Definição

... da totalidade das coisas e dos seres, do total das coisas e dos seres, do que é objeto de todo o discurso, da totalidade das coisas concretas ou abstratas, sem faltar nenhuma, de todos os atributos e qualidades, de todas as pessoas, de todo mundo, do que é importante, do que é essencial, do que realmente conta...
Em associação com Casa Pyndahýba Editora
Ano VI Número 63 - Março 2014

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Editorial

Sonhos e paixões II ~ Gil Teixeira Lopes

“Debaixo da tempestade
sou feiticeiro de nascença
atrás desta reticência
tenho o meu corpo cruzado
e a morte não é vingança”,

~ Torquato Neto, in Engenho de Dentro, Diário.

Novembro TUDA ~ TUDA Novembro!

Sempre digo que quem parte deixa algo para trás, seja uma emoção, um lugar, um alguém... quem parte divide, quem parte quebra. E partir também significa dividir, separar... é o sentido não-galício da palavra, se nos permitirmos. E ainda assim podemos ver o sentido comum de quem parte - separação, divisão, quebra. Seja algo ou seja alguém, todo mundo parte, hora ou outra. Seja algo que provoque alterações no estado de alguma coisa, ou algo que mexa com as emoções de alguém.

Seja num corte, numa interrupção, num abalo... sempre haverá alguém a partir, a romper, a rachar, a fender... reduzindo em pedaços, fraturarando, fragmentando, infringindo... e sempre terá alguém enfraquecido, debilitado, abatido, perturbado, interrompido... alguém pensando em desfazer, em violar, em transgredir, em dissipar, em pôr termos a algo, e com tudo acabar!

Partir.

Todo mundo parte, ao menos uma vez... nem que seja a última partida, rumo à última parada...

parto como se saudoso fosse
solitárionauta nessa ilha-verde-do-nada
calo-me num grito tão alto
como o silêncio que aterroriza de branco
o canto escuro em que plantei poesia
num dia claro de verão paulista
artista sem o filtro das aglutinantes cores
nem branco tampouco preto
quieto & ausente dessentido e despresença
garimpo-galope louco de desejo
com pexeira & verbo na boca em riste
caiste rápino como pôde &
sobresaio eu deste ninho de conformes
disforme-alguém que fui & ao partir
parto cu'a impressão de ir tarde:
mas sem alarde, cumpadre, sem alarde...

Sem saber se parte ou se fica, chega esta TUDA, desencanada e fulgorosa, manipuladora do tempo lheio & alheio, mais para ficar do que para partir, partindo corações no balanço das horas, trazendo os já conhecidos pyndahýbicos, uns já partidos, outros ainda não (toc, toc, toc), destemundo & d'outraléns, lutando para ficar neste, vem TUDA, chegada & partida, lembremática, diagnóstica, suportiva de causas também nobres (mobro.co/eduardomiranda), TUDA homenageia Lou Reed - senão deus, que alguém o tenha! - e um pouco de Cecília Meireles, Torquato Neto, Bruno Tolentino, Cruz e Sousa, Zé Rodrix e Raduan Nassar, para temperar!

É isso aí companheiros, na velha e suja LabUTA do dia a dia, que não bastasse ser suja, imunda mesmo, pode mostrar-se também fedorenta e asquerosa. Abaixo os Grandes Irmãos dos países que têm seus estados todos unidos - no mapa e na arrogância de se acharem os senhores do mundo - mas que em suas próprias questões internas não conseguem juntar dois com dois para dar quatro. E como podem se achar tão superiores se ainda nem conseguiram se livrar da máscara que distingue branco de preto de amarelo e de vermelho! Espanta Obama estar vivo...

QG de TUDA Novembro
fotomontagem de Eduardo Miranda
Asyno Eduardo Miranda
o (auto-proclamado) editor
deste porto semisseguro da jlha do Eire
oje, dezº qvjmº dia do dezº primº mez
d este Anno Domini de MMXIII

Dívida Interna

"... a sabedoria do homem amadurecido está precisamente em não se fechar nesse mundo mesquinho: humilde, ele abandona sua individualidade para ser parte de uma unidade maior..."
~ Raduan Nassar in Lavoura Arcaica

Editor
Eduardo Miranda

Capa
José Geraldo de Barros Martins

Blogagem
Eduardo Miranda

Revisão
dos autores

Participam desta edição:
Aldo Votto, Andy Warhol, Aristides Klafke, Arnaldo Xavier, Benjamin Girard, Bruno Tolentino, Cesar Cruz, Chihilo Mathui, Christopher Cox, Cruz e Sousa, David Lewis, Dorival Fontana, Eduardo Miranda, Evelyn De Morgan, Gil Teixeira Lopes, Hans Anderson Brendekilde, José Carlos de Souza, José Geraldo de Barros Martins, José Miranda Filho, Marina Alexiou, Neal Barbosa, Plínio de Aguiar, Randall Weidner, Ricardo Fernandez Ortega, Roniwalter Jatobá, Salvador Dali, Torquato Neto, Walter Frederick Osborne e Zé Rodrix.

E-mailtuda.papel.eletronico@gmail.com

Poesia - Arnaldo Xavier


subsenhor           E Xangô pedra lhes disse: Eu não quero suas orelhas
Quero seu coração caindo do céu       Crivado de estrelas

[ in Lud-Lud, Casa Pyndahýba Editora, São Paulo, 1998 ]

Poesia - Aristides Klafke

Campbell's Soup Cans Andy Warhol, 1962

6

Na mente vírus viram parasitas
No coração vírus não viram verso

Simplesmente proliferam
E proliferam como sentenças
Promíscuos

Parasitas na mente
Paraísos em sucessão
Caminhadas abruptas
De um polo ao outro

No coração, ora, no coração
Vírus não viram verso
Viram sentenças
E verso no coração
Acaba virando tremor

Vírus viram vírgulas
Vírus viram traços
Vírus viram tremas
Viram dois pontos

Daí o caso da questão
Que nada tem a ver
Com a resposta dada de antemão

Como agora por exemplo
São os primeiros a chegar
Os últimos a sair

[ in Quebrada, inédito ]

Poesia - Plínio de Aguiar

AThe Crossing, by Elizabeth Chapman
Interior

Atravessamos caminhos, flores,
livros abertos abandonados, estrelas,
jardins molhados, peixes, sonhos
interrompidos em manhãs violentadas,
                                                          galáxias.

Atravessamos mar, desejos, pulos
pré-históricos de vozes gargueladas,
a lâmpada, a noite, maçãs, átomos
vociferantes
                                        atravessamos tudo
                                        e nada.

[in Lira Rústica, Booklink, 2005]

Poesia - Dorival Fontana

The Great Depression ~ David Lewis, 1912
1º de Maio

Se me falta trabalho
antes me falta disciplina.
O serviço anda escasso
e eu me encontro inapto
na fila do desemprego.
Sei que tenho força, mas
não tenho vontade,
se tenho vontade
logo se esgota e
a força nenhuma
vontade é legítima.
Trabalho sujo não é comigo,
lavo as mãos se for preciso
e como a água anda em falta,
melhor procurar algo mais limpo.
Trabalho pesado me afunda
até o pescoço.
Trabalho leve se vai com qualquer
pé de vento.
Trabalho sentado me dói as costas,
em pé me dói as pernas.
Trabalhar a noite é de dar sono,
de dia é de tirar o sono.
Trabalho seguro só em filme pornô,
como dublê de corpo,
com camisinha reforçada,
seguro de vida e pagamento adiantado.
Nos classificados me desclassifico.
Todas as vagas disponíveis estão
aquém do meu curriculum...
e para falar a verdade,
ficar procurando vaga
é negocio para manobrista.
Tem auxiliar disso! Técnico daquilo!
Atendente de não sei o que!
De boa aparência!
        ⁃        E má aparência?
Se me falta interesse é porque
trabalhar não é nada interessante.
Não fujo do batente,
não é questão de preguiça
ou ausência de inteligência,
o que me falta mesmo
é a oportunidade de provar
a minha total incompetência.
Encaro qualquer empreitada,
em qualquer dia e em qualquer horário,
também durmo no serviço se for necessário,

só não me acorde na hora errada.
Procurar emprego não é tarefa simples,
deveria ser uma função a ser remunerada.
São tantos testes: conhecimentos gerais,
específicos, psicotécnicos... até testes
para avaliar se o candidato reúne
condições para fazer o teste.
Cansei de ouvir as mesmas justificativas:
        ⁃        Desculpe. Todas as vagas foram preenchidas.
        ⁃        Deixe seu curriculum. Entraremos em contato.
Continuo na dura labuta,
a procura do emprego inexistente.
Faz tanto tempo que nem me lembro,
poderia até solicitar aposentadoria compulsória...
pois, procurar emprego, tornou-se a minha
principal desocupação.

Poesia - Aldo Votto

Mad Tristan ~ Salvador Dali
Minha vida

Para Nelly Guido

Amei.

Se tivesse que contar em uma só palavra
As oitenta voltas que dei em torno do sol
Não teria dúvidas de eleger o verbo total
Em que fui envolvida e foi minha redenção.

Amei. Amei a vida. Amei amar.

Amei, sim. Mas também lutei. Combati.
Desassombrei minha fragilidade.
Fui à rua. Construí meu caminho novo.

Fui mulher adiante da minha circunstância
Com poucas outras que se puderam livres
Num tempo de dependência e restrição
Me quis e me fiz emancipada para amar

Recebi e aceitei com gratitude
O dom de viver e de amar viver.
Tive a companhia memorável
De um homem que também amou
E o amor dele, por sua vez, mais amor gerou

Hoje não sou mais eu apenas.
Sou os meus amores todos.
O amor fraterno do meu sangue.
O amor ultramoderno da minha alma
O amor materno da minha carne
O amor eterno dos meus pais.

E se me perguntarem, por hoje ser uma anciã,
Se a existência valeu meus tantos ais
Contestarei feliz, realizada e plena:
Amei. Amei, e do meu amor nasceu o amor a cada manhã.

Preciso dizer mais?

Poesia - José Carlos de Souza

Painted Horizon ~ Christopher Cox
Mel das acácias

mistura de cores
plasmando o arco-íris.
o frio da ausência
entranhado nos ossos
cobre os despojos
do mar interior.
há uma mão oculta
amarrando o dia
enquanto a noite dorme
de costas pra lua.
tua boca recende
a mel das acácias,
teu corpo
sedutor
sândalo e canela.
da janela
colho um pouco
da sombra do teu sorriso
que alivia
o meu coração cansado.
flocos de lã,
tingidos de carmim,
adornam o horizonte.

Poesia - Marina Alexiou

Joaquin Sorolla’s Figura en blanco, Biarritz, 1906
Ilustração enviada pela autora
O brilho acobreado como parte do véu
daquela visão
De uma paisagem que demorou a se apagar
pelo cair da noite,
despercebida...
Pois era, também ela, parte da fina renda
a circundar o sonho.
Como o labirinto onde os caminhos não se repetem,
o ciclo se fecha iniciando o próximo esperado recomeço
dos gestos precursores da delicadeza de sua alma,
ávida pelos detalhes envolventes dessa tarde,
quase crepúsculo...
Infinita magnitude!
Profunda perenidade da Aurora que abre
com a sua rósea carruagem a âmbar cortina de raios
que iluminam as recordações e
Avançam para o interior do inefável,
que são os seus momentos...
Embaralhados pela profusão de sentimentos extasiantes,
seus olhos continuam a balbuciar, entre lágrimas,
a partitura tecida com a afinação da sua voz,
Entrecortada em hiatos e tonalidades
envolventes... sinuosas...
Artifícios da longa estrada que a constitui e embeleza
qual ninfa de céus luxuriosos,
Que se impregnam dos seus desejos e cintilam,
Dourando a linda metáfora que é a sua vida.

Conto - Roniwalter Jatobá

Ricardo Fernandez Ortega
Vontades

Desde que atinou da ideia de se largar pelo mundo, pensou que não adiantava benzedura de mãe, reza na busca da fé ou pedidos, ampliados na boca fechada, balbuciados nas novenas de janeiro. Nada acalmaria a vontade crescente cada vez mais, nem mesmo imploração que esse mundo aí fora é armadilha, pega tudo, desde a lacraia pequenina até touro mais forte, reprodutor de vacaria, bendiga se também o homem, fraco como ele só. Traição em cada canto de esquina -- essas besteiras que filho sem miolo acha e que toda mãe com razão diz.

Os viajados, chegados de pouca hora, falavam. Em volta, todo mundo escutando, Jarrê mais. Até tosse comprida em outras gentes que chegaram de outro mundo, de outras terras, ele escutava extasiado, arremedando em pensamento, com inteira vontade de se largar e voltar por igual. Ficava de beiços caídos, ouvindo em pé, na escuta, guardando tudo.

Eles diziam que tudo em São Paulo era formoso, de melhor não havia, coisa e tal: somente guardavam as tristezas, escondidas nos cantos dos pés de porteiras, que ninguém achava. Falatórios bonitos de ruas cheias de carros se multiplicavam em mil na imaginação de Jarrê.

Então, eles diziam dos prédios, grandes, dez, vinte andares, até tocando o céu, dos empregos oferecidos, a escolher, sem calos nas mãos, ganhando bom dinheiro para o gasto e fazendo pé-de-meia. E mostravam à multidão (Jarrê sobressaía especulando, olhando de perto, cheirando, como é isso?, aquilo?) o relógio de pulso, Seiko, japonês legítimo, comprado a prestação na José Paulino.

Jarrê, no perguntar só por perguntar, quem sou eu para possuir, qual é o preço?

Destamparam a radiola nova de nome difícil. Confiaram que não mais de pau-de-arara. Agora era ônibus que num pulo chegava lá, cortando asfalto de frente, na noite e no dia, como andorinha, pouca parada, livre de chuvas.

Alguns pediram licença, outros não, deu a hora da fome, meio-dia no ponto meio do sol. Por fim, saíram todos, os chegados de novo recebidos como visita em dia de festa, outro preparo.

Jarrê ficou só, só com a querência de ser gente bem. A ideia de partir acumulada no pensamento. Caminhou para a igreja, única construção sólida, já aguentou duzentos invernos, tiros nas grossas portas, fora desavenças lá dentro, até mesmo do vigário que somente vinha de mês em mês, agora vazia. Empurrou a porta pesada, se benzeu e subiu as escadas em direção ao sino pelo balaustrado, devagar. Madeiras rangentes que se balançavam com o peso dele, qual a casinha de Teodoro, perto do alto do cemitério, que qualquer vento bobo põe as folhas de ouricuri que servem de telhado a se arrepiarem.

Os morcegos se alvoroçaram com a visita fora de hora e voaram em bandos para cima, ao telhado, se grudando às telhas. Um mais afoito encostou no sino, ficou tresvariado, amoleceu, e sumiu se batendo.

Tarde de quentura, vento sem bolinação.

Jarrê deu desejo de descer e ir para casa. Desistiu. No fim da rua, ele viu, onde qualquer atiradeira de borracha mole consegue alcançar, uma mulher sair da última casa e passar pela calçada vazia de gente e desaparecer mais adiante. A saia comprida refletiu, por instantes, ao sol.

Jarrê olhou a imensidão. Nuvens papudas se indo com vento na popa, se acumulando bem próximo onde ele esteve ainda ontem de manhãzinha cortando rama verde para alimentar as cabras paridas de novo, subindo ora pedras valendo o sacrifício, ora não valendo, descendo sem aderência nas pedras soltas. Depois, voltando carregado, entrando na rua de casas de uma fileira só, ele com ares de tristeza olhando a solidão da tarde, as mãos segurando com força a braçada de capim colonião, d'angola, vargem e duas mangas de vez, temporãs.

Agora, passou os dedos na poeira do sino. Esperou, pensando, o sol se virar de lado, se livrando do meio do céu e fazer o caminho, no vagar, rumo aonde se põe. Os raios entram na janela, direto, se esparramando com jeito de sem pressa, e ensolaram os cabelos se arrebentando nos olhos dele. A luminosidade, fazendo a sombra tomar forma, desce pela calça, devagar, devagarinho, tomando todo o corpo. O jovem piscou na cegueira de dia claro, vendo a rua parada, sem vultos nas calçadas que não eram de pedras redondas como a calçada aprumada, lisa, enfileirada, da igreja. Ruas somente tomadas de gente nas procissões de setembro ou no 2 de Julho, época das argolinhas.

Parecia estar vendo: os cavalos descambando e arrancando terra poeirenta pelos cascos afiados. Uma tropa, brilhosa nas cores, repleta de cavaleiros de peitos coloridos. Cavaleiros velozes, indo certeiros, no corredor cercado de bandeirolas. Um cavaleiro, esporando o animal e fixo na sela, olha de banda, se ajeita, prepara a lança curta de madeira, se curva na sela sem bicos, na carreira desabalada. Os gritos de um lado, amarelo cor de ouro, e do outro, vermelho cor de sangue cor da vida, se confundem nos ouvidos sensíveis de Jarrê. Cavalos empinando, patas para o ar. Vivas, que batem e rebatem de casa em casa, sobem ao céu e afugentam o sol.

O sol vai embora, se pondo, e deixa Jarrê sair da igreja e divagar sem sombra para casa. Chegou medroso. Por ser tão tarde, fora de costume, entrou de mansinho com receio. Sentou na cama escutando o vento que pouco bulia lá fora. Mesmo sedento, fome não tinha, receoso pela peia, tirou os chinelos e deitou. Ninguém ainda dormia. Lá dentro, à beira do fogão de lenha, conversavam na quentura das brasas que morriam em cinzas.

Fechou os olhos. Cansado, dormiu. O sono das viagens, dos devaneios em dimensão de vontades. No segundo sono, amoitado no canto da cama, sonhou. Não com o ônibus enorme e veloz que toda noite o transportava para São Paulo, mas, sim, que voava sobre os ponteiros de um relógio Seiko alado e pontual.

Conto - José Geraldo de Barros Martins

Ilustração de José Geraldo de Barros Martins
Que Samba Bom

Naquela noite de quinta-feira, Josias Germano, cansado de tanto trabalho estacionou seu carro na rua Sampaio Viana e foi a pé buscar sua cara-metade Marília Olávia no hospital onde ela trabalha... o plano era ir para um destes bares sofisticadinhos para fazer um mais que merecido répisauer com cerveja indian pale ale e bruscheta de aliche... porém ao passar na esquina da referida via com a rua Cubatão o nosso protagonista ouviu algo que não acreditou estar ouvindo... era simplesmente o samba “Que Samba Bom” (Arnaldo Passos/Geraldo Pereira) que estava sendo cantado por um grupo de samba em um botecão na esquina em questão... como estava um pouco adiantado ele resolveu entrar e tomar uma cachaça enquanto dava a hora de sua esposa sair da labuta... não costumava tomar cachaça... só tomava pinga antes de comer feijoada ou virado à paulista, no mais das vezes preferia um bom vinho, uma cerveja especial ou os famosos coquetéis clássicos (dry-martini, manhatan, negroni, mint julep, etc.) mas desta vez resolveu tomar uma boa cachaça de alambique...

A arquitetura do bar era como a de qualquer boteco: piso de lajotas cerâmicas, parede forrada de azulejos, mesas de fórmica, geladeira de marca de cerveja, televisão ligada (sem som, é claro), painel com fotos das porções e dos pratos principais, etc... O nosso protagonista notou algo estranho no grupo que tocava este samba clássico... rapidamente descobriu o que era: era um conjunto de cegos... reparou então que diferentemente da música estadunidense com sua tradição de bluesmen cegos (*), na música de Pindorama não existem sambistas cegos famosos...

Após um plantão de doze horas, Marília Olávia adorou na sugestão de irem no botecão ouvir aquele conjunto tão peculiar... Ao chegar instalaram-se em uma mesa perto da roda de samba... os músicos estavam no intervalo e comiam sanduíches e bebiam cerveja em um mesa próxima num clima de plena descontração... os nossos protagonista então pediram cerveja em balde com gelo e carne seca com mandioca...

Quando os sambistas retornaram uma sucessão de sambas clássicos: “Não Tenho Lágrimas” (Max Bulhões e Mílton de Oliveira, sucesso no carnaval de 38), “Leva Meu Samba” (Ataulfo Alves), “Argumento” (Paulinho da Viola), “Com Que Roupa” (Noel Rosa) “Iracema” (Adoniran Barbosa) “Mora na Filosofia” (Arnaldo Passos/Monsueto), “Escurinha” (Arnaldo Passos/Geraldo Pereira) , “Silêncio No Bexiga” (Geraldo Filme), “Poeta de Rua” (Gilson de Souza), “Aos Pés da Santa Cruz” (Lauro Maia), “O Bonde São Januário” (Wilson Batista/Ataulfo Alves), etc...

Em meio àqueles sambas clássicos Josias Germano imaginou que o nome certo para aquele grupo seria “Os Jorges Luíses Borges do Samba”... depois reparou na alegria dos sambistas, especialmente do baterista (**) que parecia estar em transe... então pensou em si mesmo e se envergonhou... no mês passado esteve em Sevilha e após um surto filosófico, resolveu que não iria mais se dedicar ao desenho e a pintura, sua grande paixão... agora vendo aqueles cegos executarem com maestria as canções clássicas do samba percebeu como sua resolução era um tanto quanto ridícula... ele pleno dos cinco sentidos deveria sim lutar, lutar & lutar para que sua arte prevalecesse em meio a mediocridade generalizada... então retirou do bolso sua lapiseira 2,5 mm - grafite 6B e começou a desenhar o grupo de sambistas na toalha de papel....


(*) Blind Lemon Jefferson, Blind Willie Mc Tell, Blind Mississippi Morris, Sonny Terry, Ray Charles, Cortelia Clark, etc.)

(**) A presença de uma bateria em uma roda de samba é objeto de discussão... muitos dizem que ela é absolutamente desnecessária, uma vez que o samba é a junção de vários instrumentos percursivos (pandeiro, tamborim, cuíca, surdo, etc), porém apareceu um tal de Milton Banana e provou que a coisa não é bem assim...

Conto - José Miranda Filho

The Road To Recovery ~ Randall Weidner

Encontro de Amigos - Parte 24

Dona Josefina Stevenson, a mãe de Edward, após o sepultamento do marido, retornou a São Paulo, voltando a residir no imóvel de propriedade da família, no bairro do Morumbi. A casa fora herdada de Miguel Apolônio de Freitas, Barão de Itaguaçu, bisavô de Dona Josefina, cafeicultor e líder político local. Don Miguel Apolônio foi um dos constitucionalistas que em 1932, sob o comando do Coronel Euclides Figueiredo, deflagrou a revolta contra o governo federal, exigindo a constituinte imediata, cujo motivo alegado era o esbanjamento do erário público, a ruinosa Política do Café e a ocupação militar do Estado depois da tentativa de deposição do Coronel João Alberto Lins e Barros, nomeado interventor federal no Estado de São Paulo. Aos 74 anos Dona Josefina dedicava-se a obras assistenciais. Fundou as entidades, Associação dos Menores sem Lar e Abrigo para Moradores de Rua, que dirigia, patrocinava e administrava, juntamente com outras mulheres, também viúvas de embaixadores. As entidades não recebiam subvenção e qualquer ajuda do poder público. Eram subvencionadas por elas mesmas e por algumas empresas particulares que conheciam o empenho e a dedicação dessas destemidas senhoras que iam à luta e se preciso fosse pediriam esmolas nas ruas da cidade, mas não se humilhariam jamais e nem se submeteriam à orientação de qualquer órgão Federal, Estadual ou Municipal, que consideravam corruptos. Dariam satisfação à sociedade, se necessário fosse, se da sociedade viesse algum tipo de ajuda.

Numa manhã de novembro de 2006, no cruzamento da Avenida 9 de Julho com a Rua Europa, quando se dirigia para uma das entidades, Dona Josefina escutou alguém bater no vidro do carro com um objeto, que a princípio lhe pareceu um revólver. Só poderia ser assalto, pensou! Controlando-se para não demonstrar medo, tentou dialogar com o assaltante. O moleque não tinha mais do que 15 anos de idade. Portava um revolver calibre 32 numa das mãos e na outra segurava uma sacola dessas de mercado, provavelmente para colocar o produto do assalto ou cola de sapateiro para cheirar.

Devagarzinho, Dona Josefina abriu o vidro do carro e disse para o meliante:

Meu filho, posso pegar minha bolsa?

Anda logo coroa, senão eu te mato, resmungou o garoto, nervoso.

Quando Dona Josefina virou-se, ouviu-se um estampido seco e estridente. O assaltante assustou-se com o gesto que ela fizera para apanhar a bolsa que estava sob o banco do passageiro, onde ela sempre deixava. O tiro atingiu-lhe a mandíbula e alojou-se no encosto de cabeça do banco do passageiro. Socorrida, foi levada ao Hospital 9 de Julho e operada. Não sofreu conseqüências maiores. Quinze dias depois já estava à frente de suas entidades, como se nada tivesse acontecido. A quem lhe perguntava o que havia ocorrido, a todos, ela dizia:

Isto é coisa de cidade grande. A violência está em todos os lugares. Se as autoridades não criarem emprego para os pais dessas crianças não sabemos aonde vamos parar. A culpa é nossa, da sociedade, que nada faz. Se todos fizessem sua parte não haveria tanta catástrofe nas ruas de São Paulo. Não sei o que é pior: o povo passar fome ou não ter emprego, dizia. Devemos ter vergonha de encarar nossos semelhantes desempregados e com fome, enquanto temos emprego e nada fazemos para ajudá-los. Tenho vergonha de ver alguém pedindo esmolas na rua, enquanto as autoridades nos dizem para negar, mas nada fazem para evitar.

Uma semana depois, o moleque assaltante que se chamava Adão e morava em Francisco Morato com a madrasta, se tornara um dos internos da Associação dos Menores sem Lar. Fora para lá por ordem judicial porque havia assaltado outra vítima, desta vez com morte. Já era um delinqüente perigoso, um homicida. Dona Josefina o recebeu na porta da entidade e travou com ele o seguinte dialogo:

Adão, olhe bem para mim, você se lembra daquele dia em que me apontou um revólver e, sem motivo algum, disparou atingindo-me a mandíbula?

Ele apenas olhava aquela senhora bondosa, e nada respondia. Pensativo, imaginava-se praticando tão absurdo ato de repúdio e horror.

Mas eu te perdôo, dizia ela com um sorriso alegre no rosto.

Adão enrubesceu e desfigurou-se diante de tanta humildade e bondade.

Dona Josefina, por Deus eu peço perdão pelos meus crimes. Quero que Deus me castigue pelos atos que cometi. Agora é que vejo quanta barbaridade pratiquei. Não tenho direito de viver em liberdade, principalmente, neste local sob seus cuidados.

Meu filho, disse Dona Josefina. A vida a Deus pertence. Só ele tem o direito de tirá-la. O importante é que você se arrependa do mal que causou a outrem.

Adão permaneceu na casa por cinco anos, até completar a maioridade e ver-se reabilitado ao convívio social. Era um outro garoto. Transformou-se num moço de brios, educado e cheio de esperanças. Estudava a noite e de dia ajudava nos trabalhos do Lar, sob a supervisão das outras mulheres, a quem carinhosamente as chamava de Tia. Tornou-se um voluntário da associação.

Tradução - Eduardo Miranda

Lou Reed ~ Neal Barbosa

Aprendi com as Primaveras a me deixar cortar
para poder voltar sempre inteira.

~ Cecília Meireles

Um Dia Perfeito
Lou Reed

Apenas um dia perfeito
beber sangria no parque
E depois
mais tarde, vamos para casa

Apenas um dia perfeito
dar comida aos animais no zoológico
E então, mais tarde
um filme filosófico, e depois casa

Oh, mas que dia perfeito
Estou contente por passá-lo com você
Oh, um dia tão perfeito
Você me mantêm ligado
Você me mantêm ligado

Apenas um dia perfeito
todos os problemas são secundários
Domingueiros perambulando solitários
É super-divertido

Apenas um dia perfeito
você me fez esquecer quem eu sou
Tanto que eu me senti
alguém outro, alguém bom

Oh, mas que dia perfeito
Eu estou feliz de ter passado com você
Oh, um dia tão perfeito
Você me mantêm ligado
Você me mantêm ligado

Você vai colher o que você semeou
Você vai colher o que você semeou
Você vai colher o que você semeou
Você vai colher o que você semeou

Perfect Day

Just a perfect day
drink Sangria in the park
And then later
when it gets dark, we go home

Just a perfect day
feed animals in the zoo
Then later
a movie, too, and then home

Oh, it's such a perfect day
I'm glad I spend it with you
Oh, such a perfect day
You just keep me hanging on
You just keep me hanging on

Just a perfect day
problems all left alone
Weekenders on our own
it's such fun

Just a perfect day
you made me forget myself
I thought I was
someone else, someone good

Oh, it's such a perfect day
I'm glad I spent it with you
Oh, such a perfect day
You just keep me hanging on
You just keep me hanging on

You're going to reap just what you sow
You're going to reap just what you sow
You're going to reap just what you sow
You're going to reap just what you sow

Foreign Words - Celso de Alencar


Lou Reed Died

To Arruda and Alzira E

It was a picnic like Sunday at Lake Alice.
The woman with the tattooed arms
came in despair yelling, to her friends
who drank orange juice sitting in a large towel.
Lou Reed is dead. Dead is Lou Reed.
And they hugged and cried and suddenly the waters of the lake
started to bubble and all the people, with no exception,
who were there, felt the dripping hot water over their bodies.
And all the old men
more than one hundred and forty old men
all over sixty-five years
they held hands and under deep tears
they sang Vicious
and they were joined by the three friends
and the children and their parents and the puppies.
Everyone were singing and crying when the waters calmed down
and then a strong scent of wild rosemary hovered the air
but there was no rosemary shrubs on the shores of Lake Alice.
It was all very weird as there was no wind, nor birds
carrying rosemary leaves in their long colorful beaks.


Lou Reed Died

Para Arruda e Alzira E

Era um domingo de piquenique no Lago Alice.
A mulher com os braços tatuados
chegou gritando, desesperada, para suas amigas
que bebiam suco de laranja sobre uma grande toalha.
O Lou Reed morreu. Morreu o Lou Reed.
E elas se abraçaram e choraram e de repente as águas do lago
começaram a borbulhar e todas as pessoas, sem exceção,
que ali se encontravam, sentiram pingos de água quente sobre seus corpos.
E todos os homens velhos
mais de cento e quarenta velhos
todos com mais de sessenta e cinco anos
deram-se as mãos e debaixo de intensas lágrimas
cantaram a musica
Vicious
e a eles se juntaram as três amigas
e as crianças e seus pais e os cachorrinhos.
Todos cantavam e choravam quando as águas se acalmaram
e então um forte perfume de alecrim selvagem surgiu no ar
mas não havia pés de alecrim nas margens do Lago Alice.
Foi tudo muito estranho pois não havia ventania, nem pássaros
transportando folhas de alecrim em seus longos bicos coloridos.

Foreign Words - Cruz e Souza

The Endless Summer ~ Benjamin Girard
The leading figure of the Symbolist movement in Brazil, Cruz e Sousa was the son of freed slaves. His poetry weds the technical principles of French Symbolism to themes drawn from his social concerns and his own personal suffering. This poem describes a skull, emphasizing that we are all the same, and the death takes us all, either white or black.

Skull ~ Cruz e Souza

“Eu vou roer até o osso o corpo da tua palavra”
~ Zé Rodrix in Compota de Cereja

I

Eyes which were eyes, two holes
Neither green nor blue, cold and dull...
Two dark eyeholes in a deep stroll
Skull!

II

Nose of delicate feature, insolent,
Shaped not to be lenient but cruel.
What's been done of the sweet scent?
Skull! Skull!!

III

Mouth of white teeth and lips
Kindly rounded and almost wailful.
Where the smile, the laugh, the quips?
Skull! Skull!! Skull!!!

Caveira

I
Olhos que foram olhos, dois buracos
Agora, fundos, no ondular da poeira...
Nem negros, nem azuis e nem opacos
Caveira!

II
Nariz de linhas, correções audazes,
De expressão aquilina e feiticeira,
Onde os olfatos virginais, falazes?!
Caveira! Caveira!!

III
Boca de dentes límpidos e finos,
De curva leve, original, ligeira,
Que é feito dos teus risos cristalinos!?
Caveira! Caveira!! Caveira!!!

Releitura - Bruno Tolentino

Evelyn De Morgan ~ Angel of Death, 1890
Ao Divino Assassino


Uma Litania ante o Sagrado Coração,
concebida em Paray-le-Maunial,
à época do acidente fatal de Anecy Rocha


Senhor, Senhor, o Teu anjo terrível
é sempre assim? Não tens um refratário
à hora do massacre — um mais sensível

que atrasasse o relógio, o calendário?
Ao que parece a todos tanto faz
por quem o sino dói no campanário.

Começa a amanhecer e uma vez mais
rebelo-me, mas sei que a minha vida
não tem como ou porque voltar atrás.

Aceito que a mais dura despedida
é bem mais que metáfora do nada
a que se inclina no chão; que uma ferida

e a papoula sangrenta da alvorada
pertencem ao mundo sobrenatural
tanto quanto uma lágrima enxugada

à beira de um caixão. Mas afinal,
Senhor, amas ou não a humanidade?
Não fui ao escandaloso funeral

e imaginá-la em Tua eternidade
dói demais! Vou passar mais este teste,
sim, mas protesto contra a insanidade

com que arrancas a muque o que nos deste!
Tu sabes que a soberba da família
era maior que a dela e eu tinha a peste —

pai e mãe apartavam-me da filha
e o irmãozão nem... E hoje, coitados,
como hão de estar? Aqui é a maravilha,

as genuflexões.... Os potentados
e os humildes, a nata da esperança,
todos chegam por cá meio esfolados,

sangrando como a luz. Não só da França,
toda a Europa rasteja até aqui
esfolando os joelhos, não se cansa

de ensangüentar-se até chegar a Ti,
e ao menos a um pixote do Além Tejo
restituíste a vista: eu quando o vi

solucei — mas que o cego e o paraplégico
saiam aos pinotes, que o Teu coração
se escancare e esparrame um privilégio

aqui e outro acolá na multidão,
só me faz perguntar: E ela? E ela...?
Não consigo entender que a um aleijão

concedas tanto enquanto a uma camélia
Tu deixas despencar.... Porque, Senhor?
Olho tudo do vão de uma janela,

mas vejo a porta de um elevador
escancarar-se sobre um outro vão,
um vão sem chão... E a seja lá quem for

aqui absurdamente dás a mão!
Me pões trêmulo, gago, estupefato,
pasmo, Senhor — mas consolado não.

A mesma mão que fez gato e sapato
da minha doce Musa, cura e guia,
cancela as entrelinhas do contrato,

Dominus dixit... Mas quem merecia
mais do que uma açucena matinal
um manso desfolhar-se ao fim do dia,

quem mais do que uma flor, Senhor? Igual
nunca se viu nem mesmo entre os crisântemos,
tinha direito a um fim mais natural,

à morte numa cama, em casa ao menos...
Mas não — tinha que ser total o escândalo!
Por que, se nem nos circos mais extremos

Teus mártires andaram despencando
sobre os leões, se nem o lixo cai
de oito andares aos trancos, Santo Vândalo?!

Não vim denunciar o Filho ao Pai
ou o Pai ao Filho, não vim dar razão
aos que recusam e usam cada ai

contra a humildade; vim porque a Paixão
me chamou pelo nome a a alma obedece
e aceita suar sangue — como não?

Mas não sei mais unir o rogo à prece
do que a elegia ao hino de louvor,
não seu amar-Te assim... Caso soubesse

teria que ficar aqui, Senhor,
aqui, arrebentando-me os joelhos,
esfolando-me todo ante um amor

que vai tornando sempre mais vermelhos,
mais duros os degraus do Teu altar.
Tu, que tudo consertas, dos artelhos

que desentortas e repões a andar
até às pupilas mortas de um garoto,
do cachoupinho que me fez chorar;

Tu, que a este lhe dás a flor no broto
e àquele o lírio pútrido do pus;
Tu, que passas por um de quatro e a um outro

pegas no colo e entregas a Jesus;
Tu que fazes jorrar da rocha fria;
Tu que metaforizas Tua luz

ao ponto de fazer de uma agonia
um puro horror ou a morna mansuetude —
que hás de fazer, Senhor, comigo um dia?

Quando eu agonizar, boiar no açude
das lágrimas sem fundo... Quando a fonte
cessar de soluçar e uma altitude

imerecida me enxugar a fronte...
Como há de ser, Senhor? Oxalá queiras
que a mim me embale a barca de Caronte,

como o fazia a velha Cantareira,
o azul da travessia... A Irrecorrível
arrasta a cada um de uma maneira

e a quem quer que se abeire ao invisível
recordas a promessa: aquele a escuta
e este a recusa porque a dor é horrível,

mas, se a todos a última permuta
terá sempre o sabor da anulação,
o travo lacrimoso da cicuta,

a ela Tu negaste o próprio chão,
deixaste-a abrir a porta sem querer!
Nunca falou na morte, e com razão,

intuía, quem sabe, o que ia ver...
Sentença Tua? Em nome da promessa
não há negar Teu duro amanhecer —

mas quando arrancas mais uma cabeça
como saber que és Tu, que não mentia
O que ressuscitou? Talvez na pressa,

no pânico de Pedro, eu negue um dia
e trate de escapar, mas hoje não;
hoje sofro com fé e, sem poesia,

metrifico uma dor sem solução,
mas não vim negar nada! Faz efeito
essa dor: faz sangrar, mas faz questão

de defender-me como um parapeito
contra a queda e a revolta... Um Botticelli
despedaçou-se todo, mas que jeito,

se por Lear enforcam uma Cordélia
e encarceram a Ariel por Calibã...?
Alvorece, a manhã beata velha

enfia agulhas no Teu céu de lã,
antenas às Tuas cenas de TV,
e eu penso, ela morreu... Hoje, amanhã,

enquanto Te aprouver e até que dê
a palma ao prego e o último verso à traça,
vai doer — mas Amém! Não há porque

amar a morte, mas que venha a Taça,
aceito suar sangue até o final,
como não... Tudo dói, menos a graça,

mata, Senhor, que a morte não faz mal!

[ in Anulação e Outros Reparos, 1963 ]

Ilustração - Walter Frederick Osborne

Paintings by Walter Frederick Osborne

A Tale of the Sea


A New Arrival

Ensaio - Ronald Augusto

Hans Anderson Brendekilde ~ A Wooded Path In Autumn
Cleci Silveira, Recriando Personalidade e Emoção

Contrariamente ao que acontece com a maioria dos artistas da palavra cujos percursos textuais denunciam com o passar dos anos uma flagrante tendência à acomodação, há outra linhagem de criadores que não acompanha este fluxo até certo ponto entrópico. Pode-se dizer que os representantes de tal linhagem preservam, a contragosto do habitual, incorruptíveis sua vitalidade e juventude.

Enquanto os primeiros, de ordinário, perdem o entusiasmo a partir do momento em que chegam às portas da “impudente idade do bom senso”, os segundos se insurgem contra a regra e passam a encarar a tradição menos como coisa herdada do que como conquista permanente. E desde o irredutivelmente pessoal de suas preferências estéticas estabelecem, por assim dizer, um desejo de abandono da consagração como topo cumulativo de feitos. Enfim, eles conservam intactos dentro de si o jovem artista e sua ininterrupta curiosidade.

Pois é nesse rol que gostaria de ver incluído o nome de Cleci Silveira. Já que com a publicação desse conjunto intitulado Poemas de aprendiz, a autora reverte a nossa expectativa estabelecendo um desvio, uma área de escape dentro do seu itinerário textual. Isto é, a consagrada prosadora (autora de, entre outros, A trama do silêncio, O tocador de saz e o sultão, e Além da porta) estreia agora como poeta. Essa constatação coincide com a opinião de Luiz Antonio de Assis Brasil sobre a escritora, para o romancista trata-se “de uma autora que surpreende a cada obra, e surpreende para muito melhor”. Com efeito, Cleci não se acomoda; ao invés de ceder à redundância (ou seja, fazer o que sabe) nos oferecendo, se fora o caso, mais um belo livro de prosa, ela decide conquistar para si o direito ao risco planificado de escrever e publicar um volume de poemas. Interrompe, portanto, o ciclo da redundância virtuosa (a admirável prosadora) com uma informação nova (a poeta in progress).

O interessante é que esse novo lance textual que experimenta, se dispondo ao desafio, não significa uma contradição, já que, a rigor, pode ser interpretado como a afirmação de uma escritora que se quer em movimento. A poeta Cleci Silveira surge para provocar a instabilidade; em outras palavras, ela afirma o valor da liberdade artística. O livro em apreço ratifica a ideia de que o processo compositivo do escritor envolve dois momentos cujas fronteiras não são assim tão nítidas; ao mesmo tempo esses momentos não obedecem a um traçado linear ou de causa e efeito, eles são relativos e relacionais. Ou seja, todo experimento literário (e artístico) implica uma dialética de “repetir para aprender” e “aprender para criar”. Neste sentido, quando Cleci Silveira resolve chamar seu livro de Poemas de aprendiz, me parece que podemos ler nele essa tensão inventiva – sem a qual não pode haver arte – que marcou o apetite da autora nessa viagem ao (seu) desconhecido que é a poesia.

Dizem alguns escritores que a literatura não precisa de revolução, mas sim de palavras. A revolução que interessa se dá por dentro. Pode ser. Em princípio não há problema nenhum em tentar fazer uma revolução para o outro, para fora. Cleci fez também a sua revolução, ou antes, a sua segunda, só que agora se embrenhando na poesia. Explico-me, segundo a tese irônica do poeta concreto Décio Pignatari, uma revolução completa em literatura pressupõe duas meias revoluções, isto é, uma a se cumprir na prosa e outra na poesia. Embora o crítico não pretenda apostar todas as suas fichas na pertinência das formas híbridas dentro da economia estética contemporânea, o que é razoável discernir de sua proposição, em fim de contas, é que não é possível a um poeta produzir poesia de importância se este se recusa à convivência com a prosa. E, de outra parte, o mesmo vale para o prosador no tocante à poesia.

Ainda no capítulo das teses (todas elas refutáveis), um amigo meu, o escritor Fábio Brüggemann, defende uma que diz o seguinte: só se pode ser bom poeta até os 25 anos, porque depois toda a rebeldia da linguagem a que o jovem se propõe a imprimir em seus versos se transforma, com o tempo, em vício ou em fórmula. E do contrário, só é possível ser um bom prosador depois de velho, principalmente para quem se aprofundou nos bosques da ficção e, além da experiência com a arte da escrita, acumulou a experiência com a existência. Neste caso, se levarmos a sério o quadro acima proposto, Cleci Silveira, mais uma vez reverte a expectativa. Contra natura ela investe suas forças na poesia restaurando no outono a primavera da linguagem. De outra parte, no momento exato da colheita dos louros advindos da experiência de vida, Cleci põe de lado, transitoriamente, a prosa e os prazeres da demora inerentes ao gênero para se dedicar à rapidez e à elipse da poesia.

Não é um despropósito usar a metáfora da “primavera da linguagem” para definir a tarefa poética. A poesia é a linguagem de partida de todos os demais discursos verbais. Cleci reconhece isso ao convocar em “Primeiro poema” o poder desse afazer que evoca a música de
certa valsa triste
dum setembro ido
no canteiro úmido,
assim, Poemas de aprendiz se abre ao leitor como um álbum onde a memória é revivida na tensa tranquilidade do presente. A nostalgia passa pelo crivo da consciência de linguagem. Afinal, não há garantia de que o leitor será seduzido pelos recursos poéticos que lhe são oferecidos poema após poema. Cleci Silveira sabe que a comunhão poética ou esse singular ato comunicativo está sempre aberto ao impreciso; trata-se de uma aventura, ou como se lê no poema “Voltar”:
no céu
procuro um interlocutor com quem repartir palavras
Mas esse “céu” – e me perdoe o leitor por lhe atormentar com minha provisória tresleitura –, esse “céu”, referido no excerto acima, pode ser o da linguagem. Interlocução e diálogo (conclusivos ou não) só são possíveis no interior da linguagem.

Alguém já disse que poesia não é enunciação; a rigor não é nem comunicação. O poeta e místico San Juan de la Cruz a define como uma “música calada”. Em poesia os ritmos e os arranjos sonoros relegam os significados dicionários e o bom senso a uma zona secundária. O ritmo e a música verbal fazem a poesia persuasiva e não informativa. Mas isso só alcança um sentido forte e valioso devido ao desejo de dois tipos de mentes poéticas: uma apta a inventar poemas e outra disposta a crer neles. O poeta fingidor precisa de um leitor igual. Esse leitor se alegra por sentir que a poesia pode comunicar-se antes que seja compreendida. Talvez o poema “Vendaval” fale sem falar, entre outras coisas, algo a propósito disso, julgue o leitor:
Amanheço, aos poucos, quando há vento
O ar apressado deixa exausta minha lucidez
Só mais tarde, os olhos bem abertos, a mente alerta
Tento escrever alguns versos
Que ainda trazem o desalento da noite
Tentar “escrever alguns versos” me remete à tópica do poeta ensimesmado que considera tanto os fracassos, quanto as possibilidades expressivas do seu meio. Esse tema também foi cantado de modo rigoroso por Carlos Drummond de Andrade, e no livro José (1942) pode-se ler o poema “O Lutador”, cujos primeiros versos dizem: “Lutar com palavras/ é a luta mais vã...”, e mesmo assim o poeta volta a lutar mal rompe a manhã. No cerne desse embate mais uma vez nos deparamos com os dois pólos que justificam a arte da poesia, isto é, o “repetir para aprender” e o “aprender para criar”. Esse trabalho, ou melhor, essa viagem sempre recomeçada a cada texto (sistema que se exaure e se renova a cada gesto poeticamente crucial) é a antiga novidade e sua duradoura efemeridade que, de ordinário, nos comovem. Entre as capas de Poemas de aprendiz Cleci Silveira descobre o saudoso e o corrosivo desse ofício do verso: a varanda ensolarada e o cheiro de mofo; o prosaico namoro no portão e a luz mediterrânea, homérica. Enfim, compõe poemas feitos à semelhança do desejo do leitor sensível e ao mesmo tempo afeitos à tradição, e que recriam, para além do lirismo funcionário público, o vivido e o imaginado. Além do mais, os versos de Cleci, graças à sua porção prosadora, são sempre graciosamente narrativos, não distinguem entre cantar e contar, e seguem vizinhos aos versos do português Jorge de Sena, que dizem: “Na mínima coisa que sou, pôde a poesia ser hábito./ Vem, teimosa, com a alegria de eu ficar alegre,/ quando fico triste por serem palavras já ditas/ estas que vêm, lembradas, doutros poemas velhos”. Cleci Silveira expressa o mesmo, mas de maneira diferente, isto é, inventa a sua própria metáfora interpretativa, ouçamo-la:
são apenas dedos fugitivos
a dar vida às teclas de um piano
que, de tão velho, o carregaram cupins
Acho oportuno fechar o prefácio com o famoso lembrete do poeta T. S. Eliot a propósito da relação entre poesia e emoção, pois a observação me parece caber à maravilha para esse feliz aprendizado poético que Cleci Silveira resolveu dividir conosco publicando Poemas de aprendiz, escreve assim o mestre do modernismo: “a poesia não é um perder-se na emoção, mas um escapar da emoção; não é a expressão da personalidade, mas uma fuga da personalidade”, mas Eliot acrescenta em seguida e rapidamente: “porém, de fato, só aqueles que têm personalidade e emoção sabem o que significa querer escapar dessas coisas”. Com efeito, personalidade e emoção são valores e figurações com respeito às quais a fineza da linguagem contida em Poemas de aprendiz não descura em nenhum momento. Cleci Silveira escapa com arte de ambas.

Autores

Ademir Demarchi Adriana Pessolato Adília Lopes Afobório Agustín Ubeda Alan Kenny Alberto Bresciani Alberto da Cunha Melo Aldo Votto Alejandra Pizarnik Alessandro Miranda Alexei Bueno Alexis Pomerantzeff Ali Ahmad Said Asbar Almandrade Alyssa Monks Amadeu Ferreira Ana Cristina Cesar Ana Paula Guimarães Andrew Simpson Anthony Thwaite Antonio Brasileiro Antonio Cisneros Antonio Gamoneda Antonio Romane António Nobre Ari Candido Fernandes Ari Cândido Aristides Klafke Arnaldo Xavier Atsuro Riley Aurélio de Oliveira Banksy Bertolt Brecht Bo Mathorne Bob Dylan Bruno Tolentino Calabrone Camila Alencar Carey Clarke Carla Andrade Carlos Barbosa Carlos Bonfá Carlos Drummond de Andrade Carlos Eugênio Junqueira Ayres Carlos Pena Filho Carol Ann Duffy Carolyn Crawford Cassiano Ricardo Cecília Meireles Celso de Alencar Cesar Cruz Charles Bukowski Chico Buarque de Hollanda Chico Buarque de Hollanda and Paulo Pontes Claudia Roquette-Pinto Constantine Cavafy Conteúdos Cornelius Eady Cruz e Souza Cyro de Mattos Cândido Rolim Dantas Mota David Butler Denise Freitas Desmond O’Grady Dimitris Lyacos Dino Valls Dom e Ravel Donald Teskey Donizete Galvão Donna Acheson-Juillet Dorival Fontana Dylan Thomas Décio Pignatari Edgar Allan Poe Edson Bueno de Camargo Eduardo Miranda Eduardo Sarno Eduvier Fuentes Fernández Elaine Garvey Elizabeth Bishop Enio Squeff Ernest Descals Eugénio de Andrade Evgen Bavcar Fernando Pessoa Fernando Portela Ferreira Gullar Firmino Rocha Francisco Niebro George Callaghan George Garrett Gey Espinheira Gherashim Luca Gil Scott-Heron Gilberto Nable Glauco Vilas Boas Gonçalves Dias Grant Wood Gregório de Matos Guilherme de Almeida Hamilton Faria Henri Matisse Henrique Augusto Chaudon Henry Vaughan Hilda Hilst Hughie O'Donoghue Husam Rabahia Ian Iqbal Rashid Ingeborg Bachmann Issa Touma Italo Ramos Itamar Assumpção Iulian Boldea Ivan Donn Carswell Ivan Justen Santana Ivan Titor Ivana Arruda Leite Izacyl Guimarães Ferreira Jacek Yerka Jack Butler Yeats Jackson Pollock Jacob Pinheiro Goldberg Jacques Roumain James Joyce James Merril James Wright Jan Nepomuk Neruda Jason Yarmosky Jeanette Rozsas Jim McDonald Joan Maragall i Gorina Joaquim Cardozo Joe Fenton John Doherty John Steuart Curry John Updike John Yeats Josep Daústin José Carlos de Souza José Geraldo de Barros Martins José Inácio Vieira de Melo José Miranda Filho José Paulo Paes José Ricardo Nunes José Saramago José de Almada-Negreiros João Cabral de Melo Neto João Guimarães Rosa João Werner Junqueira Ayres Kerry Shawn Keys Konstanty Ildefons Galczynski Kurt Weill Leonardo André Elwing Goldberg Lluís Llach I Grande Lou Reed Luis Serguilha Luiz Otávio Oliani Luiz Roberto Guedes Luther Lebtag Léon Laleau Lêdo Ivo Magnhild Opdol Manoel de Barros Marco Rheis Marcos Rey Mari Khnkoyan Maria do Rosário Pedreira Marina Abramović Marina Alexiou Mario Benedetti Mario Quintana Mariângela de Almeida Marly Agostini Franzin Marta Penter Marçal Aquino Masaoka Shiki Maser Matilde Damele Matthias Johannessen Michael Palmer Miguel Torga Mira Schendel Moacir Amâncio Mr. Mead Murilo Carvalho Murilo Mendes Márcio-André Mário Chamie Mário Faustino Mário de Andrade Mário de Sá-Carneiro Nadir Afonso Nuala Ní Chonchuír Nuala Ní Dhomhnaill Nâzım Hikmet Odd Nerdrum Orides Fontela Orlando Gibbons Orlando Teruz Oscar Niemeyer Osip Mandelstam Oswald de Andrade Pablo Neruda Pablo Picasso Patativa do Assaré Paul Funge Paul Henry Paulo Afonso da Silva Pinto Paulo Cancela de Abreu Paulo Henriques Britto Paulo Leminski Pedro Du Bois Pedro Lemebel Pete Doherty Petya Stoykova Dubarova Pink Floyd Plínio de Aguiar Pádraig Mac Piarais Qi Baishi Rafael Mantovani Ragnar Lagerbald Raquel Naveira Raul Bopp Regina Alonso Renato Borgomoni Renato Rezende Renato de Almeida Martins Ricardo Portugal Ricardo Primo Portugal Ronald Augusto Roniwalter Jatobá Rowena Dring Rui Carvalho Homem Rui Lage Ruy Belo Ruy Espinheira Filho Ruzbihan al-Shirazi Régis Bonvicino Salvado Dalí Sandra Ciccone Ginez Santiago de Novais Saúl Dias Scott Scheidly Seamus Heaney Sebastian Guerrini Sebastià Alzamora Shahram Karimi Shorsha Sullivan Sigitas Parulskis Silvio Fiorani Smokey Robinson Sohrab Sepehri Sophia de Mello Breyner Andresen Souzalopes Susana Thénon Susie Hervatin Suzana Cano Sílvio Ferreira Leite Sílvio Fiorani The Yes Men Thom Gunn Tim Burton Tomasz Bagiński Torquato Neto Túlia Lopes Vagner Barbosa Val Byrne Valdomiro Santana Vera Lúcia de Oliveira Vicente Werner y Sanchez Victor Giudice Vieira da Silva Vinícius de Moraes W. B. Yeats W.H. Auden Walt Disney Walter Frederick Osborne William Kentridge Willian Blake Wladimir Augusto Yves Bonnefoy Zdzisław Beksiński Zé Rodrix Álvaro de Campos Éle Semog