Definição

... da totalidade das coisas e dos seres, do total das coisas e dos seres, do que é objeto de todo o discurso, da totalidade das coisas concretas ou abstratas, sem faltar nenhuma, de todos os atributos e qualidades, de todas as pessoas, de todo mundo, do que é importante, do que é essencial, do que realmente conta...
Em associação com Casa Pyndahýba Editora
Ano VI Número 63 - Março 2014

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Conto - José Geraldo de Barros Martins

Ilustração de José Geraldo de Barros Martins

Em Um Quente E Cáustico Dezembro

Dezembro, fim-de-ano, a sensação de relaxamento diante do ano que estava acabando - é preciso fechar para balanço, pensar no ano que se foi - filosofava Josias Germano, em meio a um engarrafamento matinal... fora um ano de realizações, a compra do apartamento, a conclusão do mestrado, a perspectiva de uma futura ascenção profissional, o título da Copa Sul-Americana conquistado heroicamente pelo tricolor paulista... mas nem tudo eram alegrias... Pedro Venâncio seu grande amigo se fora... assim como se foram também grandes nomes das artes: Oscar Niemayer , Dave Brubeck e Décio Pignatari... ele sabia que o poeta nunca fizera algo como a maquise do Ibirapuera ou o álbum “Take Five” , mas durante a faculdade fora aluno de Pignatari, ou seja conhecera-o pessoalmente... Décio não se tornara seu amigo... mas notava que o mestre tinha mais satisfação em responder suas indagações aparentemente vindas do nada, do que aquelas perguntas previamente elaboradas, vindas de determinados alunos com intenção em demonstrar conhecimento refinado...

Como o trânsito estava definitivamente caótico, o nosso protagonista resolveu ligar o rádio e descobriu que um acidente fatal com motocicleta literalmente parara a capital paulista - o trânsito de São Paulo é igual a saúde de alguém muito idoso- refletiu - qualquer resfriadinho vira pneumonia... qualquer caminhão quebrado, acidente com moto, atropelamento gera um a lentidão monstruosa afetando a milhares de cidadões...

E então a radio toca o seu refrâo:

“Vão bora! Vão Bora!
Tá na hora! Na hora!”


Como ir embora nesta lentidão... é um absurdo - pensou Josias Germano - chega desta rádio reacionária que só exibe essa musiquinha de manhã, na hora de entrar no trabalho, nunca toca este refrão na parte da tarde... como que só tivesse hora para entrar no trabalho, nunca para sair...

Josias Germano olhou o semáforo que devido ao engarrafamento não conseguia transpor, lembrou-se então que a palavra semáforo é derivada do termo ”semeion” que em grego significa signo... a mesma raiz da palavra semiótica... recordou-se do título de seu trabalho de conclusão de curso na pós-graduação “Semiótica na Sinalização de Trânsito – paradigmas e sintagmas da sinalização viária” ... notou também que o “semi” da semiótica estava degenarado: semijóias e carros seminovos eram um indício da degeneração dos signos da comunicação moderna...

Lembrou-se então que no porta-luva do automóvel havia um exemplar de “O que é Comunicação Poética” de Décio Pignatari, livro que usara como subsídio a seu trabalho de graduação... Como o trânsito não andava e o calor começara a se tornar ensandecedor, resolveu ler trechos da obra do poeta de Jundiaí:

“Para o poeta, mergulhar na vida e mergulhar na linguagem é (quase) a mesma coisa. Ele vive o conflito signo vs coisa. Sabe (isto é, sente o sabor) que a palavra ‘amor’ não é o amor - e não se conforma…

De repente então o estrondo, o motoqueiro indo embora apressado e o espelho retrovisor direito virado....

Josias Germano xingou a “raça dos motoqueiros”, como costuma a fazer com a “raça dos taxistas” - O mundo está a cada dia pior, estamos todos perdendo a noção das coisas – recordou-se então daquele poema de Torquato Neto que dizia:

“É preciso que haja algum respeito
ao menos um esboço:
ou a dignidade humana se firmará a machadadas”


Pensou então em comprar um machado... lembrou-se que no início do próximo ano iria a Assis, no interior de São Paulo, visitar seus sogros, e que nesta cidade havia uma loja chamada “Casa das Miudezas”, que vende tudo: anzóis, artigos de papelaria, veneno de barata, botinas, cedês virgens, armarinhos e até servia cerveja em um pequeno balção – com certeza deve ter machado – refletiu o nosso amigo...

Depois ficou com pena do motoqueiro que morrera na Marginal e estava causando todo este transtorno... lembrou-se então da canção de Chico Buarque que dizia

“morreu na contra-mão atrapalhando o tráfego”

recordou então o arranjo que Rogério Duprat havia composto para “Construção” então, como o trânsito não andava mesmo, resolveu ler mais Pignatari:

O poema é um ser de linguagem. O poeta faz linguagem, fazendo poema. Está sempre criando e re-criando a linguagem. Vale dizer: está sempre criando o mundo. Para ele, a linguagem é um ser vivo.”

Voltou então a lembrar-se de Torquato Neto e de sua amizade com Pignatari, o poeta de Teresina homenageara o semiótico de Jundiaí no título da canção que compusera com Gilberto Gil e também da coluna que publicou no jornal Última Hora: “Geléia Geral”, retirado da frase de Pignatari:

“Alguém, na geléia geral brasileira, tem de exercer as funções de medula e osso”

... então do nada apareceu outro motoqueiro e bateu de leve no vidro do carro de Josias Germano... o nosso protagonista se assustou, porém o motoqueiro apontou para o espelho retrovisor revirado e colocou o retrovisor de volta à posição correta... o nosso protagonista fez sinal de positivo e deu um leve toque na buzina em sinal de aprovação... o segundo motoqueiro partiu amistosamente...

Josias Germano então julgou ter presenciado uma das epifanias, manifestações divinas em pequenos atos do cotidiano, tão comentadas por James Joyce... pensou então que o mundo não estava tão boçalizado, que existiam pequenas demonstrações de que nem tudo está perdido...pensou então que quando fosse a Assis não precisaria mais comprar o machado.

Editorial

Birthday, by Helene Henderson


TUDA comemora 3 anos de existência - partindo para o Ano IV - e já se sente, com muito orgulho, deixando a infância e adentrando na adolescência, o que acaba por reafirmar o Editorial passado: Chronos conspira contra a juventude alheia, e nem mesmo Kairos pode ajudar! E dessa vez não foi obra de Nossa Senhora da Preguiça que me fez atrasar TUDA. A culpa da cuja foi mesmo deste que vos escreve, que recebeu uma batalhão de coisas boas para TUDAR, e por ter rompido com Chronos & Kairos... restou-me o atrasamento!
Tendo agora aniversariamente constatado
heroicizado que neste aniversário de ocasião
não dá-se conta de mais um ano já passado
aniversariado tal heróide, de próprio punho e mão

Aniversariante aniversario aniversário de aniversariar
mais um ano que vem & que chega & que já quer voltar!

Aos trancos & barrancos, atrasos & solavancos - e também erros de digitação -, brindemos os nossos três anos de existência, de resistência e de imprecisão...
Viva a nossa teimosia
Viva a nossa euforia -
e que me perdoem os contistas
- um brinde à poesia!
E um brinde também a toda essa literatura
& arte que TUDA recebe & busca!

Parabém para TUDA
Parabéns para TODOS
TUDA comemora a alegria mas também lembra a tristeza: em 26 de Janeiro de 2012 completar-se-á oito anos sem Arnaldo Xavier. Quem conheceu Arnaldo Xavier ainda hoje sente sua falta. E suponho que sempre sentirá. Encontrei um poema disperso de Arnaldo, que publico nesta edição, pois na edição de Dezembro 2011 encerrou-se a série de poemas que Arnaldo havia reunido para um futuro livro, chamado ALUVAIÁ, composto dos poemas de ÔlhÔs de Xadrez, Arma Zen, Poemas e Entrada de Luz. Entre várias versões diferentes, arquivos parcialmente digitados, emails e anotações dispersas, cheguei no que parecia ser a última versão - embora incompleta - do que Arnaldo desejava um dia ver publicado. Inspirado no espírito Pyndahýba que Arnaldo tanto fazia questão foi que ousei publicá-los aqui, para nosso deleite!

Mas como diz o dito popular, frente prá bola, que gente vem atrás - ou algo assim!

Neste Janeiro - a primeira edição do resto de sua existência - TUDA fez um pacotão de aniversário, já que recebeu muita coisa boa - confira os colaboradores na seção Dívida Interna. Este mês resolvi creditar também as ilustrações que acompanham os poemas.

É isso companheiros: na LabUTA, só por hoje, devagar & sempre, e TUDA de bom!

Eduardo Miranda
O (auto-proclamado) Editor

P.S.: Visite também http://casapyndahyba.tripod.com e veja o PréVixe!, o PósPrèVixe! e o Vixe! (um dia eu ainda dou um tratamento melhor ao site).

Dívida Interna

in Abu Ghraib, a series of paintings by Fernando Botero
Editor
Eduardo Miranda

Capa
José Geraldo de Barros Martins

Digitação
Eduardo Miranda

Revisão
Dos autores

Colaboradores
Almandrade, Ari Cândido, Arnaldo Xavier, Calabrone, Cesar Cruz, Diane Millsap , Dolk, Dorival Fontana, Edson Bueno de Camargo, Eduardo Miranda, Enio Squeff, Fernando Botero, Hélène Deroubaix, Helene Henderson, Idalet Pauw, Ingeborg Bachmann, Italo Ramos, Jacek Yerka, JJ Jacobs, Joan Miró, José Geraldo de Barros Martins, José Miranda Filho, Judith Foosaner, Kyle M Stone, Martin van Meytens , Matt Sesow, Paper-pulp , Paul Nash, Pedro Du Bois, Plínio de Aguiar, Quăngchọiném, Raquel Naveira, Regina Alonso, René Magritte, Ronald Augusto, Roniwalter Jatobá, Ruy Belo, Santiago de Novais, Sheryn Johnson, Vagner Barbosa, Van Gogh.

E-mail
tuda.papel.eletronico@gmail.com

Poesia - Arnaldo Xavier

Solomon: Shepherd against amber sunset, 2005 - by Idalet Pauw

Sobre cinzas
caminhos riscados
A sombra soprada
pela luz

Oposta fuga da vida
vazio corte desmonta
prateleira de sonhos apagados:

Na última
e única porta

A cada corte triste passo sangra
a idéia de fogo ardente encontra
pedaço imenso talvez da volta
sem semente

Poesia - Plínio de Aguiar

Dawn of Morning - JJ Jacobs


As Manhãs Brincam
A Valdomiro Santana

As manhãs brincam e acenam folhas,
Fazem brisas, tornam rosas mais flores.
Fabricam sombras com o sol no dorso.

Eventualmente são moldura de sonata
Saída de casa distinta em violino
Obsessivo de silêncio. Às vezes
Alegram-se mais, exibem nuvens animais
Imitando delírio dos meninos mirando-as.

As manhãs brincam até quando velhos choram.
E agradecem a vida. Acinzentados, olhos
Veem cadeira, copo, prato, remédios, o teto e
A enfermeira à beira da cama, restos de Deus.

As manhãs também se sacodem de riso
Nos latidos de cães presos em barracos
Ou mansões, passos na calçada molhada.
No rangido do portão da igreja, fechando-se.
No assobio do menino, na menina voltando.

Plínio de Aguiar
Cipó, Bahia, junho de 2011

Poesia - Santiago de Novais

Ilustração enviada pelo autor.


Dia de Enterro
“Os átomos todos dançam, madruga, reluz neblina.
Crianças cor de romã entram no vagão.”
(Caetano – Trem das Cores)

Eu que já chorei todas as misérias agora não posso me rir delas nem por alfa nem por bravo.
Digo com furor messiânico e poeta que cruzarei o espaço acompanhado das emissões eletromagnéticas de Saturno e nada disso reinventará nossos dias juntos, mamãe, papai, irmãos e cachorrinho, tudo bonitinho.
Os amigos. Onde estão? Digo os que dizemos de verdade. Ok, tudo bem.
Eu que já chorei tantos desfortúnios próprios me vejo obrigado a chorar os de alfa e bravo e a me esquecer do meu próprio porque ele não é mais lento nem mais pesado, nem mais covarde, nem mais doído que um câncer, apenas me toca.
Tenho revolto dentro de mim todo o embrulho de ter existido, estou em um velório sem ninguém haver morrido e se alguém o tivesse não entenderia, nem estaria calmo, pois a morte não nos acalma e nem mesmo o Profeta que disse isso ou aquilo soube quando ia morrer e morreu sem saber. Então cajuína. A que será que se destina?
Sem se dar conta de que deveria ter comido mais do seu bolo de aniversário aquela vez que fizestes a festa e na qual chovia e eu não quis comer pois estava aborrecido por não ganhar beijinho, agora estou aqui para quem sabe segurar as fivelas do caixão, jogar o punhado de terra que representa a misericórdia, o desespero e a fé, em cima do vidro pálido de flores do seu caixão, que contém o seu corpo que parou de doer de tanta desordem celular.
Respiro um pouco, meio fundo. Isto faz o coração calar. Alguém mandou um “te amo”.
O que eu devo fazer? Sou uma casca de chuchu jogada no lixo amanhecendo sem o lixeiro ter recolhido. Um cachorro dorme sobre mim. Sinto suas pulgas vivas.
Aceito o carinho de uma mão no ombro de uma pessoa desconhecida que está com pena. Nestes dias tudo serve, unhas sem fazer, sapatos velhos, gente sem banho, até presente.
Caminho pela alameda cheia de ciprestes que duraram mais que todas as nossas vidas, todas as pessoas, a vitória calma de certas plantas sobre nós. E nosso comum desprezo por elas.
Ouvi as colheres dos pedreiros do cemitério colocando os tijolos e a argamassa.
Digo com furor messiânico e poeta que cruzarei o espaço acompanhado das emissões eletromagnéticas de Urano e nada disso reinventará nossos dias juntos, mamãe, papai, irmãos e cachorrinho (ou amigos).
Vou rir com as pessoas, prometo. Vou até gostar de chuva, prometo. Curare, curau? Nunca.
A mão no meu ombro era de outra pessoa e nem percebi a troca. Alguém. Ufa, que bom!
Carpe diem, carpe diem baby. Cobraram-me o estacionamento. Deveríamos estacionar de graça quando alguém da família ou um conhecido morre. Estou vivo. Não paguei.

Poesia - Dorival Fontana

“we scream in cathedrals” by Hélène Deroubaix
Miss “k”

A luz se apaga
sobre o copo derramado.
É tarde, muito tarde...
quando a música se acaba.

Os corpos se contorcem,
giram lentamente,
dançam contra o tempo
pela madrugada.

Entre sussurros, promessas,
sombras e palavras;
manequins desnudos
esvaziam a garrafa.

Na volta derradeira
do vestido rodado,
a magia passageira
subitamente é realidade.

Amanheceu...

Poesia - Pedro Du Bois


Judith Foosaner - State of Siege, 2011
collage with acrylic on canvas

Estado de Sítio

Fiel ao princípio da autonomia
entre poderes evite a intromissão
entre as partes. Sabe
e conhece o espectro turvo
     das cores da bandeira.

O ódio intrometido entre as partes
avança e destrói o desconhecido.
Não retorna sobre escombros
e se esconde em salas
refrigeradas: poder exercido
sobre a contingência dos amores.

Alvo de paixões destroça corpos
submetidos em tensão: o suplício
descompensa a similitude do ato.

Onde repousam sonhos acorda
em batidas milimétricas. Tacões
ressoam pisos de concreto. É
o que lhe permitem conhecer.

Explodem fogos artificializados
no espaço descontinuado da espera.
Desperta e acompanha a luta
desarmada das histórias
melancólicas: herói na situação
anacrônica do enredo. Ao vilão
cabe o luxo iluminado
dos palcos de vergonhas.

Arremesso e arremate. Diálogo
continuado entre surdos. Espíritos
em testes de segunda classe.
Bestiário revivido ao dia
entre sinais e estacionamentos.

Não revê nas ruas o soldado
de outrora. Não reconhece o uniforme
e a uniformidade em trajes
desconexos prova o inimigo.

Amizades
     negócios
          traições
               e adultérios.
A potencialidade da imagem transmuda
o ser em escolhas. A destruição das pontes
permanece receptáculo da ousadia.

Atravessar o fosso e se descobrir em fósseis
aumentados. Atravancar a saída e se cobrir
em entradas. O final do túnel
em notícias repetitivas.

A bebida descontrai o ânimo
com que a vida demonstra virtudes.
A virtuosidade da morte engalana
o recém chegado. O estrangeiro
transformado em nativo se acomoda
em estrangeirismos.

Reflete sonhos. Repete sonos. Realiza
a introdução ao processo e se perde
em meandros liberalizantes. A competição
revigora a mente na escolha da testemunha
do açodamento. diretores vicejam almas
de apenados funcionários em desconforto.

O clube recebe seus sócios e os distribui
em salões de acordo com suas situações
               político-sociais.

No portão a segurança se enreda
em assaltos: o assassino sorri perplexidades
na facilidade com que perpetra o crime.

Sirenes ecoam medos. O alarme desarma
a visão silenciosa da conquista. Não distante
a ordem esconde contraditoriedade: para
os efeitos da lei a escolha se faz agora.

Manifestos distribuem raivas enjauladas
em quatro paredes. A palavra de ordem
desordena o status do melodrama.

Na similitude a coragem reencontra
sua visão feminina. A visão masculina
desencontrada em si murmura
juras de amor em eternizadas
amizades
     saudades
     e lembranças juvenis.

Jamais - na afirmação contraditória -
são reformados os presídios: punidos
na justaposição da indigência vislumbram
a luz penetrar janelas encadeadas.

Estar livre e gozar as prerrogativas
da indecisão. Procurar em vão
a responsabilidade no avesso
do acerto minorado em almas
desacompanhadas: o pranto
reflui torrentes e a condição afeta
a tradição perdida em silêncio.

O canto situado como livre estivesse o cantar
          como se o cantar livrasse da desdita
          como se desdizer fosse o conteúdo maternal
               na oração primária dos dissabores.

Trair a atenção. Atrair a atenção em ato
de coragem. Descontrair a tensão
em ato covarde de agressão
               e mentira.

No sorriso da mulher que passa
entre carros revê a mulher da vida
recolhida na casa dos prazeres.

No matraquear dos recreios receia
induzir a voz ao encontro da verdade
e retirar do exposto a contrariedade
das notícias não alvissareiras.

Alvo. Seta perfurante. Bala penetrante.
Símbolo cortante. Pedra contundente.

A busca nos primeiros passos
mambembes e o reluzir do ouro
conquistado. Fosse outra a época
e com certeza estaria preso ao passado.
Ao futuro são oferecidos óbices
em escaladas argutas e infiltrantes.

Se a mulher se apresenta nua, dispa-se
de sua vaidade e vá até ela. Cubra-a
com sua vergonha. A mulher se sentirá
devedora da sua ousadia.

Avesso ao estardalhaço, distribua panfletos
e torne a leitura obrigatória. Troque algumas
palavras. Entorne o caldo. Estremeça o senso
elementar das confusões. Aprofunde o tema
em nada consta. A liberdade perdura
enquanto a guarda se nacionaliza
em combates.

A fraqueza dos pais é responsável
pelo aviltamento, jogue a moeda ao mendigo
em gritos e palavrões. Desperte a vilania
e a destrate com fraquezas e ódios.

Descarregar a arma empunhada na luta
diante da máquina fotográfica o transforma
em notícia e no martírio do jornal escrito
se mantem ávido de reconhecimentos.

Não se debruce sobre a amurada: o atirador
de elite se distrai em beijos e sua arma
          dispara na antevisão da morte.

Poesia - Ari Cândido

Prison Painter, by Dolk

RODA / CARROÇA

CARROÇA

CARROÇA

CARROÇA

CARROÇA

CARROÇA

CARROÇA

CARROÇA
DE LEITE

DE PÃO

DE LIXO

DE DEFUNTO

DE PEDRA

DE GALO

DE OVO

DE CÃO

PRISIONEIRO

Poesia - Vagner Barbosa

Wind, by Vladimir Kush

Vento amigo

Espero por um vento
Que num repente
Levante meus pés
E torça meu pensamento

Um tornado
Que me vire de lado
E derrube as chaves
Do mundo arrumado

Quebre a bússola
Desconcerte o rumo
Deixe-me confuso
E sem prumo

Espero por um vento, uma brisa, um aviso, um sinal, um silvo, um sino, um assovio, um grito, uma bomba, um sussurro, um toque
Que me arremesse do outro lado do muro
Onde rola um rock
Sem princípio nem fim
Sem sofrimento

Espero por um vento...

Poesia - Almandrade

Kyle M Stone - Buried in the Library 2

A Razão em Coma

Pobres bibliotecas vazias
sem títulos e sem Borges,
O tempo, indiferente
ao jogo dos relógios,
não é mais dos livros.
O saber é um desconforto
de uma civilização
que vive ao redor do imediato
e humilha a memória.

Poesia - Raquel Naveira

Kneeling Nun (1731) é um trabalho do suéco-austríaco Martin van Meytens (1695–1770), e é composto de dois quadros, frente e verso.
Confissão de Mariana
(a Sóror Mariana Alcoforado, que nasceu em Beja, 1640. Desde menina professou no Convento de Nossa Senhora da Conceição em sua cidade natal. Em 1663, conhece Chamilly, oficial francês servindo em Portugal, durante as guerras da Restauração. Apaixonam-se. Ele regressa à França por ordens militares. Trocam cartas, das quais só ficaram as escritas pela freira, que falece em 1723, após dolorosa penitência)

Foi aqui,
Neste convento
Cheio de varandas
E flores perfumadas,
Perto daquela fonte,
Daquela bacia esculpida,
Que eu, freira clarissa,
Conheci o amor da minha vida:
O oficial francês Chamilly,
Paixão proibida,
Insana,
Incontrolada.


Foi aqui,
Neste convento,
Na cela e no porão
Que me entreguei a ele,
Sufocando-o com meu manto negro
Brocado de estrelas.


Depois que ele partiu,
Foi daqui,
Deste convento,
Que enviei a ele cartas
Tão tensas e dramáticas
Que estilhaçaram meus nervos
Em transes e sangrias.


Foi deste banco de mármore,
Perto do laranjal, que,
Traída e abandonada,
Escrivã sem pejo,
Expeli toda minha fúria,
Minha ânsia,
Meu ódio
De fêmea pagã
Queimando de desejo.


Escrevi:
“A esperança me proporciona prazer,
Só quero sentir a minha dor,
Que seria de mim sem esse amor e esse ódio
Que enchem o meu coração?
O que vai ser de mim?
Morro de vergonha.”

Neste convento
Feneço
Na carne e no espírito,
Eu, amante suprema,
De doçura extrema,
Ofereci-me a um cínico,
A um ingrato
E por ele me mato
Como Cristo
Nas dores do calvário.

Poesia - Edson Bueno de Camargo

Rose Evenson - Country House
a casa

a casa
um fantasma
em si mesma
paredes fixas no etéreo
nunca se movem do lugar marcado
mesmo quando as margens dos rios
se esticam com as monções
e depois retornam ao seu desenho
deixando para trás
poças cheias de peixes
(para a felicidade dos meninos)

a casa
mesmo depois de finda
ainda permanece em seu requadro
sob a mata
tijolos abandonados
é lembrança vívida
de pulmões e esteios negros de fuligem

a casa hoje
é um quadrado de terra batida
mas tem um coração pulsante
que sabe seu sangue
pelas raízes das mangueiras
e das laranjeiras
agora selvagens

a casa estará sempre ali
dentro de minha memória
onde permanece

Poesia - Regina Alonso

René Magritte - Delusions of Grandeur II, 1948 - oil on canvas

Crepuscular

Rósea luz na varanda.
Na rua não anda nem sombra
de passos nem vestígio de abraços.
Um corpo apagado ao findar do dia.
Mudo o realejo
pássaros recolhidos
crianças não vejo.

Ai, tenho pena de mim!
Mudou tudo lá fora?
Será que eu me fui embora
para dentro de mim?

Busco a roda e a cantiga,
a palavra amiga da menina de outrora.
Não escuto sua voz
e nem encontro adiante a jovem confiante
nem a marca da mulher.

Quem está na varanda?
Na tarde vazia a luz crepuscular
invade o espaço e eu me faço de aço
para não estilhaçar.

Crônica - Roniwalter Jatobá

Diane Millsap - New Orleans
Breve historinha de bondes

Depois de mais de meio século desativado, em 2002 o bonde elétrico voltou a circular no centro de Londres. Moderno, confortável e sem poluição, o bonde londrino faz parte de uma geração de veículos elétricos usados para o transporte público em algumas cidades da Europa. Os moradores de Croydon e Wimbledon, dois bairros nobres da capital britânica, já estavam, desde o início do milênio, provando da novidade. O objetivo nobre para ressuscitar os bondes elétricos era transportar 25 milhões de passageiros por ano, reduzindo assim em 2,5 milhões o número de viagens feitas de automóveis na região.

Contam que um dos motivos para a retirada dos bondes das vias londrinas, em 1951, foi dar espaço aos ônibus. Todos conhecem essa história. É igualzinha a de São Paulo, que em 1968 fez até festa para tirar os bondes do traçado paulistano. A politicalha tinha tanta gana em acabar com o “atraso” que o então governador Abreu Sodré, em “nome do progresso”, fez questão de ir a bordo de um deles, o da linha Santo Amaro, para acompanhar a última viagem.

No Brasil, a experiência mais próxima da londrina aconteceu em Santos, no litoral paulista. Também em 2000, foi criada uma linha turística, que funciona no Centro Histórico. Além disso, foram contratados doze antigos motorneiros e condutores para um projeto chamado “Vovô sabe tudo”, no qual os velhos trabalhadores lembram a memória dos bondes santistas, que haviam servido a cidade durante um século, de 1871 a 1971.

Se fossem os condutores das linhas paulistanas, teriam também muita história para contar. Como esquecer os primeiros bondes fechados, pesadões e pintados de vermelho? Por isso, foram batizados de camarão. Outro bonde, ainda maior que o camarão, recebeu o apelido de tubarão, que alguns também chamavam de lagosta. E em meio aos peixes e crustáceos, surgiu ainda o jacaré, um bonde todo verde que fazia a linha para Santo Amaro.

Eles não poderiam esquecer, claro, o Centex, o bonde que virou a cabeça dos paulistanos. Era o máximo em novidade. Os bancos eram móveis e revestidos de palhinha ou couro. Era todo equipado com espelhos retrovisores, limpador automático de pára-brisas e, nas janelas, vidros de têmpera especial. Seu espaço interno era maior. A visão para o exterior quase panorâmica. Foi aí que algum apaixonado deslumbrou nele as formas sensuais da atriz Rita Hayworth, que na época fazia furor com o filme Gilda.

O bonde Centex, ou melhor, Gilda, fez sucesso e até inspirou expressões paulistanas. Era comum dizer que uma mulher bonita era um “verdadeiro bonde”, assim como “estar de bonde” ou “andar de bonde” significava namorar. Em 1963, o Gilda mudou de cor, ganhou tonalidade alaranjada na carroceria e um amarelo claro nas portas. Desse jeito, ficou parecido com um refrigerante da moda. Aí, até sair de circulação, o Gilda virou Crush.

Conto - José Geraldo de Barros Martins


Conversas Ambíguas

Naquela noite de sábado calourento Juvenildo Vunegídeo resolveu tomar chope e comer rosbife com salada de batata... para tal, entrou naquele tradicional restaurante alemão que funciona há mais de uma década na capital paulistana... sentou-se em uma das poucas mesas vazias, situada entre um jovem casal e uma família velha...

O nosso protagonista achou curioso que o casal falasse espanhol enquanto a família falava alguma língua que lembrava o alemão...

Pediu um chope e meia porção de canapés sortidos, então enquanto aguardava o garçon trazer o seu pedido, ele abriu o livro que trouxera, no caso um exemplar raro: “Obras-Primas do Conto Alemão” Livraria Editora Martins -1959, uma coletânea de contos teotônicos organizada por Sérgio Millet com textos de Hoffmann, Ztefan Zweig, Heinrich Heine, etc...

Porém não conseguiu prosseguir na leitura, o casal ao lado discutia, e mesmo que a discussão fosse em lingua hispânica, ela desconcentrava o nosso amigo, que incomodado lançada terríveis olhares de censura para a mesa ao lado... ele conseguiu distinguir pelo sotaque, que o jovem era portenho e a jovem paulistana, embora com um espanhol fluente...

Tinham se conhecido na argentina... agora ele veio visitá-la na paulicéia, porém ele esperava algo mais agitado:

- Quiero bailar en lugares de lujo y modernidad!!! No me quedaré em un viejo restaurante alemán...

Mal terminara de pronunciar esta frase o jovem se levantou e saiu apressado... a jovem, no caso uma beldade, ficou impassível, depois olhou para o vizinho de mesa e disse:

- Desculpe-nos por favor, reparei que você estava tentando ler...

- Não tem problema... sei que não é da minha conta, mas por quê que você trouxe o gringo para um lugar como este?

- Como assim??? na minha opinião aqui é um dos melhores lugares de Sâo Paulo, um lugar com história, fundado por um dos tripulantes do navio Windhuk que atracou no Brasil em meio a segunda guerra... todos os tripulantes foram presos, depois quando a guerra acabou eles foram soltos e um deles resolveu abrir um restaurante com o nome do navio...

- Eu conheço essa história, eu sempre venho aqui ...

- Então, voltando ao assunto... eu trouxe este argentino aqui porque aqui é um dos meus lugares favoritos... mas ele não está interessado em lugares como este... se não gostou, que se dane... não ia dar certo mesmo, por sinal, posso sentar na sua mesa?

- Claro... você já pediu?

- Não, mas acho que vou comer rosbife com salada de batata...

- Era justamente o que eu ia pedir...

Depois de vários chopps acompanhados de um delicioso rosbife com salada de batatas, molho tártaro, mostarda escura e molho inglês... eles conversavam sobre o destino da cidade...

- Eu não entendo, todos os dias vemos um monte de apartamentos caríssimos sendo vendidos... não existe dinheiro para tudo isto!!! Não existe tanta gente para estes prédios de luxo... existe alguma coisa errada... - disse ela.

O nosso protagonista olhou-a calmamente, depois se aproximou-se dela e disse baixinho:

- Na verdade, estes apartamentos são comprados por alienígenas, existe uma coisa que ninguém conhece: uma especulação imobiliária interplanetária... (ele na verdade não acreditava muito em nada daquilo, porém repetia aquela teoria pois achava que iria aparentar ser uma pessoa diferenciada e que ela iria achar bacana).

- Não diga... Você consegue reconhecer estes extraterrenses na rua?

- Claro,,, existem vários sinais... mas o principal é o sotaque... como demora muito tempo para falar um português fluente, os alienígenas sempre fingem que são estrangeiros...

- Mas não tem um sintoma mais aparente?

- Tem sim! - disse ele – na verdade os alienígenas babam um líquido azul , mas somente quando são confrontadas com fortes emoções - disse ele copiando a idéia do argumento do filme “Hombre Mirando al Sudeste” de Eliseo Subiela, com plena confiança de que ela jamais teria assistido o filme .

Mudaram logo de assunto para conversas mais interessantes...

Após um ano Juvenildo Vunegídeo estava casado com ela, seu nome: Jamélia Dorotilda, uma mulher interessantísssima.... uma tarde ao voltar do trabalho ele encontrou sua mulher em êxtase: em suas mãos um exame de gravidez positivo... eles comemoraram a notícia indo ao mesmo restaurante alemão, e por uma incrível coincidência aquela familia de estrangeiros que se sentara ao lado deles na noite do primeiro encontro, aquela mesma família que falava alguma língua que lembrava o alemão, estava mais uma vez sentada na mesa ao lado... No jantar tudo ocorreu muito bem , como sempre, porém após retornar ao lar, no meio da noite, quando o nosso protagonista se levantou com pressa para ir ao banheiro, ele observou um filete de saliva azul a escorrer da boca dela e a cair sobre o travesseiro...

Não conseguiu dormir: duvidara se havia se casado com uma alienígena ou com uma gozadora... ponderou sobre as duas situações:

No primeiro caso o que mais o angustiava era a idéia de que o seu futuro filho ou filha, iria ter uma mãe de outro planeta, e que esta criança poderia ser discriminada na escola... pensou também que sempre achara que ela tinha alguma coisa de estranho, vai ver era isso...

No segundo caso, isto é de ela ter se lembrado daquela estória da baba azul e ter comprado uma pastilha de anilina para simular que era de outro planeta, o que mais o surpreendia era a descoberta de que sua esposa era bastante espirituosa, pensou também que sempre achara que ela era uma grande gozadora, vai ver era isso...

Porém quando na manhã seguinte ele avistou aquela família de estrangeiros que estava no restaurante alemão na noite anterior... ele viu que os membros daquela família eram moradores de um apartamento de luxo recém construído (destes que o condomínio é uma fortuna) .. então, somente então ele compreendeu a resposta para a dúvida que tanto o angustiara quanto o surpreendera na noite anterior...

Conto - Cesar Cruz

Noir, by Paper-pulp - Digital Art / Paintings & Airbrushing

A Cliente

Eu entrando no banco, tocou meu celular. Recuei da porta giratória e atendi. Era a Suely.

– Diga, minha delícia – falei

– O Azevedo tem cliente pra você atender, amanhã à noite.

– Opa, comigo mesmo – eu disse – Quem, onde e como? – perguntei, as perguntas básicas.

– Vou te passar no email. Agora estou usando um do Hotmail, chegará como Clotilde, okay? Não esquece de depois apagar tudo, inclusive a lixeira.

– Pode deixar, minha deusa, tudo cem por cento seguro. E por falar nisso, quando vamos deixar de tanta segurança e marcar um jantarzinho pra gente se conhecer? – mandei, cheio de charme, mas ela já tinha desligado.

Saí do banco depois de conferir o saldo no negativo. Aquele cliente veio em boa hora. Eu não tinha tido um puto nem pra comprar um presente pra minha filha. Tava quase assinando atestado de pobreza. Dois dias antes fui na casa da mãe dela só pra dar um beijinho de parabéns, de mão abanando. Ela me cobrou uma boneca que tinha sei lá que cabelo, e eu só dizendo papai traz depois, meu bem, papai traz.

Rodei as imediações atrás de uma lan house. Entrei em uma imunda e escura, que achei na São Bento. Enquanto baixava o email da Suely, sentia as pulgas subirem por dentro das pernas das minhas calças. Copiei as informações no papel interno do maço de cigarros e vazei.

No caminho pra casa fui lendo com calma as instruções. O cliente era mulher. E jovem. Porra, já falei pro Azevedo que meu negócio é homem! Que com mulher eu tenho dificuldade, periga eu nem conseguir, mas não adianta falar, ele só ouve o que quer. Vira e mexe põe uma dona na minha fita. Mas tenho que encarar, ganha-pão é ganha-pão.

Vinte e cinco anos, alta e magra, muito bonita. Namorada de um comerciante de cinquenta e oito, ciumento. Só com essas informações já dava para sacar tudo, inclusive o motivo da minha contratação.

O Azevedo no pagar é firme que nem bicheiro. Na manhã seguinte a minha comissão já estava na conta, adiantada. Uma grana gorda do caralho. Deve ter sido bom o montante do negócio.

De tarde passei no shopping e comprei uma camisa nova. Gosto de estrear uma pecinha virgem a cada novo cliente. Às vezes cueca, às vezes camisa. É uma tradição que tenho, pra dar sorte. Comprei também uma boneca bacana pra minha pequena, louco pra ver o sorriso dela.

Às dez da noite eu já estava na esquina, distante uns cem metros, olhando com o binóculos a fachada da academia. Academia de bacana. Só viatura lustrosa saindo do estacionamento. Segundo as informações, ela ia embora a pé, morava perto. O coroa bancava legal a mina, tava evidente. Só um esquema daquele devia custar uns quatrocentos mangos por mês. E eu já tinha fumado meio maço e nada dela sair de lá.

Dali a pouco lá veio ela. Nem acreditei quando vi. Uma coisa linda. Um narizinho de anjo. Cintura fina, o corpo sólido e musculoso metido numas roupas coladas de ginástica, o cabelo negro, pesado, preso em um rabo-de-cavalo balançando pra lá e prá cá enquanto ela andava.

Quando ela virou a esquina na rua estreita, à direita, só de casas antigas, liguei o carro, saí do meu posto de observação e me aproximei, juntando ao lado dela no meio-fio. Baixei um pouco o vidro. Queria ver de perto. Ela olhou pros meus olhos com uns olhos redondos e pretos que quase fraquejei. Se assustou e apertou o passo, se afastando acelerada com aquele rebolado maravilhoso.

Desliguei o motor. Baixei de vez o vidro e espiei pelos retrovisores. Ninguém pra lado nenhum. Ela já tava a uns 50 metros quando apoiei a pistola entre a porta e o retrovisor, já com o silenciador acoplado. Mirei no nó do rabo-de-cavalo e disparei.

Ela caiu de frente sem fazer nem um ruído, de cara no chão. Ficou ali, emborcada. Imóvel. Na rua principal atrás de mim, um ônibus passou barulhento, depois o silêncio voltou a reinar.

Liguei o motor e saí de ré, apagado; peguei a avenida principal e acelerei, decidido a dizer pro porra do Azevedo que mulher, ainda mais bonita assim, eu não atendo nunca mais. Por dinheiro nenhum!

Conto - José Miranda Filho

Rubella Boats at Porto - Sheryn Johnson

Encontro de Amigos - Parte 2

Porto foi o marco inicial. A temperatura estava agradável. O céu azul e ensolarado. Aterrissamos no Aeroporto de ….pontualmente às 11:40 confirmando a máxima pontualidade dos europeus. Pegamos o carro e nos dirigimos ao hotel apenas para deixar as bagagens. Seguimos diretamente para Vila Nova de Gaia, terra de meus ancestrais.

Atravessamos a ponte Don Luiz I que separa Nova Gaia da Cidade do Porto e nos dirigimos ao outro lado do rio, onde resolvemos caminhar pela margem esquerda à procura de um restaurante para fazermos a primeira refeição do dia. A sombra das casas no entorno do rio D`Ouro refletiam-se pela luz forte do sol daquela tarde em suas águas mansas e cristalinas.

Às margens do Rio D’Ouro há inúmeros bares e restaurantes de boa qualidade.

Andamos a pé por um bom tempo à margem do rio, onde ancorados em fila indiana, permaneciam pequenos barcos carregados de tonéis de vinho, prontos para serem transportados para outras regiões do País e para o exterior. Almoçamos num restaurante bem próximo ao cais. Muito bom, por sinal. Depois do almoço fomos visitar algumas adegas de vinho que ficam nas proximidades, ali mesmo em Nova Gaia. São várias marcas. Cada uma melhor do que a outra. Não dá para provar todas. Apenas degustamos um pouco de duas ou três qualidades.

Retornamos ao hotel às 16 horas para refazer as energias, tomar um banho, descansar e partir para a segunda etapa do passeio. O tempo escasso não permitia que parássemos ao menos alguns minutos.

À tardezinha, voltamos a percorrer as ruas de Porto, visitando alguns monumentos da cidade, aproveitando o tempo que nos restava. Estivemos na Catedral do Porto, vistosa e majestosa edificação sobre a colina Penaventosa; a Igreja da Sé, originalmente uma fortaleza; a Igreja de Santa Clara; o Palácio da Bolsa; a Igreja de São Francisco, construída no século XIV; a Igreja do Carmo etc. Vale ressaltar ainda o bairro da Ribeira, fascinante, com suas ruelas estreitas e curvosas e típicas casas do século passado, que lhe dão a beleza escultural dos dias atuais, seus bares, restaurantes e casas noturnas que proliferam no local. É simplesmente fantástico!

Prosseguimos a caminhada pelas areias brancas e macias da praia de Matosinhos, com o sol já quase se pondo - uma belíssima praia, banhada pelo Atlântico luso, e onde se encontram o Palácio do Queijo e o Forte de São Francisco.

Andamos a tarde inteira pelas vilas e ruelas de Porto. Seguimos o roteiro através de um mapa da cidade que se encontra nos hotéis à disposição dos hóspedes. Estávamos bem localizados. A circunvalação, espécie de rodoanel que circunda a cidade, facilita o tráfego de veículos que demandam ao centro ou a bairros vizinhos. O trânsito de Porto é simples e descomplicado, diferente da maioria das cidades brasileiras. Flui bem Os motoristas são educados e respeitam o pedestre, não obstante, se desrespeitarem entre si. Às vezes há xingamentos e e bate-boca.

A noite voltamos à Vila Nova de Gaia. Nesta hora eram as luzes das ruas e o luar brilhante que iluminavam as margens do rio. Jantamos no entorno do cais do rio D’ Ouro em outro restaurante, tão bom quanto o primeiro.

Retornamos ao hotel quase duas horas da manhã, cansados, mas satisfeitos, particularmente eu pela realização de um sonho há muito desejado e que finalmente se concretizava, e que certamente ficará gravado por muito tempo em minha memória.

Do Porto, na manhã seguinte trafegando pela auto-estrada A-29, seguimos para Oliveira de Alzemei, passando ao lado de Santa Maria de Feiras, antes de alcançarmos Lisboa.

De Santa Maria de Feiras, partimos para Aveiro e depois pegamos a estrada A-1 até Coimbra que fica às margens do rio Mondego, formada por antiga povoação do D’Ouro. Permanecemos em Coimbra por algumas horas, com tempo suficiente para visitarmos a famosa Universidade cantada em prosa e verso, e consagrada por uma canção interpretada por Amália Rodrigues, brilhante fadista portuguêsa conhecida no mundo inteiro. A escola mais antiga de Portugal, a Universidade de Coimbra, fundada em 1308 por Don Dinis, primeiramente em Lisboa, e posteriormente retornada a Coimbra em 1337, está localizada numa montanha, cujo acesso também se dá por uma ampla escadaria de aproximadamente 75 degraus. Sua subida é cansativa. A escola de Coimbra sofreu grandes transformações durante os governos de Don João III (1537) e Marquês de Pombal (século XVIII), Primeiro Ministro e homem forte de Portugal. Pombal também era Maçon tradicional, com domínio sobre as lojas de Lisboa, Áustria e Alemanha. Foi ele, homem poderoso e maçom influente, que através de seu poder conseguiu nomear o Papa Clemente III, com o único objetivo de exterminar definitivamente a Companhia de Jesus que lhe tirava o sono e exercia amplo domínio sobre as terras de Brasil e Portugal.

Fizemos um ligeiro tour pelo campus da universidade, visitando alguns monumentos ao entorno das escadarias que dão acesso ao centro do campus. O Campanário, eterno símbolo da faculdade, datado de 1537; a Biblioteca e seu magnífico acervo composto de mais de 300 mil volumes, presente do Rei D. João VI; a Capela de São Miguel; o Museu Nacional e outros tantos símbolos históricos, como o edifício da Sé Velha de Coimbra, reconstruído pelo Bispo Don Miguel Salomão, iniciada em 1162 e terminada em 1184; o Claustro, excepcional obra do século XII, de estilo gótico e patrocinado pelo rei Don Afonso II; a Capela do Santíssimo Sacramento; de São Pedro e muitas outroa monumentos seculares.

Partimos de Coimbra para Leiria e paramos uma hora exata em Fátima, cidade sagrada, sede do Santuário de Nossa Senhora. Fizemos-lhe uma prece agradecendo por todos os acontecimentos de nossa vida. Refizemos nossas energias físicas e espirituais, orando nos túmulos dos irmãos pastores, Francisco, Lucia e Jacinta, que em 1917 declararam ter sido testemunhas das aparições da Santa e outros fenômenos, à beira de uma videira verde e frondosa lá existente até hoje circundada por uma cerca de madeira para protegê-la da ação de vândalos. Entramos no Santuário da Virgem e nos ajoelhamos diante de sua imagem. Adquirimos algumas lembranças, pequenos objetos religiosos nas barraquinhas espalhadas pelo local e seguimos nossa viagem rumo a Lisboa. Vale a pena ressaltar em Fátima o Museu de Cera, que visitamos rapidamente,na Rua Jacinto Marto, onde estão expostas figuras que nos ajudam a entender a razão porque milhões de peregrinos se dirigem à Fátima todos os anos.

A noite se aproximava lentamente tomando o lugar do sol pungente e forte que nos acompanhou durante a tarde inteira e iluminou boa parte de nossa viagem. Saímos de Fátima e passamos por Torres Novas, de onde seguimos até Santarém, cidade às margens do rio Tejo, onde, na Igreja das Graças, repousam os restos mortais de Pedro Álvares Cabral. De Santarém alcançamos a estrada A-15, bem conservada e larga, passando por Rio Maior, Óbidos e Torres Vedras, até alcançarmos Lisboa, nosso destino final.

As luzes de Lisboa eram visíveis à distância, à medida que nos aproximávamos da cidade. Somente a escuridão da noite sem luar faz as estrelas brilharem incessantes.

Chegamos ao hotel.

Desfizemos as malas, tomamos banho, bebemos vinho e fomos jantar.

Ficamos conversando no restaurante até o encerramento – como se diz em Portugal - por volta de 1 hora da manhã, quando nos recolhemos.

Crônica - Italo Ramos

Matt Sesow - "Boy with Goat" 30" x 39" oil on chipboard

Caos Tranquilo

Angra dos Reis, com a Baia da Ilha Grande à sua frente, possui 365 pequenas ilhas (a maioria é deserta) e mais de 2.000 praias, segundo informa a propaganda da Secretaria de Turismo. Lindo, não? Sim, mas, a cidade de Angra, o seu perímetro urbano, ainda me lembra o Jorge Luiz Borges: “Não existem outros paraísos, além dos paraísos perdidos”, ele disse. Quanto a essa afirmação, eu digo apenas que “Pode ser”. E ao concordar - em parte - com o argentino, eu acabo aceitando a periferia de Angra, um mundo diferente, agora minha residência, onde se vive a experiência de uma paz aparente, uma espécie de apatia, a indolência que esconde um caos tranquilo, onde quase tudo o que se vê não é bem como deveria ser, é sempre insuficiente, e os serviços são da pior qualidade - como, de resto, em qualquer outra roça. Não obstante, pra mim, tudo bem; duvido que eu encontre lugar melhor. Depois de vinte anos morando em São Paulo, também me conjugo com o Mário Lago e já me contento com nada além de uma linda ilusão. Mas olha: da cidade, eu não gosto.

Não gosto porque ela se pretende colonial, mas aparece como um lugarejo ordinário e sem caráter. Nela, cada casa, cada prédio se apresenta com um estilo diferente, lastimável, tresandando cheiro acre e gosto duvidoso, e é assim que o autêntico sempre assume uma cara de velho e o moderno é modernoso. Isto é, no mínimo, lamentável, porque a enseada de Angra foi visitada pela primeira vez em 1502, só dois anos depois da descoberta oficial do país, e a cidade já foi um modelo histórico, mas se entregou aos seus prefeitos e se deixou violentar por eles. Desse modo, em Angra, nada é como parece ser, ou deveria ser. Lá, não há capricho. Nenhum trabalho ou serviço merece atenção, esmero, bom acabamento, porque tudo é feito às pressas e termina malfeito, não obstante seja dado como resolvido - malresolvido, é claro. É assim até com as mulheres, principalmente as jovens. As mocinhas se apresentam vestidas com a última moda, cópias de modelos do Rio, Nova York ou Londres. Então, em quase tudo elas se assemelham à Garota de Ipanema, mas quando falam e dizem o que pensam, logo se percebe que elas são garotas de Angra. E eu também temo que os seus habitantes - uma gente tumultuada, que se junta aos milhares, sempre apressada, correndo de um lado para o outro, como se fossem formigas, o que é inexplicável num lugar onde nada é urgente - igualmente pequem pela falta de identidade. Não porque sejam diferentes entre eles, como as caras da cidade, o que é natural, já que são indivíduos, mas porque a natureza daquelas pessoas pode ter sido contaminada pela ambiguidade arquitetônica. Quem sabe? Por tudo isso, eu acho mesmo que ela, a cidade, mereceu ter sido excomungada por um Papa, lá pelos idos de 1800, porque um padre foi assassinado no adro de uma igreja, quando um marido surpreendeu a mulher em adultério com ele (o que não consta da sua envergonhada história oficial).

Pode ser que essa minha suspeita seja tão extravagante quanto o lugar, mas que aquela população é esquisita, ah, isso é. Há coisas que só poderiam acontecer lá. Um bom exemplo foi o caso do bode descoberto dentro de um ônibus, denunciado por uma costureira enojada pelo fato de ele estar lambendo o seu calcanhar. É bem possível que aquele pé não estivesse muito limpo e, portanto, salgado - uma delícia para o bode. Da minha parte, eu não gostei nada de ter sido levado a uma delegacia da polícia, envolvido numa discussão que durou várias horas, pra servir de testemunha contra um bode. Eu me senti humilhado. Foi lá que eu conheci de perto o dono do animal, um homem cuja fama a ele atribuída é a de melhor cozinheiro de buchadas do país. O bicho estava destinado a ser o almoço de um casamento para o qual ele, o dono, havia sido contratado. E também soube que a costureira, se dirigia para a mesma casa, num distrito nas proximidades de Paraty, e também já estava atrasada para a entrega do vestido da noiva, coincidência que, no fim dessa história, fez dela, a denunciante, uma companheira do dono e do bode, as vítimas, por força da conveniência de dividir a tarifa de um mesmo táxi. Mas ele, o dono, se manteve firme o tempo todo, recusando-se a pagar a passagem do bode, no que o trocador e o motorista tanto insistiam, enquanto ele não tinha um só tostão no bolso.

Em geral, eu exagero um pouco, confesso. Mas, a partir daí, desenrolou-se o seguinte drama, que eu vou tentar reproduzir com honestidade:

“Não me interessa se vocês dois estão atrasados”, sentenciou o motorista, depois de estacionar o ônibus no acostamento. “Por mim, ou ele paga a passagem do bode ou essa noiva vai se casar nua e com fome.”

Mais revoltada ainda, a denunciante investiu contra o trocador:

“Cabe a você tomar uma providência. Como é que esse bode entrou aqui?”

“Não, minha senhora”, observou, calmo, o trocador, “ele não ‘entrou’, porque um bode não vai deixar o pasto e preferir viajar de ônibus. Alguém o introduziu aqui.”

“Eu sei quem foi”, falou um outro passageiro.

Nesse ponto, em que uma nova denúncia estava pronta pra ser feita, um menino levantou a voz pra avisar:

“Olha, gente: o bode fez cocô.”

A revolta generalizou-se entre os cerca de 30 passageiros, e foi só então que o dono do bode se manifestou:

“Calma, pessoal,” disse ele, “esse não é um cocô comum.”

“Ah, sim”, segredou ao meu ouvido uma senhora sentada ao meu lado, “agora também existe um cocô especial, não é?”

“Tenham calma”, ele continuou, “porque um bode, pra dar uma boa buchada, precisa ficar quinze dias comendo apenas milho. Então, ele não é como certas pessoas, que sempre têm a boca suja pronta pra fazer denúncias.”

“Alto lá!,“ a costureira devolveu, “eu sou uma profissional de respeito. E bem aqui, neste ônibus, tem alguém que pode falar em meu favor.”

A minha surpresa foi grande, quando eu a vi apontando o dedo pra mim! Foi só depois de alguns segundos que eu reconheci a dona Maria, uma costureira de cujos serviços eu já tinha me servido - aliás, de péssima qualidade.

O que aconteceu não é o que o senso comum pode esperar, porque não foi a presença do bode, mas, sim, a tentativa de calote o motivo de irmos todos para a delegacia, onde a minha boca se abriu de espanto, quando um investigador, travestido de delegado, mandou o bode e o seu dono para a mesma cela. E só revogou essa decisão quando eu resolvi pagar a tal passagem.

Eu estava no ônibus, tentando chegar no FLIP de Paraty, assim como também a Lucy, outra conhecida minha, ex-cozinheira e, agora, mecânica de automóveis. Ela mesma, a Lucy, não destoa naquela comunidade, e serve como exemplo da “originalidade” dos angrenses. Não por causa da sua nova profissão, rara entre as mulheres mas que ela desempenha com maestria (ela cuida do meu carro), mas porque comprou uma rua. Isso mesmo, ela comprou a rua onde mora. Eu não sabia - e disse isso a ela - que uma prefeitura podia vender uma rua. Mas a de Angra vendeu, e eu vi a escritura. Mais ainda: uma rua com a triste fama de ser mal-assombrada, onde mesmo os empregados da companhia de eletricidade do município se recusam a entrar até pra trocar as lâmpadas dos postes, quando queimam. Talvez tenha sido vendida por isso mesmo: era desvalorizada; ninguém queria morar nela.

Enfim, eu não gosto de Angra porque identifico nela esse excesso de excentricidades. Ah!, assim também já é demais.

Engana-se quem acredita na placidez da roça. Eu costumo brincar, dizendo que, “Nesta região, as novidades são todas antigas”. Mentira! É verdade que elas não nos chegam pelos jornais, até porque eles são desnecessários, numa vizinhança que não é afetada, nem pela indecisa política monetária do País, nem pelas decisões restritivas da União Européia. Afinal, pra quê importar singularidades, se a produção local é tão fértil? Pode ser que a população dos arredores de Angra não participe da civilização atual, mas... e daí? Não me consta que o mundo venha dando bons exemplos a serem seguidos por uma gente que tem lá as suas crises, sim (as quais não provêm de hipotecas gananciosas), mas não mata nem rouba, e até só mente por brincadeira.

É verdade que eu sou um observador compulsivo; não nego. Mas ninguém vai agora me acusar de xeretar a vida dos habitantes de Angra, porque os fatos que lá ocorrem, em geral, caem no meu colo. Foi isso o que aconteceu outro dia, quando eu me sentei num banco da praça principal. Alguém que me observasse de volta, talvez pudesse pensar: “Lá vem ele, meter o nariz nas intimidades da cidade.” Mas não foi assim, não. Mal eu me sentei e a vendedora de bijuterias saiu da barraca pra me pedir um cigarro. Com os seus cerca de 30 anos, desatou a me contar um passado de garota rebelde, confidenciando que fugiu de casa aos 15 anos, pra viver sem dinheiro, com o namorado, na Ilha Grande, num romance que durou apenas um mês. Confessou que, com ele, aprendeu a fumar maconha e a fazer bijuterias. "Hoje", esclareceu, "vivo disso." Tanta franqueza me incomodou um pouco, mas escondia um segredo.

Pra mim, aquela história nada tinha de original ou atraente. Eu estava preferindo a minha observação do formigueiro. Mas ela parecia estar revivendo, tão empolgada que, por duas vezes, eu tive de alertá-la para as possíveis freguezas que paravam junto da barraca e, em não sendo atendidas, prestavam atenção à conversa. Em pouco tempo ela reuniu quatro ouvintes, me esqueceu totalmente, passou a falar pra audiência, e, no fim, não vendeu nada. A impressão que eu tive é que, mesmo pra ela, as bijuterias eram secundárias. E eu estava certo. Bastou eu prestar mais atenção pra perceber uma frequência incomum na sua barraca. Ué?, o que querem todos esses jovens, rapazes? Estariam interessados em brincos e colares? Ora!, é claro que não. E eu descobri a verdade: ela vive mesmo é da outra coisa que aprendeu com o namorado.

Foi só aí que o Borges errou. A periferia de Angra é uma exceção à sua regra: ela existe. Pode ser que esteja perdida numa região inteira que é um deserto em termos de cultura clássica. Mas pra quem consegue observá-la de perto, ela se exibe com o seu farto e paradisíaco folclore.

Conto – Raquel Naveira

First version of "Bedroom in Arles", 1888 - Van Gogh

Quarto De Artista

Na Bíblia aparece uma mulher sem nome, que morava em Suném, por isso era chamada de “sunamita”. Era rica e importante e tinha um coração sensível. Percebeu que Eliseu não era uma pessoa comum, era um profeta, alguém especial sobre quem estava a presença do Espírito Santo. Disse então a seu marido : “_ Eis que tenho observado que este homem que passa sempre por nós é um santo homem de Deus.// Façamos-lhe, pois, um pequeno quarto junto ao muro e ali lhe ponhamos uma cama, e uma mesa, e um candeeiro, e há de ser que, vindo ele a nós, para ali se retirará.” (2 Reis, 4,11-19).

Eliseu se sentiu confortável ao se hospedar naquele quarto exclusivamente preparado para ele. Ali havia o leito para o repouso, a cadeira e a mesa onde o profeta poderia fazer uma refeição frugal, escrever suas cartas e ler mensagens à luz de uma lamparina. E tudo junto a um muro forte, de arrimo e sustento.

*

O artista precisa de um quarto, de um lugar trancado a chave, onde possa produzir, libertar a mente para criar sua obra.

Lembrei-me de Van Gogh, o genial pintor impressionista, que em vida experimentou o fracasso e a rejeição. Em 1888 deixou Paris, mudando para o sul da França, onde encontrou um pouco de estabilidade em Arles. Foi ali, quando estava esperando seu amigo, Paul Gauguin, com quem posteriormente se desentendeu, que pintou o quadro “Quarto do Artista em Arles”.

Um quadro tão lindo. Seu próprio ser interior. Um lugar de refúgio. O ventre materno. A janela entreaberta, mas fechada ao mundo exterior por uma densa persiana. A mesa de madeira com vários objetos: jarra de água, copo, escovas. A “cadeira da felicidade”, pintada de amarelo, cor da luz solar. A cama rústica de camponês, onde ele morreu algum tempo depois. A coberta de um vermelho vivo que anima o clima do quadro. As paredes lilases, quase azuis, que fazem contraste com o amarelo. Os retratos acima da cama: um autorretrato, o retrato de uma moça e uma gravura japonesa sobre a cabeceira. Faltou o candeeiro, mas certamente as garrafas serviam de castiçais para velas brancas.

Em carta para Theo, Van Gogh escreveu sobre sua intenção como artista: “_Desta vez é apenas e simplesmente o meu quarto, só aqui a cor deve fazer tudo e, por sua simplificação, dar um estilo mais grandioso às coisas; aqui ela deve sugerir o descanso e o sono. Resumindo, olhar para este quadro deve descansar a mente, ou melhor, a imaginação.”

Recuperado de um colapso nervoso, Van Gogh afirmou: “_Quando vi minhas telas de novo após minha doença, a que me pareceu melhor foi ‘O Quarto’”.

Felizmente, assim como o profeta Eliseu contou com a generosidade da mulher sunamita, Van Gogh teve tintas e um quarto para se abrigar, graças a Theo, seu fiel irmão.

*

Virgínia Woolf, a escritora londrina nascida em 1882, dona de personalidade complexa, que alterava momentos de euforia e alegria com outros de profunda depressão, escreveu o romance O Quarto de Jacob. O personagem foi inspirado no seu irmão Jacob Flanders, que morreu muito jovem. Uma personagem que se expressa através do silêncio. Inspirada nesse livro, Vanessa Bell, também irmã de Virgínia, pintou um quadro que nos remete ao aposento de Jacob: o rapaz sentado numa cadeira, sendo observado por uma mulher, estante de livros aos fundos.

Virgínia escreveu ainda um ensaio intitulado “Um teto todo seu”, onde afirma que é necessário para uma mulher escrever ficção, um espaço todo seu, um teto. Ali a mulher escreveria sobre qualquer assunto de forma livre, revelando seu potencial.

*

Passava pelo centro de São Paulo, em frente à Faculdade de Direito, quando vi o busto do poeta Álvares de Azevedo. Saudei-o com admiração e compaixão. Um mendigo dormia rente ao pedestal de mármore, pobre homem. Pobre poeta romântico, influenciado por Byron e seu mundo sombrio, apresentou em sua obra as características fundamentais e sofridas do mal-do-século. Seus temas foram a dúvida, o amor, a morte. Embora tenha morrido aos vinte anos e seus versos constituam drama adolescente entre desejos e frustrações, vontades e decepções, escreveu poesia de alto nível. No longo poema “Lira dos Vinte Anos”, de 1853, encontramos primeiramente uma epígrafe de Lamartine: “La chaise où je m’assieds, la natte où je me couche,// La table où je t’écris...” (A cadeira onde me sento, a colcha sob a qual me deito,// A mesa de onde te escrevo...). O poema vai retratando o seu quarto de poeta, o seu leito, como no canto XI: “Junto do leito meus poemas dormem,//- O Dante, a Bíblia, Shakespeare e Byron/ Na mesa confundidos. Junto deles/ Meu velho candeeiro se espreguiça/ E parece pedir a formatura.” A formatura lá na faculdade do centro, pensei. E finaliza no canto XIV: “... Eu me esquecia:/ Faz-se noite: traz fogo e dois charutos,/ E na mesa de estudo/ Acende a lâmpada.”

*

O meu é quarto de artista. Nele me trancafio. Sento-me numa cadeira tão firme quanto aquela que o primeiro homem sentou num tronco qualquer da floresta imemorial. À minha frente uma mesa como aquela em que se assentaram os filósofos comensais de O Banquete, de Platão; os discípulos na Santa Ceia ; os cavaleiros do rei Artur, antes de partirem em busca do cálice do Graal. Uma mesa, simples escrivaninha. Sobre ela coloquei um abajur de luz forte, alaranjada, pois gosto de tudo muito claro Alguns livros confundidos, como diria Álvares de Azevedo, que podem ser de Virgílio, os evangelhos, os poetas franceses e brasileiros. Capas e miolos abertos. É nesse quarto que vivo com intensidade aquilo que sou: - uma mente estudiosa e cheia de sede como uma gazela.

A criação intelectual provém da criação carnal, como explicou Rilke. É da mesma essência, é uma repetição enlevada e eterna da volúpia do corpo. Sendo assim, há um clima de paixão e noites de amor no meu quarto.

Exulto de alegria: tenho um teto, um espaço todo meu. Abro a porta com esforço para encontrar brecha no difícil cotidiano. Penetro na clareira do bosque. Vejo uma fonte, no meio do meu quarto.

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