Cardozo Joe Fenton John Doherty John Steuart Curry John Updike John Yeats Josep Daústin José Carlos de Souza José Geraldo de Barros Martins José Inácio Vieira de Melo José Miranda Filho José Paulo Paes José Ricardo Nunes José Saramago José de Almada-Negreiros João Cabral de Melo Neto João Guimarães Rosa João Werner Junqueira Ayres Kerry Shawn Keys Konstanty Ildefons Galczynski Kurt Weill Leonardo André Elwing Goldberg Lluís Llach I Grande Lou Reed Luis Serguilha Luiz Otávio Oliani Luiz Roberto Guedes Luther Lebtag Léon Laleau Lêdo Ivo Magnhild Opdol Manoel de Barros Marco Rheis Marcos Rey Mari Khnkoyan Maria do Rosário Pedreira Marina Abramović Marina Alexiou Mario Benedetti Mario Quintana Mariângela de Almeida Marly Agostini Franzin Marta Penter Marçal Aquino Masaoka Shiki Maser Matilde Damele Matthias Johannessen Michael Palmer Miguel Torga Mira Schendel Moacir Amâncio Mr. Mead Murilo Carvalho Murilo Mendes Márcio-André Mário Chamie Mário Faustino Mário de Andrade Mário de Sá-Carneiro Nadir Afonso Nuala Ní Chonchuír Nuala Ní Dhomhnaill Nâzım Hikmet Odd Nerdrum Orides Fontela Orlando Gibbons Orlando Teruz Oscar Niemeyer Osip Mandelstam Oswald de Andrade Pablo Neruda Pablo Picasso Patativa do Assaré Paul Funge Paul Henry Paulo Afonso da Silva Pinto Paulo Cancela de Abreu Paulo Henriques Britto Paulo Leminski Pedro Du Bois Pedro Lemebel Pete Doherty Petya Stoykova Dubarova Pink Floyd Plínio de Aguiar Pádraig Mac Piarais Qi Baishi Rafael Mantovani Ragnar Lagerbald Raquel Naveira Raul Bopp Regina Alonso Renato Borgomoni Renato Rezende Renato de Almeida Martins Ricardo Portugal Ricardo Primo Portugal Ronald Augusto Roniwalter Jatobá Rowena Dring Rui Carvalho Homem Rui Lage Ruy Belo Ruy Espinheira Filho Ruzbihan al-Shirazi Régis Bonvicino Salvado Dalí Sandra Ciccone Ginez Santiago de Novais Saúl Dias Scott Scheidly Seamus Heaney Sebastian Guerrini Sebastià Alzamora Shahram Karimi Shorsha Sullivan Sigitas Parulskis Silvio Fiorani Smokey Robinson Sohrab Sepehri Sophia de Mello Breyner Andresen Souzalopes Susana Thénon Susie Hervatin Suzana Cano Sílvio Ferreira Leite Sílvio Fiorani The Yes Men Thom Gunn Tim Burton Tomasz Bagiński Torquato Neto Túlia Lopes Vagner Barbosa Val Byrne Valdomiro Santana Vera Lúcia de Oliveira Vicente Werner y Sanchez Victor Giudice Vieira da Silva Vinícius de Moraes W. B. Yeats W.H. Auden Walt Disney Walter Frederick Osborne William Kentridge Willian Blake Wladimir Augusto Yves Bonnefoy Zdzisław Beksiński Zé Rodrix Álvaro de Campos Éle Semog