Definição

... da totalidade das coisas e dos seres, do total das coisas e dos seres, do que é objeto de todo o discurso, da totalidade das coisas concretas ou abstratas, sem faltar nenhuma, de todos os atributos e qualidades, de todas as pessoas, de todo mundo, do que é importante, do que é essencial, do que realmente conta...
Em associação com Casa Pyndahýba Editora
Ano VI Número 63 - Março 2014

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Editorial

Margaret Lazzari, Aqueous, 2007. Acrylic on canvas, 80 x 75 inches.


Em plena crise (do grego krisis) econômica, TUDA continua uma graça - e de graça! Muito mais do que a crise, os gregos nos agraciaram com muita cultura - todos sabem que um radical grego não é o cidadão natural daquele país com posições extremadas. Segundo estudos, a língua portuguesa (aquela falada lá em Portugal!!!) tem mais 15.000 palavras de origem grega - só perdendo para o latim, com aproximadamente 80.000. Um fundamento basilar, portanto, da língua cá contrabandeada por Cabral e seus cúmplices!

E como é de gregos que falamos, TUDA faz uma homenagem bem brasileira aos gregos: dois poemas do grande divulgador da poesia grega moderna em língua portuguesa, José Paulo Paes. E para não despertar intrigas e dizerem por aí que TUDA é parcial, agradamos tanto aqueus quanto frígios - mais popularmente chamados de gregos e troianos. Já que a lendária cidade de Tróia situava-se nalgum lugar onde hoje fica a Turquia, TUDA traz uma tradução do poeta turco Nâzim Hikmet, feita por este que vos escreve.

E aos trancos e barrancos, a TUDA vai se desenrrolando, e este mês traz além dos já esperados pindaíbicos Arnaldo Xavier, Roniwalter Jatobá, Souzalopes e José Geraldo de Barros Martins, a poesia de Plínio de Aguiar, Santiago de Novais, Dorival Fontana e Pedro Du Bois, o ensaio de Ronald Augusto, a poesia de Mario Faustino vertido para o inglês, a ilustração de Mari Khnkoyan... muita coisa boa!

Aproveitem tudo de TUDA! E SEM NENHUMA MODERAÇÃO, que TUDA só é contra a INDIFERENÇA!!!

Na luta, companheiros... e TUDA de bom!


Dívida Interna


Editor
Eduardo Miranda

Capa
José Geraldo de Barros Martins

Digitação
Teresa Thinen & Eduardo Miranda

Revisão
Túlia Lopes, Eduardo Miranda & Teresa Thinen

Colaboradores
Ademir Demarchi, Arnaldo Xavier, Dorival Fontana, Eduardo Miranda, Hamilton de Faria, José Geraldo de Barros Martins, José Miranda Filho, José Paulo Paes, Mari Khnkoyan, Mário Faustino, Nâzım Hikmet, Pedro Dubois, Plínio de Aguiar, Ronald Augusto, Roniwalter Jatobá, Santiago de Novais, Souzalopes.

E-mail
tuda.papel.eletronico@googlemail.com

Poesias - Arnaldo Xavier

Funeral Procession is the name of a painting by Ellis Wilson

13

Princípio fundo
Espaço mínimo
Entre os dedos
e os olhos

Moeda rua cega nua dança
Sobre cama
de espinho

estrada dágua
a voar

A chuva

14

Se assim
flor
Faz sentido

A morte

15

Desfrute
às honras
do abutre
porta entreaberta do abismo

A cerimônia

[ in Entrada de Luz, inédito ]

Arnaldo França Xavier (Campina Grande, 19/11/1948 - São Paulo, 26/01/2004) foi poeta, escritor e pensador do movimento negro no Brasil. Publicou Boleros Pretos, A Roza da Recvsa, Ludlud e Manual de Sobrevivência do Negro no Brasil (ilustrado pelo chargista Maurício Pestana). Participou ainda de inúmeras coletâneas de bibliografia restrita e pequenas tiragens.

Poesia - Souzalopes

from 3D Art

não é a cobra que come cobra não é a cobra
que se arrasta rasteira infeliz infeliz
é o homem que não ama ele se deve
se devora se arrasa não é o homem
não é um homem é uma dor dorme se asa

Mário Luis de Souza Lopes, ou simplesmente Souzalopes, nasceu em Itajuípe, BA. Advogado, publicou, entre outros, o livro de poesia Todo Fogo.

Poesia - Hamilton Faria

Motherhood - Arianne Lequay


MÃE

Coração de mãe nasce onde ?
No horizonte ?
Ou brota da terra ?
Mas ( tirar o mas?) mãe nasce
Ou é iluminada ?
Mãe morre ou vira luz
Que sempre habita o sonho?
Mãe é sopro
Ou abraço?
Água
Laço
Brasa
Pássaro
Mãe tem rosto?
Ou só desgosto?
E na face tem rugas
Ou estrelas?
As mães nasceram na Índia
São da cor púrpura?
Lágrima que cai e muda
Em cristal
Ou sal
Mas mãe é carnal?
Mãe é Natal

Em que estação as mães nasceram
Maio ou primavera?
Qual o limite da mãe
A casa ou
A asa?
Ou a espera?
Onde termina a mãe
E começa o vôo?

Toda mãe é uma Vaca
Sacra
Cuja loucura é dar-se
Não é coisa pouca
Eu já disse
Toda mãe é louca
Leite e terra
Híbrida beleza
Regaço cansaço
Poesia pura
Que se mistura

Mãe não dorme
Mãe come?
Que eu saiba mãe
Não tem fome
Nem nome

Hamilton Faria realizou leituras poéticas em universidades no exterior, centros de cultura e encontros de artistas. Publicou poesia através de conhecidas editoras brasileiras - Civilização Brasileira, Marco Zero, Escrituras, Massao Ohno, Criar Editora, Editora Francis, Letra e Letras, além de outras publicações nos Estados Unidos, França, Índia, Espanha e Uruguai. Haikuazes, seu mais recente livro, foi publicado pela Escrituras Editora em 2006. Participa do Programa “O Escritor na Biblioteca” da Secretaria Municipal de Cultura da Cidade de São Paulo desde 1998, partilhando a poesia e sua obra poética com jovens dos bairros de São Paulo. Em 2002 foi eleito representante da Sociedade Civil no Conselho Municipal de Cultura da Cidade de São Paulo e contribuiu na redação de leis municipais e na reorganização do Conferência Municipal de Cultura da Cidade e na criação de Conselhos de Cultura de Paz. Publicou na Índia (2003) o livro “Re-enchanting the World”, em parceria com o poeta Pedro Garcia. Como poeta recebeu em Paris(2006) o prêmio da Academia Francesa de Artes, Ciências e Letras por relevantes serviços à Cultura Brasileira. Lançou seu livro na Feira do livro de Córdoba na Argentina (2007), e participou de debates realizados pela Unidade Temática da Cultura das Mercociudades. Em Santiago lançou seu livro Haikuazes em atividade promovida pela Embaixada do Brasil e União dos Escritores do Chile. Em dezembro de 2007 publicou a Carta das Responsabilidades do Artista, fruto de trabalho de artistas em rede mundial presente em paises dos vários continentes. É também professor titular na Faculdade de Artes Plásticas da FAAP e consultor literário e cultural de projetos no Brasil e exterior.

Poesia - Plínio de Aguiar

Mergulho, João Werner - pintura digital 30x40cm.

MERGULHO

Abaixo da superfície de arrepio da nesga de mar
Que vejo sentado no sofá na sala na manhã
Devem estar peixes, diversas cores, tamanhos,
Formatos diferentes no padrão de nado e guelras,
Escamados e encourados com listras e pintas
Que não eliminam a possibilidade de desejo.

Abaixo da superfície de arranhões da faixa de mar
Que sinto nos olhos parados estariam começo
E fim, vulcões, serpentes e pentes de sereias
Verdes, o próprio enigma de estar o que poderia
Não estar no trocadilho de horas enferrujadas,
dados do polifemo, Ulisses, regressos calados.

Abaixo da superfície de violência de sobra de mar
Que noto entre copas de árvores funciona usina,
Vultos submergindo-se originados de albumina
Mergulhando no verbo pronunciado em encontro
De águas, espuma, sonhos, argila. Guitarras
Emergem surpresas presas à quilha do último beijo.

SSA, maio 2010

Plínio de Aguiar viveu no México por quatro anos, quando fez cursos de pós-graduação em antropologia, educação e filosofia. É autor dos livros de poemas Lira rústica (2005) e Buraco na meia (2009), publicados pela Booklink Editora, Rio de Janeiro.

Poesia - Dorival Fontana

Anos Letivos

Não aprendi a soletrar,
Nem tão pouco a pensar.
Nunca escrevi redondinho
Ou li sem gaguejar.
Ouvi sempre um “ Não”,
Explodir os meus tímpanos,
Comprimir a minha cabeça,
Delimitar o meu sorriso.

- Com licença! Posso ir ao banheiro?
- Então, por favor, um pinico ligeiro.

Senti as pancadas de correção
Afagarem-me o âmago,
Quando esquecia o dever,
Trocava o “c” por “ç”
Ou não conseguia entender...
Nada era um simples engano,
Na velha escola, com a velha senhora
E a sua arcaica cartilha.

- Presente! Estou aqui sim.
- Apenas uma nota no boletim.

Recebi incentivos à frustração,
Decorar o que não se aprende
E a equacionar a inspiração.
Num ambiente ridículo circunspecto
Condicionei-me ao desestímulo,
Onde o lúdico timidamente perece,
O sarcasmo é a violência inocente...
Entre a indiferença do corpo docente.

- Digeri a minha ignorância em segredo.
- No quadro negro descobri o medo.

Dorival Fontana é paulista, poeta e escritor. Atualmente vive em Caconde, Minas Gerais.

Poesia - Santiago de Novais

PEDOFILIA

Sou uma criança que é abusada, todas as vezes que tiram do meu rosto o:
"olhar da criança para o doce".

Santiago de Novais, nasceu em Minas, Campos Gerais. É professor de idiomas, tradutor, educador e poeta.

Poesia - Pedro Du Bois

Marc Chagall
Green Landscape, 1949

PODERES

Subverto o poder, condicionado ao mito,
retiro da força o apego ao gênio
literário; esmoreço o começo e me arrojo
ao mundo abaixo das vistas, entrevejo
a glória incensada das orquídeas, símbolos
e dogmas repisados ao orgulho determinado
do poder – agora subvertido – ocultado.

Reafirmo a crença no vazio
da pedra concreta da inação
do tempo: a temporalidade
do minério escavado ao corpo

            despreparado, escuto gritos reais
            de descobertas: o encoberto jogo
            do poder sacralizado ao todo.


Pedro Du Bois é poeta e contista. Publica no blog http://pedrodubois.blogspot.com/.

Poesia - Ademir Demarchi

Władysław Podkowiński Cemetery. 1890–1892, pencil on paper.


Por entre os túmulos

passeio

distraído

por entre os túmulos

às vezes noto perdido

alguém que carrega

o próprio corpo

por sobre os ossos

de todos os mortos

Ademir Demarchi nasceu em Maringá, Paraná, em 1960. Reside em Santos, SP. É doutor em Literatura Brasileira pela USP, é editor de BABEL – Revista de Poesia, Tradução e Crítica. Entre outros, é autor de Os mortos na sala de jantar (Realejo Livros, 2007) e organizador de Passagens – Antologia de Poetas Contemporâneos do Paraná (Imprensa Oficial do Paraná, 2002). Tem trabalhos publicados em várias revistas eletrônicas, como Agulha, El Artefacto Literario, Tanto e Critério.

Crônica - Roniwalter Jatobá

Solitude, Marina Harris

Segredos da solidão

Em São Paulo tem muita gente só. Segundo pesquisas, há hoje mais de 500 mil lares de solitários. No mundo da metrópole, cada vez mais aumenta o número de pessoas que buscam ficar “na sua”. Conheço muitas. É uma opção de vida.

Aristides era uma delas. Num bar em Santo Amaro, sempre o encontrava, nas horas de pouco movimento, polindo a pedra azulada de mármore desgastada do balcão. No final da noite, quando não havia mais fregueses, sentava numa mesa de ferro e ficava ali, até bem tarde da noite, junto à escada que leva ao banheiro, de cabeça baixa, parecendo fitar num olhar sem fim o reflexo de sua antiga juventude no copo amarelado de conhaque.

Era um faz-tudo, inclusive cozinheiro. Aprendeu no mar a fazer o badejo ou a corvina assados na brasa que até Deus perdoava o pecado da gula. Viera de cidadezinha do litoral do Ceará, onde ainda viviam os pais. O pai era pescador, a mãe cuidava de casa e de uma turma de filhos. Chegou com um amigo num caminhão pau-de-arara. Desceram no Brás. Seu primeiro emprego foi na padaria do bairro, serviço que nunca tinha feito antes em sua terra. Não ganhava muito, mas gostava do lugar quentinho nas noites frias na cidade.

Seus pratos simples, preparados com apuro, eram disputados entre meio-dia e uma hora por esfomeados peões da construção civil e até mesmo metidos executivos engravatados. Se tivesse um pouco de sorte, dividiria a sociedade com o dono do boteco e, em pouco tempo, talvez pudesse figurar entre os donos de restaurante de origem nordestina que começaram como lavadores de pratos e se deram bem em São Paulo.

Em determinada época, era um ser muito triste. O segredo de sua solidão foi o amor não correspondido por uma mulher com quem, um dia, se casara. Conhecera Janice numa confeitaria. Seis meses depois, entre risos e beijos, se uniram na igrejinha localizada ao lado da avenida Santo Amaro.

A mãe da moça foi a grande ausência na cerimônia.

-- A gente já é pobre e você vai se casar com um rapaz mais pobre ainda? – disse à filha na época apaixonada.

Veio a resposta inevitável:

-- O quê que tem? Ele é trabalhador.

-- Sem dinheiro nin­guém vale nada hoje – afirmou a mãe com suave crueldade. -- Casar com gente pobre hoje não é bom negócio.

Anos depois de casados, Aristides resolvera deixar Janice e, numa véspera de Ano-Novo, arrumou suas coisas e sumiu no mundo.

Há coisa de duas semanas, encontro com ele numa rua do Itaim Bibi. Com boa aparência e mais falastrão, comentou das dificuldades de morar sob o mesmo teto com a sogra e a própria mulher que viviam cobrando para que ele fosse rico.

-- Fugi das megeras, sim, e por um bom tempo fui viver de novo na minha terra – me contou. – Depois da volta, vivo só e feliz.

Seguimos os dois pela rua Joaquim Floriano. Na esquina com a rua Bandeira Paulista, me despeço. Antes, porém, pergunto por Janice. Ele não responde e, sem olhar para trás, atravessa cauteloso a via tomada de carros. Na calçada ao lado, Aristides se volta e acena com a mão direita. Deu para entender que Janice era, realmente, coisa do passado.

Roniwalter Jatobá, jornalista, e escritor, publicou, entre outros, os livros Sabor de química (1977), Crônicas da vida operária (1978), Filhos do medo (1980), Viagem à montanha azul (1982), Trabalhadores do Brasil: histórias do povo brasileiro (1998, organizador), O pavão misterioso e outras memórias (1999), Paragens (2004), Rios sedentos (2006, voltado para o público infanto-juvenil), Viagem ao outro lado do mundo (2009) e Contos Antológicos (2009). Para a coleção “Jovens sem fronteiras”, publicou O jovem Che Guevara (2004), O jovem JK (2005), O jovem Fidel Castro (2008) e O jovem Luiz Gonzaga (2009).

Conto - José Geraldo de Barros Martins

O Estrangeiro

Nas primeiras vezes em que aquele homem foi ao Bar do Dimas, perto do Aeroporto de Congonhas, ninguém reparou muito naquele homem de meia idade, entrava pedia um undenberg depois uma cerveja, lia o jornal Deutsche Zeitung, pagava e ia embora, de vez em quando falava em voz baixa no celular... só repararam que ele era estrangeiro... depois perceberam que ora atendia o celular em espanhol, ora em alemão, ora em inglês, ora em francês e ora em outro idioma desconhecido... o pessoal do bar achou estranho... porém quando souberam do rifle a coisa ficou séria... descobriram que o estrangeiro alugara um galpão nas imediações do bar e que sempre que entrava no galpão com um rifle em punho...quem contou foi o carteiro que ao entregar uma encomenda estranhou o homem carregando aquele troço... - “Que coisa mais estranha... este cara não sei não... deve ter alguma coisa...”

Logo começaram a surgir conjecturas... alguém falou que ele devia ser um ex-agente da DINA (a polícia secreta de Pinochet), outros achavam que ele era um dos homens fortes da temível Escola de Mecânica da Armada (Instituição da Marinha Argentina que se transformou em um centro de tortura), outros ainda disseram que ele era uma um daqueles mercenários alemães que Klaus Barbie contratou quando tentou instituir o 4º Reich na Bolívia... somente o Zé, que era o garçom do boteco, que discordava dizendo: - “Que nada... este gringo não é nada disso... não sei o que ele faz... só sei que este cara é um gênio!!!”

Na primavera daquele ano, foi solucionado o mistério... diversas reportagens nos principais jornais destacaram a presença do maior gênio das artes plásticas atuais na Bienal de Sâo São Paulo: um alemão que para protestar contra as guerras no Oriente Médio elaborou uma série de painéis onde perfurações de balas de fuzil sobre enormes chapas metálicas formavam os logotipos das principais companhias petrolíferas...

Passada a Bienal o estrangeiro deixou de frequentar o Bar do Dimas e regressou a sua terra natal... O Dimas porém ficou uma pulga atrás da orelha e perguntou ao seu único garçom:- “Zé, como é que você descobriu que no o cara era um gênio???”

-“Ora, foi muito fácil... ninguém percebia, mas apesar de não saber alemão notei que o gringo só lia aquele jornal de cabeça para baixo, ou de ponta-cabeça como dizem os paulistas... ora um cara que lê o jornal desta maneira ou é um gênio ou é uma besta... como o cabra falava várias línguas então só podia ser um gênio.
José Geraldo De Barros Martins é de São Paulo. Músico, pintor e escritor, desde 2001 publica seus desenhos e escritos no blog http://zegeraldo.free.fr.

Conto - José Miranda Filho


O Retrato do Sertão – 4

O sol forte e indolente se escondeu no horizonte levando mais um dia da esperança do sertanejo, enquanto implorou e rezou pela chuva que não veio. Já estamos no mês de julho e a vontade de Deus, mercê das procissões e novenas com a imagem de São José subtraída às escondidas da igreja, não trouxe chuva. O jeito era esperar por mais um ano.

A “faveira” de vagens robustas e nutritivas era a única fonte de alimento que restava. Sua folhagem abundante e esparsa serve para o sertanejo abrigar-se do sol quente enquanto alimenta o rebanho faminto, às vezes a própria família. O juazeiro ainda ostenta suas folhas verdes desafiando a seca bravia. O imbuzeiro e o mandacaru persistem com sua robustez, aliciar a fome do rebanho que se aviltam ao sol causticante. Alhures via-se raras espécies de aroeiras com galhos secos iniciando a florada. O carimã que Mãe Crisalda preparou com esmero, já se encontrava sobre a mesa de madeira rústica para deleite dos convidados.

- Geraldina, não vai... fica... implorou a cunhada, pedindo para que ela ficasse na festa de batizado de Agapito.

- Não posso, Giselda... o Tonho ficou de me apanhar aqui logo mais. Já combinamos... e além do mais, não quero me encontrar com Sá Lorena, aquela intrusa e mexeriqueira. Você bem sabe que não gosto dela. Quem mandou convida-la?

- Ninguém a convidou, ela é que é intrometida! Ela ficou sabendo da festa no armazém de Maninha e disse que vinha. O que posso fazer?

- Tudo bem, Giselda, disse Geraldina um tanto chateada. Depois do sarau de dona Elvira eu e o Tonho passaremos por aqui, tá bom?

- Esperamos!

A desculpa que Geraldina dera era mais do que satisfatória e sincera, porém, desconfortante por não poder participar do batizado do sobrinho.

Giselda sabia dos entreveros que Geraldina tivera com Sá Lorena e não desejava que se repetisse, ainda mais na festa de batizado do seu filho.

Geraldina colocou uma muda de roupa no alforje, montou na garupa da mula que Tonho cavalgava e se foram, antes da chegada de Sá Lorena e Seu Juvenal.

Ruídos de cavalgadas ouviam-se à distância, enquanto a canjica, o bolo de fubá e a broa eram feitos por Marilda e Marilena.

Agamenon e seus irmãos, Seu Quincas, Mãe Crisalda, Maninha e seu filho Zequinha e outros que já haviam chegado aguardavam no terreiro. O fogo ardia incessantemente, às vezes impedindo o brilho das estrelas pela fumaça que fazia. Mas nada disso era motivo para atrapalhar a festa de batizado de Agapito.

Sobre o carvão candente espigas de milho verde aguardavam o momento de serem consumidas. Esperavam por Sá Lorena e seu marido, que sem o consentimento de Giselda, estavam à caminho.

De repente alguém gritou lá da porteira.

-Sá Lorena e Seu Juvenal estão chegando!

- Apeiem-se e se acheguem, disse Agamenon, com gesto toste e um sorriso disforme a denunciar-lhe a falta de alguns dentes.

Sá Lorena e Seu Juvenal apearam. Enquanto ela se dirigia ao terreiro para juntar-se aos demais convidados, ele amarrava o cavalo num pequeno tronco de oiti ao lado da casa. Cumprimentaram o pessoal e se sentaram.

Sá Lorena que a tudo observava, logo foi perguntando por Geraldina.

– Cadê Geraldina?

- Ela foi até a casa de Zeca Vaqueiro convidá-lo, mas logo estará de volta, respondeu Maninha, sabendo das intenções maldosas de Sá Lorena.

- Como vai Maninha, perguntou Seu Juvenal, antes mesmo de cumprimentar Mãe Crisalda, que revirava as espigas de milho, do outro lado da fogueira.

- Tô bem. Só o Zequinha que de vez em quando tem a mania de querer ir embora pra São Paulo... isso me entristece e me aperreia. O pai não fala nada... quando diz alguma coisa, pede pra eu deixar de ser besta porque é melhor pra ele. Em São Paulo arruma emprego, estuda e pode se tornar alguém na vida.

- Tá certo o Leonildo mulher, deixe de ser tonta! Interrompeu Sá Lorena, curiosa pra querer saber de mais detalhes.

- Mas, Seu Juvenal eu fico cá com meus miolos queimando de aflição, respondeu Maninha ignorando a intervenção de Sá Lorena.

- Tem que deixar mesmo Maninha, se for para o bem dele, interrompeu Seu Quincas, que se aproximava do grupo sob o olhar reprovativo de Sá Lorena, com quem tivera algumas desavenças no passado, sobre invasão de terras.

Com a chegada de Agamenon, que trazia a cuia de mandioca e algumas espigas de milho assadas, a conversa se encerrou e todos se perfilaram ao redor da fogueira.

Cada um pegou seu par para dançar e pular o braseiro, menos Agamenon e Giselda ,que serviam os convidados. Pularam por três vezes ao redor da fogueira dando vivas a São João. Depois aclamarem os padrinhos de Agapito, foi a vez de Mãe Crisalda pular o braseiro com Giselda e Agamenon que trazia o filho nos braço, pedindo para que São João os abençoassem como compadres.

Estava batizado o filho de Agamenon que Nhá Marina não conheceu.

O registro civil se daria dali a três meses ou mais, quando a chuva que tardou esse ano trouxesse fartura e alegria. A crisma seria feita quando padre Fausto passasse pela região.

Madrugou, e todos os convidados alegres pelo efeito da carimã se retiraram para suas casas. Conversando no oitão, deitados na rede tecida de algodão e fumando cigarro de palha, ficaram apenas Agamenon e Agaciel à espera de Geraldina que tardava chegar.

José Miranda Filho, ex-Presidente e fundador do PMDB em São Caetano do Sul, Venerável Mestre da Loja Maçônica G. Mazzini (grau 33), é advogado e contador, colabora com o jornal ABC Reporter e atua como Diretor Financeiro do Conselho Gestor do Hospital Benificente São Caetano. Posta no Blog do Miranda.

Tradução - Eduardo Miranda

Nazım Hikmet Ran (20 de Novembro de 1901 – 3 de Junho 1963) foi um importante poeta e dramaturgo turco, conhecido na Europa como o melhor poeta de vanguarda da Turquia, sendo os seus poemas traduzidos para diversas línguas. Para o português foi traduzido do espanhol, do italiano e do inglês... Aqui, direto do turco!

Seis horas da manhã.
Abri a porta para o dia e entrei,
da janela da juventude me cumprimentou um gosto de azul,
encontro no espelho as rugas de ontem
e na nuca uma voz de mulher, macia como a penugem dos pêssegos
no rádio as notícias do país atiçam a minha gula
eu correria por horas, de árvore em árvore, neste jardim de mim
e o sol se põe entre minhas carícias
e espero que, além da noite
um novo gosto de azul me cumprimente, espero ...


Sabah saat altı.
Açtım günün kapısını girdim içeri,
karşıladı beni pencerede genç mavinin tadı,
aynada alnımın dünden kalma çizgileri
ve ensemde bir kadın sesi ayva tüyü gibi yumuşak
ve radyoda memleket haberi ve artık oburluğum dolup dolup taşarak
koşacağım ağaçtan ağaca saatlerin yemiş bahçesinde
ve güneş batacak yavrum
ve umuyorum, gecenin ötesinde
bekliyecek beni yeni bir mavinin tadı, umuyorum...


Leia mais Nâzım Hikmet aqui.

Eduardo Miranda é músico, escritor, poeta, e tradutor. Guitarrista e fundador do grupo WEJAH, atualmente dirige o projeto musical The Virtual Em3, faz parte da banda Wellfish e é parte do Stillwater Project. Publicou Quase (Casa Pyndahýba, poesia, 1998) e as coletâneas Amigos (Casa Pyndahýba, 1994) e Contra Lamúria (Casa Pyndahýba, 1995). Editor-mor da TUDA, dá expediente em alguns blogs por aí, e nas horas vagas é Consultor de Tecnologia da Informação em Dublin.

Foreign Words - Mário Faustino

Carpe Diem
translated by Eduardo Miranda *

What do I do of this day, which adores me?
Pull him by the tail, suddenly
Before the redness sneaks from my feast?
Or catch him in a word, in a song,
Vowing the sun, engrave the day in a stone?
Braveness is storing him in me, so at least
One of these tremendous nights she leaves her nest
Taking him from the previous night, blest
Slave of the female from whom he had ran way
For me, for my voice, for my everyday.

(But now I see the shadows covering
So deaf to the noble dream of staying.
The - already death - moonlight stay,
Built in betrayal: it goes away.)

Mário Faustino was born in Teresina, Piauí, on October 22, 1930. He started his journalism career as a columnist in a periodic called A Província do Pará, at 16. He got a bursary in California from 1951 to 1952, where he studied English literature. He published only one book in life - O Homem e a sua Hora (The man and his Time), in 1955. He worked for UN as translator, in New York, from 1959 to 1960. He died on November 27, 1962, victim of a plane crash in Peru, while traveling in a journalistic mission.



Carpe Diem - Mário Faustino

Que faço deste dia, que me adora?
Pegá-lo pela cauda, antes da hora
Vermelha de furtar-se ao meu festim?
Ou colocá-lo em música, em palavra,
Ou gravá-lo na pedra, que o sol lavra?
Força é guardá-lo em mim, que um dia assim
Tremenda noite deixa se ela ao leito
Da noite precedente o leva, feito
Escravo dessa fêmea a quem fugira
Por mim, por minha voz e minha lira.

(Mas já de sombras vejo que se cobre
Tão surdo ao sonho de ficar – tão nobre.
Já nele a luz da lua – a morte – mora,
De traição foi feito: vai-se embora.)

Mário Faustino nasceu em Teresina, Piauí, em 22 de outubro de 1930. Iniciou no jornalismo como cronista em Belém em A Província do Pará, aos 16 anos. Foi bolsista na Califórnia, de 1951 a 1952, onde estudou literatura de língua inglesa. Publicou um só livro – O Homem e sua Hora, em 1955. Foi tradutor da ONU, em Nova York, de 1959 a 1960. Faleceu em 27 de novembro de 1962, vítima de um acidente aéreo no Peru, quando viajava em missão jornalística.

* Eduardo Miranda is musician, writer, poet, and translator. As musician he was WEJAH's lead guitar and co-founder. Nowadays he develops The Virtual Em3 project, leads the guitar in The Wellfish and contributes to the Stillwater Project. As poet and writer, he has published Quase (Casa Pyndahýba, 1998) and the collections Amigos (Casa Pyndahýba, 1994) and Contra Lamúria (Casa Pyndahýba, 1995). Editor of the e-zine TUDA, he also writes in some blogs and works as ICT Consultant in Dublin.

Releitura - José Paulo Paes

Tradutor de poemas e poeta ele próprio, José Paulo Paes nasceu em 1926 e morreu 9 de Outubro de 1998. Além de poeta e tradutor, também foi crítico e ensaísta de imensa contribuição à literatura brasileira. Um dos poemas mais significativo de José Paulo Paes é "Ode à minha perna esquerda". José Paulo tinha aterosclerose, e com o agravamento da doença, veio a gangrena e uma perna teve de ser amputada. Daí o poema...

Amputation, by Wanda Szubielski - Oil on canvas & framed

Ode à minha perna esquerda

1

Pernas
para que vos quero?
Se já não tenho
por que dançar,
Se já não pretendo
ir a parte alguma.
Pernas?

2

Desço
que subo
desço que
subo
camas
imensas.

Aonde me levas
todas as noites
pé morto
pé morto?
Corro, entre fezes
de infância, lençóis
hospitalares, as ruas
de uma cidade que não dorme
e onde vozes barrocas
enchem o ar
de p
a
i
n
a sufocante
e o amigo sem corpo
zomba dos amantes
a rolar na relva.

Por que me deixaste
pé morto
pé morto
a sangrar no meio
de tão grande sertão?

não
n ã o
N Ã O !

3

Aqui estou,
Dora, no teu colo,
nu
como no princípio
de tudo.

Me pega
me embala
me protege.
Foste sempre minha mãe
e minha filha
depois de teres sido
(desde o princípio
de tudo) a mulher.

4

Dizem que ontem à noite um inexplicável morcego
assustou os pacientes da enfermaria geral.

Dizem que hoje de manhã todos os vidros do ambu-
latório apareceram inexplicavelmente sem tampa,
os rolos de gaze todos sujos de vermelho.

5

Chegou a hora
de nos despedirmos
um do outro, minha cara
data vermibus
perna esquerda.
A las doce em punto
de la tarde
vão-nos separar
ad eternitatem.
Pudicamente envolta
num trapo de pano
vão te levar
da sala de cirurgia
para algum outro (cemitério
ou lata de lixo
que importa?) lugar
onde ficarás à espera
a seu tempo e hora
do restante de nós.

6

esquerda direita
esquerda direita
direita
direita

Nenhuma perna
é eterna.

7

Longe
do corpo
terás
doravante
de caminhar sozinha
até o dia do Juízo.
Não há
pressa
nem o que temer:
haveremos
de oportunamente
te alcançar.

Na pior das hipóteses
se chegares
antes de nós
diante do Juiz
coragem:
não tens culpa
(lembra-te)
de nada.

Os maus passos
quem os deu na vida
foi a arrogância
da cabeça
a afoiteza
das glândulas
a incurável cegueira
do coração.
Os tropeços
deu-os a alma
ignorante dos buracos
da estrada
das armadilhas do mundo.

Mas não te preocupes
que no instante final
estaremos juntos
prontos para a sentença
seja ela qual for
contra nós
lavrada:
as perplexidades
de ainda outro Lugar
ou a inconcebível
paz
do Nada.

José Paulo Paes deixou o poemas inéditos que sairiam no livro Socráticas. O poema a seguir, "Dúvida", foi escrito horas antes de sua morte...

Dúvida

Não há nada mais triste
do que um cão em guarda
ao cadáver de seu dono.

Eu não tenho cão.
Será que ainda estou vivo?

Ilustração - José Geraldo de Barros Martins


José Geraldo De Barros Martins é de São Paulo. Músico, pintor e escritor, desde 2001 publica seus desenhos e escritos no blog http://zegeraldo.free.fr.

Ilustração - Mari Khnkoyan

Mari Khnkoyan, Broken Dreams of Marilyn - Oil on canvas (62x72)


Mari Khnkoyan, nasceu na Geórgia. Graduada pelo Tbilisi Musical College e pelo Tbilisi Small Academy, é membro ativo da Associação de Artistas Georgiano. http//www.khnkoyan.com/home.htm.

Ilustração - Mari Khnkoyan

Mari Khnkoyan, Broken Dreams of Marilyn - Oil on canvas (62x72)


Mari Khnkoyan, nasceu na Geórgia. Graduada pelo Tbilisi Musical College e pelo Tbilisi Small Academy, é membro ativo da Associação de Artistas Georgiano. http//www.khnkoyan.com/home.htm.

Ensaio - Ronald Augusto


A MESA POSTA

Principio minha leitura a propósito de um dos mais recentes livros* de Ademir Demarchi, Os mortos na sala de jantar (Realejo Edições, 2007), sob o signo de uma máxima de Nietzsche, que diz: “Por fim amamos o próprio desejo, e não o desejado” (Além do bem e do mal, 1885). Com efeito, nosso apetite pela morte e suas representações só diminui quando, a contrapelo da famosa boutade de Duchamp, nos damos conta de que nem sempre são apenas os outros que morrem. Entretanto, graças a essa dura percepção de que a vida nos facultará, cedo ou tarde, um enterramento, é que Ademir pode esboçar as linhas de um sorriso e sonhar com uma “lápide” de Jacques Lacan, na qual constasse: “Não poderíamos agüentar nossas vidas se não tivéssemos a certeza de que, um dia, essa história vai acabar”. Mas, expressões do tipo “mais cedo ou mais tarde”, “um dia”, etc., não passam de circunlóquios disfêmicos de que dispomos para tentar antepor uma ligeira suspensão, simulando uma “questão de ordem”, frente ao triunfo da morte.

Contudo, a poesia “poeticamente incorreta” de Os mortos na sala de jantar, desde o início adverte o leitor para a necessidade de deixar de lado toda esperança ao entrar no livro que tem diante de si: “bem-vindo à existência fútil e erétil/ daqui não há retorno/ e em instantes, nem sono/ ao passar pela aduana...”. O leitor ao sacar o volume da estante, como se puxara uma gaveta mortuária, lê nos poemas ali embalsamados, a um só tempo, a epígrafe e o epitáfio de um percurso de linguagem. Selecionados, combinados, e franqueados à visitação pública, os despojos de escavações sacrílegas - o desígnio do acervo que começamos a vasculhar nos faz retroagir à palavra grega sema, que admite as acepções tanto de “signo” como de “sepultura”. Com espírito poundiano, Ademir Demarchi saqueia as catacumbas da barbárie: “durante décadas/ inglaterra e estados unidos/ compravam montanhas e montanhas de múmias/ trazidas por seus indianas jones/ a preços que chegavam a 18 dólares a tonelada/ para usá-las como combustível em locomotivas/ e matéria-prima de papel de embrulho”. Desprendem-se dos sons e dos sentidos, tanto o “olor que afugenta o tédio”, como o vapor fétido das vísceras do faraó recheando o vaso de canopo.

As figurações mortuárias de Ademir Demarchi não poetizam o assunto, a metáfora da morte como “ante-sala da ressurreição” é aqui descartada. Versos como estes do poeta alemão Lohenstein: “Quando o Senhor colher a messe ao cemitério,/ Eu - caveira -, num rosto de anjo me revelo”, resultam edulcorados demais se confrontados às signâncias antropofágicas de Ademir Demarchi. Na invenção da (sua) morte, o poeta traz para o foco da fatura escritural em apreço, por exemplo, a industriosidade capitalista no comércio rapace das funerárias, a “linha de desmontagem” de um hospital que a guerra do Iraque fez se apossar de parte de um cemitério (digamos que para otimizar as coisas), o cadáver pop e libidinoso de Carmen Miranda enterrado “com o tailleur vermelho sangue”, a mortandade espetacular causada pelo incêndio do edifício Joelma, etc. Os mortos na sala de jantar é um álbum-síntese em que vão abrigados no interior de sua economia compositiva os vários registros da tópica do além-túmulo através dos tempos e das culturas, e onde se atritam o kitsch e o aristocrático; os defuntos de Evita e Ramsés “livres de sangue e fezes”.

Roman Jakobson, estudando o “riso ritual” no contexto medieval, argumenta que é “a hilaridade que possibilita ao homem comum terreno reafirmar-se face à face com o Misterioso”, forma pela qual nos referimos alusivamente à morte - mais uma vez a escolha por tratar a coisa de modo não-direto, a parábola, o trapaceio no jogo de xadrez visando a alterar o resultado anunciado desde o primeiro lance, etc. E é mesmo com o mascaramento, com as personae da hilaridade, ou seja, com o esquizo condensare do poema - esta outra forma de escarificação tumular por meio da qual o poeta mortifica a língua cotidiana -, que Ademir Demarchi consegue se haver consigo mesmo no que diz respeito, por exemplo, ao quesito da mortalidade pessoal. Como no paradoxo do sorriso do Gato de Cheshire, onde vemos desabrochar um “sorriso sem gato”, o sorriso persistindo quando já não há mais corpo, nem indício do felino no ar, o poeta tem ciência da sua decomposição, do seu perecimento, enfim, do próprio desaparecimento. Mas, ao deparar com o seu “juízo final” - e ele talvez, neste momento, parodie um verso de Manuel Bandeira dizendo “mas que juízo final pode satisfazer meu sonho de juízo final?” -, o poeta não perderá a chance de, afinal, arreganhar um sorriso malandro. Mais deserto do que diserto, o poeta escreve aos pósteros a ode “Da maturidade”: “adulto/ maduro/ defunto”. E, condenado ao mausoléu, à memória sem imaginação, sem physis nem techne, resta-lhe o não-ser do medalhão: “moderno/ moribundo/ eterno”.

Mallarmé, no Un coup de dés, poema espalmado contra a quase impenetrável negrura semântica do branco da página, também reconhece a hilaridade, “gargalhada sombria” do pensamento contra o “veludo enrugado” da meia-noite, como estratagema de que se deve dispor quando se trata de sonhar, ou sondar, o vazio, a esterilidade, o naufrágio, enfim, estas outras figurações com que a morte se honora. O poema, arrancado ao fracasso, se insinua ao silêncio, e enrolado em ironia ou mistério, se precipita num tourbillon d’hilarité et d’horreur. O riso mallarmeano é o riso eterno da caveira, da insânia, do nada onde toute réalité se dissout.

Dissipa-se a realidade, “desaparece o corpo/ permanece o morto” na luz suja dos seus ossos. Se o carpe diem da nossa realidade, que vai, cai (come corpo morto cade do versículo dantesco) e acaba-começa num “ai”, abona a solução paronomástica womb/tomb urdida por Ademir Demarchi, por seu turno, a metáfora barroca do teatro de Calderón de la Barca, segundo a qual “a vida é sonho”, envereda para a imagem-soma de que, em fim de contas, encenamos, aqui e agora, o drama desta outra morte de “aquém-túmulo”. Tomando um desvio a partir de Paul Valéry, para quem o ser é um defeito na pureza do não-ser, Ademir fala de um desnascer na e para a morte, projeção da vida como pesadelo. Produto da “ambigüidade falível” do humano, a morte, como diz o poema de enterramento do livro, “Epitáfio Final”: “...é uma invenção”. O poeta, “através de” Ramsés, e sem fazer as vezes do moralizador, confessa: “meu túmulo/ minha maior obra”. E aí se envagina.

* Em 2008, o poeta lança pela Editora Éblis (Porto Alegre) o volume de poemas Passeios na floresta.

Ronald Augusto nasceu em Rio Grande (RS) a 04 de agosto de 1961. Poeta, músico, letrista e crítico de poesia. É autor de, entre outros, Homem ao Rubro (1983), Puya (1987), Kânhamo (1987), Vá de Valha (1992), Confissões Aplicadas (2004) e No Assoalho Duro (2007). Despacha no blog poesia-pau.

Autores

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