Definição

... da totalidade das coisas e dos seres, do total das coisas e dos seres, do que é objeto de todo o discurso, da totalidade das coisas concretas ou abstratas, sem faltar nenhuma, de todos os atributos e qualidades, de todas as pessoas, de todo mundo, do que é importante, do que é essencial, do que realmente conta...
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Ano VI Número 63 - Março 2014

TUDA - pap.el el.etrônico

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Ano I Número 6 - Junho 2009

Capa - José Geraldo de Barros Martins

Dívida Interna
Editorial

Palavras Quebradas
Palavras Contínuas
Palavras Alheias
  • Aimé Césaire - Cahier d'un retour au pays natal (extrato), por Eduardo Miranda
  • Kurt Weill - Tango de Iukáli, porSantiago de Novais
Foreign Words - Para Estrangeiros
Palavras Já Ditas
Palavras Mostradas
Palavras Antigas

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Ano I Número 6 - Junho 2009
Dívida Interna


Editor
Eduardo Miranda

Capa
José Geraldo de Barros Martins

Digitação
Teresa Thinen & Eduardo Miranda

Revisão
Túlia Lopes & Eduardo Miranda

Colaboradores
Aimé Césaire (in memorian), Aristides Klafke, Arnaldo Xavier (in memorian),Dorival Fontana, Eduardo Miranda, Firmino Rocha (in memorian), Jacob Pinheiro Goldberg, José Geraldo de Barros Martins, José Miranda Filho, Kurt Weill (in memorian), Luiz Roberto Guedes, Mariângela de Almeida, Matilde Damele, Roniwalter Jatobá, Santiago de Novais, Souzalopes, Valdomiro Santana, Zé Rodrix (in memorian).

E-mail
tuda.papel.eletronico@googlemail.com

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Ano I Número 6 - Junho 2009
Editorial

Junho, o sexto mês do calendário gregoriano, e o sexto mês da TUDA! Derivado da deusa romana Juno, mulher do deus Júpiter, é o mês onde o Sol atinge o ponto mais ao norte em sua trajetória celeste, o chamado Solstício de Verão, cá nas Terras de Cima. Que o verão venha quente, porque a TUDA está fervendo! Rumo à primeira Sexta-Feira de cada mês!

E neste mês - como sempre! - TUDA tem muita, mas MUITA coisa boa! Traz em Palavras Quebradas o verbo de Arnaldo Xavier, o com-creto de Souzalopes, a poesia-explícita de Luiz Roberto Guedes, a uretros-poesia de Santiago de Novais, mais Dorival Fontana, Vicente Werner y Sánchez e os poemas de Jacob Pinheiro Goldberg. Em Palavras Contínuas o conto de Valdomiro Santana, Mariângela de Almeida, e a crônica de José Miranda Filho. Em Palavras Alheias, o martinicano Aimé Césaire e o alemão Kurt Weill. Em Foreign Words, Firmino Rocha. Nas Palavras Já Ditas, uma homenagem a Zé Rodrix, falecido no último dia 22. Em Palavras Mostradas, as ilustrações de JG e Aristides Klafke além da foto de Matilde Damele, na série A Mente Pela Lente. Na seção Palavras Antigas, Roniwalter Jatobá na série Memória nos fala dos Bondes Paulistanos.

Aprecie TUDA SEM NENHUMA MODERAÇÃO. Ela não faz mal. Apenas é contra a INDIFERENÇA!!!

Na luta, companheiros... e TUDA de bom!

Eduardo Miranda
o (auto-proclamado) editor

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Ano I Número 6 - Junho 2009
Poesia - Arnaldo Xavier

Alexander Abon, "Untitled", Mixed Media, 122 x 91 cms., 2002

Estás Deus
Sobre pinico solar
Lendo o Times fazendo careta

Estás Deus
Ocultando revólver no interior florido buquê
De chamas

Estás Deus
Debaixo das traves da noite
Esperando os chutes lunáuticos das estrelas
Da marca do penalty

Estás Deus
Vestido Estação Rodoviária
Sem mãos sem cabeça sem lágrimas sem risos
Dando adeus graças à Deus

Estás Deus
Virando copo de tempestades
Sobremesa toalha

Estás Deus
Cantando Yesterday e Casa no Campo

Estás Deus
Pondo gasolina na apocalíptica Carruagem

Estás Deus
Ajoelhado sobre grãos atômicos
Vítima do próprio castigo

Estás Deus
Fumando maconha oculto nas nuvens
Tomando banho
Vendo estrelas

Estás Deus
Baliza nua virgem arco-íris cetro à frente de pelotões de raios e trovões debaixo despecífico guarda-chuva do sol
Abraçado ao bem e ao mal

Estás Deus
Sempre bêbada luz sobre si própria luz
Rosa orbita lábio vinho
poço sonolento monge líquido medita
Rainha veste flor-de-me-iludo
À sombra de uma coroa de espinhos
A balançar a cabeça de norte para leste
Arrependido de tudo

Estás Deus
Requebrando as nádegas diante da vitrine de calcinhas e soutiens

Estás Deus
Masturbando-se à lua

Estás Deus
Cuspindo no mar

Estás Deus
Fulminante.

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Ano I Número 6 - Junho 2009
Poesia - Souzalopes

Corinna Spencer, "Untitled"

na boca do lixo a puta que pariu
naquele dia tomou uma cachaça
e três facadas lá no bar da frente
a boca sujou sangue e uma crente
a vossa glória meu jesus implora
ela está morta ó soldado santos
matai o elemento e ele matou
pela fé de cristo o malfeitor
e glória ao senhor que faz
a obra do bem
amém

aliás
aqui jaz
Jasmin Jessica
a filha da puta
antimorta não morreu foi natimorta

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Ano I Número 6 - Junho 2009
Poesia - Luiz Roberto Guedes

amazing amazona

eu sou muito exigente ouvi no alarido da festa dizer a
mulher atlética com quem eu levo para a minha cama feito
proto-heroína de HQ soviética juba leonina botas de amazona
seja homem ou mulher ao rapaz fascinado pássaro ante serpente
de ávidos lábios vagina fluorescente seios intrépidos sob seda
sépia o brilho fosco dos pingentes de metal em seus mamilos

[in Oitavas, antologia poética, Demônio Negro, 2006]

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Ano I Número 6 - Junho 2009
Poesia - Santiago de Novais


I

MAME-ME: ABSTRACT FOR SCIENTIFIC HI! GRITE GOD SO FI VAI COM DEUS GOOD RAVEL HAVE.

INTROS:

II


weselves: signals net joined, bitmaps, cosmic dust and silicical clouds, in bips order, frames on car breaks, stardust, way of spit, bones blur and luminous wires, organs and nips, dust of the tail, demo:


somos pics some pixels só homem minha ama
someSimone sumaNina somem H dama e ama
somos pictures LevísSomos minha mama LevísSimos
somededalus deaf Technicolor come o símio nana sopra sombra

nós: agrupamento de sinais, bitmaps, poeira cósmica e nuvem silícica, ordem nos bips, frames nos freios, stardust, estrada de cuspe, borrão de ossos e fios luminosos, órgãos e mamilos, pó da rabiola, demo.

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Ano I Número 6 - Junho 2009
Poesia - Dorival Fontana

Francisco Viri, "The Agnostic Survivor", Watercolor, 56 x 39 cms., 2002

STOP

Dia pós dia
Noites ausentam
Sonhos
Madrugadas findam
Corpos atropelam
Vidas
Corridas distanciam
Marcam membros
Cerram punhos
Cortam pulsos
SEXOMANIAM
Estrelas decaem
Assombram céus
Subsolos tácitos
Ocupam espaço
I N D I V I D U A L

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Ano I Número 6 - Junho 2009
Poesia - Jacob Pinheiro Goldberg

A Poesia De Jacob Pinheiro Goldberg

Sobre a poesia de Jacob Pinheiro Goldberg o doutor João Adolfo Hansen, professor titular de Literatura Brasileira da Universidade de São Paulo, escreveu: “A primeira vez que vi Jacob Pinheiro Goldberg, ele estava na TV, falando do sadismo da burguesia brasileira que goza fazendo o povo sofrer. Desde então, passei a gostar muito dele. Depois, fiquei sabendo pela minha amiga Marília Librandi, que escreve a introdução exata e delicada deste livro, que Jacob nasceu em Juiz de Fora. Era Pinchas, judeu de origem polonesa, mas desabitou o nome, virou Pinheiro. O Brasil é mesmo impossível. Acho que cresceu como qualquer um de nós, sobrevivendo às contingências da vida daqui. Parentes dele foram assassinados em campos nazistas. Estudou Direito, para descobrir que a Lei submete e que o Espírito liberta. Ateu, passou à psicanálise freudiana. A matéria da sua poesia é essa desabitação, essa despossessão, esse estar não-estando de quem medita as perdas levado pelo vento do mundo. Na sombra, à esquerda da linguagem, ele escreve poesia com o sangue da experiência do real. É poesia elegíaca e trágica, uma lamentação que contra-efetua o acontecimento da dor, elaborando o sofrimento para resistir à destruição e à amargura do mal. Você, que agora lê esta orelha, talvez pense que essa forma de expressão da dor é própria da experiência histórica do povo judeu. E pensará bem, com razão. Mas só em parte. Jacob sabe que nascer judeu ou palestino, índio ou espanhol é só acidente, pois o que realmente importa é o que fazemos com o que fizerem de nós. Kafka, por exemplo, quis escrever como um vira-lata para apagar as marcas da Lei gravadas na pele. Jacob é dessa família de desgarrados magníficos que dizem não serviam, ‘não servirei’. Inconformado com a vida, revoltado com a morte, escreve sua poesia na fronteira do Paraguai com a Finlância, aquele não-lugar onde as etnias, as nacionalidades, as religiões, as classes e os sexos finalmente foram abolidos e só sobrou a liberdade da descrença radical dos valores herdados. A liberdade de Jacob é livre, ou seja, generosa, e faz seus poemas espaçosos para recolherem compassivamente os cacos da história universal de um ‘nós’ despedaçado. São fortes, os poemas de Jacob, duros, intensos, sem nenhum consolo, comoventes. Podem até fazer desesperados pensar que, se ainda há homens como ele, há esperança para todos. Daqui desta orelha eu mando meu abraço pra ele.”

(in “Poemas-vida, antologia de Jacob Pinheiro Goldberg”, organizado e apresentado por Marília Librandi Rocha, professora de Teoria Literária no Departamento de Estudos Lingüísticos e Literarios da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, doutora em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo e, a partir de dezembro de 2008, professora da Stanford University, CA, EUA - Editora 7 Letras, Rio de Janeiro, 2008).


Solilóquio Do Faraó

A sedução deste mago ingrato,
Carrega o povo maldito para o Deserto.
Abandona a segurança, a certeza e a
Tranqüilidade, atrás dum Deus da
Imaginação, sem imagens e sem figura,
Que estranho.

Povo maldito, que substitui o trabalho
E a disciplina por uma louca anarquia
Que chama liberdade, insubmissos e
Polêmicos.

Povo maldito, errante pelo deserto,
Atrás de ilusões e palavras.
Amantes do ritual e do teatro,
Iconoclastas, sem reis e sem hierarquia.

Renegam todos os deuses e
Adoram o Sonho.
Povo maldito que há de padecer,
Na dúvida e na busca.
(in A Mágica Do Exílio - Magia Wygnania)

Mágica Do Exílio (2)

Ao contrário do que se concebe
não foi o encontro
a origem desta
revelação
a origem foi o desterro
no país dos fantasmas
da América
mergulho nas palavras mortas
cinzas da razão de ser
e a partida seguindo os apagados rastros
do caminho a Kandire
Terra sem Mal.

(in A Mágica Do Exílio - Magia Wygnania)

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Ano I Número 6 - Junho 2009
Poesia - Vicente Werner y Sánchez

O Grito, Edvard Munch, 1893

Wandering Self

Fierce winds blowing in my mind,
dark emotions that sail my heart,
shattered hopes falling from my soul,
who's gonna save myself from me ...

I , my enemy , my deathliest foe,
who will ride the waves of rage ,
when all the hopes are gone ,
with the thinest winds ,
broken , shattered self , crushing in darkness,
who's the one who will care for me?

Nobody......

Dead symbols of future hopes ,
scars of futures where times will die ,
sinking darkness of ruined dreams ,
friend of foe .... whose of them am I for me?

Don't know .....

Foe , shattered steel of my heart,
crushed feelings from the dark line,
destiny of cursed , dammed thoughts of my soul,
excuses to hate , to be the god's fury over the world,
to live by the shiny dark death of my self.

Falling , without stop ,
hitting the end of the abyss with my heart,
dying in loneliness , bleeding for the time ,
time of loneliness , endless dimming nights of life,
solitude of the self , out there , darkness,
where's the light I'm looking for?

The Tides of gravity that made me, now fall,
images of fierce fights , of holding to life,
breaking down ,vanishing mirror shades of hope,
making myself void , hopeless ,helpless child.

And in the streams of wandering lost souls ,
I found my self in , wandering through the dark,
melting down in oceans of tears , and sadness,
knocking by the door of lifeless dreams ,
ask about who will fill your solitude..

No one is there for you....

Windy words of thunderous rage ,
cold tears of a heart filled soul,
wondering about the sense of life,
of cruelty and broken hearts .

Lightless suns lie in at your sight,
dark filled moons of despair,sorrow,
leaving away your self to hate it,
now, death will follow my friend,
you're the one that someday you hated.

Friend lost in the happening of time,
sorrow and dead have filled your eyes,
now you're lost in your darkness,
where u will find your light again?

Nowhere.

There's no place to hope, in your world,
there's no time to look for your happiness,
now you feel dead,your eyes break in tears,
and the desire to die, grows in your mind.

You can't fight with yourself,
because It's you who wants to leave the world,
it's you who have lost the hope of joy,
darkness it's the choice of yourself,
and few lights you see fading in thy night,say,
"There's always a star that will give you its light"

You can't believe it.

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Ano I Número 6 - Junho 2009
Conto - Valdomiro Santana


Pastelaria Triunfo

Foi a memória involuntária que, generosa, desatou em mim a Pastelaria Triunfo. No chão da consciência nada consigo localizar, nenhum objeto, para dizer como de súbito a lembrança da pastelaria me apareceu 30 anos depois. Proust, num dia triste e com a perspectiva de mais um dia sombrio, bebeu sem vontade uma colherada de chá onde deixara amolecer um pedaço de madeleine — bolinho de farinha de trigo, ovos e açúcar, semelhante à delícia que chamamos de brevidade —, e com esse gesto prosaico mudou a literatura do mundo.

(Ironicamente logo te esqueceremos, brevidade. Onde a memória de teu gosto, quimicamente corrompido por brometos, conservantes, artifícios, baunilhas indignas? A farinha de trigo deixou de ser farinha de trigo — é uma ignomínia de pó, que moinhos controlados por computadores nos oferecem e aceitamos. Os ovos são de galinhas mecânicas, e como é repugnante, da cor de olhos ictéricos, o amarelo das gemas, pois não existem mais galinhas de quintal, nem quintais, ora, deixemos de tolices, aqui a falar de gemas que eram gemas, coradinhas etc. E quanto ao açúcar, no comments.)

Não resisto e transcrevo, na excelente tradução de Mario Quintana, o que diz Proust em Du côté du chez Swann, o primeiro volume da Recherche: “[...] no mesmo instante em que aquele gole, de envolta com as migalhas do bolo, tocou o meu paladar, estremeci, atento ao que se passava de extraordinário em mim. Invadira-me um prazer delicioso, isolado, sem noção de sua causa. Esse prazer logo me tornava indiferentes as vicissitudes da vida, inofensivos os seus desastres [...] tal como o faz o amor, enchendo-me de uma preciosa essência: ou antes, essa essência não estava em mim; era eu mesmo”.

Foi esse gosto da madeleine, embebida em chá-da-índia ou de tília, sentido muitos anos depois, que ressuscitou em Proust uma emoção antiga, única e instantânea: a lembrança de sua infância em Combray. Os rostos, as casas, as alamedas, o traçado dos jardins... tudo — que ele julgara morto para sempre — voltou em segundos a existir, vívido e cintilante, com seus detalhes, sua atmosfera particular. O que Proust recordasse de Combray lhe seria unicamente fornecido pela memória voluntária, a da inteligência — mas as informações que ela nos dá sobre o passado não conservam nada deste. Todos os esforços da inteligência são inúteis para evocar o nosso passado. “Está ele oculto, fora do seu domínio e do seu alcance, nalgum objeto material (na sensação que nos daria esse objeto material) que nós nem suspeitamos. Esse objeto, só do acaso depende que o encontremos antes de morrer, ou que não o encontremos nunca”. Eis então o mistério da memória involuntária, a que dispensa o intelecto e é capaz de retrouver le temps, de redescobrir o tempo — não o passado, atentem para a sutileza, mas o tempo perdido. Que dávamos como irremediavelmente perdido.

“[...] quando mais nada subsistisse de um passado remoto, após a morte das criaturas e a destruição das coisas — sozinhos, mais frágeis, porém mais vivos, mais imateriais, mais persistentes, mais fiéis —, o odor e o sabor permanecem ainda por muito tempo, como almas, lembrando, aguardando, esperando sobre as ruínas de tudo o mais, e suportando sem ceder, em sua gotícula impalpável, o edifício imenso da recordação”.

Eu estava na praia com meus filhos. De repente, a Pastelaria Triunfo se desenhou inteira em minha lembrança. Que odor, que sabor, que madeleine, não sei; nada me ocorre que tenha operado esse encantamento, a palpitar no fundo de mim, para me fazer repetir a musicalidade feliz destas duas palavras: Pastelaria Triunfo, perfeitamente casadas, com seu quê de delicadeza e força. Há mais do que tonicidade na sílaba un de triunfo: há plenitude, que incorpora o nome e o faz pulsar para além de sua carga semântica. Triunfo, pastelaria, triunfo. Em que eu estava pensando? Talvez em algas, ramagens, hipocampos... Ou em nada. E o velho casarão, plantado no alto da Ladeira da Praça, me trouxe de volta um menino de 13 anos, ainda usando calças curtas, o pai a segurar-lhe a mão. Saem do Elevador Lacerda, não têm nenhuma pressa, é verão; à esquerda, o prédio baixo, acinzentado pelo tempo, da Imprensa Oficial da Bahia, vizinho ao prédio maior, de um amarelo pardacento, da Biblioteca Pública; à direita, o Palácio Rio Branco, esquina com o trecho mais elegante da cidade, a Rua Chile, onde a loja Duas Américas dispunha, só ela em Salvador, de uma escada rolante, inaugurada havia pouco mais de um ano, uma coqueluche.

Dezembro de 1959, quatro horas da tarde, e Terezinha Morango — mais uma vez — é capa de O Cruzeiro.

— Que pernas, meu Deus! Aaaah...! — o homem dissera, diante de uma banca de revistas na Praça Cairu, em tom baixo e suspirando, e seu “ah” se prolongara, cavo e sóbrio. O menino, querendo imitá-lo, soltara um “ah” nem um pouquinho rouco, de tão verde, longe daquela bossa, ou molho, que poucos homens conseguem, pondo um tanto de volúpia e solenidade na voz, para que saia um “ah” como convém: nem de mais, que soe a cafajestice, nem de menos, ou desenxabido, que lembre o “ah” idiota dos almofadinhas.

Seguem de mãos dadas, passam pelo abrigo em cuja cobertura, assim que anoitecer, brilharão os anúncios da cera Parquetina e dos chapéus Ramenzoni; em frente, a Prefeitura e a Câmara Municipal no mesmo edifício que já foi cadeia pública: sua fachada, após tantas deformações e acréscimos, mais parece a de um cabaré mexicano.

Desviam-se dos carros que vêm da Sé pela Rua da Misericórdia, e naquela confluência, bem no topo da ladeira, o que inunda os olhos do menino são os vidros bojudos de azeitonas em cima do balcão. Pretas, verdes, cor-de-damasco...

— Autênticas da Grécia e da Espanha — o homem, um habitué, diz para o menino. — As pretas são magníficas.

Sentam-se a uma mesa redonda com pés de ferro, tampo de mármore. Os olhos do menino passeiam pelo balcão, acima do qual estende-se um cano vermelho descascado pendurando rolos de presunto, salame, caixinhas de figos secos, reclames de sal-de-fruta e de bebidas, tiras e arranjos de papel celofane.

— Pronto — diz o homem, cigarro no canto da boca, a fumaça espiralando em seu rosto. O menino não ouvira o pedido; e num tempo que a recordação hoje tornou matéria de sonho, o garçom surgira do nada, mas era como se ali estivesse desde o começo do mundo: lépido, magrinho, de anel (topázio?) e sem gravata-borboleta, sorriu, “a família vai bem?”, “vai bem, obrigado”, trouxe os guardanapos de pano (linho?), o cálice de conhaque, chope, guaraná, as rodelas de pão e de salame, azeitonas pretas, “com licença”.

— Um equilibrista improvável — comenta o homem. — Viu como ele segurava a bandeja?

— Vi — diz o menino. — Quase ela cai.

Uma tarde calma e honrada a quem têm direito o homem e o menino, em meio a tantos odores convidativos, fortes, discretos, almiscarados ou não, das caixas de bacalhau, das conservas de enchovas e atuns, dos defumados, dos doces em compota, das frutas de clima frio, da profusão de queijos e da variedade de vinhos turvos e leves. E como havia patês, bolachas folhadas, nozes, castanhas, chocolates!

— O que é aquilo?

— Nêspera.

Mas não havia pastel.

— Não é uma pastelaria?

— É.

— E não tem pastel?

— Não.

O menino corre os olhos pelo balcão, prateleiras, envoltórios de vidro, escaninhos, cada compartimento, e vai à forra:

— Uma pastelaria improvável — diz.

Menos de quatro anos depois a Triunfo desapareceu, devorada por um incêndio. Todos temos as nossas madeleines. Se o que narro aqui mal-e-mal não foi uma madeleine, foi com certeza, feito um alumbramento, a saudade de meu pai. Agora, no fim de janeiro, fez dois anos que ele morreu.

Fevereiro, 1990

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Conto - José Geraldo De Barros Martins

Ilustração de José Geraldo De Barros Martins

A Inacreditável Estória Da Criança Anacrônica

Julmita Munhoz trafegava na madrugada próxima ao Viaduto Tutóia quando parada em um semáforo foi abordada por uma criança, com cerca de sete anos, trajando uma camisa estampada azul cobalto e verde turquesa, uma calça listrada (com cinturão) amarela e rosa–choque, e um tênis de lona que se parecia com uma chuteira. O infante se aproximou sorrindo e tirou do bolso um disco metálico com mais ou menos cinco centímetros de diâmetro.: – "Toma, é pra você!!!" A nossa protagonista guardou a quinquilharia e disse que não tinha trocado. O pequenino, calmamente olhou para o fundo (ou será o fundilho?) de seus olhos e falou: – "Depois você me dá."

Chegando em casa, ela foi examinar melhor o inesperado presente e descobriu que na chapinha havia um rosto de um homem com costeletas longas e com um nome estranho. – "Que coisa esquisita." pensou enquanto ouvia os recados de sua secretária eletrônica: "Olha aqui é a Dorinha, o Pepê irá reunir uma moçada na casa dele amanhã e pediu para te convidar, é naquela rua paralela à Ibirapuera.você sabe.é por volta das dez horas. leve um vinho ou meia–dúzia de latas de cerveja". Era sua amiga Dorothy Mansur, uma morena estonteante que se tinha a mania de trajar roupas havaianas e fazia pose de atriz de cinema antigo. Julmita sentia um enorme complexo de inferioridade, pois achava que o anfitrião do dia seguinte (a quem amava em segredo) dava bola para a amiga.Tal sentimento era injustificado, uma vez que ela mesma tinha cabelos de ouro, dentes de pérolas e lábios de rubi (além de um corpo com formas hipnotizadoras).

Na noite seguinte, o evento social transcoria de forma tensa devido as cenas de ciúmes mal–disfarçadas.no final, Petrônio Márcio resolveu mostrar seus antigos álbuns de figurinhas.Todos estavam completos menos um: O álbum "Chapinhas de Ouro" que foi lançado comemorando a Copa de 1970. Nele faltava apenas uma figurinha: a do goleiro Félix. – "E o pior é que eu tinha, mas perdi!!!" exclamou. Quando alguém comentou sobre as costeletas do arqueiro, nossa personagem intuiu que possuia uma enorme relíquia: –"Peraí!!! Não é essa??? Ninguém acreditou. era mesmo. e foi o início de um romance grandioso. Sete semanas depois, ele mostrava para ela o seu antigo álbum de fotografias, quando ao virar a sétima página, Julmita Munhoz percebeu uma foto com uma criança trajando uma camisa estampada azul cobalto e verde turquesa, uma calça listrada (com cinturão) amarela e rosa–choque e um tênis de lona que se parecia com uma chuteira. Só então ela compreendeu o sentido daquilo tudo.

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Conto - Mariângela de Almeida


Fé... de menos

Nunca acreditei nisso. Maldito ceticismo sem graça que só me atrapalha! Mas nada como a vida, sábia encarregada das porradas cotidianas, pra gente se rever e dar mão à palmatória, parar de cuspir pra cima ou sentar no formigueiro achando que nada vai abundar. Não me apresse que já conto o que me deixou desse jeito. Preciso, primeiro, respirar fundo.

Eu rezava aquele terço imenso, toda noite, ao pé do rádio, acompanhando o padre de sei lá onde, num AM 'estéril'. Muito eu nem escutava...era um bzzzz....zzz...luchhhh....fiuuu.... de tanto chiado. Mas eu seguia... ave-maria, pai-nosso... creio em Deus Pai... Tudo ia bem até a primeira carreirinha de contas rosas. Depois, meu amigo, era um decoreba, um trem sem sentido que brotava de minha boca mole e da mente ausente: ave-nosso... pai-maria... creio Pai... em Deus credo... Até que um dia, no meio dessa ladainha noturna, ouvi um uivo forte e agudo, perto da entrada. Fiz com a mão um "em nome do Pai" e encarei de frente, abrindo a porta. Quase cai de costas sobre a cruz de madeira que fica a espreitar da varanda de casa. Vi a besta, vi o dito - eu que só acreditava em anjo e santo, com aquela luminária na cabeça. Quase mijei nas calças, mas fiquei firme, de terço em punho. O bicho agonizava deitado aos meus pés. Uivava como se uma faca cravasse seu peito peludo. E não é que era mesmo um punhal de prata? Mas olhei nos olhos da coisa, as lágrimas do danado escorriam. Acredita que fiquei com pena do tal? Que me ajoelhei e rezei para que aquilo lá não doesse mais? E quando fiz isso - que doida que eu sou - a pata do monstro encostou na minha mão. Juro que ouvi um ronronar baixinho: "tira isso daí pra mim, tira?" Eu não sei de onde arranjei coragem - acho que do terço que larguei nas ancas da fera -, porque apoiei meu pé no dito e com força puxei a afiada do meio do peito sangrando. Não... não... pode se tranquilizar. Sente-se e termine o seu chá. Ele não vai te fazer nada, não. Hoje sai cedo e volta bem tarde, porque é lua cheia. Tem tarefas para realizar - 'vai com Deus, menino!'

Mas é isso, amigo, depois da tal noite, salvei o lobo da morte e hoje ele mora comigo. De dia, ajuda nos trabalhos de casa, faz massagem nos meus pés quando tô tensa. A noite, se a lua for outra, jantamos juntos, rezamos o terço e, dependendo de minha disposição, rolamos no chão, fazendo sexo selvagem, porque não sou santa, né? Mas, creio.

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Ano I Número 6 - Junho 2009
Crônica - José Miranda Filho

Don Maralit Salubayba, "The Making of a Nation", mixed media on canvas, 2006

A Lavagem Do Bonfim

Os primeiros raios de sol surgem através da colina, iluminando o templo sagrado no alto do morro. Milhares de fiéis se agregam, formando uma multidão e se dirigem ao Santuário do Senhor do Bonfim para a tradicional festa de lavagem das escadarias.

Augusto, um astuto paulistano radicado em Salvador, sócio benemérito e expoente máximo da confraria “Grupo da Alegria” estava no meio da multidão, todo sorridente e travestido de “carijó”, fantasia que caracteriza o esnobismo de seus componentes. Todos os anos ele participa desse evento, data em que também se comemora o início dos festejos carnavalescos da cidade soteropolitana.

Mulheres estilizadas de baianas, de saias brancas e rendadas, turbantes na cabeça, de pele negra ou mulata, carregando vasos de água-de-cheiro à frente do cortejo, dão início à tradicional cerimônia.

O préstito formado por milhares de fieis, sai da Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia, distante uns oito quilômetros e segue pelas ruas da cidade acompanhado por trios elétricos, bandas e grupos afro-baianos, religiosos e musicais. O vento forte e quente da manhã que sopra da orla em direção à colina, uivando e gemendo, confundindo seu som natural com o repicar cadenciado dos tambores aumenta cada vez que um tambor repica.

A cidade ainda dorme estazada das noites anteriores de festas e comemorações. Em Salvador tudo é motivo para celebrar. Todos os dias o baiano comemora o Santo do dia. Ele tem trezentos e sessenta e cinco dias de festa, e ainda por cortesia do papa Gregório XIII, na confecção do calendário atual, jubila-se com o ano bissexto, festejando o dia de São Nunca, que ninguém conhece, mas sabe-se que existe para os baianos.

Às oito horas e meia o cortejo dá inicio ao percurso, tendo à frente os grupos Timbalada, Filhos de Ghandi, Arroz com Feijão, Calcinha Nova e outros expoentes da música pop. Parte da Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia com destino à colina do Bonfim. Augusto estava logo à frente, ao lado das baianas e de alguns políticos que nesse dia mostram suas caras aos eleitores.

Ostentando sobre os ombros macérrimos o estandarte preto e branco da confraria, Augusto parecia um fidalgo aventureiro acenando para a multidão que o ignorava.

De repente, no final do cortejo, no meio da multidão alguém bradou em voz alta: a jardineira... a jardineira... a jardineira... cujo brado ecoou pela multidão até alcançar os integrantes da banda que entoavam as melodias. Como o baiano é vidrado em música, logo o grito se expandiu por todo o cortejo e a multidão passou a cantar a famosa marchinha de carnaval dos anos trinta, de autoria de Candinho das laranjeiras, gravada por Orlando Silva, em 1938 e adaptada em 1939, por Benedito Lacerda e Humberto Porto: “Ô Jardineira porque estás tão triste, mas o que foi que te aconteceu, foi a Camélia que caiu do galho...” Os foliões extasiados e eufóricos não perceberam a jardineira (ônibus antigo) que se aproximava sobre eles, desgovernada e sem freios, ceifando a vida de dezenas de fieis, inclusive nosso guardião, Augusto.

Que Deus o guarde, amém!

Janeiro 2007.

TUDA - pap.el el.etrônico

Em associação com Casa Pyndahýba Editora
Ano I Número 6 - Junho 2009
Tradução - Eduardo Miranda

Bea Danckaert, Siesta I, 35.25 x27.50"

Aimé Césaire - Cadernos de um Retorno ao País Natal (fragmentos)
Aimé Césaire (26-06-1913 / 17-04-2008) - Poeta, dramaturgo e político da Martinica, estudou em Paris, onde descobriu a comunidade negra e redescobriu a África. Encarou a Negritude como o fato de ser negro, a aceitação deste fato, a valorização da história, da cultura e o destino da população negra. Aimé Césaire cunhou o termo Negritude à partir da palavra francesa Nègre, equivalente a Black ou Negro em francês, mas "Nigger" na Martinica. Césaire deliberadamente – e orgulhosamente – incorporou esta palavra depreciativa em nome do seu movimento ideológico.
(...)

Partir.
Tal como há homens-hienas e homens-
panteras, eu seria um homem-judeu
um homem-tição
Um homem-hindu-de-Calcutá
Um homem-do-Harlem-que-não-pode-votar

O homem-fome, o homem-insulto, o homem-tortura
que poderia a qualquer momento, bater-lhe tanto
A ponto de matá-lo – simplesmente – sem
responsabilidades, sem ter que dar satisfações a ninguém
homem-judeu
homem-massacre
um fedelho
um pau-mandado
mas o que é que nos mata de remorso, belo como a cara
de espanto de uma dama inglesa que encontra
um crânio hotentote em sua janta?

(...)

Partir. Meu coração farfalhando de generosidades pomposas. Partir... Chegarei macio e jovial neste meu país e direi a esse país, cujos sedimentos penetram minha carne: "Tenho vagabundeado muito mas volto agora para tuas feridas desoladas."

Virei para este meu país e lhe direi: Toma-me sem medo ... E se eu não souber o que falar é por ti que falarei."

Eu te diria uma vez mais:

"Minha boca será a boca dos desafortunados que não têm boca, e minha voz a liberdade daqueles que se afundam em calabouços do desespero."

E acabaria dizendo a mim mesmo:

"Poupe-me, sobretudo o meu corpo, assim como minha alma, dessa sua postura estéril de espectador, de braços cruzados, porque a vida não é um show, a dor alheia não é um palco, e um homem que chora não é um grande mamífero a dançar..."

Aimé Césaire - Cahier d'un retour au pays natal (fragment)

(...)

Partir.
Comme il y a des hommes-hyènes et des hommes-
panthères, je serais un homme-juif
un homme-cafre
un homme-hindou-de-Calcutta
un homme-de-Harlem-qui-ne-vote-pas

l'homme-famine, l'homme-insulte, l'homme-torture
on pouvait à n'importe quel moment le saisir le rouer
de coups, le tuer - parfaitement le tuer - sans avoir
de compte à rendre à personne sans avoir d'excuses à présenter à personne
un homme-juif
un homme-pogrom
un chiot
un mendigot
mais est-ce qu'on tue le Remords, beau comme la
face de stupeur d'une dame anglaise qui trouverait
dans sa soupière un crâne de Hottentot?

(...)

Partir. Mon coeur bruissait de générosités emphatiques. Partir... j'arriverais lisse et jeune dans ce pays mien et je dirais à ce pays dont le limon entre dans la composition de ma chair : "J'ai longtemps erré et je reviens vers la hideur désertée de vos plaies".

Je viendrais à ce pays mien et je lui dirais : Embrassez-moi sans crainte... Et si je ne sais que parler, c'est pour vous que je parlerai".

Et je lui dirais encore:

"Ma bouche sera la bouche des malheurs qui n'ont point de bouche, ma voix, la liberté de celles qui s'affaissent au cachot du désespoir."

Et venant je me dirais à moi-même:

"Et surtout mon corps aussi bien que mon âme, gardez-vous de vous croiser les bras en l'attitude stérile du spectateur, car la vie n'est pas un spectacle, car une mer de douleurs n'est pas un proscenium, car un homme qui crie n'est pas un ours qui danse..."

TUDA - pap.el el.etrônico

Em associação com Casa Pyndahýba Editora
Ano I Número 6 - Junho 2009
Tradução - Santiago de Novais

Tango De Iukáli - Kurt Weill
Transcriação adaptada à partir da interpretação de Ute Lemper


Quase já no fim do mundo
Meu barco vagabundo
Sem rumo na crista das ondas
Vagou comigo por um dia todo.
A ilha é tão pequena
E fada que ela habita
Gentilmente nos convida
A fazer um tour.

Iukáli
É o país dos nossos desejos
Iukáli
É a felicidade, é o prazer
Iukáli
É a terra que apaga todos os aborrecimentos
Está dentro de nossas noites como um relâmpago
É uma estrela que seguimos cegamente.
Isto é Ioukali!

Iukáli
É onde se cumpre todos os votos que trocamos
Iukáli
Onde todos os belos amores são correspondidos
É a esperança
Que mora no coração de todos os humanos
A entrega de alguma coisa
Que sempre esperamos chegar no dia seguinte.

Iukáli
É o país dos nossos desejos
IIukáli
É a felicidade, é o prazer
Não passa de um sonho, de uma loucura
Nem existe este tal de Iukáli.
Não passa de um sonho, de uma loucura
Nem existe este tal de Iukáli.

E a vida tem que seguir
entediante, quotidiana
E a pobre alma humana,
Procura por toda parte esquecer
Quer escapar da terra
Em busca dos mistérios, dos sonhos
Que cultivamos
Em qualquer Ioukáli.

Iukáli
É o país de nossos desejos
Iukáli
É a felicidade, é o prazer
Não é mais que um sonho, uma loucura
Porque não existe este tal de Iukáli.
É só um sonho, uma loucura,
Não existe este tal de Iukáli!

Para ouvir o original:
http://www.youtube.com/watch?v=Zk6itNYV8i0&feature=related


Youkali-Tango Habanera

C'est presqu'au bout du monde
ma barque vagabonde
errant au gré de l'onde
m'y conduisit un jour.
L'île est toute petite
mais la fée qui l'habite
gentiment nous invite
à en faire le tour.

Youkali
c'est le pays de nos désirs
Youkali
c'est le bonheur, c'est le plaisir
Youkali
c'est la terre où l'on quitte tous les soucis
c'est, dans notre nuit, comme une éclaircie, l'étoile qu'on suit
c'est Youkali.

Youkali
c'est le respect de tous le voeux échangés
Youkali
c'est le pays des beaux amours partagés
c'est l'espérance qui est au coeur de tous les humains
la délivrance que nous attendons tous pour demain.

Youkali
c'est le pays de nos désirs
Youkali
c'est le bonheur, c'est le plaisir.
Mais c'est un rêve, une folie
il n'y a pas de Youkali.

Et la vie nous entraîne
lassante, quotidienne
mais la pauvre âme humaine
cherchant partout l'oubli.
A, pour quitter la terre,
su trouver le mystère
où nos rêves se terrent en quelque Youkali.

Youkali
c'est le pays de nos désirs
Youkali
c'est le bonheur, c'est le plaisir.
Mais c'est un rêve, une folie
il n'y a pas de Youkali.

TUDA - pap.el el.etrônico

Em associação com Casa Pyndahýba Editora

Ano I Número 6 - Junho 2009

Foreign Words - Firmino Rocha

Michael Bacol, "In the Eyes of a Child", Oil on Canvas, 122 x 91 cms., 2004

They gave the boy a rifle
by Eduardo Miranda

Bye-bye, May moonlight.
No more leisure, days of yore,
No more pleasure or delight,
nor innocence, no, never more,
no more songs to enjoy
in the memories of the boy.
Now there’s a deadly drum
fluttering into his ears.
There are violent feet to come
and deluge the land with fear.
The song, where is the song?
There, in the forgotten lists,
the songs were left alone.
Bye-bye spells and mists.
Bye-bye stars, now so trifle.
Bye-bye to all the God’s gist.
Because they gave the boy a rifle.

Deram um fuzil ao menino

Adeus luares de maio.
Adeus tranças de Maria.
Nunca mais a inocência,
nunca mais a alegria,
nunca mais a grande música
no coração do menino.
Agora é o tambor da morte
rufando nos campos negros.
Agora são os pés violentos
ferindo a terra bendita.
A cantiga, onde ficou a cantiga?
No caderno de números,
o verso ficou sozinho.
Adeus ribeirinhos dourados.
Adeus estrelas tangíveis.
Adeus tudo que é de Deus.
Deram um fuzil ao menino.

TUDA - pap.el el.etrônico

Em associação com Casa Pyndahýba Editora
Ano I Número 6 - Junho 2009
Releituras - Zé Rodrix

Neste mês TUDA faz uma homenagem não a um poeta, apenas, mas a um compositor, multi-instrumentista, cantor, escritor e também publicitário. Zé Rodrix, nome artístico de José Rodrigues Trindade, ficou conhecido ao participar de um festival da TV Record em 1967. Entre seus trabalhos se destacam o conjunto de rock rural Sá, Rodrix e Guarabyra, o disco de estréia do Secos & Molhados e o grupo de rock Joelho de Porco. Abandonou por pouco a música nas décadas de 1980 e 1990, reunindo-se novamente a Sá e Guarabyra em 2001. Logo após o lançamento de Outra Vez Na Estrada, passou a desenvolver parcerias com novos autores da música brasileira.

Em seu Necrológio, deixou claro o que queria: "Morrer num Sábado à tarde, ser enterrado num Domingo antes do almoço, e estar completamente esquecido na manhã de Segunda, sem atrapalhar a vida profissional de ninguém: eis a perfeição que desejo na minha morte." E quase conseguiu.

Casa no Campo

Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa compor muitos rocks rurais
E tenha somente a certeza
Dos amigos do peito e nada mais

Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa ficar do tamanho da paz
E tenha somente a certeza
Dos limites do corpo e nada mais

Eu quero carneiros e cabras pastando
Solenes no meu jardim
Eu quero o silêncio das línguas cansadas

Eu quero a esperança de óculos
E um filho de cuca legal
Eu quero plantar e colher com a mão,
A pimenta e o sal

Eu quero uma casa no campo
Do tamanho ideal, pau a pique e sapê
Onde eu possa plantar meus amigos
Meus discos e livros e nada mais

Mestre Jonas

Dentro da baleia mora mestre Jonas
Desde que completou a maioridade
a baleia é sua casa, sua cidade
dentro dela guarda suas gravatas, seus ternos de linho

e ele diz que se chama Jonas
e ele diz que é um santo homem
e ele diz que mora dentro da baleia por vontade própria
e ele diz que está comprometido
e ele diz que assinou papel
que vai mantê-lo preso na baleia até o fim da vida
até o fim da vida

dentro da baleia a vida é tão mais fácil
nada incomoda o silêncio e a paz de Jonas
quando o tempo é mal, a tempestade fica de fora
a baleia é mais segura que um grande navio

e ele diz que se chama Jonas
e ele diz que é um santo homem
e ele diz que mora dentro da baleia por vontade própria
e ele diz que está comprometido
e ele diz que assinou papel
que vai mantê-lo preso na baleia até o fim da vida
até o fim da vida
até subir pro céu.

TUDA - pap.el el.etrônico

Em associação com Casa Pyndahýba Editora
Ano I Número 6 - Junho 2009
Ilustração - Aristides Klafke

TUDA - pap.el el.etrônico

Em associação com Casa Pyndahýba Editora
Ano I Número 6 - Junho 2009
Ilustração - José Geraldo De Barros Martins

TUDA - pap.el el.etrônico

Em associação com Casa Pyndahýba Editora
Ano I Número 6 - Junho 2009
A Mente Pela Lente - Matilde Damele

Oaxaca, 2007

Untitled, 2000

TUDA - pap.el el.etrônico

Em associação com Casa Pyndahýba Editora
Ano I Número 6 - Junho 2009
Memória - Roniwalter Jatobá

Av. São João e o bonde Centex (foto de Carlheinz Hahmann) - 1948 - HTUB - WCS - pág. 457. Modelo mais recente a ser incorporado ao sistema de bondes paulistano; carros originários de Nova Iorque.
Bondes paulistanos
Os caminhos do bonde elétrico em São Paulo, da chegada, em 1900, à completa extinção nos anos 60 do século 20
"Anunciou-se que São Paulo ia ter bondes elétricos. Os tímidos veículos puxados a burros, que cortavam a morna cidade provinciana, iam desaparecer para sempre. Não mais veríamos, na descida da ladeira Santo Amaro, frente à nossa casa, o bonde descer sozinho, equilibrado pelo breque do condutor. E o par de burros seguindo depois".

O autor desta descrição insólita do provérbio "colocar o carro na frente dos bois" é o escritor Oswald de Andrade, que em seu livro Um homem sem profissão: sob as ordens de mamãe (1954) relata o sentimento dos habitantes da capital da Província, um misto de saudosismo pela partida dos animais e expectativa pela chegada daqueles bondes que não precisariam mais deles. Continua Oswald com suas lembranças do final do século 19: "Uma febre de curiosidade tomou conta das famílias (...). Como seriam os novos bondes que andavam magicamente sem o impulso exterior? Eu tinha notícia, pelo pretinho Lázaro, filho da cozinheira da minha tia, vinda do Rio, que era muito perigoso esse negócio de eletricidade. Quem pusesse os pés nos trilhos, ficava ali grudado e seria fatalmente esmagado pelo bonde".

São Paulo, 1860. Quarenta anos antes da chegada do primeiro bonde elétrico, a hoje maior metrópole brasileira era, na época, um emaranhado de ruas de terra batida, tortuosas, cheias de pequenas casas de pau-a-pique. População: pouco mais de 20 mil habitantes. O movimento comercial era pequeno e nada de indústria. Os mais ricos moravam nas ruas do Rosário, Direita e São Bento, que formavam a área do triângulo paulistano. "Casas que parecem feitas depois do mundo, tanto são pretas; ruas que parecem feitas antes do mundo, tão desertas", constatou Castro Alves, poeta e então estudante de Direito.

Tudo era próximo. Para alcançar bairros distantes, como o Brás, Penha (a leste) ou Santo Amaro (ao sul), alugava-se um carro de bois. "Eram tão poucas as carruagens que os cidadãos acorriam às janelas para identificar o possuidor - de alguma que passasse", anotou Antonio de Paula Ramos Jr., formado em 1852 pela Academia de Direito do Largo de São Francisco.

Primeiros Bondes

A cidade crescia. Cinco anos depois, em 1865, surgia o primeiro sistema regular de transportes. No começo de agosto, o italiano Donato Severino publicou nos jornais o seguinte anúncio: "Progresso - O abaixo-assinado participa ao público que no dia 21 deste mês em diante tem carros e tílburis para aluguel, estacionados no Largo da Sé, onde podem ser procurados para qualquer serviço".

O avanço do café pelo Oeste Paulista traz riquezas para a então Província de São Paulo e, em 1867, inaugurava-se a Estrada de Ferro Santos-Jundiaí. "Percebo muitos melhoramentos", assinalou Hadfield, viajante inglês que visitara São Paulo em 1868. "A própria cidade, bem como as ruas, estão notavelmente limpas. As estradas, nas imediações, que eram anteriormente brejos, foram aterradas e estão agora em muito boa ordem".

Os primeiros bonds trafegaram pelas estreitas vias da garoenta paulicéia no dia 12 de outubro de 1872. Eram seis carros de cinco bancos, importados dos Estados Unidos, e solenemente denominados "diligências tiradas por animais". Eram também o que havia de mais moderno e rápido, se comparados aos carretões pesados e às carruagens que só serviam aos ricos proprietários e aos passageiros abonados. Rapidamente, o democrático sistema de transportes coletivos se expandiu, popularizando as áreas do centro e integrando as regiões distantes. Seges, landaus, aranhas, cabriolés, fiacres, vitórias, belinas, cupês, tílburis e animais de montaria foram aos poucos relegados como soluções particulares de transporte e acabaram expulsos da cidade. Até o alvorecer do século, os bondes-diligências e seus bíblicos muares satisfizeram as necessidades de movimentação dos paulistanos.

A Chegada da Light

A última década do século passado foi fundamental para São Paulo começar a perder seu caráter rural e ganhar contornos citadinos. À época, as transformações da economia paulista foram profundas: abolida a escravidão em 1888, as alternativas para os negócios tinham sido ampliadas, em detrimento dos investimentos feitos em mão-de-obra escrava ou mesmo nas ações das companhias de estradas de ferro. Surgem assim novos investimentos, industriais e imobiliários.

Em 1899, quando a The São Paulo Tramway, Light & Power Co. Ltd. se estabeleceu em São Paulo, seus dirigentes canadenses sabiam de sua importância como pólo desenvolvimentista. Em História da Light - Primeiros 50 anos, Edgard de Souza (primeiro brasileiro a chegar à alta direção da Light) anotou a seguinte observação de Auguste de Saint Hilaire, membro da Academia de Ciências do Instituto de França, que viajou por São Paulo em 1819: "O Brasil deve permanecer ainda como país simplesmente agrícola e não chegou a época em que lhe pode ser vantajoso estabelecer manufaturas; entretanto, quando for o momento para isso, é em São Paulo que tais empreendimentos devem ser iniciados". Os canadenses sabiam também que os serviços públicos eram deficientes. Neste ano de fundação da empresa, São Paulo já contava com cerca de 238.500 habitantes e a Light ganhava a concessão por quarenta anos para a construção, uso e gozo de linha de bondes por eletricidade na cidade de São Paulo e subúrbios.

Surgem os Elétricos

Os primeiros bondes elétricos trafegaram pela capital paulista em 7 de maio de 1900. Com a chegada deles, começa a história da Light para os paulistanos. Vontade de crescer, recursos técnicos e apoio financeiro não lhe faltaram. No ano seguinte, em 1901, a canadense já inaugurava a usina hidrelétrica de Parnaíba, condição essencial para a expansão dos serviços de bondes e para a distribuição farta de energia ao nascente parque industrial de São Paulo.

Nos anos 10 e 20, os bondes da Light já faziam parte do cotidiano da “cidade que mais cresce no mundo". A colisão de bondes com automóveis e atropelamentos de pedestre eram fatos corriqueiros. Em 4 de novembro de 1929, por exemplo, aconteceu um acidente inédito. De repente, um elefante vai em direção aos trilhos da linha da Vila Maria. O motorneiro, apreensivo, toca a campainha, mas o paquiderme nem se abala. Era Ely, de propriedade do Circo Pinheiros, que parecia querer medir forças com um camarão (bonde de cor vermelha) da Light. Acreditem: foi difícil dizer quem sofreu os maiores estragos. Ely - o elefante - foi nocauteado com uma forte pancada na cabeça e ficou desmaiado por quase duas horas. O camarão teve sua plataforma totalmente danificada. O acidente mereceu manchete em quase todos os jornais da época e serviu de mais um motivo para a imprensa criticar a imprudência dos condutores de bondes.

No Commercio Paulistano, no dia 6 de novembro de 1929, o cronista Hélios (pseudônimo do escritor Menotti Del Picchia) deu a sua versão: "Era fatal! Custou, mas afinal o Brasil ficou com esse record, de um cômico piolinesco. O elefante foi atropelado pelo bonde (...). Nem elefantes mais os motorneiros respeitam. Eu pensei que a cólera deles fosse apenas contra os homens, as carroças, os chaufeurs.

Outro artista, o cartunista Belmonte, também era um crítico mordaz dos bondes da Light. Por meio do seu personagem Juca Pato, Belmonte transpunha para as páginas da Folha da Manhã e da Folha da Noite os desabafos da população trabalhadora, inclusive das camadas médias que, na época, usavam os bondes da canadense como seu principal meio de transporte. "Por onde andam os bondes da Light?", perguntava Belmonte na Folha da Manhã, em 1926. "É um caso singular. Um cidadão em pleno triângulo (região central de São Paulo) fica às vezes a fazer-se essa pergunta desesperada".

Novas Conduções

Já nesta época, o transporte coletivo era um dos mais angustiantes problemas da cidade. Bondes e ônibus não conseguiam atender à população. São Paulo se expandia desordenadamente e a periferia não dispunha de condução para o centro. Mesmo assim, os novos bondes que saíam às ruas eram sempre bem recebidos. Logo ganhavam um apelido e a nova referência estabelecia uma relação de maior intimidade entre veículos e usuários.

Os mais antigos registros feitos em jornais e documentos da Light dão notícia da criação, em 1916, de "um serviço de segunda classe, oferecido pela metade da tarifa, nos bondes para operários". Esses bondes ficaram conhecidos como caradura, expressão popular que definia os passageiros com recursos para pagar a passagem integral, mas que, com a maior "caradura", preferiam a segunda classe.

Outro bastante lembrado é um bonde luxuosíssimo, pintado em azul e com o nome gravado em letras douradas, salão de buffet, gabinete e lavabo. Chamava-se Ypiranga. Encomendado pela Light à St. Louis Car Co. de Filadélfia, Estados Unidos, o bonde chegou ao porto de Santos em 22 de junho de 1906. A festa da primeira viagem lotou a rua da Fundição (Floriano Peixoto), largo da Sé e a ladeira do Carmo, onde também foram inauguradas novas linhas de tráfego. O Ypiranga, no entanto, só saía às ruas em dias festivos, quando transportava os dirigentes da canadense ou autoridades em visita oficial ao Estado como o presidente Affonso Penna (1906-1909), no mesmo ano de 1906. Mais tarde passou a servir apenas à diretoria da empresa, como carro privativo. Às sextas-feiras, levava o alto escalão da Light para passar o weekend, em Santo Amaro, retomando à cidade no domingo à noite. Depois, passou também a ser um carro de aluguel para o público, ou melhor, para uma restrita faixa de paulistanos que podia se dar ao luxo de, por uma boa quantia, realizar nele festas de batizado, noivado ou casamento.

Carros Diferentes

Mais tarde, em 1926, começaram a circular os bondes fechados, pesadões e pintados de vermelho. Por isso, foram batizados de camarão. Um outro bonde, ainda maior que o camarão, recebeu o apelido de tubarão, que alguns também chamavam de lagosta. E em meio aos peixes e crustáceos, surgiu ainda o jacaré, um bonde todo verde que fazia a linha para Santo Amaro.

E quem pode esquecer o Centex, mais conhecido por Gilda, o bonde que virou a cabeça dos paulistanos em 1947? Ele era o máximo em novidade. Os bancos eram móveis e revestidos de palhinha ou couro. Também não foi esquecida a segurança: o Centex estava equipado com espelhos retrovisores, limpador automático de pára-brisas e, nas janelas, vidros de têmpera especial. Seu espaço interno era maior e a visão para o exterior, quase panorâmica. Foi aí que alguém viu no bonde as formas sensuais da atriz Rita Hayworth, que, desde 1946, fazia furor com o filme Gilda. O bonde Gilda fez sucesso e até inspirou expressões da época. Era comum dizer que uma mulher bonita era "um verdadeiro bonde", assim como "estar de bonde" ou "andar de bonde" significava namorar. Em 1963, o Gilda mudou de cor, ganhou tonalidade alaranjada na carroceria e um amarelo mais claro nas portas. Desse jeito ficou mais parecido com um refrigerante da moda. E assim Gilda virou Crush, apelido que conservou até 1966, quando deixou de circular.

Poder da Canadense

A Light era poderosa e sabia multiplicar seus investimentos. Desde sua fundação, em 1899, a canadense se relacionou muito bem com influentes setores políticos. Rodrigues Alves, por exemplo, em seu período à frente do país (1902-1906), sempre prestigiou suas ações e novas obras. Da mesma forma, Carlos de Campos, presidente do Estado de São Paulo entre 1924 a 1927, deu grande força à tramitação dos projetos, inclusive atuando como advogado da empresa.

As linhas de bondes eram, por sinal, escolhidas mais pelo interesse econômico do que para "servir melhor a população": muito pouco para os bairros periféricos e tudo para as regiões que seriam ocupadas pelos endinheirados da indústria, do comércio e do café. Ou seja, as áreas próximas à avenida Paulista e os Jardins, loteados pela City of São Paulo Improvements and Freehold Land Company Limited. Explica-se: alguns conselheiros da Light faziam parte do Comitê Administrativo da Cia. City. A partir de 1915, os loteamentos da City seriam beneficiados rapidamente por serviços de infra-estrutura, em especial iluminação e bondes. E mais: já em 1910, a Light possuía terrenos em diversos pontos da cidade, além de áreas desapropriadas às margens dos rios Tietê e Pinheiros. Também aí a criação de novas linhas variava de região para região: num primeiro momento, a empresa assentava pequenos trechos de linha, criando uma demanda por imóveis e, claro, conseqüente valorização da área. Em seguida, completava a linha. Grande negócio: os terrenos adquiridos pela Light passavam a valer muito mais.

A Light, porém, nem sempre vencia todos os desafios. Desde a festiva inauguração do primeiro bonde elétrico, em 1900, um problema atormentava seus dirigentes: o preço das tarifas. A partir de 10 de maio de 1909, um decreto municipal havia unificado as tarifas e fixava o preço único de 200 réis. Em 1926, para reforçar as suas pretensões de revisão tarifária, a Light apresentou um ambicioso projeto de reformulação de transportes. E os itens principais do seu estudo compreendiam a aquisição de bondes em quantidade e qualidade adequada e a implantação de linhas em nível elevado e subterrâneo. Resumindo: era a primeira vez que se cogitava de um sistema de transporte de massa e, implicitamente, de um metrô.

Fim Melancólico

Lamentavelmente, para a cidade, o projeto não se concretizou. Frustrada em seus planos e sem ter obtido a revisão de tarifas, a Light direcionou todos os seus recursos e atenções para a geração e distribuição de energia elétrica nos 74 municípios de sua concessão exclusiva. Os transportes em bondes, que tinham sido até então o principal negócio da empresa e a razão de sua criação e de sua vinda para São Paulo, começaram a decair. A Light apenas cumpria tempo para chegar ao término do contrato, previsto para 1941.

Mas o mundo estava em guerra naquele ano. O comércio com o exterior estava paralisado e as suas dificuldades técnicas e financeiras se tornavam insuperáveis. Atendendo às ponderações do prefeito de São Paulo, o governo federal obrigou, por decreto, que a Light permanecesse em todas as suas atividades. Desta forma é que ela ainda prosseguiu até 18 de junho de 1947, quando foi instituído o monopólio dos transportes coletivos na capital. Para administrá-lo foi criada a CMTC (Companhia Municipal de Transportes Coletivos). A zero hora do dia 1º de julho daquele ano, a CMTC assumiu os serviços de bondes.

Na época, o patrimônio estava decadente e ultrapassado. As tarifas haviam permanecido inalteradas por 36 anos e os tempos já eram bem outros: os ônibus e os trolebus concorriam privilegiadamente com os bondes. Foram feitas algumas tentativas de recuperação das suas antigas qualidades. Novos veículos foram adquiridos, os serviços foram reformulados, o pessoal foi renovado, mas já era tarde. Na década de 60 teve início a sistemática extinção de linhas e os serviços foram ficando cada vez mais precários e deficientes. Era o fim de um transporte barato e não poluidor. Hoje, dos velhos bondes paulistanos só restam agora exemplares nos museus e suas imagens feitas, na maioria, por anônimos fotógrafos da Light.

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