Definição

... da totalidade das coisas e dos seres, do total das coisas e dos seres, do que é objeto de todo o discurso, da totalidade das coisas concretas ou abstratas, sem faltar nenhuma, de todos os atributos e qualidades, de todas as pessoas, de todo mundo, do que é importante, do que é essencial, do que realmente conta...
Em associação com Casa Pyndahýba Editora
Ano VI Número 63 - Março 2014

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Editorial


TUDA Março começa retificando a publicação incompleta do poema de Paulo Afonso da Silva Pinto na TUDA Fevereiro. Feito isso, deve ser um editorial de aniversário, este... aniversário deste que vos chega mensalmente nesta TUDA. E ao invés de felicitações e festinhas de lugar comum e mesmices, quebro o silêncio poético com algo de machucar, pois como disse um amigo, se não machuca não é parto, e de fato, não vive.
vinte onze, vinte onze, vinte onze,
tanto vai e vem que nem sabes donde
veio, e tudo com menos de dois vinténs e meio,
ainda mais depois que teu papel cair do céu, pronde vais?

trinta e quinze, trinta e quinze, trinta e quinze
és o único que a barba de branco ainda tinge
dos teus bens se desfaz - pra você parabéns,
nesta data desquerida ou desesperada, tanto faz,

que se de esperar já te cansas, ressabiado
ao menos estás mais perto, e mais aliviado
perguntarás retoricamente: donde veio? pronde vais?

teus círios já se apagam mais rápido,
e teu caminhar te quer mais plácido...
silenciosamente, vão te ver nunca mais.
Este mês TUDA traz os sempre esperados pindaíbicos Arnaldo Xavier, Roniwalter Jatobá, Souzalopes (cuja série Ferro & Carcoma encerra-se nesta edição), José Geraldo de Barros Martins e este mesmo que vos escreve. Traz também a poesia de Dorival Fontana, Paulo Afonso da Silva Pinto (cuja série Poemas de Pé e Espinho encerra-se nesta edição), Pedro Dubois, Carlos Pena Filho e Santiago de Novais. O conto de José Miranda Filho, a tradução de Desmond O'Grady por este que vos escreve, versão inglesa de Gota D'Água de Chico Buarque por Santiago de Novais, uma ilustração do Irlandês Paul Funge, por ocasião de sua morte, e o ensaio de Ronald Augusto. Como sempre, muita coisa boa!

E como é de costume, aproveitem tudo de TUDA, SEM NENHUMA MODERAÇÃO, que ela só é contra a INDIFERENÇA!!!

Na LUTA companheiros, devagar e sempre - só por hoje.

Que se ergam para a luta os que ficaram par lutar!

TUDA de bom!

Eduardo Miranda
O (auto-proclamado) Editor

Dívida Interna

Ilustração de Lynd Ward
Editor
Eduardo Miranda

Capa
José Geraldo de Barros Martins

Digitação
Eduardo Miranda

Revisão
Dos autores...

Colaboradores
Adrian Borda, Arnaldo Xavier, Banksy, Carl Warner, Carlos Pena Filho, Carma Jewell, Chico Buarque, Desmond O’Grady, Dorival Fontana, Eduardo Miranda, Jacek Yerka, José Geraldo de Barros Martins, José Miranda Filho, Juliana Duclós, Juraci Dórea, Lynd Ward, Misha Gordin, Paul Funge, Paulo Afonso da Silva Pinto, Pedro Du Bois, Ronald Augusto, Roniwalter Jatobá, Santiago de Novais e Souzalopes.

E-mail
tuda.papel.eletronico@gmail.com

Poesia - Arnaldo Xavier

STUDY - Salvador Dali - Meditation Rose, by Carma Jewell

(...)

37

Sendo noite
Ofício

Porque rosa avermelha
                                      Coração
                            dividido
minuto a minuto
segundo a segundo

página a página
vírgula a vírgula

A nudez alterna
                            espera
dor contagem regressiva
flormula

A lágrima

38

Se medida rosa
inexplicável milagre
matéria triste engenharia se interroga
dúvida

Ser

O pedaço
de outro pedaço
em papéis partido

A moeda

39

O corpo
Do passo
Antecipa
A inútil
Idade

Amor
Ou
Tumor

O grito

(...)

[ in Entrada de Luz, inédito ]

Arnaldo França Xavier (Campina Grande, 19/11/1948 - São Paulo, 26/01/2004) foi poeta, escritor e pensador do movimento negro no Brasil. Publicou Boleros Pretos, A Roza da Recvsa, Ludlud e Manual de Sobrevivência do Negro no Brasil (ilustrado pelo chargista Maurício Pestana). Participou ainda de inúmeras coletâneas de bibliografia restrita e pequenas tiragens.

Poesia - Souzalopes

Shout 16 - Misha Gordin

(...)

carcoma tudo carcoma
o pão do pobre pisado
pesado nome do não
rasgado na rama seca
do seu medo semeado
seu arremedo de nada
seu ódio seu óbito frio
sua arma tudo carcoma
carcoma a luz que o viu

carcoma tudo carcoma
o mundo que o pariu
no azinhavre da vida
e outros vizinhos do morte
carcoma aquilo que sobra
também carcoma esta lua
usada por cão e uivo
de poesia e carcoma
a mãe do fome dizia
tudo carcoma carcoma

[ da série Carcoma in Ferro & Carcoma, inédito ]

Mário Luis de Souza Lopes, ou simplesmente Souzalopes, nasceu em Itajuípe, BA. Advogado, publicou, entre outros, o livro de poesia Todo Fogo.

Poesia - Dorival Fontana

Banksy

Arrumação

Limpo a mesa,
espanto a sujeira.
Passo a flanela,
lustro a madeira.

A ideia acesa,
aguarda aflita
o papel e a caneta.

Mexe que mexe,
sacudo a poeira,
também a cabeça.

Tudo pronto.
E a ideia?
Na ponta da língua...

Sobressaltada inspiração,
pairou outra cabeça
ou pelo chão varreu-se.

Amanhã não tem faxina!

Dorival Fontana é paulista, poeta e escritor. Atualmente vive em Caconde, Minas Gerais.

Poesia - Pedro Du Bois

Misha Gordin
Passear

Do fim do mundo
          - a rua –
          vejo traçados
          os limites do passeio
          na distância necessária
          à passagem do corpo

- o transitar no espaço
                    esvaziado –

na concretização
do traço: coberto em pedras
               na massa
               cimentada
               o passeio se oferece
               ao corpo: estanca
                              a passagem.

(Pedro Du Bois, inédito)

http://pedrodubois.blogspot.com
http://revistacerradocultural.blogspot.com/2011/01/desprezo.html
http://www.correiodomunicipio.com.br/corpo.htm
http://www.meiotom.art.br/
http://www.limacoelho.jor.br/busca/busca_vitrine.php?busca=Pedro Du Bois
http://vidraguas.com.br/wordpress/2011/01/28/hospedes-poema-de-pedro-du-bois/
http://janelasevarandas.blogspot.com/
http://revistaliteratas.blogspot.com/2011/01/hospedes.html

Poesia - Paulo Afonso da Silva Pinto

Adrian Borda - The Forbidden Spark
(...)

Recomendações

Quando ponho
a farda
de aço

do espelho
a máscara

oracular
preceitua categoricamente:

"Jamais
assoviarás
pelos prados,

campeando papilonáceas
a correr solto pelas várzeas!

Afogarás
teus ícones
e arcanos
na amnésia

Não nadarás
nos rios...

Não beijarás
as bocas
das prostitutas epilépticas

Nem jogarás
pelota com os maltrapilhos

Tampouco
ser-te-á
permitido

deitar
na esteira
de estrelas

sereno
distraído

vendo
o coração azul
do geômetra
d'oiro

estender
suas teias
lustrais

entretecendo
o orbe
em enigmas
espectrais"

[ in Poemas de Pé e Espinho, inédito ]

(Re-) Visite o poema Maldigo, de Paulo Afonso da Silva Pinto, publicado incompletamente na TUDA Fevereiro.

Crônica - Roniwalter Jatobá

Jacek Yerka - Gardener's Garden

A flor do meu bairro

Tenho um pedaço de terra em São Paulo. Na sacada do apartamento na Bela Vista, frente a frente com a sala, possuo uma área fértil de um metro por vinte e cinco centímetros. Embora ela receba, o dia inteiro, o calor impiedoso dos raios solares, tem sido generosa. Nesse miúdo mundo rural, às vezes planto um pé de arruda, uma moita de flor ou mesmo um canteirinho de erva-cidreira.

Outro dia, num domingo de manhã, levantei com vontade de lavrar e irrigar a terra. Curvado na janela, comecei a arrancar as ervas daninhas que teimam em brotar na plantação. De repente, noto um broto verde no centro do canteiro. Diferente de tudo, logo me chamou a atenção. Tento identificar as características da futura planta, mas desisto. Naquele momento, não me lembrava de nada parecido.

O que fazer? Faço como todo bom agricultor. Puxo um pouco de terra para junto de suas frágeis raízes e irrigo com bastante cuidado. Três dias depois, vou em busca da nova planta. O que antes parecia uma coisinha boba, danou a crescer. Para resumir, em menos de um mês já havia passado dos limites da janela.

Duas semanas depois, outra boa surpresa. No topo do caule, começou a nascer uma flor. Sim, uma única flor. Desabrochou com uma impressionante rapidez.

– De onde terá vindo a semente de tão bela espécime? – quer saber a companheira Aída.

– Talvez num bico de um passarinho, pois aqui há muitos -- suponho.

– Mas, quem já viu semente de flor carregada por pássaros? – duvida a pernambucana. -- Se fosse um grão de milho, alpiste... Nunca ouvi falar disso.

– Tudo é possível.

– Quem sabe não veio misturada no meio de outras sementes.

– Duvido. Só replanto e nunca usei aqui sementes empacotadas.

– Que tal chamar um botânico?

– Não há necessidade de um especialista. Gosto de mistério.

Me deixei, claro, ficar com a dúvida. Mas, não me conformava em deixar de lado uma simples descoberta. Assim, em horas de folga, fui pesquisar a origem da flor que nasceu em lugar tão inacessível para o seu pleno crescimento.

Seria uma bromélia? Uma espécime nova? Na verdade, o seu caule é comprido, bate na minha cintura. Tem, portanto, mais de um metro de comprimento. A flor é macia como algodão e, no conjunto, forma uma sucessão de cachos vermelhos e rosas. Às vezes, parece o pôr-do-sol, às vezes lembra uma tapeçaria chinesa pela cor e maciez.

Nada descubro de especial. Em compensação, crio na imaginação a história de um pássaro semeador. Por que não? Quem sabe eles estão de volta? Acredite se quiser, mas São Paulo já foi considerada uma das cidades mais verdejantes do mundo. Provam isso relatos de cronistas estrangeiros. “Creio que nenhuma cidade tenha tanto luxo de vegetação, tanta riqueza floral em seu centro urbano e tanta graça arquitetônica nas numerosas vilas, todas orladas de jardins perfumados”, anotou o viajante italiano Alfredo Cusano, em 1912.

Um ano depois, em 1913, um outro italiano, Ernesto Bertarelli, escrevia: “Do que não posso me esquecer é dos jardins. O paulistano compreendeu que seu monumento natural era a vegetação e por ela demonstrou e demonstra um amor que se traduz em cuidado universal pelas plantas e pelas flores”.

Anos antes, em 1910, o francês L. A. Graffé já havia registrado: “Não se pode imaginar nada mais bem traçado e melhor arborizado que as ruas da Liberdade e Consolação, que levam a esta esplêndida avenida Paulista, à qual eu não saberia comparar senão certas avenidas de Nova York. De passagem, admiro a decoração vegetal que a municipalidade dispôs por todos esses bairros novos. Não creio que haja duas avenidas próximas ornamentadas com as mesmas árvores.”

Quanto à flor do terraço, espero que ela tenha um longo ciclo de vida e continue a embelezar a minha janela por mais tempo. Se, porém, definhar logo, gostaria que o mesmo pássaro volte de novo trazendo outra semente igual. Quem clama por sua futura presença é o feliz proprietário da, quem sabe, menor área rural localizada da metrópole: na ponta do lápis, algo em torno de 2,5 metros quadrados.

Roniwalter Jatobá, jornalista, e escritor, publicou, entre outros, os livros Sabor de química (1977), Crônicas da vida operária (1978), Filhos do medo (1980), Viagem à montanha azul (1982), Trabalhadores do Brasil: histórias do povo brasileiro (1998, organizador), O pavão misterioso e outras memórias (1999), Paragens (2004), Rios sedentos (2006, voltado para o público infanto-juvenil), Viagem ao outro lado do mundo (2009) e Contos Antológicos (2009). Para a coleção “Jovens sem fronteiras”, publicou O jovem Che Guevara (2004), O jovem JK (2005), O jovem Fidel Castro (2008) e O jovem Luiz Gonzaga (2009).

Conto - José Geraldo de Barros Martins

Ilustração de José Geraldo de Barros Martins
O Pedinte

Antigamente aquilo era chamado de estafa, depois com a mania das pessoas usarem termos anglo-saxônicos passou a ser chamado de stress... pois bem, não importa a palavra, mas aquilo estava transformando Estanislau Laurindo em uma pessoa diferente... antes ele era uma pessoa afável, bem humorada, que se interessava em ver novas coisas, que prestava atenção em cada detalhe... com o tempo passou a ostentar um ar blasé, tudo o irritava e nada mais despertava a sua atenção... nem mesmo o contato com sua esposa e sua filha fazia com que não se irritasse com as coisas mais ínfimas...

As coisas mais complicadas, como dirigir no trânsito absurdo, ir ao hipermercado, falar com estas garotas de telemarketing (do tipo “vamos estar agendando”) então nem pensar... delegava tudo para sua mulher.

Um dia caminhando na hora do almoço, pelo viaduto Tutóia, ouviu um mendigo a cantar:

“Não fala com pobre, não dá mão a preto não carrega embrulho pra quê tanta pose, doutor pra quê esse orgulho”

O primeiro pensamento que surgiu na mente doentia de nosso protagonista foi espancar o pobre coitado, uma vez que achou que o pedinte estava gozando da cara dele, porém ele percebeu que conhecia esta música e ficou tentando se lembrar qual era o nome da canção e quem era o autor... a única coisa que se recordava era que a música tinha sido gravada por Isaurinha Garcia...A noite foi procurar na sua coleção de discos de vinil, nesta altura um tanto esquecida, e por fim verificou que era o samba “A Banca do Distinto”, composta por Billy Blanco.

No dia seguinte, avistando o mendigo no mesmo lugar, aproximo-se e após um sorriso um tanto quanto sem graça, deu a ele uma moeda... o pedinte olhou-o no fundo dos olhos e sorriu agradecido com seus poucos dentes encardidos e seus lábios um tanto quanto moles e cheios de saliva...

A partir daquele gesto, Estanislau Laurindo passou a dar esmolas diariamente ao sujeito e paralelamente começou a recuperar a alegria de viver: limpou sua coleção de vinis com uma flanela embebida em sabão de côco, passou-os a escutar sambas antigos todas as noites, voltou a tomar as suas tacinhas de vinho, passou a se preocupar menos com o trabalho, voltou a fazer exercícios, etc... Porém um dia sua filha adoeçeu... um problema seríssimo fez com que ela fosse internada no Hospital do Coração... O nosso protagonista prometeu então que iria mandar rezar uma missa se ela recuperasse a saúde, e que a igreja escolhida seria a do Santíssimo Sacramento, junto ao viaduto Tutóia, ao lado do local em que o mendigo fazia ponto... (para dar sorte, pensou).

Foi só prometer que ela se reestabeleceu de imediato...

Promessa é dívida... então o nosso protagonista mandou rezar a missa conforme combinado com o Todo Poderoso... minutos antes da celebração o padre pediu que ele fizesse o ofertório... Estanislau Laurindo a princípio não quis aceitar o convite, pois como não era católico praticante não conhecia direito este negócio de ficar passando a sacolinha a pedir donativos... porém como sua esposa e sua filha pediram para que aceitasse, ele ficou sem jeito e topou a parada.

Na hora do ofertório o nosso amigo pegou o saco de pano vermelho e saiu à luta... no princípio estava tímido, mas depois foi se soltando... de repente a surpresa: adivinhem quem estava em um dos últimos bancos???

Ninguém mais, ninguém menos do que “o pedinte”, com seu terno encardido marrom, seu chapéu da mesma cor, seu colete verde-musgo e seu sobretudo cinza... Diante da surpreendente visão, Estanislau Laurindo viu-se em um terrível dilema: pedir ou não pedir donativos ao mendigo??? a primeira hipótese pareceu absurda: como ele, um empresário, iria pedir esmolas a um indigente??? mas também não pedir poderia ser ofensivo, poderia parecer discriminação... na hora hagá ele estendeu a sacolinha e para a surpresa geral o pedinte repetiu aquele sorriso encardido e cheio de saliva e tirou uma porção de moedas do bolso, enchendo o saco (desculpe-me pelo trocadilho) do ofertório...

Se antes daquele gesto o nosso protagonista estava começando a deixar de ser um morto-vivo, a partir daquele instante o seu processo da transformação sofreu uma intensa catalização: ele percebeu a futilidade, a imbecilidade, a hipocrisia,a avareza, enfim a pequenez que nos envolve... percebeu então que estava diante do rei e rodeado de mendigos!!!


José Geraldo De Barros Martins é de São Paulo. Músico, pintor e escritor, desde 2001 publica seus desenhos e escritos no blog http://zegeraldo.free.fr.

Conto - José Miranda Filho

Cenas Brasileiras 34 - Juraci Dórea

O Retrato do Sertão – 13

Sá Lorena ficou estática, eufórica e ao mesmo tempo abestalhada após ter a confirmação da morte de Lampião, sua mulher e alguns cabras dele. Não conseguia esconder de ninguém o entusiasmo exagerado que lhe invadiu o peito naquela manhã de incertezas e aflições que passava o povo de Laranjeiras, mormente os líderes presentes, entre eles, padre Fausto. Estava livre finalmente, para falar o que sabia da vida pregressa de Tonho, Geraldina, seu Quincas, padre Fausto, dona Elvira, ...e de tantas outras pessoas de quem ela não simpatizava. Só não tinha motivos para falar de Nhá Marina porque ela não era do seu tempo, pouco sabia do seu passado; apenas sabia que era íntima de Lampião e frequentava as festas que ele promovia. Mesmo assim, inconformada por não a deixarem aproximar-se de seu corpo quando ela morreu e de ter sido desafeiçoada na festa de casamento de Tonho, tinha sim, alguns motivos para destilar seu veneno, não contra ela, mas algumas pessoas de sua família, principalmente Agamenon e Agaciel, seus filhos bastardos, quando se referia a eles. Também tinha uma ojeriza de fazer dó de dona Marina, por quem nutria um ódio diabólico apenas por ser ela amiga de seu Quincas. Mas ela preferiu espalhar suas matracas e o sentimento de raiva sobre Geraldina por ser ela a mais bonita e uma das mais graciosas moças de Poços dos Anjos. De padre Fausto, já havia espalhado todos os boatos de que sabia.

Tempos atrás, Lampião, a pedido de um coiteiro amigo que não aceitava o procedimento espúrio de Sá Lorena de espalhar boatos maldosos contra pessoas de sua amizade, aceitou dar-lhe um “chega-prá-lá”: Lampião ordenou alguns de seus capangas ameaçá-la de seqüestro, apenas para intimidá-la. Três cabras sob as ordens de Corisco investiram contra sua propriedade queimando o pouco da plantação de feijão e milho que ainda restava ser colhida. Ameaçaram-na de morte se não parasse de matraquear contra as pessoas recomendadas.

Sá Lorena, esbravejava, chorava e pedia clemência. Ameaçava contar tudo prá coronel Saturnino.
Amendontrada, e sentindo-se desamparada do marido que tudo via, ouvia e nada fazia, retraiu-se prometendo obedecer as ordens de Lampião.
Ajoelhando-se aos pés de Corisco jurou que jamais abriria a boca para falar mal de qualquer pessoa, principalmente de quem ele pedia. No rol das recomendações, em primeiro lugar figuarava padre Fausto!

Confirmada a morte de Lampião, agora ela estava livre e descompromissada com o juramento que fizera, que com certeza, jamais cumpriria.

− Falar da vida das pessoas de quem não gosto... Isso é ridiculo! E se merecer? Não vou me intimidar com as ameaças de padre “merda nenhuma” que me ameaçou de excomunhão, ou de quem quer que seja... Não bastasse o ato covarde desse bandido infeliz que destruiu minha plantação e que acaba de ser morto, ainda vem esse infeliz sacerdotizinho travestido de São Francisco querer me ridicularizar perante minhas amigas! Que vá para o inferno, também!...Se me permitissem, e eu tivesse a oportunidade de ver os corpos de Lampião e Maria Bonita, certamente cuspiria em seus rostos e mandaria suas almas queimarem nas profundezas do inferno para pagar pelos malefícios que causou a mim e a tantas outras pessoas inocentes. Gritava Sá Lorena, chorando e rindo ao mesmo tempo.

− Bandido, malfeitor, mau–caráter...assassino...Que vá para a puta que o pariu, safado! Que o Diabo o carregue e seus restos sejam queimados na fornalha da desgraça... E, padre Fausto, também!

Sá Lorena estava visivelmente irritadadíssima!

Metade do povo de Laranjeiras conhecia a fama maliciosa, porém desconhecia o motivo de tanto ódio que ela sentia de Lampião e padre Fausto... De seu Quincas, sabia dos entreveros que ambos tiveram no passado sobre divisão de terras... De Tonho e Geraldina, alguns duvidavam por ela discordar do casamento deles, sabe-se lá porquê motivo...De dona Elvira, sabia que era pelo ciúme doentio da amizade dela com padre Fausto...De Maninha, era porquê ela sabia do seu comportamento impróprio com os colegas da escola, quando ambas frequentaram a mesma classe. Costumes inadequados à época!.

E, assim ela ia desfilando sua verborragia ferina contra as pessoas de quem não gostava. Podia ser qualquer um, desde que desse algum motivo, ou que a olhasse de soslaio. Sabia da vida particular de quase todos os moradores da cidade, principalmente daqueles que tinham poderes ou destaque na sociedade: Como viviam...aonde iam...com quem se encontravam...

Padre Fausto ultimamente estava sendo a vítima, após tê-la advertido publicamente sobre fatos passados e falar de sua amizade com dona Elvira.

A mulher se enfureceu.. endoidou... Prometeu vingar-se.

Chegou a minha vez! Dizia, enfurecida.

Dispersada a multidão a pedido do Prefeito após confirmada a morte de Lampião durante o tiroteio na fazenda de coronel José Pereira Lima, todos se dirigiram para suas casas, menos ela e o infeliz marido.
Contrariando a vontade de Juvenal que a queria longe do padre, ela insistia em se encontrar com ele para dizer-lhe umas verdades.

Estava realmente fora de si.

Padre Fausto se esquivava dela de todo jeito. Não tinha mais argumentos persuadíveis capazes de fazê-la afastar-se dali.
Vencido pela insistência de Sá Lorena e culpabilidade do seu passado de consciência pecaminosa pouco recomendável, concordou em se encontrarem a sós, em frente à casa paroquial. Faria isso contra a vontade, mais por temer as ameaças dela divulgar fatos passados de ambos, boatos que já começavam a se espalhar entre os paroquianos.

− Juro por tudo quanto é sagrado padre, que desta boca jamais sairá uma palavra desairosa a seu respeito! Juro e prometo!...O senhor pode dormir tranqüilo que nada direi sobre nossos encontros na sacristia da igreja após as missas das 17:00 horas, quando o senhor ainda era seminarista. Lembra-se? .

O padre pirou!

Não esperava ouvir confidências tão graves e asperosas de tempos passados. Ele já tinha esquecido o passado. Já havia pedido perdão a Deus e se arrependido.

Sentindo-se porém, culpado das aventuras amorosas e dos assédios incontáveis que tivera quando seminarista, não só com ela mas com outras beatas frequentadoras da Igreja, e das ameaças maldosas que acabara de ouvir, para evitar escândalos e repercussões negativas sobre sua vida pregressa que poderia levar sua carreira política e sacerdotal ao fracasso, agarrou-a pelos cabelos, puxou-a para dentro da casa paroquial e ameaçou-a de excomunhão caso ela não parasse de uma vez por todas de revelar os segredos de que sabia.

− A senhora já se confessou tantas vezes e pediu perdão a Deus pelo passado. Concedí-lhe a penitência, perdoei-a em nome de Cristo...Por que a senhora quer revelar tudo isso agora? Gritava o padre, aflito!

Sá Lorena só jurava nada revelar.

− De que vale seu juramento se tantas vezes a senhora se confessou
perante a Deus afirmando que havia se arrependido e que jamais revelaria segrêdo algum? Interrompia o padre entre um juramento e outro de Sá Lorena.

Duvidando das promessas que ela jamais cumprira, mesmo assim a perdoou mais uma vez entre centenas de outras que já havia procedido. Abençou-a, pedindo-lhe em nome do Senhor que se calasse para todo o sempre, conforme manda o segregal ato confissional que acabara mais uma vez de lhe conceder.

− Como penitência, Sá Lorena, peço-lhe apenas que se abstenha de falar da vida dos outros, principalmente do nosso passado. A senhora sabe mais do que ninguém como eu era assediado e desejado pelas mulheres naquele tempo. Por sua causa fui castiagado no Seminário, quase abandonei a batina e a vida sacerdotal. Pedí perdão a Deus pelos atos que pratiquei e seguí meu destino! A senhora está casada, bem casada com uma pessoa que eu admiro e respeito...Esqueça de vez...tire definitivamente de sua cabeça essa crueldade...esse sentimento infeliz...esse desejo ardente que existiu entre nós dois, coisas de jovens que desconheciam as consequëncias futuras. Hoje eu sou padre, sirvo a Deus e a senhora é uma mulher casada! Coisas de juventude! Esqaueça-as, pelo amor de Deus!

O sol quente da tarde incandescia o horizonte carregado de incertezas.

Padre Fausto chamou Chiquinho que estava na porta da Igreja organizando a fila dos fiéis que iam se consagrar naquela tarde, e constrangido, a ponto de não disfarçar as preocupações e os tantos aborrecimentos, disse:

− Há coisas mais importantes e urgentes a fazer: Batizar, crismar, confessar e realizar casamentos.

Chiquinho não entendeu a razão do padre lhe dirigir dessa maneira. Notou no seu comportamento uma preocupação que nunca vira antes. Contudo, não o questionou por isso! Continuou com seus afazeres, aliás padre Fausto era o único pároco da cidade e contava apenas com ele para auxiliá-lo nos trabalhos da Igreja. Alguns paroquianos às vezes o ajudavam, como dona Elvira, Geraldina, Maninha e o filho dela, mas, com exceção de dona Elvira, todos haviam se refugiados em suas casas temendo eventuais represálias dos simpatizantes de Lampião.

Padre Fausto sentia-se bastante incomodado, nervoso e estressado.

A fila aumentava, e ele cada vez mais impaciente, nervoso e preocupado, já estava perdendo a paciência pela desordem.

− Fiquem um atrás do outro, em fila, senão nada posso fazer, gritava!

− Dona Elvira, por favor, bota água benta na pia bastimal, depressa!

− Chiquinho, em meu nome, reza o Pai-Nosso com aquele grupo que vai se casar, e prepara-o para a cerimônia. Ordenava, nitidamente estressado.

Sá Lorena, sentindo-se desprezada, e vendo a aflição do padre, sorrateiramente aproximou-se dele e se ofereceu para ajudá-lo.

− Agradeço-lhe de coração, mas não é necessário. Peço-lhe, por favor, que a senhora se retire e vá para sua casa descansar com seu marido. Não comente com ninguém o que acabou de me dizer e confessar. A senhora jurou várias vezes perante Cristo que jamais falaria da vida alheia e principalmente do nosso passado. Obedeça a voz de Cristo Sá Lorena! Só lhe peço isso!

Com o cálice cheio de óstias consagradas que carregava à mão esquerda, afastou-se dela e disse:

− Chiquinho, dona Elvira e eu haveremos de dar conta de tudo isso! Pelo amor de Deus, fique longe desse povo! Vá embora, e que Deus lhe perdoe pelos seus pecados!.

Sá Lorena se irritava cada vez mais por sentir-se escamoteada.

− Meus pecados... e os dele? Exclamou, nervosa!

− Dona Elvira, vem aqui por favor! ...Cuida da pia batismal. Traga mais um pouco de sal e acenda a vela para batizarmos essas crianças... Reza junto com os pais delas uma Ave-Maria, enquanto eu abençôo e realizo o casamento desse grupo. Pedia aflito, padre Fausto..

A noite já se aproximava preguiçosamente sobre o horizonte quente quando padre Fausto exausto, porém aliviado dos afazeres sacerdotais, dirigiu-se a Chiquinho e pediu:

− Prepara o altar da missa das vinte horas para eu poder consagrar todos os atos realizados nesta tarde.

Sá Lorena não escondia o ódio do padre, mas não arredava do pé dele que a todo instante lhe pedia para calar-se e ir embora.

Padre Fausto já estava de saco cheio de tanto assédio quando de repente, Juvenal pressentindo a explosão raivosa dele, puxou-a pelo braço e se retiraram. Montaram na carroça e voltaram para o sítio.

A noite se aproximava lentamente enquanto a cerimônia religiosa chegava ao fim.

Padre Fausto exausto dos afazeres do dia recusou o conselho de Chiquinho para relaxar na rede que ele armara no alpendre da casa paroquial embaixo da cajazeira frondosa e carregada de frutos. Disse que estava bem, mesmo contorcendo-se de dores que sentia pelo corpo inteiro. Persuadiu Chiquinho a lhe preparar a carroça, afirmando que iria até a venda de Zeferino tomar seu aperitivo costumeiro e refazer-se fisicamente do cansaço.

− Irei sozinho, dessa vez, Chiquinho. Afinal, foi um dia tempestuoso que jamais passei na vida. Nunca tive tantos aborrecimentos quanto os tive nesta tarde. A morte de Lampião...Sá Lorena me enchendo o saco para nos ajudar...Não se preocupe!. Você fica arrumando os paramentos e guardando os materiais usados nas cerimônias. Há muito trabalho para você fazer, e eu estou realmente bastante estressado. Preciso de um trago para me reanimar e esquecer os problemas do dia. Como o povo de Laranjeiras está apreensivo pela morte de Lampião, é conveniente que me previna de qualquer acontecimento. Carregue minha espingarda. Levarei apenas para me defender de qualquer eventualidade, se necessário. Você é testemunha dos boatos e ameaças que se espalham por aí dando conta de minha amizade com Lampião e dona Elvira, e dos entreveros que tive com Sá Lorena e seu Quincas. Não quero mais aborrecimentos para o meu lado, além dos que já tenho, tampouco quero envolvimento em qualquer acontecimento como desejam meus inimigos. Dê-me a espingarda, por favor!

Pegou a espingarda, colocou-a no ombro e subiu na carroça.

Chiquinho preocupado com o padre que jamais saíra sozinho para tomar seus aperitivos, mas absorto com o trabalho a realizar, recolheu-se à casa paroquial para guardar os castiçais, as velas e todos os sacrossantos instrumentos usados na cerimônia do dia.

A cidade estava escura e triste. O gerador de eletricidade já havia se desligado porque já passava das 22:00 horas. O reboar de trovões enfurecidos no outro lado do horizonte era o único sonido que perturbava o silêncio daquela noite sinistra. As ruas estavam desertas. Ninguém se aventurava sair de casa temendo confusões de facções, pós e contra Lampião.

Algumas tênues estrelas afoitas, burlando a negritude da noite corriam de um canto ao outro do horizonte, esquivando-se dos relâmpagos e trovões, como se anunciassem chuvas se aproximando para gáudio do sertanejo. A escuridão da noite e os trovões incessantes impediam qualquer pessoa de ser reconhecida. Algumas pessoas arriscavam a vida ao andar sem motivo justificado pelas ruas desertas. Já passava das 23:00 horas e a cidade parecia estar tranquila.

Juvenal, às rédeas da carroça puxada pelo cavalo doado por seu Quincas seguia velozmente vencendo cada légua da estrada de chão bruto e seco. Não fosse o cavalo acostumado às idas e vindas à cidade e o desconfôrto causado por Sá Lorena, Juvenal certamente teria pernoitado por lá, provalmente na casa paroquial, como tantas vezes acontecera.

De repente, o estampido dos tiros de uma espingarda se misturou ao lampejo dos relâmpagos e bordoadas de trovões quebrando o silêncio da noite e a tenebrosa escuridão.

Sá Lorena tombou agonizante sobre uma poça de sangue.

José Miranda Filho, ex-Presidente e fundador do PMDB em São Caetano do Sul, Venerável Mestre da Loja Maçônica G. Mazzini (grau 33), é advogado e contador, colabora com o jornal ABC Reporter e atua como Diretor Financeiro do Conselho Gestor do Hospital Benificente São Caetano. Posta no Blog do Miranda.

Tradução - Eduardo Miranda


Stilton Cottage - Food Landscape - © Carl Warner Photography

Desmond O’Grady – O estranho no ninho da poesia irlandesa

Embora Desmond O'Grady seja um poeta aclamado em vários países, é praticamente desconhecido em sua terra natal. O poeta que viajou o mundo, passando por Paris, Roma, Pérsia e Egito, viveu uma autêntica vida de artista – um Bacchiacus completo, fiel às suas convicções, e, segundo ele, sem arrependimento. É considerado um Celta errante, que viu o mundo e voltou para suas origins, em Kinsale, que gosta de chamar de seu eremitério.

Desmond O'Grady nasceu em Limerick, em 1935. Partiu da Irlanda na década de 1950 para ensinar e escrever em Paris, Roma e na América, onde teve o seu doutoramento em Harvard, enquanto lecionava como professor assistente. Lecionou também na American University no Cairo e na University of Alexandria, no Egito. Durante o final dos anos 1950 até meados da década de 1970, enquanto lecionava em Roma, foi membro fundador da Comunidade Européia de Escritores, editor Europeu da The Transatlantic Review, e organizador do Festival Internacional de Poesia de Spoleto. Agora vive em Kinsale, Condado de Cork, na Irlanda. Tem várias coleções de poesia publicadas, incluindo The Road Taken: Poems 1956 - 1996 e The Wandering Celt. Dez coleções de poesia traduzida, entre eles Trawling Tradition: Translations 1954 - 1994 e Selected Poems of C. P. Cafavy. É membro da Aosdána, uma associação de artistas criativos da Irlanda.

Não achei muita coisa online do autor, e infelizmente não tive tempo hábil para comprar um dos seus livros. A seleção aqui apresentada foi extraída do trabalho Desmond O’Grady: Influences, de John Liddy.

Ambos cientes
não emitimos palavras
nem atos irrefletidos.
Especialmente você,
parte da minha iniciação
numa sala de estar em Limerick, de papéis
de paredes azuis e pássaros empalhados
em uma mesa com flores
num vaso de vidro
do tamanho de uma cartola.

from Kitty Breedin: Separations (1973)

He’s done it. Did it decisively waving
goodbye down his final long drop,
though he swore he wouldn’t, that noon
over lunch, Spoleto, Italy, crackling whiskey
still from mad Ireland and the Dublin pubs his
hero Yeats never entered. And I believed him,
sort-of. How disbelieve such brave, brazen
bearded head, blessing hands of a maker,
crowfoot eyes like Irish seaboard inlets
of my childhood?

From John Berryman: Separations (1973)

Nas minhas costas, a loucura da cidade
No meu rosto, minha própria sanidade.

from Self-Exile: The Road Taken (1996)

At my back the madness of the town
In my face a remote sanity of my own.

from Self-Exile: The Road Taken (1996)

Ele assim o fez. Decisivamente dando
adeus até a última e duradoura gota,
embora jurasse que não partiria, aquele meio-dia
durante o almoço, Spoleto, Itália, uísques delirantes
da alucinada Irlanda e seus pubs Dublinenses, que seu
herói Yeats nunca entrara. E eu acreditei nele,
ou quase. Como não acreditar em tal corajoso, confiante,
confrontador, com coroadas mãos de poeta
e olhos de aranha como as baías irlandesa da minha infância?

De John Berryman: Separações (1973)

He’s done it. Did it decisively waving
goodbye down his final long drop,
though he swore he wouldn’t, that noon
over lunch, Spoleto, Italy, crackling whiskey
still from mad Ireland and the Dublin pubs his
hero Yeats never entered. And I believed him,
sort-of. How disbelieve such brave, brazen
bearded head, blessing hands of a maker,
crowfoot eyes like Irish seaboard inlets
of my childhood?

From John Berryman: Separations (1973)

Trazendo a casa para a estação. Cunneen balançando um odre
para vinho de cabra da Espanha que ele nunca tinha visto,
como um acólito balançando o incensório.
Meu pai, atrás dele, como sempre num cinza clerical,
Cabelo branco brilhante, a mão erguida,
Falando da vida com 'O Poeta' Ryan.
Então, depois de um trago na Casa Branca, fomos para casa.

from Homecoming: The Dark Edge of Europe (1967)



Pulling home now into the station. Cunneen waving
A goatskin of wine from the Spain he has never seen
Like an acolyte swinging a thurible.
My father, behind him, as ever in clerical grey,
White hair shining, his hand raised,
Talking of life to ‘The Poet’ Ryan.
Then, after a drink at the White House, out home.

from Homecoming: The Dark Edge of Europe (1967)

Eduardo Miranda é músico, escritor, poeta, e tradutor. Guitarrista e fundador do grupo WEJAH, atualmente lidera o projeto musical The Virtual Em3, é integrante da banda Wellfish e colabora no Stillwater Project. Publicou Quase (Casa Pyndahýba, poesia, 1998) e as coletâneas Amigos (Casa Pyndahýba, 1994) e Contra Lamúria (Casa Pyndahýba, 1995). Editor de TUDA, também dá expediente em alguns blogs, e nas horas vagas é Consultor de Tecnologia da Informação em Dublin, República da Irlanda.
Eduardo Miranda is musician, writer, poet, and translator. As musician he was WEJAH's lead guitar and co-founder. Nowadays he develops The Virtual Em3 project, leads the guitar in the Wellfish and contributes to the Stillwater Project. As poet and writer, he has published Quase (Casa Pyndahýba, 1998) and the collections Amigos (Casa Pyndahýba, 1994) and Contra Lamúria (Casa Pyndahýba, 1995). Editor of the e-zine TUDA, he also writes in some blogs and works as ICT Consultant in Dublin.

Foreign Words - Chico Buarque de Hollanda

http://www.yerkaland.com

Poison 
Chico Buarque de Hollanda and Paulo Fontes
(translation of a fragment of the play “Drop of Water”, by Santiago de Novais)

JOANA:
Everything is in nature
linked and in movement
spittle, poison, sadness
flesh, mill, whipping,
hate, ache, onion and coriander,
grease, blood, coldness,
and all that is in the center
of a same and strange table.
Mix up every element -
A pinch of pain,
A spoon of instigation,
A drop of terror,
The juice of feelings,
Rage, fear or disaffection,
Produce new seasonings,
Tear, pus and perspiration-
But, you may invert the segment,
Intensify the blend,
Seasoninhate, teareeling,
Bloodarlic with sadonion,
Meatoison, poisomill,
Remix the all by the inside,
Crush all in the mill,
Grind the meat, the blood and the coriander,
Cry and fester the fat,
You’ll have an unguent,
A thick and dark drool
Essence of my torment,
And a sauce of fritter
Of violent taste,
By swalling this the creature
Will notice my suffering
With the death, slowly and secure.
(Dressing the children)
They think that the tide goes but never returns
Until now they were on the command
Of my destiny and I have been, been, been retreating,
Recollecting rages. Today I’m a released wave
And stronger as much they imagine me weak
When they see inverted the stream,
I want to know if they resist to the surprise,
I want to see how they react to the undertow.

Click here to see it (in Portuguese).

Veneno 
Chico Buarque de Hollanda e Paulo Pontes
JOANA:
Tudo está na natureza
encadeado e em movimento –
cuspe, veneno, tristeza,
carne, moinho, lamento,
ódio, dor, cebola e coentro,
gordura, sangue, frieza,
isso tudo está no centro
de uma mesma e estranha mesa
Misture cada elemento –
uma pitada de dor,
uma colher de fomento,
uma gota de terror
O suco dos sentimentos,
raiva, medo ou desamor,
produz novos condimentos,
lágrima, pus e suor
Mas, inverta o segmento,
intensifique a mistura,
temperódio, lagrimento,
sangalho com tristezura,
carnento, venemoinho,
remexa tudo por dentro,
passe tudo no moinho,
moa a carne, sangre o coentro,
chore e envenene a gordura
Você terá um ungüento,
uma baba, grossa e escura,
essência do meu tormento
e molho de uma fritura
de paladar violento
que, engolindo, a criatura
repara o meu sofrimento
co’a morte, lenta e segura
(Vestindo os filhos)
Eles pensam que a maré vai mas nunca volta
Até agora eles estavam comandando
o meu destino e eu fui, fui, fui, fui recuando,
recolhendo fúrias. Hoje eu sou onda solta
e tão forte quanto eles me imaginam fraca
Quando eles virem invertida a correnteza,
quero saber se eles resistem à surpresa,
quero ver como eles reagem à ressaca.

Born in Campos Gerais (MG, Brazil), Santiago de Novais is a teacher, a translator, an educator and a poet. He lives and works in Nequén, Argentina.

Releitura - Carlos Pena Filho

"Escrevo esse nome, e estou certo de que o inscrevo na eternidade. Pois me parece impossível que as presentes e as futuras gerações esqueçam o poeta encantador, tão cedo e tão tragicamente desaparecido". Manuel Bandeira.
O poeta em questão é o recifense Carlos Pena Filho (1929-1960), morto num acidente de automóvel aos 30 anos.

Muito menos conhecido do que deveria, Pena Filho é considerado um dos mais importantes poetas pernambucanos da segunda metade do século XX depois de João Cabral de Melo Neto. Tinha um gosto pelas cores, luzes e movimentos. João Cabral de Melo Neto, disse num poema que Pena Filho sabia de "todos os verdes que há no verde".


Testamento do Homem Sensato


Spirited Away - Longing, by YuriNomNom
Manga & Anime / Digital Media / Drawings

Quando eu morrer, não faças disparates
nem fiques a pensar: “Ele era assim...”
Mas senta-te num banco de jardim,
calmamente comendo chocolates.

Aceita o que te deixo, o quase nada
destas palavras que te digo aqui:
Foi mais que longa a vida que eu vivi,
para ser em lembranças prolongada.

Porém, se um dia, só, na tarde em queda,
surgir uma lembrança desgarrada,
ave que nasce e em vôo se arremeda,

deixa-a pousar em teu silêncio, leve
como se apenas fosse imaginada,
como uma luz, mais que distante, breve.

Ilustração - José Geraldo de Barros Martins

Ilustração - Paul Funge


Mr Funge outside Oil Can Harry's Dublin
Conhecido por suas pinturas colorida, Paul Funge é nativo de Gorey, no Condado de Wexford, na Irlanda. Foi um dos fundadores do Project Art Centre em Dublin e fundador do Gorey Arts Centre nos anos 70. Foi também um dos fundadores do Belltable Arts Centre em Limerick, enquanto exercia o cargo de Chefe Regional de Artes para o Centro-Oeste. Além disso concebeu o Gorey Arts Festival - três semanas de artes durante o verão - que dirigiu por mais de 15 anos. Ensinou arte em muitas escolas e universidades na Irlanda, na Universidade da Califórnia e no Instituto de História da Arte de Amsterdã. Também foi inspector de arte do Departamento de Educação da Irlanda por alguns anos. Paul Funge morreu aos 67 anos, no dia 22/02/2011, após um curto período de doença.


Rega Pink Tower - Paul Funge

Ensaio - Ronald Augusto

sketch for a portrait - Juliana Duclós

Dois poemas de Manuel Bandeira

O bicho
Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.
No poema “O bicho”, Manuel Bandeira recorta a silhueta de um bicho “Na imundície do pátio/ Catando comida entre os detritos”. Num exame mais cerrado, descarnado de qualificativos poeticamente corretos, o poeta começa a ajustar o foco da sua máquina verbal de produzir efeitos, e numa progressão de enquadramentos, partindo desde o mais difuso até o mais nítido e duro, nota que “O bicho não era um cão,/ Não era um gato,/ Não era um rato.” O desenlace do poema, que não chega a surpreender − acho inclusive que essa possibilidade nem é a que mais interessa a Manuel Bandeira −, nos diz que o bicho “era um homem”, ou que o bicho fora um homem. Com efeito, o poeta não se surpreende com tal metamorfose regressiva (notar a degradação do sujeito e o desafeto que infunde, escalonados na simbologia prosaica dos animais escolhidos: o cão, o gato, o rato, como degraus por onde desce, indo do animal civil ao mais incivil, e não sendo sequer a sombra do último). Essa espécie de transmigração asquerosa, não sobressalta o poeta, pois a locução “meu Deus”, do verso final, espremida entre vírgulas e quase opaca, à boca pequena, não chega a indicar uma franca desilusão, mas sim um amargo reconhecimento acerca da nossa capacidade para a dissipação trágica que secunda a entropia com que nos debatemos.

Poema tirado de uma notícia de jornal
João Gostoso era carregador de feira-livre e morava no morro da Babilônia num barracão sem número
Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na Lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.
Passos da cruz do personagem do “Poema tirado de uma notícia de jornal” (cabe lembrar que sua fatura é de meados da década de 1920, período em que o ideário estético modernista enfrentava resistência de lado a lado): o nome paródico, João Gostoso, é uma alcunha, talvez de um bamba do samba, um apelido que indica em retrospectiva uma biografia de suburbano conquistador amoroso; João Gostoso é pobre e mora no morro; João Gostoso é um homem só, no momento não é temido nem estimado; João Gostoso dá cabo da própria vida. O desenho rítmico do poema de Manuel Bandeira apresenta uma interessante variação e poderia ser desmembrado em quatro blocos: (1) o primeiro verso onde João Gostoso entra em cena, verso largo, informativo, cuja aparente platitude é verticalizada com uma série de incrustações aliterantes em / r / alveolares que também se duplicam em / rr / velares, conferindo um índice de vibração a uma frase musical que devido ao comprimento poderia resvalar em frouxidão: “...eRa caRRegadoR de feiRa-livRe e moRava no moRRo da Babilônia num baRRacão sem númeRo”, e de modo suplementar destaca-se ainda a progressiva seqüência paronomástica: MoRava/ MoRRo/ núMeRo ; (2) o segundo verso que inicia com “Uma noite...”, e evoca uma preparação, um augúrio, a prefiguração do acontecimento, João Gostoso tomou a sua decisão, agora ele inspira; (3) a pequena enumeração em andamento binário ascendente, um acento fraco seguido de um forte, “Bebeu/ Cantou/ Dançou”, samba-canção-síntese onde João Gostoso, num derradeiro frenesi, sobe, fica alto, para depois cair; finalmente (4) a morte por água, os círculos concêntricos provocados pelo baque surdo, pelo fecho quase à maneira de um haikai — me perdoem os puristas da forma clássica japonesa.

Ronald Augusto nasceu em Rio Grande (RS) a 04 de agosto de 1961. Poeta, músico, letrista e crítico de poesia. É autor de, entre outros, Homem ao Rubro (1983), Puya (1987), Kânhamo (1987), Vá de Valha (1992), Confissões Aplicadas (2004) e No Assoalho Duro (2007). Dá expediente no blog www.poesia-pau.zip.net

Autores

Ademir Demarchi Adriana Pessolato Adília Lopes Afobório Agustín Ubeda Alan Kenny Alberto Bresciani Alberto da Cunha Melo Aldo Votto Alejandra Pizarnik Alessandro Miranda Alexei Bueno Alexis Pomerantzeff Ali Ahmad Said Asbar Almandrade Alyssa Monks Amadeu Ferreira Ana Cristina Cesar Ana Paula Guimarães Andrew Simpson Anthony Thwaite Antonio Brasileiro Antonio Cisneros Antonio Gamoneda Antonio Romane António Nobre Ari Candido Fernandes Ari Cândido Aristides Klafke Arnaldo Xavier Atsuro Riley Aurélio de Oliveira Banksy Bertolt Brecht Bo Mathorne Bob Dylan Bruno Tolentino Calabrone Camila Alencar Carey Clarke Carla Andrade Carlos Barbosa Carlos Bonfá Carlos Drummond de Andrade Carlos Eugênio Junqueira Ayres Carlos Pena Filho Carol Ann Duffy Carolyn Crawford Cassiano Ricardo Cecília Meireles Celso de Alencar Cesar Cruz Charles Bukowski Chico Buarque de Hollanda Chico Buarque de Hollanda and Paulo Pontes Claudia Roquette-Pinto Constantine Cavafy Conteúdos Cornelius Eady Cruz e Souza Cyro de Mattos Cândido Rolim Dantas Mota David Butler Denise Freitas Desmond O’Grady Dimitris Lyacos Dino Valls Dom e Ravel Donald Teskey Donizete Galvão Donna Acheson-Juillet Dorival Fontana Dylan Thomas Décio Pignatari Edgar Allan Poe Edson Bueno de Camargo Eduardo Miranda Eduardo Sarno Eduvier Fuentes Fernández Elaine Garvey Elizabeth Bishop Enio Squeff Ernest Descals Eugénio de Andrade Evgen Bavcar Fernando Pessoa Fernando Portela Ferreira Gullar Firmino Rocha Francisco Niebro George Callaghan George Garrett Gey Espinheira Gherashim Luca Gil Scott-Heron Gilberto Nable Glauco Vilas Boas Gonçalves Dias Grant Wood Gregório de Matos Guilherme de Almeida Hamilton Faria Henri Matisse Henrique Augusto Chaudon Henry Vaughan Hilda Hilst Hughie O'Donoghue Husam Rabahia Ian Iqbal Rashid Ingeborg Bachmann Issa Touma Italo Ramos Itamar Assumpção Iulian Boldea Ivan Donn Carswell Ivan Justen Santana Ivan Titor Ivana Arruda Leite Izacyl Guimarães Ferreira Jacek Yerka Jack Butler Yeats Jackson Pollock Jacob Pinheiro Goldberg Jacques Roumain James Joyce James Merril James Wright Jan Nepomuk Neruda Jason Yarmosky Jeanette Rozsas Jim McDonald Joan Maragall i Gorina Joaquim Cardozo Joe Fenton John Doherty John Steuart Curry John Updike John Yeats Josep Daústin José Carlos de Souza José Geraldo de Barros Martins José Inácio Vieira de Melo José Miranda Filho José Paulo Paes José Ricardo Nunes José Saramago José de Almada-Negreiros João Cabral de Melo Neto João Guimarães Rosa João Werner Junqueira Ayres Kerry Shawn Keys Konstanty Ildefons Galczynski Kurt Weill Leonardo André Elwing Goldberg Lluís Llach I Grande Lou Reed Luis Serguilha Luiz Otávio Oliani Luiz Roberto Guedes Luther Lebtag Léon Laleau Lêdo Ivo Magnhild Opdol Manoel de Barros Marco Rheis Marcos Rey Mari Khnkoyan Maria do Rosário Pedreira Marina Abramović Marina Alexiou Mario Benedetti Mario Quintana Mariângela de Almeida Marly Agostini Franzin Marta Penter Marçal Aquino Masaoka Shiki Maser Matilde Damele Matthias Johannessen Michael Palmer Miguel Torga Mira Schendel Moacir Amâncio Mr. Mead Murilo Carvalho Murilo Mendes Márcio-André Mário Chamie Mário Faustino Mário de Andrade Mário de Sá-Carneiro Nadir Afonso Nuala Ní Chonchuír Nuala Ní Dhomhnaill Nâzım Hikmet Odd Nerdrum Orides Fontela Orlando Gibbons Orlando Teruz Oscar Niemeyer Osip Mandelstam Oswald de Andrade Pablo Neruda Pablo Picasso Patativa do Assaré Paul Funge Paul Henry Paulo Afonso da Silva Pinto Paulo Cancela de Abreu Paulo Henriques Britto Paulo Leminski Pedro Du Bois Pedro Lemebel Pete Doherty Petya Stoykova Dubarova Pink Floyd Plínio de Aguiar Pádraig Mac Piarais Qi Baishi Rafael Mantovani Ragnar Lagerbald Raquel Naveira Raul Bopp Regina Alonso Renato Borgomoni Renato Rezende Renato de Almeida Martins Ricardo Portugal Ricardo Primo Portugal Ronald Augusto Roniwalter Jatobá Rowena Dring Rui Carvalho Homem Rui Lage Ruy Belo Ruy Espinheira Filho Ruzbihan al-Shirazi Régis Bonvicino Salvado Dalí Sandra Ciccone Ginez Santiago de Novais Saúl Dias Scott Scheidly Seamus Heaney Sebastian Guerrini Sebastià Alzamora Shahram Karimi Shorsha Sullivan Sigitas Parulskis Silvio Fiorani Smokey Robinson Sohrab Sepehri Sophia de Mello Breyner Andresen Souzalopes Susana Thénon Susie Hervatin Suzana Cano Sílvio Ferreira Leite Sílvio Fiorani The Yes Men Thom Gunn Tim Burton Tomasz Bagiński Torquato Neto Túlia Lopes Vagner Barbosa Val Byrne Valdomiro Santana Vera Lúcia de Oliveira Vicente Werner y Sanchez Victor Giudice Vieira da Silva Vinícius de Moraes W. B. Yeats W.H. Auden Walt Disney Walter Frederick Osborne William Kentridge Willian Blake Wladimir Augusto Yves Bonnefoy Zdzisław Beksiński Zé Rodrix Álvaro de Campos Éle Semog