Definição

... da totalidade das coisas e dos seres, do total das coisas e dos seres, do que é objeto de todo o discurso, da totalidade das coisas concretas ou abstratas, sem faltar nenhuma, de todos os atributos e qualidades, de todas as pessoas, de todo mundo, do que é importante, do que é essencial, do que realmente conta...
Em associação com Casa Pyndahýba Editora
Ano VI Número 63 - Março 2014

Showing posts with label Junho 2012. Show all posts
Showing posts with label Junho 2012. Show all posts

Editorial

Many People Mourning
(I didn't find any reference to the author)

diàlopes


'braço forte, como diria o camaradinha Souzalopes, abrindo seus deliciosos emails...

Difícil se conformar com a idéia de não ter mais um amigo neste mundo. Independente de crenças, a perda sempre te remete ao limbo da cobrança: Poderia eu ter feito mais? Poderia eu ter me dado mais a esta amizade? Pois é... foi o que senti ao receber a triste notícia do falecimento do poeta - grande poeta! - Souzalopes. A idéia de não tê-lo mais neste mundo, principalmente considerando o tempo - 2 anos? - que não nos falávamos... Coisas da vida, ávida vida que vai como sempre vai, flui como sempre foi, flor como sempre flor. Como ou sem sabedorãça!

Souzalopes foi pr'orum. Diabos! E já dizem que o céu está um inferno só... de tanta gente boa junta: Arnaldo, Jaquieri, Gey, Calabrone, Marcos Reis... e Souzalopes! E o moço ainda quis recitar poeminha pra São Pedro, em homenagem à sua entrada nos reinos devidos: "quem  que de palavras se arma sem arma / dura de pica que só féladaputaquipairu / com olho mais oito no cú do anuro..." São Pedro quase manda ele voltar dali mesmo, mas Souzalopes esperniou e exigiu a presença de Arnaldo Xaviér, poetamigo de várias & outras jornadas, e esbravejou: "Neguinho, apronta uma aí pra mim pois os caras têm que me respeitar! E Arnaldo retrucou: "Companheiro, você nunca passou um dia de negro pra saber o que é ser discriminado!" Resultado: quebraram o pau! Um chamou o outro de racista e tal, até que Cidinha - a Nossa Senhora de Aparecida - apareceu pra apartar! Pegou na mão dos dois e disse: Parem de frescura! Vam'bora, meus poetas!" E adentram o céu, Arnaldo e Souza já planejando o novo livrinho - comunitário, é claro, no velho espírito pyndaýbico!

Souzalopes
Mário Luis de Souza Lopes. Itajuipense danado de bom! Lançou pouco, é verdade, mas às favas com essa indústria da literatura & da poesia! Souzalopes produziu muito! Dono da palavra & seu dom, raras vezes visto ou ouvisto, Souzalopes deixou a marca da sua genialidade em poemas não-publicados, em pequenas notas, em panfletos, em boletins, idéias dispersas, emails esporádicos... em todo canto pode-se sentir - e "sentir" é a palavra certa - a genialidade souzalopiana! Esperemos poder resgatar esse material preciosíssimo, e fazê-lo público... o público agradece!

No fervor & na dor, sem ter nada inédito em mãos, TUDA republica material souzalopiano - também algo de inédito em TUDA - para a felicidade geral desta nação tudiana & além! E ao já proclamado 26 de Janeiro (Arnaldo Xavier), adiciono o 29 28 de Maio (Souzalopes), como as datas perpétuas da poesia pyndahýbica - quiçamundi!

TUDA's Pent-Mac
É isso aí companheiros!

asyno eduardo miranda (o auto-proclamado editor),
deste porto seguro da jlha do Eire,
oje, domjngo, dezº dia do sesº mez d'este anno domini de MMXII

Dívida Interna

The corpses of the de Witt brothers, Jan and Cornelis,
hanging on the Groene Zoodje on the Vijverberg (c. 1672–1675)
ascribed to Jan de Baen

Editor
Eduardo Miranda

Capa
José Geraldo de Barros Martins

Digitação
Eduardo Miranda

Revisão
Dos autores

Participam desta edição:
Alexandre Rapoport, Arnaldo Xavier, Carla Andrade, Cyn McCurry, Darice Machel McGuire, Dorival Fontana, Edson Bueno de Camargo, Eduardo Miranda, Giuseppe Pongolini, Hamilton Faria, Jan de Baen, Joe Fenton, Jolini, José Geraldo de Barros Martins, José Miranda Filho, Mário de Sá-Carneiro, Marina Alexiou, Michael Filan, Misha Gordin, Olivier Longuet, Pascal Chove, Pedro Du Bois, Plínio de Aguiar, Rabisco Vieira, Ricardo Fernandez Ortega, Ronald Augusto,Roniwalter Jatobá, Salvador Dali, Santiago de Novais, Sophia de Mello Breyner Andresen, Souzalopes.

E-mail
tuda.papel.eletronico@gmail.com

Poesia - Arnaldo Xavier

Ogum


(...)

13

O negro
engole
o grego

14

verde vermelho
amarelo azul
pássaro muda de hábito

15

Ebóluz
Oriflor
Ebory

16

Regras )do fogo
labirintos flutuantes
chamas(do jogo

(...)

Poesia - Souzalopes

Giuseppe Pongolini - Contemporary Crucifixion
Contemporary wall sculpture, 48X27 inches

ferro & carcoma
livro inédito de Souzalopes

ferro

assopra meu avô assopra no ouvido
do filho do teu filho do que não ouviu
que não ouviu o grito não ouviu o galo
nem galope e madrugada é ele quem
é ele quem é ele por que vive e não
destampa do ouvido o vento e sua vela
sendo sebo e chama é algo que se apaga
ou linho tenso sobre lenho vide dobra
danzol torcido certo meu avô assopra
e o peixe disse eu tortura sofre

não é com fé disse meu avô mas é com erro
que se faz o ferro e meu pai mostrou
um pau pegando fogo e no fogo a pedra
que parte foi do chão até parece água
que apaga a brasa e disse meu avô
que ferro que avua viu meu pai falou
meu pai falou este metal orafundido
é tão pesado eu oradisse afunda nágua

aí força não há disse meu avô é no forjar
que se forma o ferro e falou meu pai
que frágua que bigorna e também falou
do marte e do martelo e depois tem dia
de lenha ou de lei e tem que meu avô
disse do vento aieste oi o fole faz
um fogo vivo oieste ai cambono foi
que falo eu se é forjado é carbono sem

basta bater o ferro disse meu avô
que se faz o medo isto é moeda
de perdido peido ô merda submersa
ó eleison kirie ó ave sob sabre
o que restou da asa nem a liberdade
sobrou meu pai falou esta merreca
na mesa da miséria vide que egesta
uma bosta suja e eu falei é coisa
é coisa da recusa é cu no parafuso

é de ferro disse meu avô também o cravo
e também o prego e também é pouco
todo perigo e meu pai falou um cego
faz olho no arame e outro passa rente
da farpa fria e foi vazado e é vazio
o prato do pobre então eu disse a fome
é um artigo triste é ferrugem eu disse

e foi-se toda posse aí disse meu avô
repousa nesta quebra um finado osso
do morto que morreu fulano sua ferida
será do ferro ou foi da vida aí meu pai
falou foi queda este defunto aquece
o aço e reza o morte e todo ferro
terá risco e depois corte e meu avô
disse da carne é fio que apodrece
ô fibra que já fede ô coita que se tece
e eu o que falei aqui a alma cede

aí dizia meu avô gemer gemer na nossa
língua contra o ferro dói e ai daquela
cadela ai do seu dente mas meu pai
na época diz oi como se acoita ai
um pardo escorraçado esta pereba
de ferro velho oi só é mais tarde
um gosto ai da lama e do lamento ai
da língua eu falei foi do dejeto oi
do dia ei se degemer degemerai

depois disse meu avô agora o ferro
também falece frio assim a faca
afoga o canto um rio na garganta
do galo degolado morto aí meu pai
falou foi ferro e brasa é o que marca
um boi bitelo novo e falou foi um
ferrão no boi doente e eu disse é fero
revérbero sem doce @ por isso nasci hoje

Carcoma

carcoma tudo carcoma
a mãe do fome dizia
toda carne será podre
no desterro e terá dente
mordendo tarde carcoma
tudo carcoma carcoma

carcoma tudo carcoma
o peito da mãe carcoma
cheiro murcho de azedo
na parede que se abala
teve sangue nesta rede
teve ouro e carcoma
seu dono tudo carcoma

a mão que o ama carcoma
tudo carcoma que o corvo
nem passa nem pousa na sorte
de um defunto urubu
que toda carniça carcoma
aquela carne do nome
carcoma tudo carcoma

lepra e carcoma a usada
usura ulcera tal pedra
podre se leva carcoma
seu nome seu carcinoma
seu escrito de escroto
carcoma tudo carcoma

um sol de sebo na prensa
do medo que merda carcoma
a parte do verme a pátria
de todo defunto é seu morte
seu leste vindo sem vento
pedaço de peste no prato
tão triste tão sujo caco
carcoma tudo carcoma

carcoma tudo até
seu dente senhora cair
tudo carcoma seu dente
já podre com precioso
osso no riso carcoma
tudo senhora que é
seu riso carcoma tudo
carcoma o fel de quem ri

carcoma tudo carcoma
o pão do pobre pisado
pesado nome do não
rasgado na rama sêca
do seu medo semeado
seu arremedo de nada
seu ódio seu óbito frio
sua arma tudo carcoma
carcoma a luz que o viu

carcoma tudo carcoma
o mundo que o pariu
no azinhavre da vida
e outros vizinhos do morte
carcoma aquilo que sobra
também carcoma esta lua
usada coisa de uivo
de poesia e de cão
a mãe do fome dizia
tudo carcoma carcoma

Poesia - Plínio de Aguiar

Work of French Painter Pascal Chove
Allegro

Existem
Presos em frases e deitados em mesas de bares
Mais extensos que o mundo.

Ainda assim
Nem tão imenso e fundo
O poema persiste.


Plínio de Aguiar
SSA, novembro 2011

Poesia - Hamilton Faria

O Circo - Alexandre Rapoport
Ternura

                         o circo
                         o cavalo
                         o trem

o palhaço que ainda hoje me faz rir
o circo pegando fogo
o cavalo mais belo da retina
um trem de querubins
o palhaço que ainda hoje riu de mim

luz pura
linhas seguras
dentro : fogo aceso
fora : mundo ao acaso
ternura
ri singela
na janela

luminosa água que arde

o mundo brilha
como a arte

Poesia - Santiago de Novais

Imagem enviada pelo autor

a pedro, mon drama.
LA SANGRE BUENA PARALAXE

Andar toda cannabis da vida menos eu
que semente ?
Semeada escrúpulos em areia 
Fomos nós e nossos espermatozoides basálticos
Alucinados?
Depois de     nossa pena
De viver    dias estranhos
De serem vividos   à sangue fria
Como se tivéssemos   sangue de menos na veia
A fé nossa morfina  que nos
ssa l ta                         a    ss sal            ta
so  bre ss  alta
para o além da   possibilidade esgotadas.
A heroína de entender  que viver é esta 
Hemorragia que não  conseguimos conter
E que nos mata.
Como estar num aquário e ser visto Sem que ninguém de nos tirar. Passa.

Poesia - Dorival Fontana

The Enigma of Desire - Salvador Dali, 1929
Analgesia

Toda dor faz
crescer.
Toda dor faz
morrer.
A dor não
passa.
A morte
tarda.
A vida segue
apressada.
Corre feito
máquina...
e vai sem mim.
Toda dor já
não sinto.
Todo amor
extinto...
Contínua ressaca
de um arrastão
sem fim.

Poesia - Pedro Du Bois

The Blue Door, by Darice Machel McGuire
Memória

Pelo vão da porta
insiro a memória

cobro pela entrega
o gesto
desprendido do envelope
sob a porta

envelopo a série
e na espera tenho
a sequência mnemônica
dos atrasos

a companhia alarma a casa
e sobre o assoalho
repousa a prova na memória
avivada dos extremos.

Poesia - Carla Andrade

Ricardo Fernandez Ortega
Arquitetura do deserto

Tempo,
flanela das remelas
dos dias.
Tempo, escavadeira de
esperanças.
Tempo, bailarina no
deserto.

Leve embora suas pernas oleosas
para onde não haja as mãos da
saudade.

Poesia - Edson Bueno de Camargo

Inspiration - Misha Gordin
os anjos e os santos

os vidros
bebem os reflexos do dia
lento
a luz se extingue

ai os anjos e
os santos espreitam
nas encruzilhadas
observam atônitos
o medo disforme dos esquecidos
a boca escancarada e sem som

o prédio é música diatônica
o canto da grama crescendo
a primavera está por todos os lados
flores urbanas enfrentam a morte

lacônico
o Sol não responde
as perguntas tortas desta tarde
e a figueira descansa seu sono dos dias

o cromo das costas dos dedos
as romãs foram esquecidas

o velho se repete no novo
de forma indefinida e definitiva
(na memória tudo mente)

Poesia - Marina Alexiou

Imagem enviada pela autora
ESCRITO Nº67

Vistas dos longevos das distâncias históricas à sua frente,
As pupilas eram como um sol mergulhado no horizonte em direção ao ocaso
Das reminiscências corajosamente enfrentadas, ao longo de um trajeto único e gloriosamente vivido,
Com braços generosos e sedutores a enlaçar com abraços uma fenda qualquer dos tesouros com os quais a sua gênese a agraciou.

Fortaleza e graça. Sinônimos desse delicado perfil que se apresenta aos deuses, que a confortam com vislumbres de imagens que pensava perdidas para sempre...
A sinuosidade de seus movimentos exerce uma mutação nos ventos dos caminhos volvendo o mapa e o intento dos seus desígnios.

Nesse declínio solar o dia, porém, não se findou. Ela olha para o poente e vê, com surpresa, um novo alvorecer. Nítido. Estranho. Incomum.

Da superfície do mar em seus olhos se põe, então, a brilhar essa inesperada aurora. E o som que a contempla é pleno de raios sibilantes de enigmas.

A continuidade deste dia dependerá da constância da sua vigília e da atenção a cada sonho vislumbrado nessa onírica imensidão....

Que a segue numa vertiginosa embriaguez de mensagens e respostas revelando aquilo que ela já suspeitava em seu íntimo.

A sua face de esfinge.....

Crônica - Roniwalter Jatobá


A Matter of Red - Michael Filan
A paixão segundo Cassiano

Encontro um velho amigo na Rua Barão de Itapetininga. Tarde fria, rua tomada de saltimbancos, vendedores de loteria, passantes apressados e alguns, como o cronista, viajando no meio da multidão.

-- Velho Cassiano!

Era exagero, no entanto. Cassiano Lima Guedes tem 46 anos e, talvez por hereditariedade, não tem um fio de cabelo branco na cabeça. O melhor: encontrar alguém na vasta metrópole e que, há quase vinte anos, tomou caminhos diferentes. Por alguns instantes, alheios ao movimento ao redor, ficamos ali sem saber o que perguntar um ao outro, mas logo o convido para um café na Rua Xavier de Toledo.

Sua história não diferencia de tantas outras, mais de um milhão, na batalha pela sobrevivência na cidade grande.

-- Estou sem emprego, meu caro.

Sentamos numa mesa da Leiteria Americana, pouca gente nessa hora.

-- Por favor, não vamos falar de coisas tristes -- busca o rumo da conversa.

Lembramos os amigos dançarinos das tardes domingueiras no Clube da Nitro, em São Miguel Paulista. Um voltou para sua terra de origem, outro entrou para a igreja do bispo Edmir Macedo e há outros que se deram bem e dizem que são felizes.

-- Lembra de Camila?

Sinto que Cassiano não resiste às tristezas da vida, mas queria começar pelas lembranças de antigamente.

-- Sim -- digo. -- Como poderia esquecer?

-- Era a mais bela de todas -- ele suspira. -- Não era mesmo?

Pele alva, magra, cabelos cacheados, beirava os vinte anos. No Clube da Nitro, era um par e tanto. Hipnotizado pelo cheiro de jasmim, cada parceiro seguia seu corpo ágil, que avançava no ritmo da música, como levado pelo vento no amplo salão. Depois, ela ria de corpo inteiro, balançando os seios volumosos que explodiam em blusas de tecidos finos e coloridos.

Quando chegou a São Paulo vinda do Interior, Camila foi morar na Rua Raquela Sinopoli, bem junto à minha moradia. Vivia com a mãe separada e mais dois irmãos. Raramente era vista, sempre fazendo os afazeres domésticos. O seu único divertimento eram os bailes domingueiros. Ali, podia se soltar na dança e, também, na arte de torturar corações até cair deles a última gota de sangue. Joel, Euclides, Marinho e Cassiano dariam a metade da vida para sofrer nas mãos da alegre e arredia menina de olhos verdes.

-- Dançar, tudo bem, mas namorar gente sem futuro nem em sonho -- esnobava entre as raras amigas.

Meses depois de minha mudança de São Miguel para um sombrio prédio na Praça Júlio Mesquita, no Centro, me contaram que a moça havia descoberto o caminho da fortuna. O felizardo era um fazendeiro da cidade de sua família, acho que Vista Alegre do Sul. Também fui informado que o grupo de apaixonados por ela se conformara com o casamento, menos Cassiano.

Cada um tem suas loucuras. Para amenizar a perda, Cassiano mandou ampliar, de um pequeno retrato, imagens dela em diversos tamanhos, e forrava a parede de seu quarto. A demasiada exposição de seu rosto, ao contrário, piorou a situação do rapaz. Já em 1978, depois de sete anos sofrendo com a ausência de Camila, Cassiano sucumbiu à paixão que impedia seu sono, mesmo em noites de embriaguez. Então, resolveu ir em busca de sonho: viajava atrás dela nos finais de semana, quando folgava na fábrica. Em Vista Alegre, acho que era lá mesmo, passava o dia inteiro a seguir a amada pelas ruas ou ficava de longe na observação de sua casa. Na pequena cidade, porém, os seus passos eram também vigiados pela população desconfiada daquele visitante que não tinha ali nem parente nem aderente. Foi preso numa tarde e espancado na delegacia. Um soldado, quem sabe a mando do marido de Camila, disse a Cassiano que se voltasse seria um homem morto. Morto!

A vida, francamente, é uma sucessão de histórias iguais, digo a Cassiano. Recentemente, li um caso semelhante. O comerciante paulista Carlos Alberto Roda do Vale foi preso por três anos e deportado pelo Serviço de Imigração dos Estados Unidos, acusado de perseguir, por amor, uma ex-namorada, Judith. Conheceram-se há mais de quinze anos, em São Paulo, quando eram estudantes. Depois de formada, ela migrou para a Califórnia e se casou com um americano rico. Inconformado, Vale vendeu um posto de gasolina em Atibaia e foi atrás da mulher.

-- No dia em que fui preso, os policiais revistaram meu carro à procura de armas -- contou Carlos Alberto. -- Sabe o que encontraram no banco traseiro? Duas rosas. Eram para ela.

Cassiano ouviu tudo aquilo como uma criança ligada num conto de fadas, embora o final não fosse feliz.

-- Sou mais arrojado ainda do que esse cara de Atibaia -- disse antes de partir pelas ruas paulistanas. -- É melhor morrer de amor do que de conhaque.

Bravata, apenas. Sei que o velho Cassiano não vai fazer nenhuma besteira. Ele sabe que toda paixão tem limites e que um amor não correspondido não vale a dor de um corpo crivado de balas.

Conto - José Geraldo de Barros Martins

Ilustração do autor, baseado em fotograma do filme
“O Bandido da Luz Vermelha” de Rogério Sganzerla.

Agouros Tropicais

Domênico Donaccio prometera várias vezes que iria ensinar Karine Aranjuez a atirar com uma arma de verdade. Na manhã do dia combinado, quando rumaram para uma praia no litoral paulista, ele estava bastante apreensivo, achando que algo iria dar errado, que seria um enorme erro emprestar seu revólver para sua namorada… afinal ela , em virtude de sua descendência espanhola, era bastante ciumenta e temperamental… mas fazer o quê ? promessa é dívida…



Depois de estacionarem, o nosso protagonista sentou-se sobre o chão e observou Karine descarregar o tambor do Smith & Wesson calibre 32… após minutos de silêncio, um velhinho aparece correndo, aos prantos, com um pássaro ferido na mão.



Ao se aproximar os dois viram que ele trazia um papagaio baleado… A ave olhou para o casal e disse em meio aos últimos suspiros: – “Nevermore”… e então fechou os olhos…

- Vocês mataram o meu papagaio!!! vocês não tem idéia do que fizeram!!! Ele era ensinado!!! Sabia declamar “The Raven” do Allan Poe, de cor e em inglês… eu ganhava a vida mostrando ele aos turistas, agora estou perdido… Vão embora seus filhos-da-mãe, nunca mais voltem aqui!!!



Domênico e Karine não abriram a boca, após meia hora ela disse que achava que era melhor que se separassem pois as últimas palavras do papagaio eram um tremendo mau agouro. Ele concordou silencioso …

O nosso protagonista frustrado, largou o emprego e se tornou funcionário público municipal, mais especificamente virou coveiro.

Devido a natureza do dia-a-dia de sua mais nova profissão ele começou a beber demais. Detalhe: não gostava de cachaça seu forte era gin desinfetava o aroma de defunto.

Uma noite, chegou em casa cambaleante, fritou um pedaço de contra-filé e se sentou para comer, mas a bebedeira era tamanha que ele dormiu sobre o bife… sonhou… sonhou que estava naquela mesma praia e que havia um navio que apitava três vezes e então ele jogava a arma no mar, aí uma ave aparecia no céu. Acordou … limpou o rosto e comeu a carne…

No dia deguinte, ligou para o trabalho dizendo que só iria no periodo da tarde. Foi para o litoral. Na praia avistou a embarcação e ouviu os três apitos. Arremessou então o 32 para os reinos de Netuno… À tarde, de volta ao ambiente de trabalho (cemitério), notou um corvo sobre uma lápide… se aproximou, a ave olhou para ele e cantou um samba de Noel Rosa:

“Se existe alma,



Se há outra encarnação



Eu queria que a mulata



Sapateasse em meu caixão” (*)

Domênico descobriu então que o pássaro cantava todo o repertório do ilustre sambista, de “Primeiro Amor” (Noel Rosa / Ernani Silva) a “Último Desejo” (Noel Rosa). Percebeu também que poderia dar a ave de presente para o velhinho caiçara, desfazer todo o mal cometido e a seguir se reconciliar com Karine Aranjuez… Batizou o corvo de “Lacerda” e o levou para o pobre pescador.

Deixou aquele emprego hediondo e parou de beber aquela coisa com gosto de perfume. Hoje está casado com Karine… um dia desses ela disse:

– “Meu bem e se em vez de me ensinar a atirar, você me levasse para pescar ???”

- “Tá louca ??? Nem pensar … E se de repente você pescar um revólver enferrujado ???”



- “Mas uma arma nessas condições não funciona.” Ela retrucou.



- “Será??? E se funcionasse??? Eu não iria achar de novo outro corvo como o ‘Lacerda’ “.



- “Não se preocupe , mesmo que isso acontecesse e acidentalmete a arma disparasse atingindo o ‘Lacerda’, desta vez eu acharia outra ave rara: um albatroz que declamasse Baudelaire ou uma arara que cantasse tudo do Ary Barroso.”

- “Então tá bom .”

(*) Fita Amarela (Noel Rosa)

Conto - José Miranda Filho

Friday Sessions - Oil on Canvas by Olivier Longuet
Encontro de Amigos - Parte 7

Edward é filho do embaixador do Brasil na Irlanda, Dr Jackson Stevenson Alves. Conheci o Dr. Jackson quando estive de férias em Recife, numa feira para realização de negócios e apresentação de projetos de tecnologia entre Irlanda e Brasil, sob o patrocínio dos Ministérios de ambos os Paises. Era um homem alto, aproximadamente 55 anos de idade e olhar atento. Era de pouca conversa, mas mesmo assim, pudemos entabular uma conversação sobre o acontecimento do dia, bem como algumas considerações sobre a política mundial e especialmente sobre o Brasil. Doutor Stevenson, sempre cordato, mas econômico nas palavras eximia-se de alguns comentários, talvez para não se envolver em assuntos de outros paises, por questão de soberania e respeito mútuo. Quando lhe disse que estivera com Toninho, perguntou-me um tanto surpreso.

- Que Toninho? Disse-lhe que era o Antonio Ferreira da Silva, Diretor da Metals Steel Inc. Ele abriu os olhos verdes encobertos por uma lente grossa e branca e acenou-me com a mão esquerda indicando-me um lugar onde pudéssemos sentar. Confesso que fiquei um tanto indeciso, mas depois percebi que havia apenas curiosidade dele em querer saber noticias do amigo que não o via há alguns anos. Alto e louro, Doutor Jackson pertencia a uma tradicional família de Recife, descendentes de holandeses, invasores de Pernambuco e inimigos dos portugueses no período colonial.

Seu Pai havia sido Prefeito de Recife, Deputado Federal e Senador. Seu bisavô Governador da Província e Conselheiro da República. Seu avô não seguiu a carreira política, apenas galgou o cargo de Conselheiro do Itamaraty, diplomata sem muita expressão, cuja carreira atingiu o ápice quando ocupou o cargo de embaixador do Brasil em Portugal, substituindo o titular, acometido por uma doença infecciosa, mas, apenas por dois anos.

Falava e escrevia fluentemente os idiomas Inglês, Francês, Alemão, Italiano, Espanhol e Irlandês, (Irlandês, ou Gaeilge, é o segundo idioma oficial que se fala na Irlanda, depois do Inglês). Irlanda, a 3ª. Maior ilha da Europa está dividida em duas, Republica da Irlanda e Irlanda do Norte, esta ainda faz parte do Reino Unido, os reais invasores ou descobridores, como querem alguns, que se apossaram da Ilha em 1801 e impuseram aos nativos grandes transformações e investimentos, que infelizmente não ocorreram no curto espaço do tempo, mas que para gáudio da população, atualmente seus líderes conseguiram uma coalizão e formaram um governo de união. Os conflitos internos, desde a sexta feira santa, de 1988, finalmente, parecem ter chegado ao fim, e a Irlanda do Norte, reencontrou seu caminho: a união entre católicos e protestantes, visualizado uma paz duradoura e rumo à união de toda a Ilha num futuro ainda duvidoso. Mesmo tendo a autonomia política, o país continua tendo a justiça e a policia sob o patrocínio do Reino Unido, que mantém um ministério para a região. Grandes passos, porém, já foram dados.

Doutor Jackson era diplomata. Servia em Dublin, como embaixador, há 15 anos. No começo da carreira foi Secretario da Embaixada, depois embaixador nomeado pelo amigo e Presidente, João Goulart com quem tinha grande afeição e amizade. Começou sua carreira como oficial e depois secretário de consulado junto à Comunidade Européia. Era muito respeitado pelos funcionários e admirado pelos superiores, notadamente pela sua cultura.

Na madrugada do dia 31 de março de 1964, foi despertado pelo secretário da embaixada, Senhor Francisco Ruiz Ferreira, para dar-lhe a notícia de que um golpe militar havia sido deflagrado no Brasil, com a sublevação das tropas de Minas Gerais e a adesão dos exércitos do Rio e São Paulo, pata destituir o Presidente João Goulart. Jango, como também era conhecido o Presidente da República foge para o Rio Grande do Sul contando com o apoio do Governador Leonel Brizola, seu cunhado, governador do Estado. O Presidente não queria o derramamento de sangue do povo brasileiro, e por isso resolveu asilar-se no Uruguai, fronteira com sua terra natal, Uruguaiana, no Rio Grande do Sul, aonde viveu pelo resto dos anos de sua vida, até o dia de sua controvertida morte.

Dr. Jackson foi informado pelo seu secretário que lhe passou a seguinte notícia.

- Senhor Embaixador, o Presidente João Goulart foi destituído do cargo de Presidente por uma junta militar que o obrigou a fugir afim de não ser preso e deportado. O exército fechou o Congresso Nacional e bloqueou todos os portos e aeroportos do País.

- Não temos, no momento como obter outras informações, pois todos os canais de noticias estão bloqueados no Brasil disse. - Vamos esperar até mais tarde para obtermos novas notícias. Boa Noite – Desligou o telefone e retornou imediatamente ao seu posto na Embaixada.

Tudo permanecia obscuro, nenhuma informação chegava à Embaixada, até que finalmente, um fax passado no dia seguinte pelo encarregado dos negócios exteriores do Itamaraty, confirmou oficialmente a noticia. O Presidente fora deposto. O Senado Federal através do Senador Moura de Andrade declarou vago o cargo do Chefe da Nação e elegeu o Deputado Ranieri Mazzili o novo presidente, dando-lhe posse imediata e sob juramento no Congresso Nacional. Após o desfecho e acertado os detalhes de transmissão de cargos, a junta militar assumiu o País. Congresso fechado, sindicalistas e estudantes presos, deputados, governadores, senadores cassados e com direitos políticos suspensos, alguns presos outros exilados, funcionários públicos demitidos... Um caos!

O Embaixador tomou conhecimento da situação político-administrativa e recolheu-se ao seu gabinete, triste, mas cônscio de seus deveres e obrigações para com a Pátria que representava e que tanto serviu com honra, orgulho e dignidade. Não queria comentar nada com seus subordinados até inteirar-se definitivamente dos fatos. Não queria causar pânico entre as famílias daqueles que direta ou indiretamente viviam sob sua custódia. Indagava-se agora como aceitar algumas determinações, sem ao menos conhecer de seus superiores o motivo da deposição do Presidente, e o que fazer depois. Acatou algumas ordens que lhe foram transmitidas e recusou-se a aceitar outras que julgou desnecessárias e inconvenientes, dada à reputação que sempre gozou no meio diplomático e no país que servia, mormente do ponto de vista ético e moral, que não o obrigava a cumprir, contrariando sua posição social perante a comunidade que representava. Mesmo insubordinando-se, ainda assim permaneceu na Embaixada da Irlanda enquanto aguardando novas ordens e novos contatos. Presumiram os novos dirigentes da política externa brasileira, sob a égide do Ato Institucional número 05, que o Embaixador havia desrespeitado a instituição, descumprindo ordens do novo Ministro das Relações Exteriores de não querer regressar ao país.

Puro engano! O Embaixador, homem culto e inteligente, jamais teria tamanha insensatez de transgredir ordens superiores. Essa atitude do Embaixador foi o marco inicial para uma relação conflituosa com o novo Ministro. No dia 02 de abril de 1969, um mês após a eclosão do golpe militar deram-lhe ordens para retornar imediatamente ao País, sob a condição de tornar –se desertor, caso não se apresentasse. Foi substituído no cargo pelo Secretário Adjunto.

Ao desembarcar no aeroporto de Brasília, seguiu diretamente para o Itamarati. Lá já o esperava uma Junta Militar, com um processo pré-concluso e uma sindicância em andamento, acusando-o de pertencer ao Partido Comunista, de conspirar contra o país e ter-se recusado se apresentar ao seu superior. Foi demitido do serviço público e preso. Seis meses após a prisão, num processo conturbado, sem direito à defesa, mal dirigido e mal formulado, consideram-no culpado. Sentenciado a cinco anos de reclusão, cumpriu a pena no Presídio de Fernando de Noronha. Permaneceu preso apenas três meses. Concederam-lhe o exílio por exigência de alguns simpatizantes do MR8, em troca da liberdade do embaixador americano no Brasil, que havia sido seqüestrado.

Exilou-se na França.

Para sobreviver fazia palestras e conferências, além de lecionar Ciências Políticas e Sociais na Universidade de Sorbonne. Naquela época, Edward tinha um ano de idade. Morou em Paris por dez anos.

Retornou ao Brasil em 1979, permanecendo apenas dois anos, quando saiu definitivamente e foi residir em Dublin, cidade em que passou grande parte de sua vida, que sempre admirou e gostou de viver e aonde seus filhos nasceram e cresceram. Foi em Dublin que Edward nasceu e cresceu sob a rigidez educacional imposta por seus pais. Formou-se em Engenharia Eletrônica e Comunicação Social. Doutorou-se em Literatura Universal pela Universidade de Oxford, em Londres, em cuja universidade lecionou literatura universal por dois anos.

Escrevia artigos sobre literatura universal nos jornais locais. Tinha uma coluna diária no Irish Independent onde abordava assuntos relacionados com a matéria da qual era Mestre, notadamente da literatura brasileira, terra de seus pais e que sempre lhe fascinou. Edward sempre gostou de escrever. Seu maior desejo era publicar um livro em que manifestasse todo o seu interior, dissecasse a vida difícil do homem simples do campo, e lançasse o desafio para a sociedade dos abastados para quem nada falta.

Certa vez, num pub, no final da jornada diária, Edward confidenciou-me este desejo e deixou-me transparecer essa vontade. Desejava publicar um livro. Mostrou-me um esboço, dezenas de paginas, algumas manuscritas, outras datilografadas que li e gostei. Disse-lhe que tinha um amigo editor que poderia lhe ajudar. Conseguimos marcar uma audiência com Mr. George F. Smith para o dia seguinte.

Mr. Smith, executivo e diretor da editora Nova Dublin morava numa bela casa assobradada perto da Fênix Parque. Às 9 horas estávamos na recepção da editora, um prédio de aspecto rústico, comum em Dublin, aguardando para que nos atendesse. Alguns minutos depois, Mrs. Janne, sua secretária, acompanhou-nos até seu gabinete. A sala era decorada com ilustrações poéticas e trechos literários de vários escritores do mundo inteiro. Vi e li frases de Jorge Amado e Paulo Coelho e também de Saramago. Não vi e nem li mais porque não houve tempo. Logo Mister Smith mandou-nos sentar, serviu–nos café e perguntou sobre o projeto. A mesa de Mr. Smith era de carvalho escuro, estilo colonial e sobre ela havia uma bandeira do Brasil sob um vidro brilhante e transparente. Em frente à mesa existiam duas cadeiras, também de estilo colonial, forradas em couro escuro. Ao redor da mesa havia várias estatuetas de bronze e de barro, que salvo engano de minha parte, eram peças artesanais talvez de Recife ou Maranhão.

-Então Mr. Edward deseja realmente iniciar-se no campo literário? Perguntou Mr. Smith, com um vozeirão alforriado, característica de um nobre irlandês. A bochecha rechonchuda e vermelha, estremeciam de um lado a outro da boca, quando falava.

-Quais são suas pretensões e seu objetivo pata que possamos progredir.Tenho a sua disposição duas editoras, desde que a obra alcance o anseio. Ultimamente o mercado literário está bastante exigente.(traduzir para Inglês)

Edward detalhou minuciosamente seu projeto e suas idéias. Mr. Smith ouviu-o atentamente, às vezes queria saber de alguns pormenores e exclamava;

- Tell me about this.

- Oh... Very Good. Mutcho bom, dizia num português meio esfacelado, fitando-nos com aqueles olhos verdes arregalados, com expressão de alegria.

Eu só ouvia e nada respondia, fingia não estar prestando atenção à conversa. Olhava para todos os lados da sala, para cima, para baixo. Desviava os olhos, quando ele me olhava.

Num determinado momento ouvi um grito de contentamento de Edward - apesar de não estar atento à conversa dos dois- quando Mr. Smith vociferou:

Mr. Edward, You have a excellent history. I can to publicher your book!

Neste instante não pude conter a alegria e a satisfação de ter ouvido aquelas palavras e dirigi meu olhar para Edward que também estava estupefato pelo que acabara de dizer Mr. Smith. Nada lhe disse, porem, fitei meus olhos aos seus,quando pude notar sua extravagante alegria. .

O encontro com Mr. Smith foi realmente agradável e muito proveitoso. Não interagi em momento algum, primeiro para não interrompê-los, e segundo por não ter qualquer interesse pessoal ou financeiro no projeto, por ser amigo de ambos. Apenas ouvia, e quando qualquer um deles me olhava, balançava a cabeça, sem oferecer, entretanto, qualquer sugestão.

Ao sair da sala de Mr. Smith, Edward abraçou-me, quando pude notar em seu olhar a demonstração de agradecimento e amizade –

- Amigo, saio daqui bastante confiante deste encontro. Acho que em breve você terá o prazer de ler e reler um livro que, de certo modo, traça um pouco do “modus vivendi” do povo do Brasil.

Disse-me que não sabia como agradecer-me e estava bastante esperançoso com o resultado da conversa, e repetiu por varias vezes que o encontro tinha sido realmente muito bom, e que havia grandes possibilidades da assinatura de um contrato de intenções mútuas para a publicação de outras obras inéditas ainda de sua autoria, desde que a exclusividade fosse da Editora Crawford, também de sua propriedade.

Já estava no Brasil quando tomei conhecimento através da Internet que a editora Crawford havia publicado o livro em dois idiomas: o Inglês e o Irlandês, este último nativo e original, atualmente ministrado nas escolas e obrigatório em todo país. Após alguns dias, Edward informou-me através de e-mail que o livro estava tendo boa aceitação e poderia tornar-se sucesso de vendas entre o publico da Irlanda. Mandou-me meses depois, um convite para a noite de autógrafo que seria realizado no salão nobre da editora com a presença de personalidades do mundo literário. Não pude comparecer por problemas particulares e familiares, contudo, através de e-mail lhe enviado, desejei-lhe sucesso, e roguei a Deus que o abençoasse e lhe proporcionasse fortes luzes capazes de iluminar o espaço literário que acabara de conquistar. Alguns dias depois recebi um exemplar por ele autografado, com a seguinte dedicatória escrita do próprio punho:

- ”To my friend and brother whit love, Edward. Dublin, Aug 16th 2006.”

A capa, muito bem diagramada era de autoria de Down Track, um famoso publicitário de Belfast. O título em Inglês também era bastante sugestivo: “The Liunas City”.

Descrevia a história de uma cidade típica do norte de Mato Grosso, no Brasil, com os personagens, Pedro Tristão e João Simão, dois artesãos expoentes da música de cocho e da literatura popular. Entre outros personagens havia também Padre Frido, figura enigmática, alemão de nascimento, de profissão duvidosa, pois segundos algumas línguas ferinas da cidade, Padre Frido ou Frido Doier, seu nome natural, viera até Liúnas foragido da justiça alemã, condenado por crimes de sonegação fiscal, prostituição, jogatina e alguns homicídios a ele atribuídos, porém, não provados. A cidade inteira comentava seu passado e suas atitudes, porem, todos tinham receio de falar, mesmo porque jamais alguém pôde provar coisa alguma, e ele seguia tranquilamente com seus sermões e pregações.

A primeira edição alcançou a tiragem de 5.000 exemplares que se esgotou rapidamente.

Soube mais tarde que o Doutor Stevenson tinha um outro filho que vivia nos Estados Unidos, na cidade de Las Vegas, no Estado de Nevada e trabalhava no famoso Cirque Du Soleil. Quando uma variante do circo denominada de “Saltimbanco”, um dos vários espetáculos do Cirque Du Soleil esteve no Brasil fomos assistir. Cortesia de Alex, que a pedido do seu Pai nos concedeu graciosamente os ingressos, cuja autorização nos foi liberada na bilheteria mediante nossa identificação.

Aos 72 anos, Doutor Stevenson vive confortavelmente numa bela casa assobradada cercada de verde, com um jardim florido, num dos melhores bairros da cidade de Dublin. Leciona Ciências Políticas e Sociais e escreve artigos para jornais locais. Traduz para o inglês e para a língua irlandesa artigos de jornais e revistas brasileiras que interessam aos leitores da Irlanda e dos paises que compõem o eixo do Reino-Unido: Inglaterra, Escócia, Islândia e Irlanda do Norte. Também traduz para o português, obras de autores irlandeses, principalmente de James Joyce, por força de contrato com a editora para a qual trabalha.

Tradução - Souzalopes & Eduardo Miranda


Dizem que "Finnegan's Wake" de James Joyce não passou de uma brincadeira do autor, e ele simplesmente vomitou palavras sem muito sentido e conexão, e se deliciou de rir ao receber elogio dos críticos, classificando a verborrágica novela de uma obra de arte da literatura contemporânea.

É difícil identificar uma trama em Finnegans. Só sabemos que é um tema de ascenção e queda... e muitos estudiosos defendem a forte analogia - não só ao nome da obra - a uma velha canção irlandesa, chamada "Tim Finnegan's Wake."

Publico aqui uma "transcriação livríssima" de Souzalopes desta canção, símbolo do ciclo universal da vida, com uma pequeníssima colaboração minha.

O Despertar de Tião Fuméca

1.
Na rua que anda, Fuméca morava
Pedreiro baiano, pra lá de estranho
Doido de pedra, a língia enrolava
Ganhava seu pão com pá e gadanho.
Tião era assim, ele só tinha um fraco:
Nasceu pra beber, mamava cachaça,
E só trabalhava enchedo o seu caco,
E já de manhã, mandava manguaça.

refrão:
Gandaia! Gandaia! Chama o parceiro,
E samba no chão, arrasta o sapato.
Eu falo a verdade, aqui no terreiro
Fuméca acorda e arma o barraco.

2.
Um dia ficou bebinho de souza
E caiu da escada, o corpo a dançar.
A testa no chão lascou feito louça.
E o levaram pra casa, para o velar.
Num limpo lençól, tão branco que alveja,
Ficou o coitado, morto na cama.
Deixaram nos pés barril de cerveja,
Na cabeceira, garrafa de cana.

refrão

3.
Vão os amigos o corpo velar
A velha pra todos serve o café:
Bolo e bolacha, cuscus e jabá.
Todos fumando, tomando seu mé.
Maria Moreira, gritando já chora:
"Quem foi que já viu defunto tão lindo?
Tião, seu danado, qual morte tem hora?"
Joana responde: "Calada! Saindo!"

refrão

4.
Teca de Tonho falou quase louca:
"Caralho Maria, chega de merda!"
Maria meteu-lhe a cinta na boca,
Jogou-a no chão, de pernas abertas.
Aí teve início o conflito geral -
Homem com homem, mulher com mulher.
Pra toda a cidade foi um carnaval,
Sangue no prato, em garfo e colher.

refrão

5.
Mirco Marrudo quis emendar o assunto
quando quase recebeu uma garrafada da marvada
desviado a tempo, a bixa deu direto no defunto
que além de morto tinha agora a roupa encharcada.
"Vixe! Reviveu!" exclamaram" "Olha como ele reviveu!"
E Fuméca pula da cama, meio que sem eira nem beira
garrafa numa mão, copo na outra, esclareceu:
Um brinde ao diabo... vim tomar a saideira!

refrão


Tim Finnegan's Wake

1.
Tim Finnegan lived on Walker Street
A gentleman, Irish, mighty odd;
He had a brogue both rich and sweet
And to rise in the world he carried a hod.
Now Tim had a sort of the tipplin' way
With a love of the whiskey he was born
And to help him on with his work each day
He'd a "drop of the cray-thur" every morn.

Chorus:
Whack fol the darn O, dance to your partner
Whirl the floor, your trotters shake;
Wasn't it the truth I told you
Lots of fun at Finnegan's wake!

2.
One mornin' Tim was feelin' full
His head was heavy which made him shake;
He fell from the ladder and broke his skull
And they carried him home his corpse to wake.
They rolled him up in a nice clean sheet
And laid him out upon the bed,
With a gallon of whiskey at his feet
And a barrel of porter at his head.

Chorus

3.
His friends assembled at the wake
And Mrs. Finnegan called for lunch,
First they brought in tea and cake
Then pipes, tobacco and whiskey punch.
Biddy O'Brien began to bawl
"Such a nice clean corpse, did you ever see?
"Aye Tim, mavourneen, why did you die?"
"Arragh, hold your gob" said Paddy McGee!

Chorus

4.
Then Maggie O'Connor took up the job
"O Biddy," says she, "You're wrong, I'm sure"
Biddy she gave her a belt in the gob
And left her sprawlin' on the floor.
And then the war did soon engage
'Twas woman to woman and man to man,
Shillelagh law was all the rage
And a row and eruption soon began.

Chorus

5.
Then Mickey Maloney ducked his head
When a noggin of whiskey flew at him,
It missed, and fallin' on the bed
The liquor scattered over Tim!
The corpse revives! See how he raises!
Timothy rising from the bed,
Says,"Whirl your whiskey around like blazes
Thanum an Dhul! D'ye think I'm dead?"

Chorus

Foreign Word - Sophia de Mello Breyner Andresen

Ilustração de rabisco vieira
Sofia de Melo Breyner Andresen nasceu em Porto, aos 6 de Novembro de 1919. Ela foi uma das mais importantes poetisas portuguesas do século XX. Foi a primeira mulher portuguesa a receber o mais importante galardão literário da língua portuguesa, o Prémio Camões, em 1999. Tem origem dinamarquesa pelo lado paterno. O seu bisavô, Jan Heinrich Andresen, desembarcou um dia no Porto e nunca mais abandonou a região. Veio a tornar-se uma das figuras mais representativas de uma atitude política liberal, apoiando o movimento monárquico e denunciando o regime salazarista e os seus seguidores. Casou-se, em 1946, com o jornalista, político e advogado Francisco Sousa Tavares e deu a luz a cinco filhos. Em 1964 recebeu o Grande Prémio de Poesia pela Sociedade Portuguesa de Escritores pelo seu livro Livro sexto. Depois do Revolução dos Cravos foi eleita para a Assembleia Constituinte. Distinguiu-se também como contista e autora de livros infantis. Foi também tradutora de Dante Alighieri e de Shakespeare e membro da Academia das Ciências de Lisboa. Além do Prêmio Camões, foi também distinguida com o Prémio Rainha Sofia, em 2003. Sofia de Melo faleceu aos 84 anos, no dia 2 de Julho de 2004.


Regret - Cyn McCurry

Absence
Translated into English by Eduardo Miranda

In a desert with no water
On a night with no moon
In a country with no name
Or in a land with no shores

However great the despair can be
No absence is deeper than yours.

Ausência

Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua

Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.

Releitura - Mário de Sá-Carneiro

In Memory of You is a painting by Reiner Poser


Álcool

Que droga foi a que me inoculei?
Ópio de inferno em vez de paraiso? ...
Que sortilégio a mim próprio lancei?
Como é que em dor genial eu me eternizo?

Nem ópio nem morfina. O que me ardeu,
Foi álcool mais raro e penetrante:
E só de mim que ando delirante-
Manhã tão forte que me anoiteceu.

Ilustração - José Geraldo de Barros Martins

Ilustração de José Geraldo de Barros Martins

Ilustração - Joe Fenton

Solitude, by Joe Fenton

Autores

Ademir Demarchi Adriana Pessolato Adília Lopes Afobório Agustín Ubeda Alan Kenny Alberto Bresciani Alberto da Cunha Melo Aldo Votto Alejandra Pizarnik Alessandro Miranda Alexei Bueno Alexis Pomerantzeff Ali Ahmad Said Asbar Almandrade Alyssa Monks Amadeu Ferreira Ana Cristina Cesar Ana Paula Guimarães Andrew Simpson Anthony Thwaite Antonio Brasileiro Antonio Cisneros Antonio Gamoneda Antonio Romane António Nobre Ari Candido Fernandes Ari Cândido Aristides Klafke Arnaldo Xavier Atsuro Riley Aurélio de Oliveira Banksy Bertolt Brecht Bo Mathorne Bob Dylan Bruno Tolentino Calabrone Camila Alencar Carey Clarke Carla Andrade Carlos Barbosa Carlos Bonfá Carlos Drummond de Andrade Carlos Eugênio Junqueira Ayres Carlos Pena Filho Carol Ann Duffy Carolyn Crawford Cassiano Ricardo Cecília Meireles Celso de Alencar Cesar Cruz Charles Bukowski Chico Buarque de Hollanda Chico Buarque de Hollanda and Paulo Pontes Claudia Roquette-Pinto Constantine Cavafy Conteúdos Cornelius Eady Cruz e Souza Cyro de Mattos Cândido Rolim Dantas Mota David Butler Denise Freitas Desmond O’Grady Dimitris Lyacos Dino Valls Dom e Ravel Donald Teskey Donizete Galvão Donna Acheson-Juillet Dorival Fontana Dylan Thomas Décio Pignatari Edgar Allan Poe Edson Bueno de Camargo Eduardo Miranda Eduardo Sarno Eduvier Fuentes Fernández Elaine Garvey Elizabeth Bishop Enio Squeff Ernest Descals Eugénio de Andrade Evgen Bavcar Fernando Pessoa Fernando Portela Ferreira Gullar Firmino Rocha Francisco Niebro George Callaghan George Garrett Gey Espinheira Gherashim Luca Gil Scott-Heron Gilberto Nable Glauco Vilas Boas Gonçalves Dias Grant Wood Gregório de Matos Guilherme de Almeida Hamilton Faria Henri Matisse Henrique Augusto Chaudon Henry Vaughan Hilda Hilst Hughie O'Donoghue Husam Rabahia Ian Iqbal Rashid Ingeborg Bachmann Issa Touma Italo Ramos Itamar Assumpção Iulian Boldea Ivan Donn Carswell Ivan Justen Santana Ivan Titor Ivana Arruda Leite Izacyl Guimarães Ferreira Jacek Yerka Jack Butler Yeats Jackson Pollock Jacob Pinheiro Goldberg Jacques Roumain James Joyce James Merril James Wright Jan Nepomuk Neruda Jason Yarmosky Jeanette Rozsas Jim McDonald Joan Maragall i Gorina Joaquim Cardozo Joe Fenton John Doherty John Steuart Curry John Updike John Yeats Josep Daústin José Carlos de Souza José Geraldo de Barros Martins José Inácio Vieira de Melo José Miranda Filho José Paulo Paes José Ricardo Nunes José Saramago José de Almada-Negreiros João Cabral de Melo Neto João Guimarães Rosa João Werner Junqueira Ayres Kerry Shawn Keys Konstanty Ildefons Galczynski Kurt Weill Leonardo André Elwing Goldberg Lluís Llach I Grande Lou Reed Luis Serguilha Luiz Otávio Oliani Luiz Roberto Guedes Luther Lebtag Léon Laleau Lêdo Ivo Magnhild Opdol Manoel de Barros Marco Rheis Marcos Rey Mari Khnkoyan Maria do Rosário Pedreira Marina Abramović Marina Alexiou Mario Benedetti Mario Quintana Mariângela de Almeida Marly Agostini Franzin Marta Penter Marçal Aquino Masaoka Shiki Maser Matilde Damele Matthias Johannessen Michael Palmer Miguel Torga Mira Schendel Moacir Amâncio Mr. Mead Murilo Carvalho Murilo Mendes Márcio-André Mário Chamie Mário Faustino Mário de Andrade Mário de Sá-Carneiro Nadir Afonso Nuala Ní Chonchuír Nuala Ní Dhomhnaill Nâzım Hikmet Odd Nerdrum Orides Fontela Orlando Gibbons Orlando Teruz Oscar Niemeyer Osip Mandelstam Oswald de Andrade Pablo Neruda Pablo Picasso Patativa do Assaré Paul Funge Paul Henry Paulo Afonso da Silva Pinto Paulo Cancela de Abreu Paulo Henriques Britto Paulo Leminski Pedro Du Bois Pedro Lemebel Pete Doherty Petya Stoykova Dubarova Pink Floyd Plínio de Aguiar Pádraig Mac Piarais Qi Baishi Rafael Mantovani Ragnar Lagerbald Raquel Naveira Raul Bopp Regina Alonso Renato Borgomoni Renato Rezende Renato de Almeida Martins Ricardo Portugal Ricardo Primo Portugal Ronald Augusto Roniwalter Jatobá Rowena Dring Rui Carvalho Homem Rui Lage Ruy Belo Ruy Espinheira Filho Ruzbihan al-Shirazi Régis Bonvicino Salvado Dalí Sandra Ciccone Ginez Santiago de Novais Saúl Dias Scott Scheidly Seamus Heaney Sebastian Guerrini Sebastià Alzamora Shahram Karimi Shorsha Sullivan Sigitas Parulskis Silvio Fiorani Smokey Robinson Sohrab Sepehri Sophia de Mello Breyner Andresen Souzalopes Susana Thénon Susie Hervatin Suzana Cano Sílvio Ferreira Leite Sílvio Fiorani The Yes Men Thom Gunn Tim Burton Tomasz Bagiński Torquato Neto Túlia Lopes Vagner Barbosa Val Byrne Valdomiro Santana Vera Lúcia de Oliveira Vicente Werner y Sanchez Victor Giudice Vieira da Silva Vinícius de Moraes W. B. Yeats W.H. Auden Walt Disney Walter Frederick Osborne William Kentridge Willian Blake Wladimir Augusto Yves Bonnefoy Zdzisław Beksiński Zé Rodrix Álvaro de Campos Éle Semog