Definição

... da totalidade das coisas e dos seres, do total das coisas e dos seres, do que é objeto de todo o discurso, da totalidade das coisas concretas ou abstratas, sem faltar nenhuma, de todos os atributos e qualidades, de todas as pessoas, de todo mundo, do que é importante, do que é essencial, do que realmente conta...
Em associação com Casa Pyndahýba Editora
Ano VI Número 63 - Março 2014

Showing posts with label Outubro 2013. Show all posts
Showing posts with label Outubro 2013. Show all posts

Editorial

 مرتضى كاتوزيانآ ~ ژیر خطر. (1359)رنگ و روغن روی بوم 60×80 سانتی متر .
Morteza Katouzian
~
The Red Alert. (1980) Oil on canvas, 60×45cm.
“Sigo, seco e só, atravessando
a floresta de velhos.”

~ Carlos Drummond de Andrade, in 'Boitempo'

TUDA Outubro ~ Outubro TUDA!

Tarde... muito tarde... mas ainda infalível!

Tão tarde que quase perde a oportunidade de divulgar o lançamento do livro do Cesar Cruz, figura carimbada aqui em TUDA! Vai lá, vai?

Hoje em dia, mais do que nunca e cada vez mais, somos assombrados pela fobia da falta de tempo! E a lógica diz que, quando algo é escasso, sábio é, além de usar com critério, também economizar! Isso pode até fazer (um pouco de) sentido se essas economias do futuro supostamente tranquilo forem apenas o tal do vil metal, mas se falarmos de Tempo... Economizaríamos Tempo - aquele não gasto, claro - para consumir mais tarde, talvez com mais sabedoria? Deixaríamos coisas para serem feitas no futuro?

Sem o Tempo do Presente, o Tempo do Passado ou o Tempo do Futuro. Apenas o Tempo Gasto e o Tempo Guardado. Você teria que escolher entre sentar e ler a TUDA, ou guardar este tempo para depois, e simplesmente fazer outra coisa... aquele telefonema para um amigo que há muito não conversa, o bate-papo sem importância com o vizinho, uma visita aos avós...

E os donos do Capital do Tempo diriam, "Guardem, guardem seu precioso Tempo em nosso Banco do Tempo Infinito! E lhe prometemos que um dia você saca ele todinho, de uma só vez... (e leva consigo, em seu túmulo de ouro).

Vem que vem, despudorada e gastona, esbanjadora do tempo lheio & alheio - embora sem o mínimo gerenciamento! Mais para cigarra do que para formiga, no balanço do guardar para o futuro e do gastar tudo agora, trocar o presente certo pelo futuro incerto, vem que vem esta TUDA com os já conhecidos pyndahýbicos, gastões ou mãos-de-vaca, destemundo & d'outraléns, lutando para continuar neste, sempre, vem TUDA, gastônica, navegosa, internética, despudorenta, despretensiosa, desatada de compromissos financeiros, que este dia nunca vai chegar, de uma TUDA dependedora do metal vil que tanto desprega! Lembrando o nascimento de John Lennon, Cartola, Vinicius de Moraes, Rimbaud e Nelson Cavaquinho. Lembrando a morte de Janis Joplin, Steve Jobs, Che Guevara e Renato Russo.

É isso aí companheiros, na velha e suja LabUTA do dia a dia, fortefirme na batalha da vida, vivida e por viver, que ambas são importantes na noção terrena de passado-futuro, mas nem tanto na noção de tempo-espaço, que se nem Einstein se fez entender para o público leigo o que este sistema de coordenadas da relatividade especial e da relatividade geral realmente significa, quem seria TUDA para ousar tal façanha!

QG de TUDA, Outubro 2013
Asyno Eduardo Miranda
o (auto-proclamado) editor
deste porto semisseguro da jlha do Eire
oje, dezº septº dia do dezº mez
d este Anno Domini de MMXIII

Dívida Interna


Editor
Eduardo Miranda

Capa
José Geraldo de Barros Martins

Blogagem
Eduardo Miranda

Revisão
dos autores

Participam desta edição:
Aldo Votto, Anthony Thwaite, António Nobre, Aristides Klafke, Arnaldo Xavier, Carlos Drummond de Andrade, Cesar Cruz, Chriss Pagani, Clay Perry, Dorival Fontana, Eduardo Miranda, Espen Erichsen, Evanil Assis, Frida Kahlo, José Carlos de Souza, José Geraldo de Barros Martins, José Miranda Filho, Marina Alexiou, Mathieu Degrotte, Mira Schendel, Morteza Katouzian, Paul Kuczynski, Paweł Kuczyński, Pedor Du Bois, Plínio de Aguiar, Robert Copithorne, Roniwalter Jatobá e Zdzisław Beksiński.

e-mailtuda.papel.eletronico@gmail.com

Poesia - Arnaldo Xavier

Robert Copithorne ~ Colours Of The Mountain
subsenhor             Esta cordilheira começa aqui nos meus
pés    E todo deserto continua  e termina fisgado neste olhar

[ in Lud-Lud, Casa Pyndahýba Editora, São Paulo, 1998 ]

Poesia - Aristides Klafke

Seeds Of Life ~ Acrylic on Canvas, 18"x24" ~ Chriss Pagani
28

Usar três colares ao mesmo tempo
um de contas… que sejam benzidas
um de cobre…que evoque estrelas
outro de cerâmica queimada à vela

No pulso direito bracelete de pele de cobra
Sandália de plástico, chapéu de palha imenso
Calça de lona, camiseta de corte africano
Esta a indumentária de hoje

Plantar alho no vaso de mosaico
Escrever a mosca que sai pela janela
Formatar figuras em forma de nave
Esculpir A­U­M numa casca de ovo

Passar a vida a limpo numa pincelada
Reprisar o presente a cada instante
Em sintonia com o vento (sempre com o vento)
Viver como uma semente preste a germinar

Estas as decisões que acabo de tomar

[ in Quebrada, inédito ]

Poesia - Plínio de Aguiar

Circus Texture
Circo 1

Falemos sobre tudo. Exemplo, lona de circo.
Que cobre nossas cabeças de risos e
Rictos no círculo imperfeito da vida.

Ouçamos (outro exemplo) discussões de vizinhos.
Precisamos estar atentos, informações serão
Necessárias, outras nem tanto, não importarão.

Falemos. Apalpemos. Vejamos. Respiremos.
Penosamente estirada a lona é permeável a lanças,
Sonhos arremessados a distraídos.


Plínio de Aguiar
SSA, setembro, 2013

Poesia - Dorival Fontana

Computer Photomontage, 1996-1997 ~ Zdzisław Beksiński
Solilóquio

Aquele que vos fala não é o mesmo que vos escreve,
a velocidade da voz é ágil pensamento,
já a mão pensa, permite a autocensura ao julgar o cérebro impulso.

Quem dera a luz romântica das velas...
talvez uma secretária não eletrônica...

louváveis inventos da perícia tecnológica
alentam a infelicidade latente
eletrônicos meios remoto comunicáveis
desencontram distâncias cada vez mais distantes
alimentam a nossa preguiça teclada do dia a dia
afunilam o pensamento similarmente estreito
outras asas supersônicas nos propaga interativamente
salivas esgotam-se, digitais palavras SPANDEM-SE
as conversas reais interlocutores presentes agora
só possíveis em videoconferência

- Por favor reprograme a sua agenda! Deixe a sua mensagem!
- No momento todas as ideias inteligíveis estão ocupadas!
- Mantenha-se on-line ou cale-se para sempre.

Poesia - Aldo Votto

Paweł Kuczyński
O Outono de um Sátiro

Minha amiga, eu procuro
jamais subir no muro
não para evitar o perigo,
mas porque não consigo

ler uma mensagem como a tua
e não tentar algo que retribua
um mimo como esses versos do gigante
mesmo correndo o risco de ser pedante

E que pareça mera rabugice
Ou repetição do que já se disse
então segue aí, como resposta ao titã
Esta minha paráfrase quase anã.

...

Ser jovem não é virtude
Envelhecer é uma vicissitude
em que devo evitar os quindins
E tentar aprender a andar de patins

Apesar dela, posso comer goiaba
embora pra colhê-la use a escada
Porque não se perde o bom gosto
No entanto, não devo ficar exposto

ao risco de ser visto de pijama
justo pelos olhos de uma bela dama
dessas de vestido transparente
Que me refaz adolescente

Nos sonhos em que divago
que queria ser um mago
para poder me disfarçar
de surfista que sai do mar

Minha amiga, por favor, releve
Meu pouco cabelo coberto de neve
e deixa, pelo menos, que eu acredite
que não se vem ao mundo a convite

Nem se pode impor condições
Como “quero rimar tal Camões!”
Meu modelo é o herói
Que não receia o apupo
E a cada tombo se reconstrói

Alego culpa e, por isso, clemência
Por ter ilusão, mas não demência.
Ainda me ouvirás com algum fôlego
Mesmo caminhando meio trôpego

E estes joelhos agora meio rígidos
Hão de se manter hígidos
Para cumprir até o fim sua função
De dobrar-me diante da criação
Não, não me tornarei um ermitão
(É que ora sei que o que conta é a emoção.)

Por enquanto, jovem senhora
Mandemos a nostalgia embora
e à base de afeto e brincadeira
Encaremos cada nova segunda-feira.

Este é o valor da amizade
A receita para a longevidade.
Se no frio dá vontade de ficar triste
A gente lembra dos amigos e resiste
mas não dispensa o cachecol
até poder trocar as cobertas pelo lençol
E outra vez ver florir o girassol

Às vezes pergunto por que me meto
A bagunçar o coreto
Quando devia ficar quieto
Deixar as respostas para o sábio místico
E ficar a comer pinhão em silêncio profundo
Será porque “quid pro quo” é o meu dístico?

[paráfrase ao poema "O Entardecer de um Fauno", de Luis Fernando Veríssimo]

Poesia - Pedro Du Bois

Mirror ~ Acrylic & Varnish on canvas, 30x30cm ~  Espen Erichsen
Você


Em esquinas diversas deixo
a minha vida. Tenho o bastante
de você: juventude e beleza na certeza
da permanência ao quebrar o destino
em mesmos trajetos. Repito.

Não choro as perdas:
há você e na sua presença
divido o tempo no espaço
permitido entre mãos e pernas.

Reflito nos carros em velocidades
inconsentidas a imagem de você: lustro
o espelho no derradeiro reflexo. Guardo
o pano na recordação de você.


(Pedro Du Bois, inédito)
http://pedrodubois.blogspot.com

Poesia - José Carlos de Souza

Paweł Kuczyński
(haikai)

livro fechado
palavras em silêncio
natureza morta.

Poesia - Marina Alexiou

(Caravaggio)
Imagem enviada pela autora
Ela que um dia fora breve e delicada
Eco desajeitada implorando pela sua própria imagem
diante da gruta escura
Não ouviu a resposta do ser que tanto amou
por longo tempo...
O seu corajoso coração. Voluntarioso e destemido
se deteve diante da grandiosidade do encontro
com aquilo que se mostrou com face dúbia e intransigente.
O torpor de um extasiante e luxurioso perfume
envolveu-lhe os sentidos
Mas o engano encontrava-se a espreita,
em caminhos sinuosos, que sorriam, a pedir
sua constante companhia que lutava por despertar
De uma distância que só a inconsciência molda e abrange,
as tantas horas de eterna busca por conforto e solicitude...
Dessa personagem cujo grito de dor não atravessou
as altas montanhas,
Mas se alojou num lago de límpida quietude
Vertem-se canções e poemas conciliatórios,
a perseguir a redenção da culpa
Que emergiu junto com o reflexo do espelho
na solidão...

Conto - Roniwalter Jatobá




Roots, 1943 ~ Frida Kahlo

Flores da violência

E montou num querubim, e voou;
sim, voou sobre as asas do vento.

(Salmos, 18, 10)

A luz do amanhecer era tão clara que Jacinto viu o corpo de Jacira, sua mulher, cair sobre o ninho, quebrar as pernas de uma galinha poedeira e sujar-se no endez enganador, às cinco horas, no imenso quintal enlameado no fundo da casa. Transtornado, correu sem saber fazer o quê, enlaçou-a entre braços e arrastou o peso grávido de quatro meses para o quarto. A esta hora era difícil ser atendido pelas comadres curiosas, prestativas, mas assim mesmo, acode minha mulher, saiu à rua.

O dia se acinzentou e ficou triste, desmanchando a claridade da manhã. Fazendo conjeturas de casos semelhantes, as mulheres que chegaram ante a estranheza da moléstia de Jacira somente olhavam para a imobilidade e o seu respirar compassado. Recordaram até, em voz baixa, que o demônio entra em corpos grávidos para impor os germes da maldade em incautos rebentos que estão para nascer.

A notícia de Jacira correu divulgando a doença numa rapidez que a pequena morada encheu-se, dia e noite, transformando-se em um pequeno mercado, onde somente não incutiram o livre comércio.

As batidas do coração de Jacira eram frágeis quais as teias de aranha finíssimas que sempre teimavam em brotar nos cantos das paredes caiadas de branco. A liquida, possível alimentação, descia pela garganta dela em corredeiras, sem obstáculos nesse corpo morto-vivo.

Com a inconstância na melhora, rotina no tratamento, as visitas à cata de novidades foram dispersando e, no fim de quatro semanas, Jacinto via-se quase só.

À noite os sobressaltos não o deixavam dormir. Ao seu lado, o mesmo respirar constante; acima, os olhos viam pelas frestas, durante a madrugada, as aves que pousavam no telhado ao anoitecer, para logo no madrugar levantarem voo.

No silêncio da noite, na semi-escuridão, ele vagava pensante pelos caminhos mais próximos. Viu no espaço estrelado um véu negro a cobri-lo ponta a ponta: passou a mão em concha nos olhos, pois sentiu a cegueira; acompanhou às margens do rio o percurso da lua que resplandecia em inúmeras contas de diamantes floridos, que, brilhantes, quis apalpar na água, mas fugiam-lhes por mais que os segurasse entre dedos. Sentiu no calor da noite, não acreditando nos olhos: as águas faziam retorno e, em fração de segundos, corriam ao contrário. Duvidou de si e da virtude sobrenatural de sentir as mudanças da natureza, enquanto Jacira, sua mulher, penitente, desde os primeiros momentos não pudera fazer nada. A claridade da manhã o fazia sempre esquecer das brincadeiras que o conjunto de seres que formam o universo faz quando o mundo dorme.

Embora uma vez, creia, ele tentara. Médico candidato, depois de palavras que prometiam, suando, saiu do palanque da praça rodeado de ajudantes e acompanhantes, entrou na casa de Jacinto e, diante de olhares humildes, disse que se fosse eleito a curaria. O tempo e os afazeres de candidato eleito levaram as promessas ao esquecimento.

O ventre de Jacira estancou no crescimento e minguou a vida que desabrochava. O corpo dela na quietude estagnou no tempo, escarmentado.

Em princípio de janeiro, as festas animavam a fuga anual que a realidade diária escondia entre as folhas cortantes dos canaviais. Festejavam agora os cetins que os comerciantes traziam de cidades distantes, contrabandeados em lombos de burros, através de caminhos agrestes, burlando ou propinando guardas que porventura encontrassem pela estrada.

Em Bananeiras somente a casa afastada do lado do rio perene permanecia indiferente aos regozijos da animação; sentado na calçada nua, o olhar de Jacinto perambulava pelo horizonte nas visões reais.

No terceiro mês, as diferenças na vida que não curava somente se ajustavam às peregrinações de Jacinto. Ele andou entre poções milagrosas e feiticeiros benignos que o idoso animal de montaria definhava. No retorno diário, as decepções martirizavam e embaçavam os olhos e a esperança.

Outra vez, ele tentara, pela fé. Padre, pároco de uma igreja distante, nada ajudou, a não ser, como exemplo, mostrar as imperfeições do mundo.

-- Filho, creia em Deus -- disse o padre --, procure até nos labirintos.

-- Nele creio -- disse Jacinto -- mas tem horas que duvido até de mim mesmo.

-- Há na vida tarefas -- disse o padre --com que estamos relacionados e que nem decifrá-las podemos.

-- Por mais -- disse Jacinto -- que tente, me acho... -- e suspirou.

-- Além disso... -- disse o padre, e murmurou durante certo tempo em língua latina.

-- Merda de fé -- exclamou baixinho Jacinto.

Entardecendo na estrada que separa a crença do mundo, entre a poeira que deixou atrás de si, a luz traseira do automóvel paroquial acendeu-se e desapareceu, lá longe, na curva que separa tudo.

O dia seguinte, segunda-feira, amanheceu triste e morno como todos os outros nos olhos claros de Jacinto.

-- Vou deixar o candeeiro aceso, a porta destramelada, para quando dona Maria chegar, cuidar de ti – disse Jacinto, como se Jacira escutasse ou entendesse alguma coisa.

Ainda escuro, montou. Desceu a ladeira, segurando apertado as bridas do animal, rumo à estrada. Encontrou pelo caminho pessoas sonolentas, montadas, tocando à frente animais carregados e mais sonolentos ainda.

Os primeiros meninos, que levantaram mais cedo naquela manhã de Bananeiras, pensaram que o sol se derretia no horizonte ou que nos fins de abril o brilho seria mais ofuscante. O candeeiro aceso, que fez combustão na pequena cama de Jacira, até sobrepujou o sol. O vento soprava e adiantava o fogo que consumia tudo. A ninhada e a galinha manca que dormia no interior da casa eram o começo do desastre: os corpos carbonizados.

Longe, no final da tarde, Jacinto andou pela última vez na feira. Desamarrou o animal e resolveu partir na esperançosa volta. Arvoredos marcados na cintura pelos cabrestos dos animais suspiraram aliviados por mais uma semana. Árvores mais próximas aos bares abençoaram o tempo por este apaziguar de sofrimento de sete dias.

Quando a última barraca de lona foi desmontada, ainda ouvia-se o eco rápido, senhores e senhoras, do vendedor de elixir, cura-se tudo desde o veneno de cobras a dores de cabeça, o vento trágico da tarde soprava lento.

Jacinto, dador de dias, reapertou a sela – quando Jacira melhorar compro sela nova --, subiu no cavalo e troteou.

A tarde morna se acomodava. No cascalho fino, arenoso, ele ia rápido que ultrapassava as lentas -- boa-noite, tua mulher está melhor? -- pessoas que tocavam à frente -- vai como Deus quer -- animais encaçuados, carregados do comércio que ia e vinha semanalmente.

O vozerio dos passantes -- boa-noite -- no encontro não tirava, nem o sacolejar da montaria, a precisão de pensar no tempo. Com a noite clara, o vento veio devagar, uivando penetrante na sequidão da estrada. Plantas já começavam a assustar viventes homens transformando-se em animais horrendos. Jacinto, acostumado com a noite, conhecia os caminhos e sorria das visagens imaginosas nas cabeças tontas e divorciadas daquele mundo.

Jacinto esporeou levemente o animal -- tenho fé em tudo --, verificou o volume que o vidro de elixir -- senhores e senhoras cura tudo -- fazia em seu bolso esquerdo. Agarrou-se às crinas do cavalo -- v'ambora -- e galopeou.

Aproximando, na penumbra, não tivera necessidade de entreolhar-se para perceber que havia mudanças. As paredes tombadas e enegrecidas completavam tudo. Apeou-se e continuou andando, puxando o cavalo em rédeas curtas. Atravessou a multidão cansada de esperá-lo e apreensiva em relatar pormenores. Não escutava os murmúrios. No quarto, viu, entre escombros, o corpo de Jacira que permanecia intacto, somente as roupas diluíram-se e somente a vida -- Deus! -- que pouco lhe restava tinha fugido.

-- Nem parece morta! – disse alguém.

Era verdade. Do rosto pálido, só faltava correr livremente o sangue.

Jacinto abaixou-se e beijou-a na testa. Olhou-a com adeus. Caminhou calmamente até sentir que corria. Penetrou no matagal, entre espinhos que a roupa ficava, retalhando-lhe o corpo.

Jacira desapareceu na mesma noite sem ser tocada por ninguém do lugar. Alguns incrédulos não acreditam quando se conta que seu corpo flutuou, voou sobre as asas do vento e, entre auréolas resplandecentes, desapareceu sem vestígio algum, deixando no ar uma coloração irreal que a própria natureza, pelo vento que soprou forte, fez desaparecer incontinente.

Alguns acreditam e dizem que em Bananeiras nascerão flores coloridas, sim, amarelas e vermelhas: flores da violência que engolirão a si mesmas e combaterão o medo dos canaviais.

Não faz muito tempo. Ali restam os escombros da casa incendiada. Agora, já nasce, num canto ou outro, algum vegetal daninho, mas que ainda não reproduz flores.

Conto - José Geraldo de Barros Martins

Ilustrações de José Geraldo de Barros Martins


Ponderações Sevilhanas

Ao contrário de sua primeira estadia em Sevilha, quando Josias Germano e sua fiel escudeira Marília Olávia visitaram a cidade em seu período de férias; a segunda passagem pela cidade não se revelava igualmente agradável... em primeiro lugar não estava acompanhado... sua esposa ficara em Pindorama... e em segundo lugar o nosso protagonista não gozava suas mais que merecidas férias... ao invés disto estava na cidade devido ao Congresso Ibero-americano de Mobilidade Urbana...

Apesar de sua palestra “Políticas de Incentivo ao Transporte Público” ter tido boa acolhida na comunidade acadêmica, Josias Germano caminhava cabisbaixo por las calles sevillanas... para ele o seu relativo sucesso como urbanista era a conta a ser paga por sua covardia de não ter insistido em sua vocação de artista plástico... a segurança de um emprego público o mediocrizara irreversívelmente... a princípio acreditou que seus dotes intelectuais o distinguissem de seus colegas de profissão, que o fato de ter lido Joyce, Klebnikov ou Felisberto Hernadez o fizesse alguém especial... que as conversas com seus amigos o mantivessem (ainda que esporadicamente) em um nível espiritual mais elevado... que poderia dar continuidade em sua carreira de artista plástico paralelamente ao trabalho com a cidade grande... chegou até a fazer algumas exposições... mas o tempo foi passando, alguns amigos morreram e dos outros acabou se distanciando... ao mesmo tempo foi galgando postos superiores em seu ambiente profissional e seu tempo livre foi se tornando cada vez mais escasso e os únicos registros de suas antigas e poucas exposições são recortes de jornal guardados em uma pasta encardida...

Agora estava sentado a mesa de um café e desenhava a paisagem enquanto saboreava seu expresso... notou uma mulher que atravessava a rua... era muito parecida com Marília Olávia... talvez fosse alguma parente distante, uma vez que sua fiel escudeira era neta de andaluzes... terminou o desenho, depois pediu uma água com gás e fez mais dois desenhos... agora já tinha uma trilogia... pagou a conta e seguiu caminhando de volta para o hotel.... porém mudou seu percurso... resolveu ir até o Guadalquivir, o rio que corta a cidade, cujo nome vem do árabe al-wādi al-kabīr (grande rio)...

Ficou horas observando o “al-wādi al-kabīr” e pensando na metáfora de Heráclito que diz que ninguém se banha duas vezes no mesmo rio... a primeira vez em Sevilha descobrira o Alcázar, a Gironda, as ruas movimentadas, o jerez, as anchovas... na segunda vinda, a descoberta de seus medos, de suas covardias... olhou então para seus desenhos... não quis que aquela triologia fosse transportada até Pindorama para ir parar dentro de uma pasta encardida...

Josias Germano deixou as três obras de arte sobre um banco de praça e retornou a seu quarto no hotel... aquele retorno a Sevilha lhe mostrara que sua vida não tinha mais retorno, que jamais seria um artista plástico... que o único retorno possível seria o avião para Pindorama...

Crônica - Cesar Cruz


Pesadelos Pré-lançamento

Sempre nos dias que antecedem o lançamento de um livro meu, começo a ter sonhos terríveis. Nesta noite tive dois. No primeiro deles, estou sentado atrás da mesa de autógrafos no dia do coquetel do lançamento de A Invasão dos Horácios. Estou só, de caneta na mão, aguardando pateticamente as pessoas chegarem à livraria, mas ninguém aparece. Então vejo, através da vidraça que dá para a calçada, o céu enegrecer de repente e o dia virar noite. As pessoas correm na rua com revistas sobre a cabeça, e aí desaba uma violenta tempestade, com raios e trovoadas retumbantes.

O vento arrasta sacos plásticos, lixo da rua e folhas de árvores livraria adentro. As portas de vidro que dão pra calçada são fechadas pelos seguranças. Logo as pedras de granizo começam a desabar do céu e ricochetear na calçada, batendo nas vidraças com violência. É quando eles decidem baixar também as portas de aço. Vejo-as se desenrolarem até o chão e serem travadas com aqueles tambores cilíndricos de latão.

Fico ali dentro, sentado à mesa, completamente sozinho. Acendem uma luz fraca, amarela. Na penumbra, fico ouvindo o barulho da tempestade lá fora. Dou um tranco de susto quando alguém põe a mão no meu ombro. Me viro e dou com o gerente da Livraria da Vila, que no meu sonho é um sujeito de bigode fino, estilo sambista dos anos 50. Ele usa uma camisa aberta no peito, de manga curta, daquelas que tem um bolsinho especialmente feito pra se colocar os documentos e um pente seboso, amarrado por um elástico.

– Meu querido – ele diz, em tom autoritário – Por total falta de condições seu lançamento está encerrado. Pode ir embora.

Quero argumentar com aquele detestável ser que me chama de meu querido, mas a minha voz não sai. Só tenho tempo de vê-lo sumindo por entre as prateleiras de livros que avançam e desaparecem num denso nevoeiro. Tudo escurece e eu acordo.

No segundo pesadelo, estou com o livro nas mãos, recém-saído da gráfica. Quando abro, percebo que além do corte da página ter ficado torto, a impressão está completamente apagada. Com muito esforço dá para se ler um trecho ou outro. De repente troca a cena e agora estou de frente para um gordo de cabelos grisalhos que, com um palito no canto da boca, me olha, desinteressadamente. Ele é o dono da editora, no sonho eu sei. Estou mostrando o problema a ele, derrotado.

– É... – ele murmura, rolando o palito pro lado oposto do beiço – Às vezes sai meio apagado mesmo, mas dá pra ler.

Num afluxo da mais pura ira, tento mover os meus braços para agarrá-lo pelo pescoço, mas estou paralisado, como um homem mergulhado numa densa geleia. Grito, mas não sai som, minha boca parece grudada como naquele filme, Matrix. O gordo gargalha com o palito incrivelmente equilibrado na boca aberta. É quando o livro cai da minha mão, em câmera lenta, e acaba numa poça de lama.

Acordo suado, sentado na cama.


O coquetel de lançamento do novo livro do autor, “A Invasão dos Horácios”, será no dia 19 de outubro - sábado - Livraria da Vila - Al. Lorena, 1731. São Paulo - das 16h às 19h. Os leitores da TUDA estão todos convidados!

Conto - José Miranda Filho

Av. Conde Francisco Matarazzo, 1968 ~ by Evanil Assis
Encontro de Amigos - Parte 23

Pensão da Dona Marta. Madrugada fria e silenciosa. A neblina escura encobria o imóvel isolado do lado esquerdo da Rua Ceará. O prédio estava localizado numa esquina da Praça dos Estados, entre as Ruas Ceará e Bahia. As casas eram, enquanto não demolidas, assobradadas de estilos semelhantes, construídas que foram ao mesmo tempo, no século passado, para os empregados de uma empresa química que havia se instalado no município. As ruas circundantes eram representadas pelos estados brasileiros: Ceará, Bahia, Pernambuco, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Amazonas, Alagoas, Sergipe, Paraíba, Maranhão, Minas Gerais e Rio Grande do Norte. Não havia o nome do Estado de Tocantins, esse Estado ainda não existia, na época era um pequeno território. Na praça restava de pé apenas a Pensão da Dona Marta, um casarão de estilo romano, que outrora havia servido de residência de um dos diretores da Indústria Química São Caetano. Hoje é apenas uma simples moradia de dez quartos, seis banheiros e várias dependências que se transformou na pensão da Praça dos Estados ou da Rua Ceará, que todos conheciam como a pensão de Dona Marta. Os outros imóveis haviam sido demolidos, impulsionados por uma desapropriação duvidosa e repleta de polêmicas judiciais, para a construção de um Parque Ecológico. De todas as construções existentes, apenas aquele sobrado sobreviveu – por enquanto – amparado por uma liminar judicial sem data para julgamento do mérito. Seu destino, porém, estava traçado: fatalmente ele desapareceria e restaria apenas a história que seria contada por aqueles que por lá viveram e transitaram pelos seus longos corredores de pisos de mármore. Sua construção de estilo romano lembrava mais um pequeno castelo medieval.

Dona Marta, uma senhora simpática, de pele clara, olhos brilhantes e cabelos louros oxigenados, estava sempre atenta àqueles que se aproximavam da entrada da casa, notadamente algum estranho que poderia ser o Oficial de Justiça ou mesmo algum cobrador. A qualquer momento estaria recebendo a notificação para desocupação do imóvel. Já havia combinado com seu advogado que receberia a citação sem qualquer questionamento. Aliás, foi o próprio advogado que lhe orientou não obstruir o trabalho do Oficial. Assim ele teria mais condições de atuar no processo e pleitear uma indenização melhor, mais justa e real, proporcional ao tempo em que ela mantinha a pensão no local. Pediria uma indenização que cobrisse o tempo de permanência, o lucro cessante, as benfeitorias eventualmente realizadas, fundo de comércio, etc. Ela queria ter a certeza que não seria processada à revelia e ver desmoronado o sonho que durante tantos anos acalentou: possuir sua casa própria.

Finalmente, naquela manhã de 16 de novembro, um dia após o aniversário da proclamação da República, Dona Marta foi notificada para desocupar o imóvel no prazo de 48 horas. Ela não era a proprietária, apenas a locatária, mas arrogava-se o direito de pleitear uma indenização pelo tempo de permanência no imóvel, pelas benfeitorias realizadas e principalmente, pelo fundo de comércio, já que sua pensão era legal e tinha registro na Junta Comercial, pagava tributos federais, estaduais e municipais. Coisa que ela sempre resmungou, mas pagava! Afinal não tinha porque não pagar.

No momento em que o Oficial de Justiça pediu-lhe que assinasse no local indicado, seu coração se partiu em dois: um pedaço ficaria ali, o outro partiria com ela, sabe Deus para onde. Em silêncio, rogou ao Deus todo poderoso que iluminasse seu caminho que haveria de percorrer de agora em diante. As lágrimas lhe corriam dos olhos azuis e brilhantes, rolando na face cansada e encarquilhada pelos anos de trabalho e sofrimento, apesar da pouca idade. Dona Marta não tinha mais do que 45 anos, mas já se notava em seu rosto rugoso o desapontamento de alguma coisa que não realizou e teve de deixar para trás. A pensão era tudo que ela tinha na vida. Era seu, meio de vida, sua alegria e tristeza, seu passatempo e sua esperança.

Vencido o prazo para desocupar o imóvel, Dona Marta viu-se à beira de uma depressão. Não conseguia alugar outro imóvel e transferir a pensão. Alguns clientes se foram, outros procuraram outros lugares. Não lhe restou outra saída senão pagar algumas dívidas com a indenização recebida, comprar alguma coisa para si, de que há muito necessitava quitar os carnês do Baú da Felicidade, das casas Bahia, das Lojas Pernambucanas e os honorários do advogado. O que fazer com o resto do dinheiro de tão pouco que sobrou?

De repente uma ideia veio-lhe à cabeça. Com os trocados que lhe restou da indenização, abriu uma pequena conta de poupança na Caixa Econômica e adquiriu cinco títulos do fundo de capitalização do Baú da Felicidade. Arranjou um emprego de garçonete numa lanchonete da cidade e foi recomeçar a vida, afinal tinha apenas quarenta e cinco anos de idade. Era solteira, não dependia de ninguém e também não tinha ninguém que dela dependesse. .

Os títulos de capitalização ofereciam prêmios mensais para quem pagasse em dia. Durante cinco anos seguidos Dona Marta religiosamente, todos os meses cumpria sua obrigação. Dirigia-se à Loja do Baú mais próxima do local onde trabalhava e efetuava o pagamento.

Muito tempo se passou!

Para sua surpresa e alegria, numa tarde de primavera, sol ardente por causa do horário de verão, ao retornar à sua casa cansada e desanimada, notou algo em baixo do tapete da porta. Era um aviso de comparecimento aos Correios, deixado pelo carteiro por não haver encontrado ninguém. Dizia o aviso que ela deveria dirigir-se ao escritório central e tomar ciência do conteúdo do telegrama. No dia seguinte, na hora do almoço, único momento livre de que dispunha, dirigiu-se aos correios, no Vale do Anhangabaú e pegou o telegrama. Leu-o! Não pode conter a alegria quando soube que havia ganhado uma casa no valor de R$ 60.000,00, do Baú da Felicidade.

Não acreditava. Não conseguia ficar de pé. Seus lábios tremiam de alegria. Leu e releu várias vezes até certificar-se de que era verdade. Nos dias seguintes não conseguira dormir aguardando a chamada para comparecer à sede do Baú, para tirar fotografias, conceder entrevistas, aparecer na TV e receber as chaves da tão sonhada casa própria. Afinal, Deus havia ouvido suas preces e realizado seu sonho.

No dia aprazado lá foi Dona Marta. As câmaras posicionadas em diferentes ângulos focalizavam-na em todas as direções. O entrevistador não lhe dava sossego. Solicitava-lhe a todo o momento para repetir a frase: “O Baú é o melhor. Foi o Baú que me deu a casa própria” e “Ninguém deixe de comprar o Carnê do Baú”, etc, etc. E tudo isso ela fazia com tamanha dedicação e boa vontade que lhe apelidaram de “A Vendedora do Baú”.

Foi morar em Sapopemba, bairro, não muito distante do centro, mas alegre e cheio de vida. Compraram-lhe uma casa simples, mas bem confortável. Três quartos, cozinha, banheiro, despensa, área de serviços e um bom quintal, onde poderia criar uma galinha ou plantar algumas verduras e legumes.

Sua vida se transformou ainda mais quando ela começou a frequentar a Igreja “Evangélicos de Cristo”, uma afiliada da Igreja Renascer, aonde todas as sexta feiras à noite ela participava da sessão do descarrego. Aos sábados ia ao baile da terceira idade com uma amiga e vizinha que conhecera. Certa noite, num baile da primavera, conheceu um senhor viúvo de nome Joaquim que a tirou para dançar. Ele tinha aproximadamente 60 anos de idade. Homem bom, honesto, sério, educado e bem intencionado. Ela sempre o via nos bailes, mas ele nunca a havia despertado qualquer interesse até aquela noite. Foi tudo de repente. Conversaram, dançaram, encontraram-se nos próximos bailes e começaram namorar. Dois anos depois se casaram.

Mudaram em seguida para a Capital Federal. Ele era servidor público, já aposentado, mas exercia o cargo de Assistente Parlamentar, no gabinete de um deputado, seu amigo. Optaram por não ter filhos porque ele já tinha dois do casamento anterior. Ela, por motivo de idade, também não queria correr risco com a gravidez aos quase 50 anos. Estava feliz assim e assim teria que ser. Só “Ele”, Deus, como costumava dizer, tem o poder de fazer as pessoas felizes ou infelizes. Moram numa casa simples, cercada de flores e árvores, presentes da natureza, á beira da estrada que leva ao lago Paranoá, aonde todos os fins de semana passeiam de barco sobre suas águas serenas. Nas noites de luar quando as águas do Paranoá devolvem os reflexos das luzes a dezenas de esperançosos crendeiros que permanecem em suas margens elevando preces à procura de algum fenômeno para a cura dos males do amor, ou rogando para que a natureza lhes proporcione a realização de um desejo qualquer, eles simplesmente sorriem e agradecem, lembrando a trajetória da vida.

Tradução - Eduardo Miranda

Paul Kuczynski
Silêncio
By Anthony Thwaite

Você longe, e este silêncio -
Silêncio de todo momento -
Silêncio apenas, puro, frio, cinzento -

Uma vez eu o aceitei, e ouvi
Nada além de paz, e refleti
Sem palavra dizer, acolhi

E o silêncio também me acolheu,
Deu-me conforto, me remeteu
Para longe da melancolia, e acendeu

Essa luz em mim, para dar-me norte
E ao seguir esta luz, acasos da sorte,
Não pensei um minuto sequer na morte.

                               Hermético,
Silêncio reside junto ao féretro,
Puro, frio, cinzento, esquelético.

Silence
By Anthony Thwaite
Listen to Anthony Thwaite reading "Silence"

This silence, with you away –
These silences, day after day –
Silence itself, pure and cold and grey –

Once I welcomed it, heard
Nothing but peace, even a bird
Disturbing it. Without a word

Silence welcomed me, took
Me in friendliness, shook
Melancholy out, thrust a book

Into my hands, so that I read
Hungrily of what lay ahead,
Not thinking of the dead.

                                        Alone,
Silence lies along the bone,
Grey, cold as a stone.

Anthony Simon Thwaite é um poeta e escritor Inglês, nascido em 1930 em Chester, Inglaterra. Ele foi premiado com o OBE (Ordem do Império Britânico) em 1992, pelos serviços prestados à poesia. Thwaite cresceu principalmente em Yorkshire, e atualmente vive em Norfolk. Lecionou na Universidade de Tóquio de 1955 a 1957, e por um ano em 1985. Trabalhou para a Radio BBC, para a Revista New Statesman como editor literário, e de 1973 a 1985 como editor da Revista Enconters. Ele é um dos executores literários de Philip Larkin, e o principal editor da obra de Larkin.

Releitura - António Nobre

FD Unleashed - The Reaper VI ~ Mathieu Degrotte
António Pereira Nobre (Porto, 16 de Agosto de 1867 ~ Foz do Douro, 18 de Março de 1900), mais conhecido como António Nobre, foi um poeta português cuja obra se insere nas correntes ultra-romântica, simbolista, decadentista e saudosista (interessada na ressurgência dos valores pátrios) da geração finissecular do século XIX português. A sua principal obra, Só (Paris, 1892), é marcada pela lamentação e nostalgia. Sua produção poética insere-se nos cânones do simbolismo francês. Faleceu aos 32 anos de idade, após uma prolongada luta contra a tuberculose pulmonar.
Quando Chegar a Hora

Quando Chegar a Hora Quando eu, feliz! morrer, oiça, Sr. Abbade,
     Oiça isto que lhe peço:
Mande-me abrir, alli, uma cova á vontade,
     Olhe: eu mesmo lh'a meço...

O coveiro é podão, fal-as sempre tão baixas...
     O cão pode lá ir:
Diga ao moço, que tem a pratica das sachas,
     Que m'a venha elle abrir.

E o sineiro que, em vez de dobrar a finados,
     Que toque a Alléluia!
Não me diga orações, que eu não tenho peccados:
     A minha alma é dia!

Será meu confessor o vento, e a luz do raio
     A minha Extrema-Uncção!
E as carvalhas (chorae o poeta, encommendae-o!)
     De padres farão.

Mas as aguias, um dia, em bando como astros,
     Virão devagarinho,
E hão-de exhumar-me o corpo e leval-o-ão de rastros,
     Em tiras, para o ninho!

E ha-de ser um deboche, um pagode, o demonio,
     N'aquelle dia, ai!
Aguias! sugae o sangue a vosso filho Antonio,
     Sugae! sugae! sugae!

Raro têm de comer. A pobreza consome
     As aguias, coitadinhas!
Ao menos, n'esse dia, eu matarei a fome
     A essas desgraçadinhas...

De que serve, Sr. Abbade! o nosso pacto:
     Não me lembrei, não vi
Que tinha feito com as aguias um contrato,
     No dia em que nasci.

António Nobre, in 'Só (Paris, 1892)

Ilustração - Mira Schendel

photo by Clay Perry, 1966
Mira Schendel ou Myrrha Dagmar Dub (Zurique, 7 de junho de 1919 — São Paulo, 24 de julho de 1988) foi uma artista plástica suíça radicada no Brasil. Judia refugiada de guerra, hoje é considerada um dos expoentes da arte contemporânea brasileira.

Still Waves of Probability, 1969.
Instalação no Tate Modern, Setembro 2013.
Foto: Mira Schendel Estate

Untitled (TODOS) 1960 – 1965

Autores

Ademir Demarchi Adriana Pessolato Adília Lopes Afobório Agustín Ubeda Alan Kenny Alberto Bresciani Alberto da Cunha Melo Aldo Votto Alejandra Pizarnik Alessandro Miranda Alexei Bueno Alexis Pomerantzeff Ali Ahmad Said Asbar Almandrade Alyssa Monks Amadeu Ferreira Ana Cristina Cesar Ana Paula Guimarães Andrew Simpson Anthony Thwaite Antonio Brasileiro Antonio Cisneros Antonio Gamoneda Antonio Romane António Nobre Ari Candido Fernandes Ari Cândido Aristides Klafke Arnaldo Xavier Atsuro Riley Aurélio de Oliveira Banksy Bertolt Brecht Bo Mathorne Bob Dylan Bruno Tolentino Calabrone Camila Alencar Carey Clarke Carla Andrade Carlos Barbosa Carlos Bonfá Carlos Drummond de Andrade Carlos Eugênio Junqueira Ayres Carlos Pena Filho Carol Ann Duffy Carolyn Crawford Cassiano Ricardo Cecília Meireles Celso de Alencar Cesar Cruz Charles Bukowski Chico Buarque de Hollanda Chico Buarque de Hollanda and Paulo Pontes Claudia Roquette-Pinto Constantine Cavafy Conteúdos Cornelius Eady Cruz e Souza Cyro de Mattos Cândido Rolim Dantas Mota David Butler Denise Freitas Desmond O’Grady Dimitris Lyacos Dino Valls Dom e Ravel Donald Teskey Donizete Galvão Donna Acheson-Juillet Dorival Fontana Dylan Thomas Décio Pignatari Edgar Allan Poe Edson Bueno de Camargo Eduardo Miranda Eduardo Sarno Eduvier Fuentes Fernández Elaine Garvey Elizabeth Bishop Enio Squeff Ernest Descals Eugénio de Andrade Evgen Bavcar Fernando Pessoa Fernando Portela Ferreira Gullar Firmino Rocha Francisco Niebro George Callaghan George Garrett Gey Espinheira Gherashim Luca Gil Scott-Heron Gilberto Nable Glauco Vilas Boas Gonçalves Dias Grant Wood Gregório de Matos Guilherme de Almeida Hamilton Faria Henri Matisse Henrique Augusto Chaudon Henry Vaughan Hilda Hilst Hughie O'Donoghue Husam Rabahia Ian Iqbal Rashid Ingeborg Bachmann Issa Touma Italo Ramos Itamar Assumpção Iulian Boldea Ivan Donn Carswell Ivan Justen Santana Ivan Titor Ivana Arruda Leite Izacyl Guimarães Ferreira Jacek Yerka Jack Butler Yeats Jackson Pollock Jacob Pinheiro Goldberg Jacques Roumain James Joyce James Merril James Wright Jan Nepomuk Neruda Jason Yarmosky Jeanette Rozsas Jim McDonald Joan Maragall i Gorina Joaquim Cardozo Joe Fenton John Doherty John Steuart Curry John Updike John Yeats Josep Daústin José Carlos de Souza José Geraldo de Barros Martins José Inácio Vieira de Melo José Miranda Filho José Paulo Paes José Ricardo Nunes José Saramago José de Almada-Negreiros João Cabral de Melo Neto João Guimarães Rosa João Werner Junqueira Ayres Kerry Shawn Keys Konstanty Ildefons Galczynski Kurt Weill Leonardo André Elwing Goldberg Lluís Llach I Grande Lou Reed Luis Serguilha Luiz Otávio Oliani Luiz Roberto Guedes Luther Lebtag Léon Laleau Lêdo Ivo Magnhild Opdol Manoel de Barros Marco Rheis Marcos Rey Mari Khnkoyan Maria do Rosário Pedreira Marina Abramović Marina Alexiou Mario Benedetti Mario Quintana Mariângela de Almeida Marly Agostini Franzin Marta Penter Marçal Aquino Masaoka Shiki Maser Matilde Damele Matthias Johannessen Michael Palmer Miguel Torga Mira Schendel Moacir Amâncio Mr. Mead Murilo Carvalho Murilo Mendes Márcio-André Mário Chamie Mário Faustino Mário de Andrade Mário de Sá-Carneiro Nadir Afonso Nuala Ní Chonchuír Nuala Ní Dhomhnaill Nâzım Hikmet Odd Nerdrum Orides Fontela Orlando Gibbons Orlando Teruz Oscar Niemeyer Osip Mandelstam Oswald de Andrade Pablo Neruda Pablo Picasso Patativa do Assaré Paul Funge Paul Henry Paulo Afonso da Silva Pinto Paulo Cancela de Abreu Paulo Henriques Britto Paulo Leminski Pedro Du Bois Pedro Lemebel Pete Doherty Petya Stoykova Dubarova Pink Floyd Plínio de Aguiar Pádraig Mac Piarais Qi Baishi Rafael Mantovani Ragnar Lagerbald Raquel Naveira Raul Bopp Regina Alonso Renato Borgomoni Renato Rezende Renato de Almeida Martins Ricardo Portugal Ricardo Primo Portugal Ronald Augusto Roniwalter Jatobá Rowena Dring Rui Carvalho Homem Rui Lage Ruy Belo Ruy Espinheira Filho Ruzbihan al-Shirazi Régis Bonvicino Salvado Dalí Sandra Ciccone Ginez Santiago de Novais Saúl Dias Scott Scheidly Seamus Heaney Sebastian Guerrini Sebastià Alzamora Shahram Karimi Shorsha Sullivan Sigitas Parulskis Silvio Fiorani Smokey Robinson Sohrab Sepehri Sophia de Mello Breyner Andresen Souzalopes Susana Thénon Susie Hervatin Suzana Cano Sílvio Ferreira Leite Sílvio Fiorani The Yes Men Thom Gunn Tim Burton Tomasz Bagiński Torquato Neto Túlia Lopes Vagner Barbosa Val Byrne Valdomiro Santana Vera Lúcia de Oliveira Vicente Werner y Sanchez Victor Giudice Vieira da Silva Vinícius de Moraes W. B. Yeats W.H. Auden Walt Disney Walter Frederick Osborne William Kentridge Willian Blake Wladimir Augusto Yves Bonnefoy Zdzisław Beksiński Zé Rodrix Álvaro de Campos Éle Semog